Era um indivíduo ungido, embora sem unanimidade. Para uns que professavam correntes religiosas distintas o viam untado por substâncias celestiais, outros, pelos óleos contaminados pela mão encarquilhada do anjo decaído, os ateus e ele próprio, não faziam qualquer juízo de valor por índole e gosto.Caminhava, retrocedia, adentrava por atalhos duvidosos, mas seguia em frente. E essa atitude não merecia qualquer destaque ou relevância, afinal, andando sempre se chega à beira de um abismo qualquer.
Freqüentava igrejas de orientações e cultos diversos e com sua habilidade inata, na hora da chegada da sacola de dízimos para os adjutórios fixos e extemporâneos, ao invés de depositar, simplesmente, retirava algum. E assim, sobrevivia.
Esse procedimento não causava nenhum prurido de consciência, afinal estava há anos à margem do mercado formal de trabalho e todos os seus esforços foram em vão para reingressar à categoria dos assalariados vilipendiados. Até que um dia aquele pesadelo de perceber um salário mínimo havia desaparecido com as insônias da realidade.
Nas noites de sexta-feira suas andanças tinham destino certo, as encruzilhadas. Renovava seus estoques de bebidas alcoólicas de tipos diversos e de qualidades análogas. Essa disparidade no padrão de qualidade oferecido para suas convicções era algo inadmissível e indignado protestava contra a leniência dos espíritos que deveriam declinar dos pedidos feitos e carregar nas tintas contra essas pessoas avaras, mesquinhas.
Admitia a desigualdade terrestre, mas transpor essa ignomínia para a sociedade dos espíritos era uma afronta odienta.
Na ausência de concordância ou do contraditório às suas considerações, dava de ombros e bebia sofregamente no gargalo e para demonstrar o seu eterno desprezo pela falta de atitude daqueles seres incorpóreos não se dignava nem manter a tradição supersticiosa dos bebuns, a de derramar antes da primeira talagada um gole às entidades pelo sim ou pelo não. Definitivamente, optava pelo não.
Freqüentemente adentrava os terrenos espíritas e independente de suas variantes simulava incorporações imitando os gestos e as entonações características das diversas entidades, mas as suas traquinagens eram voltadas para sua satisfação interior e cinicamente estampava em suas faces o respeito devido.
A vida seguia seu curso natural, com sua atrocidade característica, quando aquele aproveitador de tudo e de todos, caiu num desvão em sua caminhada.
Prostrado num leito hospitalar clamava a presença de um religioso: padre, pastor, espírita, rabino, enfim, qualquer dos representantes de religiões ou seitas, afinal a presença da morte o espreitava.
Nesse momento, a ironia da vida materializou-se na figura de um ateu empedernido que não trouxe o conforto desejado, ao contrário, e aquele indivíduo fragilizado gritou nas possibilidades dos seus pulmões: “Tenha piedade, Senhor! Sou um estelionatário da fé”. E apagou.
Hoje, após a recuperação é um andarilho. Com uma túnica branca, com colares de significados diversos de diversas seitas e religiões, uma bíblia na mão e apoiado num cajado precário, passa o dia pregando.
Invariavelmente escuta: “coitado... não passa de um louco ungido”.
Ele, agora abstêmio, simplesmente continua pregando com as cóleras próprias dos justos e, também, dos desequilibrados. Quem vai saber?




