segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Da linha do tempo à curvatura da vida

O passar do tempo, maculado pela desídia de diversos gestores públicos, transformou aquela praça de um subúrbio do Rio de Janeiro em fantasmagórico arremedo da época de sua construção, em meados de 1925.

Com passos titubeantes aqueles dois velhinhos seguiam em direção ao único banco existente, obviamente, em estado precário, para desconfortavelmente acomodarem seus corpos frágeis e cansados.

Depois de dois ou três minutos para recuperarem o fôlego, iniciavam as digressões sobre o passado vivido ou não, por eles.

Invariavelmente, discordavam sobre os temas abordados, não por convicções, mas por meras rabugices. Entretanto, aquelas discussões, muitas vezes acaloradas, traziam ambos à vida presente que teimava em fugir, pela magia de um passado remoto.

Falavam sobre suas juventudes vividas nos idos de 40, do século passado.

Dos trajetos dos bondes; dos preços dos alimentos; dos fardamentos das alunas do colégio de formação de professoras; da quantidade de padarias, açougues, vendas e armazéns, invariavelmente, nas mãos dos patrícios (portugueses) que chegavam sempre a bordo do famoso navio Serpa Filho; da educação rígida; dos cinemas; dos dancings; das gafieiras; dos cabarés; das casas de tolerâncias da rua Alice, onde as moças aguardavam os clientes, em poltronas respeitáveis que acomodavam seus corpos vestidos com os requintes da elegância; e assim prosseguiam nas suas reminiscências e discordâncias.

Entretanto, naquele dia de um calor senegalesco aconteceu algo inimaginável: a concordância de ambos sobre o tema em pauta.

Talvez por terem sido vítimas do mesmo desassossego mental e corpóreo, em períodos distintos daquela época pretérita.

Foram infelizes, cada um no seu tempo, ao fazerem o famoso “pezinho de alferes” (cantada), em uma moçoila de vida que inapropriadamente era chamada de utilidade pública, o justo seria, a denominação de utilidade privada.

Depois de darem vazão aos respectivos instintos bestiais, voltaram para as respectivas casas paternas, leves, flutuando numa felicidade infinda.

Em menos de 48h após o ato, começaram a sentir ardências e gotejamentos purulentos oriundos de seus instrumentos, digamos assim, sexuais. O desespero de ambos aumentou ao perceberem certa inflexão, uma curvatura anômala, nos seus falos (para os pudicos), ou, nos seus caralhos, para os impudicos.

Aflitos, correram para os médicos indicados pelos amigos mais velhos.

Feitas as avaliações pelos profissionais da área, esses não titubearam e encaminharam ao único especialista existente na capital da República para aqueles casos.

O especialista era um gigante de 2,05 m de altura. Descendente de alemães, de fala mansa e impostada, tendo nas extremidades de seus membros superiores, não mãos, como todos os mortais, e sim manoplas, pelo tamanho descomunal das mesmas.

Era uma figura desconfortável para os pacientes com problemas rotineiros, mas diabolicamente assustadora para aqueles como eles, portadores de mazelas mais profundas.

Diagnosticados, foram aviadas em receitas, os medicamentos para a eliminação dos gotejamentos e ardências, agora, quanto à restauração dos órgãos sexuais com a eliminação das curvaturas extremamente pronunciadas, o estado de arte da ciência estava adstrito a um único instrumento que exigia habilidades especiais, como a precisão cirúrgica.

Nus, obedecendo as ordens secas do especialista, colocaram os “ditos cujos” sobre uma almofada acolchoada e assepticamente protegida por um pano branco.

O médico, com as mãos para trás, entabulava uma conversa ardilosa, indagando sobre os predicados da mulher, sobre o que conversaram e quando avaliava que o momento adequado não chegara, adentrava ainda mais nas intimidades (caso isso fosse possível, diante do exposto), pedindo detalhes da relação propriamente dita, etc.

Sua posição era estratégica. Ficava de costas para a porta de saída e de frente para o paciente.

Numa fração de segundo de descuido do incauto: zás!

Era uma martelada certeira, acompanhada de uma força teoricamente proporcional à curvatura. Infelizmente, da teoria à pratica existia um universo de agonias.

A fuga empreendida pelo médico tinha que ser ainda mais precisa que a intervenção, fechando e trancando a porta.

Essa operação terminava antes do infeliz emitir o primeiro de uma série infindável de urros, para depois quase enlouquecer de dor.

Essa prática era o máximo de desenvolvimento tecnológico para endireitar os membros dos infelizes que pegavam a temida “gonorréia de gancho”, naquela época. Um simples binômio: destreza humana e um miserável martelo de borracha desumano.

Que tempo desgraçado (pelo menos nesse quesito)! – penso eu.






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