quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Crime doloso, apesar de nossa indiferença.


Era anão. O vocábulo “herança” causava um sentimento contraditório que variava da tolerância à revolta. A herança genética advinda de sua árvore genealógica gerou aquele fruto de tamanho diminuto, ele. E olha que seu pai era um alemão de 2,03 m de comprimento e sua mãe, uma baiana arretada com seu 1,83 de estatura, e ele, filho único, amargava 1,01 m de altura.

Quanto à herança que provoca desunião e até mortes entre os herdeiros, nada a reclamar, era imensa.

De uma cultura erudita espantosa, avançava na cultura popular com o mesmo desvelo do que na outra.

Era um boêmio inveterado que não fazia distinção de classes e a sua atitude fez renascer um dito dos pobres baianos, de mais de 180 anos, que quase havia se perdido no tempo: “rico sem aviamento” (era o rico que tinha empáfia, ar de superioridade e verdadeira repugnância aos pobres).

Ele, não. Era o “rico com aviamento”. Não admitia o tratamento de doutor em função de sua profissão. Exigia o mesmo tratamento usual entre aqueles iguais na desigualdade.
Médico de renome nacional e internacional participava de todos os Congressos internacionais de sua especialidade, enfim, exercia a profissão sempre no estado da arte.

Por generosidade e sem remuneração dava plantões nos hospitais públicos que padecem no Brasil de uma doença terminal: a inexistência de recursos para tudo (manutenção, compra de equipamentos, de miseras gazes a algodão, etc.) pelo descaso e, principalmente, pela roubalheira dos homens públicos desse país.

Das experiências amargas vivenciadas na rede pública, e que foram imensas, a de maior amargor foi quanto teve que escolher quem deveria sobreviver e quem morreria entre dois seres humanos, em função de falta de sala de operação/equipes e leito no CTI.

Situação vista como normal pela mídia que enfatiza que os médicos são obrigados a brincarem de Deus e, por nós, que não nos indignamos e não cobramos, pelo desprezo que  temos por nossos semelhantes, dos mandatários desse país o término dessa prática hedionda. 

Que país desgraçado é esse onde os deserdados da sorte tem seu destino colocado nas mãos de quem jurou  salvar vidas – vide juramento de Hipócrates; são na realidade hipócritas criminosos, coniventes com o descaso dos homens públicos e assassinos em estado latente.

Aquela decisão (vida/morte), desgraçadamente corriqueira para os colegas de trabalho, foi única e marcou o início de seu fim.

Nas noites insones, pensando na sua decisão, a depressão crônica não alcançou as quatro fases da lua.

Sentia-se um criminoso hediondo, afinal seu crime (assassinato) era doloso, definido nas cóleras das leis penais, quando o agente tem a intenção de matar.

Nos últimos momentos em que suas faculdades mentais estavam em frangalhos, avaliando a vida como todo, concluiu: “a lucidez é o lado obscuro da insanidade”.

Hoje, no manicômio, diz-se Polifemo, o gigante de um único olho no centro da testa, mas vigilante, da mitologia grega, descrito pelo velho bardo grego, Homero, no nono livro de sua Odisseia.


Leia a Odisseia de Ulisses e descubra que você não passa de NINGUÉM.