quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ele

Impaciente pelo desconforto da insônia que pacientemente não dava trégua aquele corpo cansado de tudo, abriu um baú que tinha diversas serventias, inclusive, a de manter papeladas antigas que podiam ser aferidas pela ortografia utilizada, superada há décadas e que sofreria nova alteração, conforme novo acordo ortográfico com países de língua portuguesa.

Com um calhamaço de papéis sob a luz tênue de um abajur na sala, revisitou o passado.

A leitura não seguia uma ordem cronológica dos fatos vividos pelo simples descuido, em tempos pretéritos, no arquivamento.

Às vezes, na leitura, sobrevinha uma tristeza infinda, por outras, uma alegria sempre contida e não raramente, o sentimento amargo da indiferença.

Talvez, em outro momento de sua vida, as suas respostas aos estímulos da leitura daqueles papéis fossem diferentes, ou caso mantivesse os mesmos sentimentos de outrora, esses teriam a intensidade e desconforto distintos dos atuais.

As circunstâncias da vida aniquilaram as suas forças (físicas e psicológicas).

Solitariamente procurava superar as adversidades, entretanto, suas resistências não eram mais suficientes para remover os menores obstáculos.

Ciente da impossibilidade de reverter o tempo para esvaziar as mágoas, para represar seus sofrimentos foi tomado de uma prostração desesperadora que recrudescia com a certeza absoluta de sua incapacidade para dissimular ou pelo menos mitigar as dores da alma e constatou que não passava de uma causa perdida.

Exaurido, cometeu a última ignomínia de sua vida conturbada, improvisou uma forca e consumou o ato.

A perícia identificou no meio daquela papelada amarelada que ressentia a mofo, uma folha que destoava das demais e estava gravada com poucas, mas suficientes palavras:

“Cansei. Na falta de outras opções, desisto, não por escolha, mas por destino. Assinado: fulano de tal.”.

Os conhecidos não conseguiram entender aquela atitude.

Cinicamente compreensível, pois em vida jamais tiveram um mísero gesto de solidariedade para com ele, denotando de forma cabal e definitiva, a extraordinária sordidez humana.


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