segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A desestruturação de um filho


A ansiedade era descabida naqueles pais que levavam o filhinho pela primeira vez ao pediatra.

Foram nove meses de eterna expectativa e a conseqüente preocupação sobre a hora do parto, mas felizmente tudo correu muito bem.

Na ante-sala do consultório o pai caminhava de um lado para outro, enquanto a mãe embalava seu rebento.

Foram chamados. O médico fez as indagações de praxe e enquanto fazia a avaliação clínica daquela criaturinha, escutava as observações, as convicções dos pais que eram completamente opostas entre si.

Ouviram as orientações do pediatra e antes de chegarem ao carro, uma discussão estava em andamento.

O médico atrasou a consulta da próxima criança por uns 15 minutos, pois entrou num processo reflexivo sobre o casal e o bebê que acabara de sair.

Deparara-se com casais imaturos em razão da precocidade de ambos, no arroubo da juventude não se preveniram, e agora, a mãe era uma criança com outra criança nos braços, entretanto, não era o caso daquele casal.

Ficou imaginando a educação daquela criaturinha pelos seus pais, que com os 50 minutos de consulta, os diagnosticou como portadores “poli-esculhabasiose”, um neologismo criado por ele, para resumir as incompatibilidades de conceitos, valores, limites, da distonia afetiva e emocional entre as pessoas, que no caso específico, era do casal, que inevitavelmente, seriam transmitidos para aquele ser recém-nascido.

Seu último pensamento, antes de adentrar o novo paciente foi: coitada da psique futura daquela criança.

O tempo seguia a ordem natural e a vida seguia muitas vezes a desordem ilógica da mesma.

Já adolescente, aguardava a sua primeira consulta com o psicólogo.

As neuroses transmitidas pelos pais e as adquiridas pela vida levaram-no àquela crise existencial.

Nas suas oscilações de humor, escutava as brigas constantes dos pais que se acusavam, mutuamente, sobre a criação deficiente e sobre as orientações inapropriadas transmitidas ao filho.

Com nove meses de tratamento psicológico, recuperara ou descobrira o equilíbrio emocional.

Era um renascimento.

Chegou a casa e de maneira educada, mas contundente, determinou aos pais:

“Ou procurem tratamentos psicológicos, ou sairei imediatamente desta casa.”

Os pais ficaram perplexos.

Hoje, aguardam na ante-sala do psicólogo a devida consulta, cuja iniciativa estava com prazo de validade vencida há anos.