
A ansiedade era descabida naqueles pais que levavam o filhinho pela primeira vez ao pediatra.
Foram nove meses de eterna expectativa e a conseqüente preocupação sobre a hora do parto, mas felizmente tudo correu muito bem.
Na ante-sala do consultório o pai caminhava de um lado para outro, enquanto a mãe embalava seu rebento.
Foram chamados. O médico fez as indagações de praxe e enquanto fazia a avaliação clínica daquela criaturinha, escutava as observações, as convicções dos pais que eram completamente opostas entre si.
Ouviram as orientações do pediatra e antes de chegarem ao carro, uma discussão estava em andamento.
O médico atrasou a consulta da próxima criança por uns 15 minutos, pois entrou num processo reflexivo sobre o casal e o bebê que acabara de sair.
Deparara-se com casais imaturos em razão da precocidade de ambos, no arroubo da juventude não se preveniram, e agora, a mãe era uma criança com outra criança nos braços, entretanto, não era o caso daquele casal.
Ficou imaginando a educação daquela criaturinha pelos seus pais, que com os 50 minutos de consulta, os diagnosticou como portadores “poli-esculhabasiose”, um neologismo criado por ele, para resumir as incompatibilidades de conceitos, valores, limites, da distonia afetiva e emocional entre as pessoas, que no caso específico, era do casal, que inevitavelmente, seriam transmitidos para aquele ser recém-nascido.
Seu último pensamento, antes de adentrar o novo paciente foi: coitada da psique futura daquela criança.
O tempo seguia a ordem natural e a vida seguia muitas vezes a desordem ilógica da mesma.
Já adolescente, aguardava a sua primeira consulta com o psicólogo.
As neuroses transmitidas pelos pais e as adquiridas pela vida levaram-no àquela crise existencial.
Nas suas oscilações de humor, escutava as brigas constantes dos pais que se acusavam, mutuamente, sobre a criação deficiente e sobre as orientações inapropriadas transmitidas ao filho.
Com nove meses de tratamento psicológico, recuperara ou descobrira o equilíbrio emocional.
Era um renascimento.
Chegou a casa e de maneira educada, mas contundente, determinou aos pais:
“Ou procurem tratamentos psicológicos, ou sairei imediatamente desta casa.”
Os pais ficaram perplexos.
Hoje, aguardam na ante-sala do psicólogo a devida consulta, cuja iniciativa estava com prazo de validade vencida há anos.
