Era um ser amargo e razões não faltavam.
Por força da profissão convivia com a miséria humana, onde as vidas se
restringiam apenas a sofrimentos cruéis e desgraçadamente solitários, onde as
solidariedades dos deuses e dos demônios não se faziam presente.
Limitado por imposições legais e pelo código de ética da profissão não
podia ir além dessas balizas e adstrito a essas circunstâncias, sofria.
Aos deserdados da sorte e desencaminhados da vida havia apenas o rigor da
sociedade e o desprezo, o abandono da mesma.
Cumpria suas escalas, seus plantões e nas folgas não exercia atividade
nenhuma, apesar das dívidas exigirem dele, no final do mês, atitudes.
Caminhava a passos trôpegos para o abismo, para as profundezas sombrias
do martírio humano a que eram submetidos aqueles com quem era obrigado a
conviver.
A melancolia, a depressão severa, a ausência de perspectiva o levou ao
divã de um psiquiatra e aos olhares solidários de um psicólogo.
O tratamento seria longo.
Licenciou-se do seu emprego de guarda presidiário.
Assistiu atônito a prevalência dos embargos infringentes, relativos ao
processo do mensalão.
Não suportando tamanha afronta, procurou o seu medicamento de tarja preta
e ingeriu uma dose superior à prescrita, pois, do contrário não dormiria, pois
os pilares da justiça sofreram um novo abalo e ruíram.
Sem data vênia concluiu após um sonoro palavrão: “aos ricos são
facultados as filigranas dos embargos infringentes, mas aos pobres não são
permitidos quaisquer peças processuais céleres para contenção às agressões aos
seus direitos mais comezinhos, ao contrário, são infligidos pelas cóleras das
leis, a semelhança às da Idade Média, que esquartejam suas dignidades humanas.
E são condenados à putrefação de seus corpos e almas pelos vermes que na sua
quase totalidade envergam as togas pretas que ao prolatarem suas sentenças
fundamentadas no Direito Penal não levam a colação (ação de confrontar) a
Constituição Federal.”
Triste país em que não existe pronome de tratamento para o povo, somente,
adjetivos (miseráveis, ignorantes, imbecis, etc.), mas aos vermes não. Esses
são tratados de Vossas Excelências.
