Morreu por lapidação.
O vocábulo que define a morte permite supor que a pessoa era um especialista no
ato de facetar e polir pedras preciosas e sofreu um acidente. Não!
Era um mendigo que
foi cruelmente assassinado por apedrejamento.
Imagine o suplício
dessa morte.
Será noticia na mídia
no máximo por três dias, depois esquecimento e um número a mais na estatística.
Morreu como viveu a
ultima década, sozinho.
A rejeição à sua
figura maltrapilha e fétida não era prerrogativa de um, mas de todos que
olhavam aquela triste figura e que jamais viram um ser humano atrás daqueles
andrajos.
Era considerado uma
coisa, uma aberração.
Todos agem assim por
uma única e simples razão. Todos vêem o mendigo como um espelho e essa peça
reproduz com nitidez aqueles que o confrontam.
A atitude de repulsa,
de náusea, significa na realidade o medo de transformar-se num indigente,
também.
Carregamos a miséria
humana em nosso interior.
O fantasma da
decadência, o medo, persegue a todos sem qualquer distinção.
No dia seguinte à
aberração daquela morte continuamos a caminhada de nossas vidas, agindo da
mesma forma: ignoramos os maltrapilhos e quando a visão é inevitável, desviamos
nossos olhares com repugnância, isso quando não ocorre conjuntamente o
pensamento: ”esses desgraçados empesteiam o ar e sujam a imagem da cidade”.
Não existem,
lamentavelmente, argumentos contrários à afirmação de que o ser humano é uma
causa perdida.
Os sentimentos dignos
propalados da espécie humana não passam de falácias, mentiras.
De humanos temos
apenas a forma.
Na nossa consciência
íntima as forças que nos regem são as das bestas feras relatadas na mitologia
ou mencionadas em algum escrito religioso.
Somos, simplesmente,
aberração da criação.
A discordância das
afirmações acima significa apenas que você jamais teve coragem suficiente para
olhar detidamente o espelho que reflete as entranhas do seu interior, do seu
ser.
