terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um filha da puta ou Paulo Roberto F. Castro

Era de um reducionismo atroz nominá-lo de filho da puta. Tal procedimento era uma ofensa particular aos demais componentes desqualificadores daquela personalidade perturbadora.

O Coisa Ruim que tenta cooptar os justos e os desavisados ordenara à sua legião de forma peremptória a ficar a uma distância superior a estatuída pela lei Maria da Penha que atende a outros objetivos, lógico, daquele ser desnaturado. Faço esse registro, apenas para terem a real dimensão da índole daquele indivíduo.

Quando um desses anjos decaídos, por distração não cumpriu a determinação do Senhor das Trevas foi lançado ao pior dos castigos, na visão daqueles evoluídos na arte do mal, a voltar cumprir como neófito o estágio na primeira camada do inferno.

Hoje, caso escutasse o nome do Criador, certamente o impacto no seu espírito seria menor do que ouvir o nome daquele filho da puta que provocou a sua condenação às agruras atuais, apenas por ter dado ouvidos aquele miserável.

O problema que o filho da puta tinha família.

A mãe fora puta por contingências e gostos, mas isso não vem ao caso, afinal, nada, mas nada mesmo, justifica o comportamento do filho. O pai era de uma incerteza absoluta o que não poderia ser diferente. Irmãos não os tinham.

A pesquisa sobre sua arvore genealógica, logicamente, considerando o ramo podado por parte do pai, não apresentou nenhum vestígio que se aproximasse da sua índole pervertida.

Depois de meses de análise e de pesquisas profundas por parte do psicólogo, nada progredia, aliás, progrediam sim, as incertezas daquele profissional e a sua impotência diante daquela figura patibular.

No horário marcado, ele adentra o consultório e deita-se naquele divã que suporta o peso das fraquezas humanas e que há muito deseja uma aposentadoria, por idade, mas isso é outra estória.

O silêncio naquele espaço é sufocante. Olhos nos olhos, apenas.

Inesperadamente, o analisado indaga: “o que sou, honestamente, doutor?”

Inconscientemente, o psicólogo responde: “um bom filho da puta, meu filho”.

Meses depois, submetido ao Conselho de Classe, o psicólogo perdeu seu registro, em decorrência das denúncias apresentadas por aquele indivíduo.

E ele?

Ah!.... Ele? Continua o mesmo filho da puta de sempre.











segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Da linha do tempo à curvatura da vida

O passar do tempo, maculado pela desídia de diversos gestores públicos, transformou aquela praça de um subúrbio do Rio de Janeiro em fantasmagórico arremedo da época de sua construção, em meados de 1925.

Com passos titubeantes aqueles dois velhinhos seguiam em direção ao único banco existente, obviamente, em estado precário, para desconfortavelmente acomodarem seus corpos frágeis e cansados.

Depois de dois ou três minutos para recuperarem o fôlego, iniciavam as digressões sobre o passado vivido ou não, por eles.

Invariavelmente, discordavam sobre os temas abordados, não por convicções, mas por meras rabugices. Entretanto, aquelas discussões, muitas vezes acaloradas, traziam ambos à vida presente que teimava em fugir, pela magia de um passado remoto.

Falavam sobre suas juventudes vividas nos idos de 40, do século passado.

Dos trajetos dos bondes; dos preços dos alimentos; dos fardamentos das alunas do colégio de formação de professoras; da quantidade de padarias, açougues, vendas e armazéns, invariavelmente, nas mãos dos patrícios (portugueses) que chegavam sempre a bordo do famoso navio Serpa Filho; da educação rígida; dos cinemas; dos dancings; das gafieiras; dos cabarés; das casas de tolerâncias da rua Alice, onde as moças aguardavam os clientes, em poltronas respeitáveis que acomodavam seus corpos vestidos com os requintes da elegância; e assim prosseguiam nas suas reminiscências e discordâncias.

Entretanto, naquele dia de um calor senegalesco aconteceu algo inimaginável: a concordância de ambos sobre o tema em pauta.

Talvez por terem sido vítimas do mesmo desassossego mental e corpóreo, em períodos distintos daquela época pretérita.

Foram infelizes, cada um no seu tempo, ao fazerem o famoso “pezinho de alferes” (cantada), em uma moçoila de vida que inapropriadamente era chamada de utilidade pública, o justo seria, a denominação de utilidade privada.

Depois de darem vazão aos respectivos instintos bestiais, voltaram para as respectivas casas paternas, leves, flutuando numa felicidade infinda.

Em menos de 48h após o ato, começaram a sentir ardências e gotejamentos purulentos oriundos de seus instrumentos, digamos assim, sexuais. O desespero de ambos aumentou ao perceberem certa inflexão, uma curvatura anômala, nos seus falos (para os pudicos), ou, nos seus caralhos, para os impudicos.

Aflitos, correram para os médicos indicados pelos amigos mais velhos.

Feitas as avaliações pelos profissionais da área, esses não titubearam e encaminharam ao único especialista existente na capital da República para aqueles casos.

O especialista era um gigante de 2,05 m de altura. Descendente de alemães, de fala mansa e impostada, tendo nas extremidades de seus membros superiores, não mãos, como todos os mortais, e sim manoplas, pelo tamanho descomunal das mesmas.

Era uma figura desconfortável para os pacientes com problemas rotineiros, mas diabolicamente assustadora para aqueles como eles, portadores de mazelas mais profundas.

Diagnosticados, foram aviadas em receitas, os medicamentos para a eliminação dos gotejamentos e ardências, agora, quanto à restauração dos órgãos sexuais com a eliminação das curvaturas extremamente pronunciadas, o estado de arte da ciência estava adstrito a um único instrumento que exigia habilidades especiais, como a precisão cirúrgica.

Nus, obedecendo as ordens secas do especialista, colocaram os “ditos cujos” sobre uma almofada acolchoada e assepticamente protegida por um pano branco.

O médico, com as mãos para trás, entabulava uma conversa ardilosa, indagando sobre os predicados da mulher, sobre o que conversaram e quando avaliava que o momento adequado não chegara, adentrava ainda mais nas intimidades (caso isso fosse possível, diante do exposto), pedindo detalhes da relação propriamente dita, etc.

Sua posição era estratégica. Ficava de costas para a porta de saída e de frente para o paciente.

Numa fração de segundo de descuido do incauto: zás!

Era uma martelada certeira, acompanhada de uma força teoricamente proporcional à curvatura. Infelizmente, da teoria à pratica existia um universo de agonias.

A fuga empreendida pelo médico tinha que ser ainda mais precisa que a intervenção, fechando e trancando a porta.

Essa operação terminava antes do infeliz emitir o primeiro de uma série infindável de urros, para depois quase enlouquecer de dor.

Essa prática era o máximo de desenvolvimento tecnológico para endireitar os membros dos infelizes que pegavam a temida “gonorréia de gancho”, naquela época. Um simples binômio: destreza humana e um miserável martelo de borracha desumano.

Que tempo desgraçado (pelo menos nesse quesito)! – penso eu.






terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Triunvirato

Era um triunvirato onde as linhas de governo e os poderes de mando estavam adstritos, apenas e tão somente, àquelas figuras ímpares que seguiam com as cóleras próprias dos justos, naquela enfiada de pessoas colocadas uma em seguida às outras para tomarem, coercitivamente, suas últimas doses de fármacos, prescritas para cada um dos pacientes daquele manicômio.

Afinal, uma noite tranqüila e reparadora era o desejo dos auxiliares de enfermagem, das enfermeiras, dos brutamontes travestidos de enfermeiros e do pessoal da limpeza, exceção feita ao médico. E não era em função da necessidade de burlar a insônia ou, em decorrência ao estrito cumprimento do dever, ao contrário, era por desídia mesmo.

O psiquiatra aparecia uma vez na semana, em compensação o salário comparecia sempre e de forma íntegra em seu holerite mensal.

Na manhã seguinte, talvez em razão dos possíveis sonhos, os três exigiram de cada qual, uma reunião de emergência.

Logo após o café - disse o primeiro.

Não! - protestou o segundo, será depois do breakfast.

Besteira! - afirmou o terceiro, emendando: a reunião será após o desjejum.

Resultado, começaram a confabulação com fome.

Não sorveram daquela mistura de leite achocolatado com porções desconhecidas, mas generosas, de inibidores sexuais, acompanhado daquele símbolo fálico, duro de encarar, apesar do tamanho insignificante, um pãozinho francês.

Estavam literalmente no clima da discussão, afinal por caminhos transversos, os assuntos ensejados pelos três eram sobre a fome.

Pela primeira vez, ocorria consenso sobre um tema a ser debatido em reunião de Gabinete daquele Triunvirato.

Com a voz impostada e usando um linguajar empolado, o Ministro, que diga de passagem, não era um qualquer e
auto-intitulava-se, Ministro do Supremo Tribunal da Terra, dos Mares e dos Ventos, começou a sua peroração.
Incitou aos dois colegas sobre a necessidade de suprir a fome de justiça dos homens, dos batráquios e dos vermes.

Al-al-to-to-to laaaá! - bradou Deus. A gagueira não era produto do destempero momentâneo e sim, uma deficiência
de nascença.

Fuuui em-em-ga-ga-naaa-dooo. Aaa fofome paaraa mimmmm eeera dodo eeespíírítotoo.

O clima entre eles piorou com a intervenção do terceiro, o Barriga de Miséria: Fome de justiça e de espírito é o cacete.

Fome só existe uma: fome-fome. Advogava em causa própria e dos demais seres viventes.

No meio daquela discussão caótica e aos berros, vários débeis mentais se aproximaram e os cercaram, formando um círculo (aí, estou sendo condescendente) e começaram a bater palmas.

Apitos surgiram de todas as partes e os brutamontes vestidos de branco corriam com camisas-de-força e seringas assustadoras com tranqüilizantes para abaterem, no mínimo, elefantes, chamados, inapropriadamente, de “sossega-leão”.

O chefe do turno chegou berrando: que barulho é esse? Que confusão de palmas é essa?

Um dos participantes respondeu com a ingenuidade dos alienados: “Estamos batendo palmas para maluco (sic) dançar”.

A autoridade daquela associação de três indivíduos foi dissolvida à base de fármacos e de confinamento em solitárias.

Enquanto isso, as fomes espirituais, de justiças e as das urgências alimentares permeiam o mundo dos sãos.

É de enlouquecer, ou não? – indago eu.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A única saída

Era uma crueldade a simples comparação entre as catástrofes vivenciadas no mundo exterior com
aquelas suportadas em seu mundo interior, afinal essas eram mais devastadoras.

O surgimento de novos corpos celestes, através de explosões luminosas a milhões de anos-luz, segundo os estudiosos, provocando a expansão do universo, contrastava com a multiplicação de novos problemas na escuridão das frações das horas do seu dia-a-dia.

Diante da evidência dos fatos concluiu que seu apocalipse pessoal se aproximava, somente faltava cair pedaço de céu velho e cacos de estrelas sobre sua cabeça embranquecida pelo passar dos anos.

As relações familiares deterioravam pelo avanço dos conflitos com os filhos e pelo intenso desamor da esposa; as profissionais refletiam as mudanças na empresa em que trabalhava há anos, que deixara de ser uma empresa de petróleo e transformara-se numa de Energia.

As alterações foram substantivas na área de RH da empresa que abandou sua matriz eficiente de décadas e passou ser gerida por outra fonte, a de conflitos, por suas ações e omissões. O resultado para ele foi ingressar numa fase depressiva que o aniquilava mental e fisicamente.

As relações sociais, evidentemente, passaram a inexistir.

Envolvido num silêncio assustador avaliou com pragmatismo a sua situação e estabeleceu um plano de ação.

A busca essencial da felicidade e da estabilidade financeira dos seus passava por sessões diárias com um psicólogo e com consultas, a princípio quinzenais com um psiquiatra.

À medida que cumpria meticulosamente as orientações e observações registradas naquele Manual que transformara em uma leitura obsessiva e redentora, as consultas com o psiquiatra tornaram-se mais freqüentes, contrapondo-se ao antigo hábito da leitura da bíblia sagrada.

Quando percebeu que tinha as condições objetivas para a implantação de seu plano não titubeou.

Com o Manual da Loucura debaixo do braço e um leve sorriso, agora perene em seu semblante, caminha lentamente para receber uma quantidade estúpida de fármacos controlados naquele corredor decrépito do manicômio, pois com argúcia e determinação vencera os demônios que o esmagavam, enganando-os.

Sempre fora uma pessoa íntegra e com valores inamovíveis e lamentavelmente esses atributos não o ajudaram nos planos pessoais e profissionais.

Na iminência da perda do emprego e do desamparo à família perdida vislumbrou apenas duas únicas opções possíveis: a do o suicídio ou da pseudo-loucura.

Optou por essa última, afinal o louco não sofre críticas e sim respeito.

E o apreço da consideração era o mínimo que desejava.






terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vida ordinária


Ordinariamente (habitualmente) seguia de forma ordinária (medíocre) a sua vida desgraçadamente vulgar, comum, ordinária.

Impingido pelo destino à condição de ordinário, a sua insignificância em relação aos demais não provocava nenhuma revolta, nenhuma indignação, afinal, desde a tenra idade, pressentira que sua existência estaria vestida pelo avesso da melhor sorte.

Na fase adulta, a sua única certeza era de que dias piores viriam. E como chegaram. Vieram em uma profusão assustadora, na forma e no conteúdo.

Descansava seu corpo alquebrado num barraco, tentando conciliar o sono em vão. Morava na parte mais alta e acidentada do morro, cujo acesso era por uma intrigada rede de vielas bêbadas e disformes.

Nas últimas semanas, a insônia, essa filha bastarda do sono cumpria a determinação paterna à risca, impingindo o seu transtorno. Privando aquele deserdado da sorte do estágio fisiológico reparador que é caracterizado pela insensibilidade dos sentidos e pelo repouso que proporciona.

Ao longo de toda a sua existência sempre fora punido com sonhos em preto e branco, jamais a cores, mas, agora, nem aqueles sonhos de décima-quinta categoria.

Apesar de tudo, resistia e sobrevivia fazendo os biscates possíveis naquela comunidade paupérrima e por serem quase indigentes, pagavam pelos seus serviços valores miseráveis.

Como não fossem suficientes as suas purgações externas, punia o seu corpo com o vício dos cigarros baratos e das cachaças suspeitas, desta forma, pela fumaça incensava e pelo líquido encharcava sua alma, purificando-a.

Era um anticlerical extremado, mas de uma fé inabalável no Criador.

Insone e ofuscado pelos raios solares ao sair de seu barraco, não percebeu os movimentos das forças policiais e as do poder paralelo, o que foi fatal.

Velado por poucas pessoas numa das alamedas do cemitério, pois a despedida numa capela exigia recursos financeiros que não existiam, foram surpreendidos por gritos de uma mulher que em dedo em riste, gritava: Ordinário! Ordinário!

Ficaram perplexos. Afinal o termo ordinário definia o caixão ou o defunto?



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Agenda Mental


Definitivamente, melhor sorte não encontraria abrigo na vida.

Era uma figura de baixa estatura, frágil e de cabelos rarefeitos, apesar da pouca idade. Nada significativo para os seus, afinal a genética condenara e condenava os ramos masculinos daquela árvore genealógica, preservando as ramagens, por femininas.

A natureza também o inoculou com o destempero de uma inquietação quase incontida.

A sensação de ouvir sons quase ininterruptos, vozes incessantes que jamais se quedavam, decorria de sua surdez quase total. Por não ouvir, ouvia em excesso por culpa dos impulsos desordenados do seu cérebro.

O tormento da surdez concorria, apenas com a mudez definitiva.

Essas restrições deveriam ser o suficiente e o bastante para qualquer ser humano, mas não para ele.

Impossibilitado desde sempre a comunicar-se com os demais, os seus gestos eram parcos e decisivos para o pleno desconhecimento dos seus sentimentos, desejos e verdades.

Visto de outra forma, a sua comunicação era de uma indigência que cotejava apenas com a miséria familiar.

Em síntese, a vida, na outra margem da vida daquele indivíduo o impossibilitava do partejamento de suas idéias que ficavam inscritas, somente nas páginas de suas anotações mentais.

O conhecimento de seus registros mentais constataria que a escuridão das letras, por analfabeto, não o impediram de tornar-se um sábio.

As suas assertivas decorriam das observações dos atos, dos fatos vivenciados e percebidos com a dimensão e com a inteireza daqueles que não sofrem influências externas, seja na forma ou no conteúdo. Avaliava tudo e todos com a marca da imparcialidade à dessemelhança da quimera perpetrada aos magistrados quanto à isenção impossível e irrealizável.

Desgraçadamente ficarão perdidos, intactos os seus registros, verdadeiros tratados de sabedoria e de tolerância que foram transcritos lucidamente nas páginas de sua agenda mental. Páginas pretéritas, páginas atuais e com algumas anotações já assinaladas, contemplando as folhas do futuro.

A vida e os indivíduos, caso tivessem acesso a essas informações, indiscutivelmente se transformariam e fariam que as relações de causas e efeitos fossem mais justas e perfeitas.

À vista desarmada, a deficiência daquele individuo fica adstrita apenas a sua pessoa.

Desafortunadamente, não – complemento eu.

domingo, 31 de outubro de 2010

Crise

Em seus momentos de crise existencial onde a angústia, a tristeza e o desespero roubam parte substantiva de sua vida, apega-se como um naufrago na fração restante de sua existência que flutua perigosamente nas vagas do oceano encapelado da indiferença dos outros semelhantes.

Essa última condição é um mero ato instintivo de sobrevivência e não o perturba por entendê-lo assim, afinal não deseja e não espera nada dos demais.

E essa atitude não significa amargor nem frustração e sim uma percepção adequada da natureza humana, e dessa forma procura viver mais e melhor dentro de suas possibilidades.

A busca desesperada pelo seu equilíbrio emocional é um processo contínuo.

A retórica de sua mente o perturba não apenas pelas argumentações que fragilizam suas convicções, mas pela intensidade dos arroubos de suas colocações onde variam estilos e inflexões.

Em resumo, a oratória de sua mente desqualifica quaisquer tribunos de longas experiências na arte do convencimento.

Os que sobem aos púlpitos para demagogicamente induzir o povo ao erro, ou aqueles que fazem defesas calorosas de seus clientes onde inexistem mínimas presunções de inocências, mas sim vultosas quantias que promovem as argumentações falaciosas dos causídicos não fazem, reitero, concorrência com aquele rábula melífluo, a sua consciência (mente).

Em função da última crise psicológica encontra-se em ruínas.

As suas estruturas de bom-senso vieram abaixo e aquele tribuno finório (o poder intelectual de seu espírito, em outras palavras, a sua mente), exerce mesmo assim a sua retórica, equilibrando-se nos escombros dos hemisférios cerebrais e nos neurônios atrofiados.

A juíza daquele tribunal da consciência interrompe a promotoria (a mente) e passa a palavra para os dois advogados de defesa que são dois neurônios combalidos que fazem suas sustentações apoiados em fármacos de tarja preta que fornecem algum equilíbrio emocional para as devidas réplicas.

Mesmo com a ajuda adicional dos ansiolíticos aos assistentes de defesa, providenciada pelo médico, aquele indivíduo sucumbiu.

Em termos de perspectiva de vida, a sua agora é um mergulho no fundo das garrafas de diversos conteúdos alcoólicos.

Como seus mergulhos ainda não são de longo curso, acorda ruim, e procura remédios para ficar bom.

Os deuses malditos entorpecem sua mente, promotora cruel, deixando-a debilitada e incapacitada para externar quaisquer novos argumentos, pois as antigas divindades, a dos tranqüilizantes, não tiveram forças para impedir suas crises que o levaram a essa destruição física e psicológica.

A questão é quanto tempo ele irá resistir à desesperança.




sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Gêmeos não univitelinos, um preto e outro branco.


Eram filhos de um casal interracial, a mãe negra e o pai branco, com a fecundação de dois óvulos fertilizados separadamente, gerara crianças de cores diferentes.

O fenômeno é incomum e por essa razão não existem estatísticas oficiais que elucidem suas probabilidades.

A convivência de ambos os meninos já era conflituosa desde aquele espaço restrito, limitado, o útero materno.

Pais de classe média propiciaram aos filhos aquilo que julgavam ser o melhor, uma educação esmerada e um convívio harmonioso.

Contudo, as relações entre os irmãos eram conflituosas, eivadas de discussões e com ameaças nem sempre veladas.

Paulo, o de tez escura era um conciliador por natureza, mas, Marcos de pele clara, olhos azuis, cabelos claros e lisos era um provocador movido pelo ânimo da discórdia.

Paulo sofria do malfadado preconceito de cor, principalmente, na escola, porém, administrava aquela situação de desconforto graças à formação familiar.

Apesar de serem da mesma turma, Marcos, evitava o contato com o irmão.

O tempo com seu desassossego doentio avançava sobre as coisas e os fatos, desalentando uns, iludindo outros e extinguindo a existência de muitos.

Os irmãos chegaram à faculdade pública, em cursos diferentes.

Naquele novo universo de ensino um deles fez uma escolha equivocada, enveredando pelo caminho do vício.

O vício foi um mero rito de passagem para o tráfico de drogas.

No horário previamente acordado dirigiram-se ao estacionamento e antes de chegarem ao carro foram subitamente cercados pela polícia.

O serviço reservado da polícia tinha recebido denúncias anônimas sobre o comércio de drogas na universidade e numa dessas delações foi mencionado o sobrenome de quem praticava o ilícito.

A abordagem não foi civilizada entre as miras das armas. Paulo foi brutalmente espancado e Marcos recebeu uns safanões nada digno de registro.

Levados a delegacia, algemados, os homens da lei não tinham nenhum resquício de dúvidas, Paulo, o negão, era o traficante e Marcos, o branco, o usuário.

Levaram Paulo para uma sala especial e entre perguntas, intermediadas de porradas exigiram dele a confissão, imediata, sobre o tráfico.

O delegado ligara para a casa de Marcos e comunicara que o mesmo estava prestando depoimento como usuário de drogas.

O desespero da mãe ao comunicar ao marido o fato deixou-o mais do que sobressaltado e imediatamente, entrou em contato com um advogado criminal, amigo de longa data.

Encontraram-se na Delegacia.

Foram informados pelo delegado sobre a prisão de Marcos, usuário, e de um crioulo, um desgraçado de um traficante.

Diante dos pais, Marcos em estado de choque não conseguia articular uma mísera palavra.

O carcereiro conduziu o elemento, Paulo, em estado lastimável para o depoimento.

Ao adentrar a sala para depor, seus pais não acreditaram em que suas retinas registraram e essas imagens os perseguiram até os respectivos túmulos.

Aquele trapo humano completamente deformado era seu outro filho.

A privação súbita de sentidos da mãe, a indignação do pai e a intervenção do causídico levaram autoridade policial à compreensão de que uma representação seria interposta junto à Corregedoria de Polícia.

Os processos seguem seus cursos, naturalmente lentos, morosos.

Paulo traumatizado, com a vida destroçada, assistido por profissionais das áreas de psiquiatria e psicologia faz um tratamento longo e penoso, sem a mínima garantia do retorno ao equilíbrio psíquico perdido.

Nos raros momentos que emite parcas palavras, sempre recorrentes, diz:

“Pai, mãe, como é triste sofrer qualquer tipo de preconceito, mas o racial é cruel, pois, os negros são sempre vistos e acusados de serem os únicos protagonistas da delinqüência que permeia a sociedade”.

Em profunda depressão, olha a quantidade de fármacos controlados e complementa:

“Vejam! Aqueles remédios têm tarjas pretas, simplesmente, porque são de alto risco, não convencionais e tem que ser submetidos a um controle extremo. A mensagem é explicita, não é subliminar”.

Definitivamente a humanidade jamais vencerá o preconceito de cor, pois, a lógica das analogias com os fármacos restritos materializa de forma cabal como a sociedade hipócrita e sórdida, vê e rotula os negros.





quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ideologia

Deparei-me com aquele mendigo uma figura repulsiva à vista desarmada, mas superando a rejeição natural, acabei ouvindo suas observações e lamúrias.

Definia-se como um indivíduo pleno, em razão de sua ideologia.

A questão de sua plenitude não merece nenhuma consideração restritiva, afinal cada qual se sente completo, pleno a seu modo, a seu juízo de valor.

Comparando suas idéias com seus andrajos concluí que a precariedade de suas vestimentas comparadas com seus pensamentos ideológicos, indubitavelmente, as suas vestes estavam em melhores condições de uso e aproveitamento.

O desconforto causado foi pela volúpia que externava aquelas palavras em contraposição com as poucas idéias que as sustentavam.

A questão não era o viés ideológico, mas a superficialidade dos conceitos emitidos que não eram de lavra própria e sim dos seus paredros que por mentores são de uma eloqüência dramática, mas no íntimo, desprezam esses seres granjeados pelas suas verves.

As proposições apresentadas por aquele infeliz não mereciam o instituto do contraditório, afinal contestar o nada é prerrogativa dos alienados e aquele indivíduo era um digno representante dessa classe, a dos insanos.

Era um néscio por impingir e sustentar teses sem quaisquer nexos que pudessem unir ou entrelaçar indivíduos ou grupos às causas propostas, qual seja, a de conflitar as doutrinas existentes.

Para não me expor ao ridículo e nem ferir as normas de civilidade mantive-me calado, aguardando uma pausa naquela verborragia para afastar-me.

Aproveitando o ressecamento de sua garganta e o esgotamento das palavras, despedi-me.

Permiti uma divagação sobre as ideologias que ocuparam espaços distintos no caminhar trôpego da humanidade e constatei que todas foram esmagadas pelo tempo, no devido tempo, e também por mais contraditório que o seja, pelos ideólogos das mesmas.

Os que conquistaram os seus objetivos, o poder, locupletaram-se e quando tiveram condições objetivas esmagaram os que divergiam dos seus ideais, dos seus princípios subalternos à mentira. Que o diga Lúcifer, o primeiro defenestrado por um tratado de idéias contrárias às vigentes da época.

Quando as legiões de seguidores dessas ideologias perceberem os seus enganos face à realidade factual e perderem o chão, não devem ser execrados, diminuídos, afinal eles próprios se amaldiçoarão por terem passados por nefelibatas, de terem sido manipulados por inescrupulosos que os transformaram em medíocres inocentes úteis, enfim, constatarão que desgraçadamente nunca tiveram opinião.

sábado, 2 de outubro de 2010

Homossexualismo

Lembrem que na Grécia Antiga a sodomia era a forma de transferência de conhecimentos e de doenças sexualmente transmissíveis, mais recentemente, quando do descobrimento do Brasil, a conjunção anal era a transferência da crença religiosa para os infiéis, e hoje, o ato é de puro prazer para aqueles que delas fazem uso e gosto, por mero exercício do livre arbítrio.

No passado era imposição, atualmente é preferência.

O preconceito vigente contra os que têm opção sexual diversa é um ato de estupidez e invasão de privacidade (perdoe-me pelo trocadilho infame).

Ninguém é obrigado a conviver com pessoas que divirjam de suas normas de procedimentos e de condutas.

Caso um indivíduo seja extremamente pessimista e suas colocações girem em torno da inviabilidade da vida, o afastamento do convívio dessa pessoa é um ato discricionário, normal, enfim, todos têm direito a preservação do equilíbrio psíquico, apesar das vicissitudes da vida que pesam no outro prato da balança da arte de viver.

Tal postura não é preconceituosa, é um exercício de salvaguarda de seu bem-estar, completamente oposta à reação para com aqueles que sexualmente são diferentes de nós.

Não os agridam verbal e fisicamente, afastem-se. Esse é seu único direito e um procedimento moralmente correto.

O grande engodo é acharmos que somos os únicos certos, corretos, frente às incertezas da vida.

A heterossexualidade não denota vida ilibada, não é indicação de conduta ética irrepreensível, em síntese, a afinidade, a atração, ou comportamento sexual entre indivíduos de sexos diferentes não é abrigo incondicional das virtudes, óbvio.

A aversão à corrupção, a postura ativa de indignidade contra as atitudes nefastas da grande parcela dos homens públicos, a indignação pela inexistência de uma rede de saúde pública, de escolas modelos, de salários dignos, essas sim, deveriam ser nossos julgamentos ou opiniões formadas, associadas às ações de protestos veementes em nosso cotidiano.

As atitudes acima exigem posicionamentos que demandam esforços e dedicação, enfim, é mais cômodo execrar o diferente, seja o homossexual, o negro, os desvalidos da sorte.

Na realidade não passamos de prepotentes em exigir uma conduta sexual assemelhada à nossa, independente de nosso conjunto de qualidades, ou falta de, de nossas condutas boas ou más e de nossas concepções sobre moral.

Assistimos passivamente e permitimos todas as violências perpetradas contra os nossos (des)semelhantes estratificados socialmente, em condições inferiores à nossa.

Verdadeiramente, impomos aos que julgamos diferentes a indiferença, o desprezo e essas atitudes representam o rompimento da distinção com os demais animais, o da racionalidade.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ele

Impaciente pelo desconforto da insônia que pacientemente não dava trégua aquele corpo cansado de tudo, abriu um baú que tinha diversas serventias, inclusive, a de manter papeladas antigas que podiam ser aferidas pela ortografia utilizada, superada há décadas e que sofreria nova alteração, conforme novo acordo ortográfico com países de língua portuguesa.

Com um calhamaço de papéis sob a luz tênue de um abajur na sala, revisitou o passado.

A leitura não seguia uma ordem cronológica dos fatos vividos pelo simples descuido, em tempos pretéritos, no arquivamento.

Às vezes, na leitura, sobrevinha uma tristeza infinda, por outras, uma alegria sempre contida e não raramente, o sentimento amargo da indiferença.

Talvez, em outro momento de sua vida, as suas respostas aos estímulos da leitura daqueles papéis fossem diferentes, ou caso mantivesse os mesmos sentimentos de outrora, esses teriam a intensidade e desconforto distintos dos atuais.

As circunstâncias da vida aniquilaram as suas forças (físicas e psicológicas).

Solitariamente procurava superar as adversidades, entretanto, suas resistências não eram mais suficientes para remover os menores obstáculos.

Ciente da impossibilidade de reverter o tempo para esvaziar as mágoas, para represar seus sofrimentos foi tomado de uma prostração desesperadora que recrudescia com a certeza absoluta de sua incapacidade para dissimular ou pelo menos mitigar as dores da alma e constatou que não passava de uma causa perdida.

Exaurido, cometeu a última ignomínia de sua vida conturbada, improvisou uma forca e consumou o ato.

A perícia identificou no meio daquela papelada amarelada que ressentia a mofo, uma folha que destoava das demais e estava gravada com poucas, mas suficientes palavras:

“Cansei. Na falta de outras opções, desisto, não por escolha, mas por destino. Assinado: fulano de tal.”.

Os conhecidos não conseguiram entender aquela atitude.

Cinicamente compreensível, pois em vida jamais tiveram um mísero gesto de solidariedade para com ele, denotando de forma cabal e definitiva, a extraordinária sordidez humana.


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O outro tempo

O avançar do tempo tem como finalidade precípua a de penalizar os indivíduos que teimam em resistir a sua ignomínia, mas esse vilão que aparentemente é invencível sentirá o amargor da derrocada definitiva.

E essa será concretizada quando não puder mais exercer sua vilania pela ausência de seres viventes e, então, tornar-se-á um perdedor desqualificado que vagará solitário e impotente entre os corpos e lixos celestiais.

Não chega ser uma satisfação completa, mas certamente já é um alento o destino final desse inimigo figadal, infelizmente é uma desforra possível, não a desejada.

Agora, outras derrotas parciais e, portanto menos contundentes o tempo sofre.

Todos que passaram pela idade da maturidade têm a sensação de que os tempos passados medidos em anos não se fazem presentes nos seus espíritos.

E esse sentimento não tem correspondência com a inadmissibilidade do passar do tempo, não.

Afinal o poder destrutivo do tempo é visível e está inoculado nas deficiências orgânicas, nas fragilidades dos tônus musculares, nas epidermes encarquilhadas, nos circuitos neurais interrompidos, etc. Esse tempo do envelhecimento, inequivocamente, é real e, portanto, incontestável.

Falo de outro tempo, o aferido no interior, processado na mente das pessoas.

Todos em idades provectas ou não, sentem que o passar desse tipo de tempo tem uma velocidade própria que não se coaduna e não se compatibiliza com o tempo, tempo.

Fundamentalmente, sentem que suas idades ficaram congeladas no passado, uns se sentem como tivessem 20 anos, outros, com idades bastante diferenciadas e menores que as cronológicas.

Reitero, esses sentimentos não correspondem à fuga da realidade física e, também, não é um desejo ao retorno da juventude pela impossibilidade. É algo maior, de dimensão diversa, substantiva, concreta, pois, espelha as sensações psíquicas vivenciadas diuturnamente.

Essa capacidade mental de administrar a tocada desse tempo especial é que permite a continuação da sobrevivência sem o medo da morte iminente, eliminando a presença marcante da fatídica sensação do fim, por decurso de prazo.


domingo, 12 de setembro de 2010

É um argumento: Jesus bebia.


Chegou ao mundo sofrendo uma reprimenda, afinal naquele ambiente escuro e agitado pelas contrações acabou ingerindo forçosamente um líquido insuportável, o da placenta. O fato era um complicador para o médico e representou a sua primeira imputação de culpa de uma série delas, ao longo da vida, em que sempre era considerado como agente das ações condenáveis e nunca visto como vítima.

Relembrando o percurso tumultuado de sua existência, identificou que o início de seus acidentes de percursos teve sua gênese num ato inconseqüente de duas figuras inebriadas pelo desejo e pelo álcool.

Rejeitado por ambos, tentou minorar sua situação abandonando aquele ventre com apenas 07 (sete) meses de formação.

Os seus momentos de tranqüilidade foram aqueles desfrutados numa incubadora com o corpo espetado por agulhas e conectado a uma infinidade de fios. Depois ocupou um espaço destinado aos rejeitados sob a tutela do Estado.

A negligência estatal estava materializada pela sujeição vexatória a que foram e são submetidos os desvalidos, esse ente nunca tem culpas e sim, a prerrogativa de desculpas velhacas.

Os anos passados naquele instituto foram de desamparo, de descuido, de ausência de proteção aos mais desprezíveis direitos.

Ao completar a maior idade ocorreu a repetição de seu nascimento. Foi lançado à própria sorte num mundo estranho e não desejado.

Detalhar a sua existência seria um desrespeito a quem nunca fora respeitado. E não serei eu a submetê-lo a mais uma ignomínia.

Alcoólatra foi abduzido por uma igreja de crentes e recebeu uma quantidade infindável de informações bíblicas, acompanhadas por uma série de restrições deduzidas na leitura sagrada por aqueles servos bem intencionados, mas de uma ignorância solar.

Em crises de abstinência ouviu do pastor um sermão em que afirmava que bebida era obra de Satanás. Aí, não prestou. Aquele deserdado da sorte, na medida das suas possibilidades fez uma afirmação definitiva: “Pastor, Jesus Cristo bebia”.

Ao ouvir aquela observação que segundo sua visão míope era uma blasfêmia, uma heresia, já pensava em operar o exorcismo quando teve os seus pensamentos interrompidos com mais uma observação: “Jesus podia transformar a água em suco de tâmara, em groselha, enfim, em qualquer outra beberagem, mas transformou em vinho.”

Dito isso, virou as costas, saiu apressadamente e entrou num boteco. Com a voz e as mãos trêmulas pediu uma água e passados alguns segundos complementou: ardente.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Aos imbecis dos eleitores (sei..você é exceção)

Depois de anos como professor universitário, em faculdades públicas e privadas, ministrando aulas de economia, nos últimos tempos o seu comportamento estava definitivamente provocando desconforto para as respectivas Reitorias, apesar do aumento significativo de alunos nas suas aulas, inclusive de cursos em que a matéria não fazia parte da grade curricular.

Com contundência, mas com profissionalismo, expunha as vísceras putrefatas das políticas públicas em geral e especificamente as relativas aos investimentos em ciência e tecnologia no Brasil, e suas nefastas conseqüências.

O resultado foi que nos meados daquele ano de 2004 foi afastado do ministério e compelido a tratamento psiquiátrico.

Entre crises e sabedor por força da formação que os seres humanos reagem a incentivos observou que ultimamente o tratamento dispensado pela esposa o enquadrava desfavoravelmente pela falta de sintonia nas atividades do casamento, o resultado foi a falta de fidelização. Substituído e com recursos combalidos pelos proventos do seguro saúde e agravados pela separação encontrava-se num quartinho alugado com banheiro no final do corredor de uso comum aos demais inquilinos.

O preço da pocilga era alto, afinal a lei da oferta e da procura é universal, quiçá cósmica, e não depende de conhecimento acadêmico, por ser intuitivo.

As protelações nas consultas do psiquiatra tornaram-se mais freqüentes, afinal o seu plano de saúde pagava um valor desprezível e era atendido somente quando não existiam clientes que pagavam à vista ou quando não concorria com pacientes dos demais planos de saúde.

A sua saúde mental não era prioritária para o profissional, e sim a remuneração. É a lei do mercado, ou não?

Quanto à rede pública, não existe o atendimento preventivo na área da saúde mental, afinal os governantes por um pragmatismo cruel não disponibilizam essa prestação de serviços, por uma razão simples e objetiva, a população brasileira é completamente desequilibrada mental e sem cura, do contrário não votariam neles. Essa atitude pode ser adjetivada de várias formas, mas francamente é honesta.

Como tudo é uma questão de tempo, o dele chegou.

Adentrou o manicômio e o ar dos loucos levou-o a outros ares e à reincidência de seu vício, o de pensar.

“Os ares rarefeitos, poluídos ou não, que são ativos da União foram “doados” às operadoras de telefonia celular que os usam em suas redes e cobram preços estratosféricos, afinal é uma questão de coerência com o espaço utilizado, entretanto, não têm compromisso com o funcionamento dos seus produtos (celulares). É... Com a palavra a Anatel e concluiu o pensamento: é mera força de expressão, afinal a aludida Agência é muda na cobrança e surda às reclamações dos usuários. Que país!”

Depois da triagem interna foi avaliado como um louco manso e à noite, no refeitório dos malucos belezas ficou aparvalhado diante de um prato de sopa de soja e ao sair do transe, aos berros, gritou:

“País desgraçado! A tonelagem de soja exportada tem um custo de US$ 223,08 e a de minério de ferro custa US$ 25,36; em contrapartida, importamos a tonelagem de autopeças e circuitos integrados por um custo de US$ 6.409,09 e US$ 639.241,43, respectivamente”.

Os loucos escutaram aquelas palavras e reagiram como todos que não detêm o poder da escassez. Ficaram calados e prostrados à margem das mesas, assim como os outros não loucos que ficam à margem dos mercados.

O médico de plantão e os brutamontes dos enfermeiros, imediatamente, desabaram sobre ele, vestindo-o com uma camisa-de-força e depois recebeu uma dosagem cavalar de sossega leão ministrado por uma daquelas bestas.

O psiquiatra que fizera a avaliação daquele miserável (o professor) fez um mea culpa ao pretensamente errar o diagnóstico da tarde e solenemente proferiu: “Cometi um grave erro de avaliação, apesar de anos e anos de profissão e do respaldo do meu doutoramento no exterior, peço minhas sinceras desculpas. Depois das sandices absurdas proferidas por aquele novato no refeitório, não tenho dúvidas em diagnosticá-lo como uma causa perdida. É um louco varrido e extremamente perigoso e deve ficar para sempre no isolamento.”

Não declinarei o triste fim daquele professor e sim, externarei a minha preocupação e minha indignação com vocês que compactuam com esses crimes de lesa-pátria, por omissão ou por uma ignorância, meramente, seletiva.




quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Louco? Ungido? Ou ambos?

Era um indivíduo ungido, embora sem unanimidade. Para uns que professavam correntes religiosas distintas o viam untado por substâncias celestiais, outros, pelos óleos contaminados pela mão encarquilhada do anjo decaído, os ateus e ele próprio, não faziam qualquer juízo de valor por índole e gosto.

Caminhava, retrocedia, adentrava por atalhos duvidosos, mas seguia em frente. E essa atitude não merecia qualquer destaque ou relevância, afinal, andando sempre se chega à beira de um abismo qualquer.

Freqüentava igrejas de orientações e cultos diversos e com sua habilidade inata, na hora da chegada da sacola de dízimos para os adjutórios fixos e extemporâneos, ao invés de depositar, simplesmente, retirava algum. E assim, sobrevivia.

Esse procedimento não causava nenhum prurido de consciência, afinal estava há anos à margem do mercado formal de trabalho e todos os seus esforços foram em vão para reingressar à categoria dos assalariados vilipendiados. Até que um dia aquele pesadelo de perceber um salário mínimo havia desaparecido com as insônias da realidade.

Nas noites de sexta-feira suas andanças tinham destino certo, as encruzilhadas. Renovava seus estoques de bebidas alcoólicas de tipos diversos e de qualidades análogas. Essa disparidade no padrão de qualidade oferecido para suas convicções era algo inadmissível e indignado protestava contra a leniência dos espíritos que deveriam declinar dos pedidos feitos e carregar nas tintas contra essas pessoas avaras, mesquinhas.

Admitia a desigualdade terrestre, mas transpor essa ignomínia para a sociedade dos espíritos era uma afronta odienta.

Na ausência de concordância ou do contraditório às suas considerações, dava de ombros e bebia sofregamente no gargalo e para demonstrar o seu eterno desprezo pela falta de atitude daqueles seres incorpóreos não se dignava nem manter a tradição supersticiosa dos bebuns, a de derramar antes da primeira talagada um gole às entidades pelo sim ou pelo não. Definitivamente, optava pelo não.

Freqüentemente adentrava os terrenos espíritas e independente de suas variantes simulava incorporações imitando os gestos e as entonações características das diversas entidades, mas as suas traquinagens eram voltadas para sua satisfação interior e cinicamente estampava em suas faces o respeito devido.

A vida seguia seu curso natural, com sua atrocidade característica, quando aquele aproveitador de tudo e de todos, caiu num desvão em sua caminhada.

Prostrado num leito hospitalar clamava a presença de um religioso: padre, pastor, espírita, rabino, enfim, qualquer dos representantes de religiões ou seitas, afinal a presença da morte o espreitava.

Nesse momento, a ironia da vida materializou-se na figura de um ateu empedernido que não trouxe o conforto desejado, ao contrário, e aquele indivíduo fragilizado gritou nas possibilidades dos seus pulmões: “Tenha piedade, Senhor! Sou um estelionatário da fé”. E apagou.

Hoje, após a recuperação é um andarilho. Com uma túnica branca, com colares de significados diversos de diversas seitas e religiões, uma bíblia na mão e apoiado num cajado precário, passa o dia pregando.

Invariavelmente escuta: “coitado... não passa de um louco ungido”.

Ele, agora abstêmio, simplesmente continua pregando com as cóleras próprias dos justos e, também, dos desequilibrados. Quem vai saber?


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O resultado das prerrogativas dos advogados

Ensandeceu. O seu derradeiro discurso ocorreu numa tarde de calor senegalesco, em cima de um caixote vagabundo, a sua tribuna, que não fora tão histórica assim, afinal aquela última verborragia era a nona proferida.

As suas cóleras sempre recorrentes causaram iras incontidas nos seus ouvintes ao tomarem conhecimento das informações repassadas na sua primeira intervenção, mas mesmo com a repetição, continuavam a causar desconforto e alvoroço entre seus pares.

O clima que miseravelmente nunca fora razoável naquele espaço exíguo, imundo e sempre superlotado de rebotalhos humanos, tornou-se insuportável ao receberem aquela informação.

Recolhido à força da cela, por integrantes do Corpo de Bombeiros, trocou o presídio por outro, o manicômio.

A sua desgraça começou quando resolveu estudar para usufruir o beneficio da redução da pena.

Coitado, caso soubesse daquele brocardo antigo “de que a ignorância protege” não teria enlouquecido de revolta, mesmo tendo de ficar mais alguns meses naquela sucursal que desqualificava a imagem do inferno.

As suas faculdades mentais ficaram em ruínas pela impossibilidade do acesso, em tempos pretéritos, a outros tipos de faculdades, as de estudos, afinal seus pais negligenciaram quando ele resolveu abandonar a escola na quarta série do primário, hoje, denominado de fundamental.

A revolta era irrefreável contra seus pais e, felizmente para eles, já eram falecidos, pois do contrário seriam vitimas dos crimes de parricídio e matricídio e tudo seria uma questão de tempo e de oportunidade.

Nos seus discursos monotemáticos sempre afirmava: “com os conhecimentos agora adquiridos não faria uma faculdade qualquer e, sim, a de Ciências Jurídicas”

E continuava com ar professoral: “os formandos nos cursos superiores, ao cometerem crimes comuns terão direito a reles prisão especial, isso antes de suas sentenças transitarem em julgado, mas os causídicos, não!”

Os seus direitos vão muito além, são especialíssimos e então, pegava uma xerox ensebada e lia textualmente:

“Artigo 7º - inciso V - do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994) que tem a seguinte redação”:

Art. 7º São direitos do Advogado:

V –“não ser recolhido preso, antes de sentença transitada em julgado, senão em Sala de Estado Maior, com instalações e comodidades condignas, assim reconhecidas pela OAB, e, na sua falta, em prisão domiciliar."

(os detentos entravam em catarse e destruíam tudo, ao ouvirem esse maldito privilégio, na percepção deles).

O orador berrava por silêncio e avisava: “olhem, até o STF ficara perplexo e fazendo justiça, não titubeou, suprimira a expressão: “assim reconhecidas pela OAB”, por inconstitucional.”

(depois dessa observação, os presidiários não hesitaram, fizeram um motim).

Aquele orador revolucionário pelas letras, agora vestido numa camisa-de-força, ainda berrou:

“Fiquei encarcerado durante cinco anos antes de ser sentenciado, numa situação desumana, tratado como dejeto humano, em instalações indignas e sem comodidades”. “Que país de castas!”

Pobre diabo. O desgraçado não entendeu o espírito da lei, bastava recorrer à OAB e escutar as argumentações que provocaria, indubitavelmente, um insulto cerebral, mas diante de suas condições atuais, a de loucura plena, o acidente hemorrágico cerebral seria um privilégio, ou não?




sábado, 14 de agosto de 2010

Impropriedades


O ar ressentia a formol e a desprezo, naquele ambiente em que os corpos eram acumulados.

As gavetas refrigeradas são ocupadas por corpos de aparências dignas, segundo a ótica daqueles avaliadores frios que fazem concorrência, apenas, com as temperaturas daqueles corpos em estados de rigidez, cujas vidas desapareceram por circunstâncias e propósitos distintos.

Para aqueles profissionais venais o único método de classificação era o dicotômico que por definição tem, apenas, dois termos: necropsia no prazo, ou, postergada.

A contrapartida da primeira situação tem como parte, a propina que representa a mitigação da dor; a segunda, que corresponde à parte oposta (inexistência da corrupção), tem a da dor da espera prolongada.

Desgraçadamente são mercadores da morte não por sobreviverem em razão dos mortos por serem peritos, e sim, pelos desvios de condutas, acolhidos explicitamente no Código Penal.

Denominá-los de abutres representa uma ofensa inominada com esse tipo de ave que em função de seus hábitos alimentares, ao consumirem cadáveres de todos os tipos evitam a propagação de doenças.

Quando aquele corpo adolescente, covardemente assassinado por um policial com um tiro pelas costas, estava sobre a pedra, após dias de espera desesperadas dos parentes, o laudo retardatário da necropsia constava: “suicídio com arma de fogo – calibre indeterminado”.

A questão não é o laudo forjado e mesmo que declinassem a realidade factual, ainda assim, o modus tollens (tradução livre: modo de suprimir) da verdade estaria em curso.

Afinal, quaisquer mortes, sejam por arma de fogo; por doenças em hospitais públicos; por subnutrição; gripes; dengue; diarréias; etc., no laudo que é uma peça escrita, fundamentada, onde os peritos expõem suas observações e registram as conclusões sobre a(s) causa(s) do óbito, teria que constar obrigatoriamente:

1 - “Causa mortis: inobservância da Constituição Federativa do Brasil.”
2 - “Efeitos secundários: aí sim, a discriminação da constatação dos peritos sobre os outros motivos.”

Estranho? Não.

Estranho é o cadáver levantar e fazer um exame em si próprio e tentar identificar o que provocou a sua morte e depois, voltar à condição de defunto.

Afinal, a palavra autopsia significa o mencionado no parágrafo anterior, o que os legistas fazem é necropsia.







domingo, 8 de agosto de 2010

Saudade

O olhar era ausente. O sentimento e a sensação das perdas vivenciadas e agora esmaecidas pelo distanciamento do tempo retornam com a mesma intensidade daquela época quando revisita o passado.

Vêm à lembrança os 20 anos (ah, os cruéis e distantes vintes anos!). Não é uma volta à juventude do corpo, mas sim, um retorno aquele período com seus vícios e equívocos próprios que destoam da atualidade.

A catarse é imediata. Chega com a lembrança do bolso da calça sempre desqualificado pela quase ausência de recursos monetários, mas com a presença definitiva de um número razoável de fichas telefônicas para as ligações prementes, nos orelhões públicos. Afinal, naquele tempo, o telefone próprio inexistia na sua relação de bens pela exorbitância do preço que aviltava os seus sonhos e mutilava as suas parcas ilusões do cotidiano.

E o curso de datilografia? Esse diploma era pré-requisito para a totalidade dos empregos.

E a máquina de escrever era manual.

Batia-se o original com as cópias necessárias, intercaladas com carbonos e qualquer erro na digitação causava um transtorno monumental para a devida correção. Era um processo meticuloso e artesanal, pois, apagava-se o equívoco com a ponta da borracha - do original às cópias - e como não fossem suficientes essas torturas diárias, as pontas dos dedos ficavam impregnadas com as marcas das tintas desprendidas dos carbonos como peça acusatória cabal da falha cometida.

Depois, veio a máquina elétrica – que evolução dos diabos, meu Deus! (com a devida vênia, Senhor).

De repente aquele indivíduo absorto nas suas memórias começa a salivar e sentir o gosto do passado, na laranjada americana, no crush, no grapette, nos milk-shakes honestos do antigo Bob´s, no incomparável Eski-bom e Ki-Bamba vendidos nas antigas e saudosas carrocinhas amarelas da Kibon, espalhadas nas esquinas da Guanabara...

Acende um cigarro, hábito antigo e vício perpétuo, e relembra do sabor daquele cafezinho feito em coadores enormes de panos. Não havia miséria no pó utilizado e a saída para alguns que não conseguiam degustar aquele café encorpado era pedir o famoso “carioca” (o café servido com acréscimo de um pouco d’ água fervente, ou fria - a gosto do freguês - para torná-lo mais fraco).

Do sentido gustativo para a lembrança visual é um pulo.

E surge em sua mente a figura imponente do Sheik, vestido a caráter, de turbante e de roupas inteiramente brancas com sua voz tonitruante a fazer propaganda de suas guloseimas.

E aquele mendigo esguio que dormia no Aterro do Flamengo que desfilava sempre acompanhado de seus vira-latas, sempre asseados e em número nunca inferior a dez, amarrados em cordas e até em barbantes reforçados? Que figura respeitável por mais paradoxal que seja tal afirmativa.

E o famoso ônibus 184 (Estrada de Ferro – Laranjeiras)? Onde na hora do rush, uma loira estonteante ficava friccionando seu corpo nos corpos dos homens que viajavam em pé, desviando a atenção para que o comparsa batesse as carteiras dos incautos excitados.

Bons tempos aqueles dos punguistas... Era uma arte, o ato do furto.

E as cartas recebidas? Era um verdadeiro ritual antes de abri-las. O primeiro passo era descobrir os remetentes pelas caligrafias; o segundo era descobrir a data da postagem que compunha o carimbo dos Correios que encharcado, maculava o selo e o envelope, com intuito de avaliar o tempo da chegada da resposta, ainda por escrever. Cumprida essa ritualística, aí sim, abriam-se as cartas.

Hoje com o correio eletrônico (“e-mail”), além do recebimento imediato, sem a possibilidade de um mísero extravio, inexiste a possibilidade de analisar as caligrafias dos remetentes e constatar as possíveis letras trêmulas provocadas pela paixão, pela tensão ou decifrar os garranchos dos despossuídos da precisão da escrita.

É... O mundo perdeu os sentidos sutis de humanidade.

Aquele ser, num gesto impulsivo passa a mão nos cabelos grisalhos e uma lágrima solitária corrói uma de suas faces e o amargor na boca e na alma fazem-se presentes.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A insensatez entre o bem e o mal

O encontro foi inevitável naquele espaço que insistiam em denominar de praça.

Era uma provocação. Provocação aos dicionaristas que definem o verbete como lugar público e espaçoso, o que contrastava com aquele espaço exíguo, disforme e privado.

A única cobertura vegetal era uma decrépita amendoeira cujo vigor exauriu-se há anos e como não fosse suficiente era obrigada a suportar, no limiar de suas forças, as poucas folhagens impregnadas com a poeira dos tempos atuais.

Sentaram no mesmo banco carcomido pelas intempéries dos cotidianos, mas em extremidades opostas.

O Coisa Ruim, antes de iniciar a conversa que a priori sabia ser áspera e virulenta, pigarreou e praguejou contra aquela cigarrilha vagabunda, afinal sua situação começara a sofrer revezes que refletiram na sua qualidade de vida e há anos não degustava aquele charuto cubano de produção limitada e personalizada feito nas coxas das cubanas. Um primor de fumo e de lascívia.

Com seu vozeirão característico, apesar da bronquite asmática, indagou: seu aspecto não é dos melhores hoje, hein! Deus?

Deus não respondeu e com um gesto de desdém, acompanhado da fixação de seu olhar tentou intimidar o seu opositor.

O Coisa Ruim gargalhou e fulminou: essa sua qualidade de olhar canhestro é que construiu esse mundo miserável, desigual, desgraçado...

Deus irritado vociferou: em seis dias criei o universo e todos os seres vivos....

Foi bruscamente interrompido pelo outro que afirmou: você criou o infinito, apenas para as pessoas se perderem nas suas insignificâncias e isso denota que a sua propalada onisciência está limitada a um único conhecimento, o do mau-caratismo.

Deus perdeu totalmente o controle emocional e aos berros extravasou a sua ira, aos brados: não blasfeme!

O Coisa Ruim mantendo-se impassível e sem rancor, respondeu: quando os homens perceberem que os seus erros e suas maldades foram atribuídas a mim de forma injusta e cruel; quando entenderem que a minha atuação foi sempre pautada para orientá-lo e induzi-lo a retificar os seus desacertos, aí sim, irão compreender que o estigma de minha figura é mais uma obra equivocada construída por sua mão torpe e compreenderão o que realmente sou: a sua consciência. Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa.

Foi o bastante. Deus partiu a socos e a pontapés contra o Coisa Ruim.

O ambiente foi tomado por apitos estridentes e surgiram brutamontes de todos os lados que os separaram, com certa dificuldade e os vestiram com as devidas camisas-de-força.

Foram carregados imobilizados ao ambulatório e receberam doses cavalares de calmantes.

O diretor do manicômio chamou o psiquiatra e o admoestou por sua conduta irresponsável de permitir o contato entre aqueles dois inimigos figadais.

Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.

O psiquiatra abandonou a sala com um pensamento destruidor: a religião foi criada para que a insânia não prosperasse e que a esperança permeasse as nossas vidas, mas desgraçadamente foi tudo em vão. A insanidade do mundo não tem cura, assim como não tem aqueles dois miseráveis que assumiram as personalidades do bem e do mal, talvez numa tentativa de buscar a esperança nas suas desesperanças.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Resistência

Afirmar que caminhava para aquele recinto de forma irresponsável seria uma temeridade.

Os conflitos interiores aumentavam à medida que a racionalidade perdia espaço para aquela força incontrolável, a da impulsividade.

Adentrou aquele ambiente que recendia claramente à lascívia, em oposição à quase ausência de luminosidade que facilitava as aproximações entre as pessoas ávidas de encontros, mesmo que fossem etéreos.

As luzes multicoloridas alternavam a intensidade e a duração de exposição, perseguindo as notas trôpegas e estéreis das músicas eletrônicas que reverberavam naquele espaço amplo e nos corpos dos presentes.

Não havia passado muito tempo e o seu drama pessoal começava a adquirir contornos que conscientemente repudiava, mas a excitação que devastava o seu corpo aumentava ao fixar seus olhos naquela figura atraente, que a priori sabia ser fútil e devassa.

As mãos trêmulas, a tensão muscular, os batimentos cardíacos acelerados, a respiração mais profunda e mais rápida, associado ao suor que impregnava o seu corpo e manchava a sua alma, o colocaram num estágio de torpor que recrudescia pela precariedade de seu estado emocial desgastado pelo pensamento recorrente na família e nas possíveis conseqüências, caso cedesse a sua volúpia.

Amparado nas últimas forças de resistência de seu íntimo, levantou-se abruptamente, e num ato irrefletido, instintivo, desviou o seu olhar para aquele objeto de desejo e cobiça que, friamente, mantinha-se impassível diante do seu gesto.

E aquela imagem registrada nas suas retinas foi fatal.

Sucumbiu. As pernas hesitantes não suportaram o peso do corpo e do desejo intensamente reprimido e desabou literalmente sobre a cadeira.

Uma lágrima solitária e trêmula percorreu uma das suas faces que passou despercebida aos demais, mas que fora extremamente devastadora pela sua ambigüidade, pois externava a sua última reação de sensatez e, por outro lado, materializava a primeira derrota depois de longas e trágicas batalhas pessoais.

Desistiu de resistir.

Fechou os olhos e num gesto brusco a pegou pela cintura e avidamente saciou seus instintos primitivos, sugando compulsivamente a última gota daquela taça de martini.

Uma sucessão de outras vieram, agora regiamente pagas, pois a primeira era uma maldita cortesia, ação essa despossuída de qualquer ingenuidade e civilidade.

Depois de dois anos sucumbira ao vício ou à doença, o que para ele não tinha mais importância, pois, a sua ação representava uma derrota coletiva: a sua, dos familiares, dos amigos e dos anônimos daquela associação.



quarta-feira, 21 de julho de 2010

Credibilidade.

Com os passos claudicantes entrou naquele recinto, onde olhos desavisados poderiam expressar espanto ou medo, e foi conduzido a uma cadeira específica e seguindo ordens expressas, não sentou.

Aguardou por alguns minutos. Para ele, a espera não causava nenhum transtorno, pois o tempo em sua vilania não exercia mais nenhum poder sobre ele.

Aproveitou aqueles momentos para revisitar o seu passado.

Suas lembranças foram interrompidas por uma voz estridente que determinava que todos se levantassem, o que colocava todos os demais em pé de igualdade com ele.

Uma figura taciturna adentrou o recinto e sentou-se numa cadeira de espaldar alto que concorria, apenas, como o desnível existente entre a posição dele, recém-chegado, com os demais presentes.

A partir desse momento começou uma liturgia específica, onde a ritualística avançava sem ferir os preceitos da Corte, até o momento em que começaria a sua inquirição.

Aguardava aquele momento havia dois anos quando fora preso e torturado em intervalos distintos de tempo, mas com a mesma intensidade e, posteriormente, abandonado numa cela putrefata com outros rebotalhos humanos.

Escutou atentamente a leitura dos autos sem externar o desconforto quando foi indevidamente qualificado e ficou impassível sobre a denúncia apresentada pelo Dr. Promotor de Justiça como incurso nas cóleras dos artigos x, y e parágrafo z do Código Penal e, finalmente, ouviu as argumentações do advogado dativo, em sua defesa.

Após a suspensão da sessão, por duas horas, foi inquirido pelo juiz.

E respondeu: os fatos narrados na denúncia são parcialmente verdadeiros. Perambulava numa rua próxima ao local onde ocorreu aquele crime hediondo, onde um morador de rua foi espancado e depois incendiado.

Fui conduzido a uma Delegacia, onde quiseram imputar-me a responsabilidade por aquele crime e como neguei veementemente, fui seviciado em várias ocasiões e lançado ao xadrez.

O inquérito policial está eivado de vícios e de imprecisões. Na minha qualificação, apenas o meu nome é preciso, os demais dados constam o vocábulo desconhecido, às vezes no plural, multiplicando assim as desídias impetradas contra minha pessoa.

Nesse momento, o juiz criminal folheia os autos e confirma a qualificação imprecisa, desqualificada.

O réu continua: consta que sou morador de rua, condição que refuto. Sou mendigo, hoje de justiça, outrora de pão e não preciso explicitar a Vossa Excelência, que tecnicamente são coisas distintas.

(Murmúrios da platéia são interrompidos pela força do malhete e da voz do magistrado exigindo silêncio).

Agora, indignado, o réu acusa o Sr. Promotor de irresponsabilidade ao apresentar a denúncia sem quaisquer fundamentos, praticando uma ilicitude e ...

O juiz com a voz alterada diz: o senhor ao mencionar o representante da promotoria deve fazê-lo com o título de Doutor.

O réu contra-argumenta: Excelência, doutor não é forma de tratamento e sim, título acadêmico, em razão de defesa de tese de doutorado, aliás, nesse recinto creio que seja o único a poder exigir essa deferência.

(O ambiente tornou-se mais tenso com a admoestação do juiz ao réu).

De forma insubmissa, o réu afirmou: a mendicância foi uma decisão de foro íntimo, entretanto, o decurso do tempo não pode equivaler à teoria do esquecimento dos fatos, afinal o título de Phd (Filosophi Doctor ) ninguém pode me usurpar. As torturas roubaram a minha dignidade humana e querem condenar-me por um ato que não cometi....

(Suas palavras são interrompidas pela ordem do juiz de retirá-lo do local, imediatamente, com uso da força policial).

O julgamento continua com o réu recolhido a cela do tribunal.

Sentado no catre com as mãos apertando sua cabeça numa tentativa de impedir - como pudesse - o seu pensamento recorrente: “País desgraçado, onde a relevância de qualquer tema esta profundamente associada a quem diz e não ao que está sendo dito”.



sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um artista ou Pai vá ... (A busca da imagem)


A complexidade do universo, as conturbações terrenas e os conflitos interpessoais eram elementos que não o abalavam, afinal vivia de bem com a vida, apesar da recíproca raramente ser verdadeira.

Tinha a capacidade de transferir o seu sorriso incontido para as faces das pessoas de sua convivência, mediante estórias impagáveis, onde era sempre o personagem principal, jamais coadjuvante. Era antes de tudo um crédulo.

Recentemente acordara de um devaneio que consumira 03 (três) meses de sua família e agregados por acreditar num vendedor que empurrara dezenas de carnês ao aguçar a sua cobiça que, mediante arranjo nada ortodoxo no sorteio dos prêmios, seria contemplado com uma mansão e mais um milhão de reais, depois de pagar as terceiras prestações daquele caminhão de carnês.

Privou os amigos de sua presença, pois passava os domingos enfurnado em casa, na frente daquele televisor preto e branco, comprado de terceira mão, com esponja de aço em uma das antenas internas do aparelho para permitir maior nitidez e, portanto garantir a segurança, a certeza dos números sorteados que ocorria em certo programa, cujo apresentador estampava um sorriso genuinamente paraguaio e utilizava um bordão mais que suspeito (para os incautos): "Ai, ai, ai... ai, ai, ai!"

Quando percebeu que caíra no conto-do-vigário, as suas finanças, as da sogra e do padrasto estavam dilapidadas, mas não as dos agiotas a que recorreram.

Enfim, aquela seqüência de planos e sonhos foi enterrada no baú da infelicidade, que já se encontrava abarrotado por outros percalços e por outras lambanças.

Estava agora em vias de cair no conto de um pastor de uma igreja recém fundada que precisava de obreiros e fora alçado à condição de presbítero, mas essa é outra estória.

Encontrei-o radiante. Estava voltando da faina diária com pães, um naco substancial de mortadela e dois pacotinhos de K-Suco para o regalo da família.

Mal respondeu aos meus cumprimentos e foi logo contando o motivo da compra das iguarias:

Veja bem! Tive um pesadelo na noite passada, terrível. Sonhei que tinha saído com mais dois amigos e com as nossas famílias para acampar numa ilhota oceânica e contratamos uma pequena traineira.

Abro um parêntesis para uma explicação (a expressão: Veja bem! Utilizada por ele para iniciar qualquer conversa era mais que um vício de linguagem, era uma purgação. Em tempos pretéritos cometera, inequivocamente, um grande equívoco ao apresentar um trabalho encomendado pelos donos da empresa e para tentar contornar a situação insustentável, cunhou a aludida expressão para ganhar tempo. Ganhou, mas foi o olho da rua. Feito o esclarecimento, fecho o aludido parêntesis).

Quando estava a 40 metros daquela nesga de praia, senti algo estranho a percorrer o meu corpo e num impulso incontido me lancei ao mar. O choque com aquela água gélida não fora páreo quando lembrei que minha intimidade na arte de sobrevivência no mar estava circunscrita ao “nado cachorrinho”.

Veja bem! – continuou ele - não era um nado canino qualquer, pois, o meu era de um cachorrinho asmático, coxo e com artroses nas quatros patas.

Quando o piloto da traineira cortou aquele motor decrépito que bufava além de suas capacidades, embora estivesse, a bem da verdade, em melhor estado comparando com as condições que me encontrava naquele momento, e lançou âncora, eu havia submergido pela primeira vez e voltava desesperadamente à superfície.

Para não expor os meus familiares a mais um desgosto, ao invés de gritar: Socorro! Socorro!
Não tive dúvidas. Na medida das possibilidades dos meus pulmões que já estavam comprometidos por uma quantidade significativa de água, apenas, sussurrei: Ajuda! Ajuda!
Repeti o sussurro por mais duas vezes e afundei definitivamente.

Acordei apavorado, sufocado na minha própria saliva.

Esperei, com certo desconforto, as horas passarem e depois fui direto a banca do bicho, mas com um drama lancinante, não por ter quebrado os cofrinhos das crianças para roubar as parcas moedas, e sim, em que bicho arriscar a sorte.

Veja bem! Recordei o nome da traineira (Touro indomável, dezenas: 81-82-83-84); recontei o número de pessoas do maldito passeio (era 17 – macaco, no jogo, as dezenas são: 65-66-67-68); o apelido de um dos amigos (mão-de-vaca – dezenas: 97-98-99-00); relembrei do estilo de meu nado (cachorro – dezenas: 17-18-19-20) e finalmente das talagadas de uma cachaça ordinária que havíamos consumido em excesso (a associação é lógica, o bicho é peru, as dezenas são: 77-78-79-80).

Apesar da má vontade do apontador em receber minhas moedas e na impossibilidade de arranjos maiores pela escassez dos numerários, joguei nos grupos: 09-10-11-12, e porra! Ganhei!

Desconhecendo os meandros do jogo, indaguei: que diabo de bicho é esse?

Ele respondeu: Burro, gente fina, burro.

E quanto lançou no ar aquela indefectível expressão para explicar a sua linha de raciocínio (para apostar no burro): Veja bem!

Interrompi, alegando pressa e sai pensativo:

“Coitado, perdeu a identidade e irá naufragar, agora sim, na depressão. Aquele ser de idéias vãs e incoerentes, cujo espírito era envolvido por fantasias, ilusões e utopias, agora pensou pela primeira vez na vida e isso se tornando um hábito, desgraçará a sua vida definitivamente.”

Restou-me como ateu convicto, em nome da amizade pedir “ajuda” a todos os santos para que ele continuasse o mesmo nefelibata de sempre e o impedisse de exercer o mau hábito de pensar.

Imediatamente comecei ouvir vozes que de forma uníssona responderam: Veja bem!

Fiquei pasmo, perplexo e de repente um grito sem prurido saiu de minha garganta: Socorro!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Um Espírito Errante.


Em seus momentos fugazes de reflexão, o resultado era sempre um jorro de iras justas de quem sempre fora injustamente compelido a dobrar as esquinas erradas da vida.

Essa sensação e sentimento continuavam, apesar de estar em outra dimensão, mas não conseguia se afastar da fase corpórea.

O diabo é que o seu destino era um desatino.

Dentre bilhões de pessoas aquele espírito resolveu ficar ao lado, às costas, logo de um ateu.

Realmente, a escolha denotava a sua falta de discernimento que era um problema menor diante da desqualificação do Instituto do Encosto, pois não tinha intenção de ajudar ou prejudicar aquele incréu e, sim, compartilhar daquele corpo para suprir a sua solidão.

Sem nenhum demérito ao espírito, mas, após uma semana de encosto percebeu que sua opção não fora das melhores. Não pelo fato daquele indivíduo não crer em forças superiores e sim, pela fé inabalável demonstrada por remédios, algo que repudiava em sua fase terrena.

Aquele ateu tinha uma obsessão doentia por saúde e exagerava nos fármacos. Na realidade, era um hipocondríaco e aquele espírito não passava de um estabanado.

Havia uma semana que aquele ateu começou a sentir um peso, uma sensação de cansaço, de desconforto, inexplicáveis.

Como esperado dirigiu-se ao seu oráculo, a farmácia, retornando com uma quantidade boçal de pílulas e de frascos com líquidos de cores variadas, um verdadeiro refrigério para sua alma, mas não para aquele espírito encostado.

Estranhamente, aquele ateu hipocondríaco percebeu a ausência dos efeitos colaterais, advindos dos remédios ingeridos, algo jamais ocorrido, pois vivia num moto-contínuo, tomava doses cavalares de remédios que resolviam por um lado, mas os efeitos paralelos faziam-se sempre presentes provocando a busca por outros fármacos, e assim seguia a vida.

Por esses mistérios da vida e da morte aqueles efeitos nefastos passaram a migrar para aquela alma desafortunada como não fossem suficientes as suas agruras, acrescentou agora esses novos males à sua situação incorpórea.

Aquele indivíduo descrente nunca se sentira tão bem em toda a sua vida.

Inacreditavelmente, aceitara o convite de sua namorada para acompanhá-la numa sessão espírita algo impensável até alguns dias atrás.

Com o trânsito caótico, o atraso foi inevitável e chegaram com os trabalhos iniciados.

Os médiuns cumpriam suas obrigações, mas uma onda “tsunâmica” de negatividade ocupou aquele ambiente com a chegada do casal.

Os intermediários entre esse mundo e o outro foram compelidos a interromper os seus contatos, não como fazem as operadoras de telefonia no Brasil, e depararam-se com um ectoplasma equivocado, circundando o corpo daquele ateu, afinal, essa substância emana, exclusivamente, dos corpos dos médiuns.

A sessão mudou seu curso natural e acabou convergindo para aquele indivíduo descrente.

Respeitosamente, escutou as observações dos médiuns sobre a existência de espíritos, sobre as condutas de alguns deles que não aceitavam a desencarnação e procuravam perturbar, ou não, os seres humanos, etc.

Finalizaram, afirmando que um desses espíritos o escolhera para um propósito que desconheciam, a priori, e que era necessário cumprir um ritual para afastá-lo e orientá-lo para o caminho que devia seguir.

O ateu escutou tudo silenciosamente e, após breve meditação, respondeu aos médiuns com um não rotundo. E retirou-se, sem abalar a sua convicção.

Poderia ter diversos problemas e deficiências, mas não era burro.

O seu pragmatismo ficou materializado naquele sorriso nos lábios, independente de sua descrença no sobrenatural, afinal, o seu corpo era outro.

As mazelas provenientes dos efeitos marginais dos remédios desapareceram e depreendeu que o seu suposto encosto, seguindo a lógica dos médiuns, absorvia e sofria com os efeitos negativos dos fármacos, isso era um fato concreto.

Concluiu, cartesianamente, que não abriria mão daquele hipotético encosto e mais, passaria ele, também, a ser um encosto (um corpo estranho) para aquele espírito.

Era uma decisão, meramente profilática, afinal, era um hipocondríaco.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Desigualdade


Viviam em mundos diferentes.

Um procurava manter os seus sonhos, o outro não lembrava mais que um dia os tivera.

Os desencontros na existência de ambos assemelhavam-se a dois conjuntos com elementos quase na totalidade distintos, tendo como únicas interseções a idade e a ausência de irmãos.

Um estudava numa das mais respeitáveis escolas particulares do Rio de Janeiro, o Santo Inácio, o outro, estudava numa escola pública ao lado da comunidade em que vivia, onde a falta de professores em determinadas matérias não era um desastre recente.

Os professores que insistiam em ministrar aulas naquela escola sofriam pressões dos traficantes da área e de um número expressivo de alunos já delinqüentes que os ameaçavam cotidianamente.

Concorrendo com a ausência dos educadores o Estado cumpria com esmero a sua desídia.

Os pais de ambos sintetizavam algumas das mazelas da humanidade chanceladas pelos ditames religiosos ou pela ética que significa a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade.

Um respondia diversos processos por crimes denominados de colarinho branco e era vice-presidente de uma instituição bancária.

Os processos seguiam pelos caminhos tortuosos da Justiça, lentamente, contrapondo-se a agilidade do banco na cobrança de taxas e de juros extorsivos.

Era casado, mesmo sendo bissexual, com uma alcoólatra que recentemente descobrira uma atração avassaladora por mulheres. Não chegara às vias de fato ainda, mas era uma questão de tempo.

O pai do outro, encontrava-se recolhido numa dessas casas que abrigam indivíduos com problemas psiquiátricos, no caso dele, crônico.

Encontrava-se esquecido pela família há uma década.

A esposa era uma prostituta em declínio, pois o tempo, esse tirano cruel, lentamente roubava os seus atrativos, os seus atributos, transformando-a numa mercadoria de terceira linha, onde a concorrência recicla seus produtos numa velocidade estonteante.

O filho do banqueiro para suprir a ausência total dos pais enveredou-se pelos caminhos das drogas ilícitas, enquanto o da prostituta para sobreviver transformou-se num entregador das substâncias proibidas no asfalto.

Consciente do ilícito e de suas conseqüências agia com prudência e jamais fizera uso de qualquer tipo de drogas, lícitas ou não.

A necessidade da sobrevivência física e intelectual era o fator determinante para aquela atitude marginal.

A mensalidade do cursinho que freqüentava à noite era apenas para os abastados e como era um deserdado da sorte arriscava naquela ação criminosa para manter o seu sonho de entrar numa faculdade pública e cursar Ciências Jurídicas.

O outro, apesar de não ser um aluno exemplar com os conhecimentos transmitidos e assimilados ao longo da vida escolar não via óbice à entrada na universidade pública, a sua única certeza era a incerteza sobre que curso optar.

As circunstâncias e os propósitos do garoto pobre não permitiram que o destino fosse complacente.

Numa batida policial ao perceber que seu sonho poderia transformar-se em pesadelo, em razão do flagrante, correu.

Foi alcançado não pelos policiais, mas pelas balas de suas armas. A morte foi instantânea.

O tempo, inimigo figadal das marés em razão de não aceitar recuos, apenas avanços, prossegue em sua marcha inexorável rumo ao fim.

O menino abastado passou no vestibular de Medicina e exaurido em suas forças pelo trote tradicional recompõe suas energias cheirando com sofreguidão duas fileiras de cocaína.

E a vida segue o seu curso natural.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Nada a reclamar


Percebera que adentrara na antecâmara do fim e mesmo assim não esboçou nenhuma reação, seja de medo, ou de lamento, as suas únicas palavras naquele momento foram: nada a reclamar.

Fixou o olhar num determinado ponto indefinido e revisitou o seu passado.

Herdara fazendas de cacau e gado que foram o seu sustento e dos seus descendentes por um tempo acima do imaginado.

Administrara mal seu patrimônio, talvez por priorizar o seu vício incontido pelas mulheres.

A dilapidação progressiva dos bens herdados, acompanhava o ritmo de suas aventuras que terminavam sempre com o registro de seus caracteres hereditários nos filhos bastardos que não possuíam o seu sobrenome, num outro tipo de registro, pois, a legislação da época não permitia, afinal era casado.

A mulher oficial tentou de tudo, mas nada o fez mudar, afinal, era uma questão de estilo e de destino, segundo ele.

As mudanças de amores eram sucessivas, como era contínuo o desprezo para com as antigas amantes. Quanto aos filhos? Bem..., melhor não comentar.

Por questão de justiça e essa deve ser feita em vida todas recebiam mesadas para suas subsistências.

A questão sempre foi o caminhar do tempo para a humanidade e não seria diferente para ele, para as ex-amantes e para prole numerosa. Sem falar, na esposa.

À medida que sua ruína financeira avançava o reflexo imediato era a retração dos numerários para os filhos bastardos e suas, respectivas, mães.

Até que chegou a derrocada total, acompanhada de uma doença insidiosa.

A alternativa foi internar-se em um hospital público que com os recursos disponíveis, disponibilizaram o avanço da doença, adicionando ao seu corpo já debilitado, infecções hospitalares.

Esquecido e quase silenciado pela morfina, desvia o seu olhar daquele ponto - que pelo testemunho de uma única pessoa que recolhia o lixo hospitalar daquela unidade intensiva – e lentamente cerra seus olhos, e balbucia suas últimas palavras: “coloquei-os no mundo, agora, que Deus os crie”.

Questionável? Não sei, só sei que fora seu ponto de vista.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cínico


As suas relações interpessoais sempre foram frágeis pelas circunstancias e propósitos que o moviam.

Suas convicções sobre a vida e sobre os indivíduos eram definitivas: não passavam de causas perdidas.

Às vezes chegavam ao seu conhecimento censuras daqueles que conviviam com ele por razões de parentesco e de trabalho.

Mantinha-se impassível e sempre com aquele sorriso permanentemente cínico.

Afinal, seus paredros eram os filósofos socráticos Antístenes de Atenas e Diógenes de Sínope, fundadores, na antiga Grécia, da Escola Cínica que ostensivamente opunham-se aos valores, aos usos e às regras sociais.

Apesar da pouca idade vivera o suficiente para analisar e avaliar as condutas humanas e os seus procedimentos indefensáveis.

Ressaltando, que as exceções não contam em todos os lugares e ocasiões analisadas, as atitudes dos homens foram e são pautadas pela inexistência de escrúpulos.

Sempre estão respaldadas num oportunismo sórdido e em posturas hipócritas dirigidas aos demais semelhantes, com um único intuito de espoliá-los em qualquer sentido.

Apesar do imenso lapso temporal transcorridos entre os 2400 anos da fundação daquela Escola, as suas premissas continuam rigorosamente atuais.

No ambiente de trabalho, em casa, ou até diante da própria imagem refletida no espelho pode-se constatar a presença de um cínico, não o do texto, mas o vulgarmente denominado assim,
por impropriedade semântica.

O sentido em que se toma a palavra cínico, por interpretação equivocada é aquele que tenta justificar o injustificável; o que desconhece crise de consciência ética; não reconhece problemas nos outros e é incapaz de pedir desculpas. Francamente, essas características podem ter qualquer adjetivação, menos a de cínico, na acepção da palavra.

O cínico no sentido estrito, o do texto, tinha a completa compreensão da falta de condições objetivas para mudar o mundo e na impossibilidade de influenciar as mudanças necessárias, manteve-se íntegro aos ditames de sua consciência.

Depreciado e silenciado pelos poderes constituídos e pelos seus semelhantes, aquele indivíduo sensato continuava indiferente aos processos excludentes a que era submetido, afinal, seus detratores não possuíam argumentos consistentes que pudessem estabelecer o contraditório.

Era um cínico porque desprezava as conveniências e fórmulas sociais.

Poderiam denominá-lo de parvo, jamais de incoerente, isso não o perturbava, as suas convicções eram suficientes e o bastante para ele.