quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

E aí matéria?

O calor estava insuportável naquele mês de março de 1967.
As janelas daquela sala de aula estavam fechadas para tentar abrandar a inclemência dos raios solares.
 Existiam duas supostas peças de resistências para tentar amanair aquela temperatura absurda, dois ventiladores dignos representantes da terceira geração dessa invenção.  As pás giravam com uma melemolência assustadora, como tivessem conhecimento de que qualquer esforço adicional seria desperdícios de energia, pois iriam apenas acelerar aquela quentura diabólica em direção àqueles  alunos especiais. 
 Com 30 minutos de aula, o monsenhor que ministrava aula de Teologia ouviu murmúrios vindo do fundo da sala, e com  aquele gênio irascível e com aquela empáfia que o caracterizava, apontando para um noviço indagou: “o que você falou com seu colega do lado? Afinal, todos nós queremos saber, também.”
O aluno não poderia ser outro que não o Matéria, alcunha dada pelos demais noviços e não era por ser o primeiro da turma há anos, mas por outra razão.
O Matéria imediatamente levantou-se, e no alto de sua estatura física e daquele sotaque baiano que jamais perdera, apesar de anos de seminário e noviciado com alunos de outra região do país, respondeu com seu cinismo peculiar: “Monsenhor, comentei, com o colega do lado, que caso houvesse um aparelho que medisse a sensação térmica, provavelmente, hoje, estaria no limite máximo.” 
O Monsenhor, contrariado, pois desejava infligir um castigo exemplar, respondeu: “Ah! Bom. Sente-se.”
Sentando, olhou de esguelha para o colega que procurava conter o riso mordendo os próprios lábios, pois o comentário do Matéria fora:” Preferia estar no Inferno agora, pois o Diabo pode ser tudo, menos burro. Lá tem ar-condicionado. Essa história de fogo e ranger de dentes é balela, meu rei.”
No intervalo, todos procuraram uma sensação de refrigério debaixo das mangueiras que existiam no pátio, afinal, as suas indumentárias eram apropriadas naquele dia apenas para desidratação, pois consistiam de ceroulas, camisetas e batinas pretas.
O Matéria saiu por último, com aquele andar pachorrento, vagaroso que denotava  a mais completa ausência de disposição para qualquer coisa e no meio do caminho encontrou um colega que era de outra classe e fez a sua indefectível saudação: ” E aí matéria?  (essa habitual indagação era a origem de seu apelido: Matéria). Ouviu a resposta e foi ao encontro da sua turma que gargalhava ao tomar conhecimento do seu verdadeiro comentário em sala de aula.
Com a sua chegada, aí mesmo que aquele território virou o da galhofa, pois o Matéria também era espirituoso, característica  de quem usa a sua inteligência e conhecimento para divertir as pessoas e avivar conversas.
Tinha um intelecto privilegiado. Dominava, na sua plenitude, o latim, o grego, além, lógico, das demais matérias.
No final daquele ano sua turma faria os dois primeiros votos para ordenarem-se padres.
Talvez por ter entrado criança no seminário (10 anos), ou por gosto, fazia suas peraltices que ficaram registradas em sua ficha, maculando-a.
Certa feita foi pego pelo padre-reitor tocando uma música profana, e não era uma qualquer, mas daqueles diabólicos garotos de Liverpool, os Beatles, OB-LA-DI OB-LA-DA, na  Capela do Seminário. O instrumento musical era um órgão centenário francês, uma preciosidade, cujos tubos de madeira que produziam o som, tinham 10 metros de comprimento, um som límpido, que ampliava-se pela acústica perfeita do ambiente.
Resultado: um mês de castigo.
Em outra ocasião falecera um padre no Rio de Janeiro, em um final de semana. E no seminário que ficava numa fazenda existia um cemitério exclusivo para o repouso eterno dos padres daquela Ordem.
Como era folga dos trabalhadores rurais, não houve alternativa que não selecionar uns 05 noviços para abrir a cova, e dentre os escolhidos, estava o Matéria.
Pegaram picaretas, enxadões e pás e foram para o local determinado pelo padre. Loucos para terminarem aquele serviço macabro, pois estavam ávidos para desfrutarem de uma pelada, trabalharam com afinco. Um deles foi procurar o padre para dar o aval definitivo sobre a sepultura aberta. O padre chegou, avaliou o trabalho e ficou pensativo por alguns instantes e proferiu sua sentença que desagradou a todos: ”o falecido era de uma altura acima da média, assemelhada à do Marcus (Matéria), portanto, é necessário aumentar o comprimento”, e voltou para os seus afazeres.
Aborrecidos procuraram uma sombra naquele campo santo.
Passados quarenta minutos voltaram para completar o serviço. Feito, um deles virou para o Matéria e disse:
”É  melhor você se deitar na cova para confirmar a medida e assim, ficarmos livres desse negócio.” Era razoável o pedido, mas o Matéria ficou meio cabreiro, mas não deixou transparecer sua apreensão.
Pulou na cova e ao deitar foi espetado por um osso do cadáver anterior, mas o comprimento agora tinha folga. Olhou para cima e viu em perspectiva seus colegas, primeiros as pernas, as pás e os rostos dos colegas com sorrisos traidores, e antes que pudesse esboçar qualquer reação, começou a ser soterrado pelo movimento incessante dos companheiros com suas pás.  Nesse exato momento chegou o padre. 
Levaram um sermão de mais de uma hora e o Matéria, vítima, foi responsabilizado pelo ocorrido. Resultado: castigo.
Os padres faziam avaliações mensais sobre os noviços e o Marcus passou ser objeto de preocupações, apesar de terem a consciência de que ele tinha vocação e seria um bom servo do Senhor, contudo pesava contra ele, na percepção equivocada daquele colegiado, uma certa imaturidade.
O semestre aproximava-se do fim, quando o Matéria aprontou mais uma gaiatice. Entrou no confessionário e começou a ouvir os pecados dos seminaristas, ministrar conselhos e determinar o número de orações para purgarem seus maus feitos.  A maioria dos pecados estava vinculado ao desejo da carne, amavam com as mãos (masturbação) meninas imaginárias, ou fotos de mulheres que mantinham escondidas. Eram repreendidos e recebiam a absolvição com a obrigação de rezarem 05 Aves Maria, 06 Pai Nosso e 07 Credos. Os pecados de menor potencialidade, na sua visão, como desejar a morte do padre-diretor, recebiam como penitência rezar apenas 01 Ave Maria.
Depois de ouvir a confissão de mais de 03 dezenas de seminaristas, o padre-confessor chegou. Pronto. O castigo do Matéria foi um mês de silêncio obsequioso. Poderia responder apenas aos padres, caso fosse perquirido por um deles.
Quando passava pelos colegas, mexia sub-repticiamente as sobrancelhas que todos associavam com aquela indagação: “ E aí, matéria.”
No final do semestre o padre-reitor o chamou e depois de uma hora de monólogo determinou seu destino, a expulsão.
Pegou sua mala de papelão, jogou as poucas peças de roupas e pegou a estrada rumo ao Rio de Janeiro.
Sozinho naquele mundo novo, com parcos recursos recebidos na sua saída, procurou uma pensão de décima quinta categoria e foi à procura de emprego. 
Conseguiu emprego numa funerária. Fazia de tudo, inclusive arrumar os defuntos.
Com sua formação humanista, procurava consolar os parentes dos falecidos e fazia suas obrigações com profundo respeito.
Certa manhã chegou um corpo enrolado num lençol, acompanhado de um senhor em prantos. O Matéria fez aquele gesto de mover a cabeça para baixo, um sinal que traduzia os seus sinceros e profundos pêsames.
O senhor foi preencher as papeladas de praxe e o Matéria empurrou a maca com o corpo recém-chegado para um local previamente determinado.
Perdeu alguns minutos para terminar o que havia começado e depois foi começar os procedimentos com aquele corpo.
Levantou o lençol, viu aquele rosto jovem e, imediatamente, veio a indefectível indagação: “E aí, matéria?”
Pronto. A confusão estava formada, pois o senhor, pai daquele jovem sem vida, havia voltado e escutou o que o Matéria proferiu.
Aquilo, a seu sentir, era um escárnio, um desrespeito, uma afronta, uma indignidade.
Matéria foi despedido sumariamente.
Perplexo sobre que rumo tomar, procurou um banco na praça e sentou para refletir sobre sua vida passada e a conjecturar sobre a futura. As suas conclusões não foram nada alentadoras.
Depois de horas de reflexão não chegou a desfecho nenhum.
Levantou-se e o que veio ao seu pensamento, por força do hábito, foi aquela indagação, mas agora para si próprio:
“E aí, matéria?”.