Foi gerado numa noite onde os ânimos estavam arrefecidos pelos altos teores alcoólicos ingeridos pelos pais, depois de um dia de ofensas mútuas, onde os ressentimentos afloraram e cresceram de forma quase insustentável.
Aquela criança, ao completar cinco anos, foi abandonada pelo pai. Cinco anos depois, foi a vez de a mãe abandoná-lo.
Passou anos associando o número cinco como azar, hoje é seu numeral de sorte.
Aos dez anos, então, começou sua desdita.
Relatar suas privações seria uma homenagem descabida à miséria e ao abandono.
Era um menino esperto e como!
A herança que recebeu dos pais, a seu sentir, era o nome: HERIVELTO. Ao ouvir seu nome seu ser era envolvido por uma felicidade inigualável produto da sonoridade das sílabas HE-RI-VEL-TO.
Conseguiu a proeza de jamais receber um apelido, provavelmente pela sua postura perante aos mais velhos que às vezes o chamavam de menino e ele, de forma peremptória reagia: “meu nome é HE-RI-VEL-TO, senhor”. Com os de sua idade resolvia na base da porrada.
Cresceu matreiro. Contudo, recebeu como massa falida, pois isso não é herança genética, o alcoolismo.
Sobrevivia à base de biscates. Era pau pra toda obra. A qualidade... bem ..., a qualidade era mais que duvidosa, ao revés do profissionalismo do pai na arte de construir barcos, o que proporcionou-lhe a alcunha de Zé Pirata.
No mês aziago de agosto recebeu a incumbência de retirar cocos. No meio da tarefa deparou-se com um pé de coco que só não era maior do que suas necessidades. Vacilou, mas tinha que cumprir a empreitada. Subiu, subiu e quando estava a uns 10 metros de altura a lei da gravidade impôs sua autoridade.
A queda, além de outras escoriações, provocou fraturas expostas no seu braço direito.
Sofreu estendido no solo pátrio aguardando a chegada do SAMU que levou 40 minutos.
Abro um parêntesis para um comentário desairoso, mas saltou-me aos olhos o total da espera daquele infeliz – o mês de agosto é o oitavo mês do ano, que multiplicado pelo fatídico número cinco totaliza quarenta – fecho o aludido sinal gráfico, com as devidas vênias.
Quando o socorro chegou, o médico assistindo aquela cena de fraturas graves, disse:
“Pense (e, Herivelto não o deixando complementar aquela frase que terminaria “na besteira que você arrumou”.)
Retrucou, imediatamente: ”Pense aí na dor que estou sentindo”.
Resultado: passou por três cirurgias; passou sete meses com uma armadura metálica no braço presa por parafusos; meses de fisioterapias e finalmente passou pelo dissabor de constatar que o seu braço ficou inutilizado.
Depois dos meses acima mencionados, retornou ao vilarejo que vivia.
E o seu recomeço foi o fim da sua única herança (Herivelto), da sua única e genuína felicidade da vida. Passou a ser chamado por todos de PENSE AÍ.
Bem, com a falta de bom senso que me caracteriza, adentro nessa história para externar a minha reflexão: “Agora pense ... Pense aí - que vida azarada da porra.”
Que negócio!
Há 15 anos
