segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma questão de dose.


A dosimetria fora equivocada para aquele corpo frágil e já extremamente combalido.

O processo foi devastador. A pressão arterial subiu a patamares dantescos, a arritmia cardíaca parecia atingir o limite extremo do órgão e frações de segundos depois, os neurônios foram impactados e uma parcela significativa foi destruída por um insulto cerebral (derrame).

A perplexidade ocupou a mente de muitos que assistiram aquela cena de destruição de uma vida, por um mísero ato inconseqüente.

Tudo, mas tudo decorreu de uma dose mal dosada.

As medidas cabíveis foram tomadas imediatamente, mas a morosidade descabida da Unidade Móvel de Atendimento para chegar ao local, afrontou até mesmo aquelas outras testemunhas oculares que assistiram aquele drama humano, sem esboçar quaisquer resquícios de humanidade, até então.

A desídia do Estado era materializada pela expressão, em letras garrafais, PRONTO ATENDIMENTO, na lataria fria da ambulância que, também, tivera dias melhores.

Chegou ao hospital público e abandonado em uma maca foi a óbito.

Passaram-se dez anos dos fatos acima.

As entranhas do poder judiciário evitaram, por esses anos, expelir o monturo acumulado do inquérito à sentença.

O Boletim de Ocorrência fora forjado; o inquérito policial prosseguiu na ofensa à verdade dos fatos; a promotoria por desídia ou conivência ofereceu uma denúncia canhestra que culminou com aquela ignominiosa sentença prolatada pelo juiz criminal que agravou aquele todo deplorável ao desconsiderar as falhas no auto, ao desqualificar as testemunhas de defesa e desprestigiar as atenuantes, por sentir-se premido pela comoção pública.

A dosimetria da pena foi exageradamente injusta.

O magistrado agrediu a lei, o réu e a justiça, mas em compensação prestou as devidas vênias ao vernáculo, pois, ao extrapolar em sua decisão, atingiu na sua plenitude os dois sentidos etimológicos da palavra (extrapolar), qual seja:

- Tirar a conclusão com base em dados reduzidos ou limitados;
- Exceder os limites do bom senso.

Acusados de denunciação caluniosa, coação no curso do processo e abuso, as autoridades receberam como penas, meras anotações de censura às suas folhas funcionais.

Que país!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Dentro da desgraça, um exemplo a ser seguido ou perseguido.


Aquele dia chuvoso não tinha sido nada promissor.

Problemas no trabalho; aborrecimentos pela parte da manhã com a esposa, que reclamava incessantemente sobre o conserto de um maldito cortador de grama; a ligação do filho, sempre pedindo dinheiro; dívidas e outros problemas de menor monta, atormentavam sua mente enquanto caminhava rumo ao estacionamento.

Para encerrar aquele dia aziago, deparou-se com um dos pneus furado e ao recorrer ao estepe esse estava como deveria estar o seu intelecto, vazio.

A paciência não era atributo que poderia ser pedido ou cobrado dele, principalmente, naquela hora.

Com alguma dificuldade superou a questão pneumática e com o intuito de resolver definitivamente o problema da mulher (o cortador de grama), seguiu para o endereço, onde dias atrás havia deixado o aparelho para fazer o orçamento inicial.

Como o técnico que orçava e efetuava o conserto não estava presente naquele ocasião, voltava para autorizar o trabalho, evidentemente pensando em fazer uma negociação dura para diminuir o preço, pois a prestação de serviços na sua cidade goza da má fama de ser despudoradamente cara e desprovida do instituto da qualidade. Isso sem contar os descumprimentos indecentes nos prazos de entrega.

Com algum contratempo no trânsito chegou àquela lojinha que se encontrava em estado precário de conservação.

Adentrando a loja foi logo perguntando, grosseiramente, ao atendente: qual é o valor do orçamento para o conserto daquele cortador de grama deixado dias atrás?

Um rapazinho extremamente humilde consultou a pouca papelada de serviços a serem executados e respondeu: R$ 70,00.

Estupidamente, retrucou: “Tá caro! Um cortador novo custa R$ 120,00. Quero falar com técnico que fez esse orçamento. Que absurdo! Tem que reduzir esse valor insensato que é repugnante à razão e desconfortável a qualquer bolso”.

O ambiente da loja era sombrio e só depois da agressiva forma de se expressar percebeu por trás de uma bancada, um homem enrolando um alternador com fios de cobre, com ajuda de um outro garoto que lhe passava as pontas do fio de cobre.

Percebeu também que ele era cego, mas que tinha o domínio completo da posição de cada ferramenta ou material que existiam naquelas prateleiras e gavetas que pareciam ter como função precípua, a sustentação das paredes daquela loja.

Falava para o garoto: “Pega o alicate na segunda gaveta. Ao receber, retrucava - Não, não é esse, você pegou o da primeira gaveta que não tem borracha no cabo; e seguia - me passa o parafuso tal, pega a arruela x, etc.”

Ao ouvir “quero falar com o técnico que fez o orçamento”, o cego respondeu: eu sou o técnico.
E complementou: não está caro senhor; só de material para enrolar o motor queimado custa R$ 50,00, os outros R$ 20,00 representam o valor da minha mão de obra e dos demais custos.

No meio da resposta veio um arroto seguido de vômitos que foram aparados parcialmente por uma flanela imunda.

Desculpe senhor, mas no dia que faço hemodiálise, além de muita dor de cabeça, sinto uma náusea, uma ânsia incontrolável de vômitos, a toda hora. Faz menos de duas horas que terminou a sessão.

Falando isto, ele pediu ao garoto as muletas para levantar.

Neste momento, o dono do cortador percebeu que ele, além de cego, também não tinha uma das pernas.

Ele que estava predisposto para descarregar suas iras acumuladas ao longo daquele dia, utilizando como pretexto o preço apresentado, agora sente o seu ímpeto esmorecer, desaparecer, ao constatar a aparência física daquele senhor e suas mazelas.

Não possuía uma das pernas, cortada na altura do joelho, cego e com problemas renais sérios, tendo que fazer hemodiálise, que situação! – pensou.

Aquele senhor com o sexto sentido apurado captou no ar vibrações que provocaram uma alteração brusca no ambiente de minutos atrás.

Indaga o nome do cliente e com um sorriso nos lábios declina o seu nome e seu drama de forma serena, não permitindo através do seu relato sem emoção, qualquer sentimento de piedade, ao seu interlocutor.

Trabalhava numa empresa de recapeamento asfáltico e inadvertidamente, durante o almoço, que trazia de casa numa marmita, retirara as botas para aliviar os pés, quando um colega sofrera uma queda de uma máquina.

Instintivamente levantara-se para socorrê-lo e pisou com os pés descalços sobre uma parte do asfalto que ainda estava numa temperatura elevada.

Resultado: das bolhas formadas para as feridas foram uma mera questão de tempo.

No atendimento precário do hospital público, mediante diversas idas é que soubera ser diabético. E o quadro complicou, todas as tentativas foram infrutíferas e foi assim que perdera parte da perna.

A empresa não cumprira com suas obrigações trabalhistas, alegando a desídia dele quanto profissional.

A questão rolava há anos na justiça, enquanto sua vida girava em torno daquela atividade de pequenos consertos para sustentar a família, pois o pecúlio da aposentadoria era de uma indignidade semelhante a sua situação física.

O quadro de diabetes avançara e perdera a visão de ambas as vistas e agora, também, fazia sessões de hemodiálise, a cada 3 dias com 5 horas de duração.

Aquele cliente esboçou algumas palavras reconfortantes que eram inúteis, mas o fez. Aceitou sem mais questionar o valor do conserto.

A entrega estava programada para a semana seguinte.

Quando foi pegar o cortador, o técnico não estava. Então, perguntou ao atendente por onde ele andava, e obteve como resposta a informação de que a mulher do cego era problemática e volta meia arrumava uma confusão com a vizinhança, e ele, coitado, fora lá tentar apaziguar os ânimos.

Com o espírito arruinado, prometera a si mesmo que jamais reclamaria da vida, independentemente da situação.

Quando pressentia que as coisas iam mal, parava e respirava fundo, e a lembrança daquele técnico vinha à mente, recordando aquela lição de vida, afinal o que não está bom, pode passar para o estágio de ruim, e esse pode piorar e muito.

Os anos se passaram e a sua promessa continua de pé, apesar das quedas inevitáveis.