sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O outro tempo

O avançar do tempo tem como finalidade precípua a de penalizar os indivíduos que teimam em resistir a sua ignomínia, mas esse vilão que aparentemente é invencível sentirá o amargor da derrocada definitiva.

E essa será concretizada quando não puder mais exercer sua vilania pela ausência de seres viventes e, então, tornar-se-á um perdedor desqualificado que vagará solitário e impotente entre os corpos e lixos celestiais.

Não chega ser uma satisfação completa, mas certamente já é um alento o destino final desse inimigo figadal, infelizmente é uma desforra possível, não a desejada.

Agora, outras derrotas parciais e, portanto menos contundentes o tempo sofre.

Todos que passaram pela idade da maturidade têm a sensação de que os tempos passados medidos em anos não se fazem presentes nos seus espíritos.

E esse sentimento não tem correspondência com a inadmissibilidade do passar do tempo, não.

Afinal o poder destrutivo do tempo é visível e está inoculado nas deficiências orgânicas, nas fragilidades dos tônus musculares, nas epidermes encarquilhadas, nos circuitos neurais interrompidos, etc. Esse tempo do envelhecimento, inequivocamente, é real e, portanto, incontestável.

Falo de outro tempo, o aferido no interior, processado na mente das pessoas.

Todos em idades provectas ou não, sentem que o passar desse tipo de tempo tem uma velocidade própria que não se coaduna e não se compatibiliza com o tempo, tempo.

Fundamentalmente, sentem que suas idades ficaram congeladas no passado, uns se sentem como tivessem 20 anos, outros, com idades bastante diferenciadas e menores que as cronológicas.

Reitero, esses sentimentos não correspondem à fuga da realidade física e, também, não é um desejo ao retorno da juventude pela impossibilidade. É algo maior, de dimensão diversa, substantiva, concreta, pois, espelha as sensações psíquicas vivenciadas diuturnamente.

Essa capacidade mental de administrar a tocada desse tempo especial é que permite a continuação da sobrevivência sem o medo da morte iminente, eliminando a presença marcante da fatídica sensação do fim, por decurso de prazo.


2 comentários:

  1. Paulo, na época em que eu era apenas um estudante de direito na PUC, tive um professor desembargador, já evidentemente com a idade avançada, que tinha por dinâminca e/ou didática, enquanto os alunos entravam na sala para assistir à sua aula, ficar com os óculos abaixo do nariz observando todos entrarem. Após todos tomarem seus lugares, ele voltava para o seu caderno; e antes de dar ínicio à aula, sempre dizia: "O TEMPO É INEXORÁVEL".
    Tive com ele dois semestres, e ele sempre começava a aula com esta terminologia. E ele era muito sério e de poucas palavras. Mas, eu no último período não aguentei, e ao acabar uma aula dele, tomei coragem e fiquei para sair por último. Ele levantava-se com uma certa dificulade e com a ajuda de uma bengala. Nesse momento então, eu o interpelei, já me desculpando pela pergunta que iria lhe fazer. Ele apenas concordou meneando sua cabeça. Aí perguntei: "Mestre, estou terminando o segundo semestre de Direito Civil com o senhor...", fiz o elogio natural da excelência que era. E ele com o olhar fixo para mim, apenas respirando lentamente como quem estava pensando: "Pô, pergunta logo, não tenho todo tempo do mundo".
    E fui direto ao ponto: "Por que o senhor toda a vez que começa a aula, diz olhando para quem vai entrando 'O TEMPO É INEXORÁVEL'?"
    Ele pegou a bengala, colocando em cima da cadeira, e me disse: "Tenho 70 anos, sofro de todas as dores que você, jovem, pode imaginar; sou respeitado, ganho bem e não tenho a menor necessidade de vir aqui dar estas aulas chatas.
    Porém, a única coisa que eu ainda posso fazer para ter a vida ainda pulsando é ver minuciosamente a entrada destas lindas jovens com os seus corpos definidos e absolutamente cheirosos, e pedir para que durante estes anos todos que estou aqui, elas cheguem até a mim com essa sua sensibilidade e me perguntem isso pra eu falar que se elas quiserem adquirir todo o meu conhecimento, em troca só teriam de me dar 2 míseros minutos para tocá-las.
    Mas que ironia é a vida! Quem teve a sensibilidade e coragem de fazer esta pergunta foi um jovem, magro, feio e ainda por cima homem.
    Que pena....O TEMPO É MESMO INEXORÁVEL.

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  2. Faria,

    Seu professor estava repleto de razão. O tempo é inexorável e segue sempre numa marcha constante, levando todos ao fim.
    Abraços

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