quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Becos

Era um pedinte contumaz à semelhança de um mendigo, e como tal era destratado, quando não, completamente ignorado.

O que diferia e causava espanto aos poucos que lhe davam ouvidos era o inusitado de sua solicitação: implorava por velas.

Num beco de sua infância assistiu a mãe perder a vida quando tentava ganhá-la.
Foi assassinada friamente no calor de uma discussão que é um tipo de instinto bestial, contudo o outro, o mais conhecido, o sexo, havia sido arrefecido há pouco tempo.

Assistiu tudo a distancia, correu e com seus braços miúdos tentou sustentar a cabeça da mãe que nos estertores dizia: “filho, tudo está ficando escuro, muito escuro”.

De suas outras desgraças pessoais não falo. É a minha forma de prestar um tributo a esse infeliz.

Ele não pensava no futuro, apenas no passado.

Toda a noite frequentava um beco nas diversas cidades que compunham a sua caminhada errática à semelhança das dos judeus de tempos pretéritos.

Os becos, no seu imaginário, não tinham saídas, apesar de tê-los na sua quase totalidade.

Procurava o local mais escuro ou menos luminoso e cumpria o ritual de uma vida inteira: acendia a vela e sentado assistia aquela luz bruxuleante que nas suas retinas se transformavam em feixes intensos de luminosidade a profanar a escuridão existente, ou aquela meramente produto das suas reminiscências mais doloridas.

Por mera ilação, concluo que aquele procedimento representava a tentativa de iluminar a caminhada solitária do espírito que coexistia na sua mãe.

A sua mente obsessiva não observava os sinais da vida.

Distraído, atravessou uma rua e foi arremessado a metros de distância por um carro desgovernado.

A sua agonia foi pouca e a escuridão muita.

Não teve uma mísera alma caridosa que sempre surge do nada para que lhe acendesse uma vela.

Os espíritos da mãe e do filho encontraram-se e vagueiam agora num buraco negro.

A famosa luz eterna não os contemplou
.
Não me perguntem a razão. Como ateu, a teoria criacionista não passa de uma ficção de décima-quinta categoria e como tal, vejo a bíblia como um monumental desperdício de papel e tinta. 





quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Lapidação

Morreu por lapidação. O vocábulo que define a morte permite supor que a pessoa era um especialista no ato de facetar e polir pedras preciosas e sofreu um acidente. Não!

Era um mendigo que foi cruelmente assassinado por apedrejamento.

Imagine o suplício dessa morte.

Será noticia na mídia no máximo por três dias, depois esquecimento e um número a mais na estatística.

Morreu como viveu a ultima década, sozinho.

A rejeição à sua figura maltrapilha e fétida não era prerrogativa de um, mas de todos que olhavam aquela triste figura e que jamais viram um ser humano atrás daqueles andrajos.

Era considerado uma coisa, uma aberração.

Todos agem assim por uma única e simples razão. Todos vêem o mendigo como um espelho e essa peça reproduz com nitidez aqueles que o confrontam.

A atitude de repulsa, de náusea, significa na realidade o medo de transformar-se num indigente, também.

Carregamos a miséria humana em nosso interior.

O fantasma da decadência, o medo, persegue a todos sem qualquer distinção.

No dia seguinte à aberração daquela morte continuamos a caminhada de nossas vidas, agindo da mesma forma: ignoramos os maltrapilhos e quando a visão é inevitável, desviamos nossos olhares com repugnância, isso quando não ocorre conjuntamente o pensamento: ”esses desgraçados empesteiam o ar e sujam a imagem da cidade”.

Não existem, lamentavelmente, argumentos contrários à afirmação de que o ser humano é uma causa perdida.

Os sentimentos dignos propalados da espécie humana não passam de falácias, mentiras.
De humanos temos apenas a forma.

Na nossa consciência íntima as forças que nos regem são as das bestas feras relatadas na mitologia ou mencionadas em algum escrito religioso.

Somos, simplesmente, aberração da criação.

A discordância das afirmações acima significa apenas que você jamais teve coragem suficiente para olhar detidamente o espelho que reflete as entranhas do seu interior, do seu ser.  
 



terça-feira, 13 de maio de 2014

Tudo é uma questão de princípios

O princípio de sua vida ocorreu apenas no definitivo impulso. O do derradeiro esforço da mãe para expeli-lo do ventre, através daquela passagem que teimava em não ser suficiente para transpô-lo para o mundo dos mortais.

A sua incompatibilidade com o vernáculo “princípio” começou daí, afinal uma das definições dessa palavra diz: “o primeiro impulso dado a uma coisa”. (no caso dele, foi o último, o da mãe).

Aos 10 anos, sendo relembrado como chegara nesse mundo, descobriu o efeito do princípio da força (que causa danos irreversíveis): a sua feiúra. Nascera, mas pelo avesso.

Cresceu em condições precárias. Num ambiente imprestável às relações humanas, à educação, à saúde, à moradia, enfim, à vida. Esses foram os elementos que moldaram as suas atitudes, delimitando e compondo o seu caráter.

Em síntese, o princípio que regula a dignidade humana o ignorou, o deixou a largo, à margem daquilo definido nos Princípios Universais da Dignidade Humana.

Viveu e conviveu sob o império de leis paralelas, marginais, onde o princípio é a ausência total de princípios.

Sobreviveu inicialmente a base de pequenos furtos que evoluíram para os grandes, mas, sempre agindo solitariamente. Não admitia o princípio da delação premiada.

Certa noite, com uma fome secular, furtou uma quantidade de gêneros alimentícios em um hipermercado. A quantidade não era relevante, uns 30 produtos, mas todos de terceira linha (biscoitos, café, açúcar, arroz e feijão) que somados não chegavam a míseros R$ 100,00 (cem reais).

Na saída foi surpreendido pelos seguranças. Sem condições objetivas para empreender uma fuga, aguardou a chegada dos policiais.

Repleto de hematomas adentrou a sala do Dr. Delegado.

Era uma figura esguia e seu falar denotava um ser humanista, pelo menos no falar.

Diga cidadão – indagou a autoridade, com uma voz tonitruante – qual foi o seu delito?

Furto, doutor – respondeu cabisbaixo.

O Dr. Delegado, desprezando o princípio da insignificância (crime de bagatela), o enquadrou nas cóleras da lei penal, desconsiderando, também, o princípio do furto famélico, onde se ignora o volume furtado. Que país desgraçado!

Assinados o termo, o Dr. Delegado chama o carcereiro e profere apenas uma expressão: “aos costumes”.

Mesmo sem convicção, resolveu dirigir a palavra ao Dr. Delegado, utilizando-se de uma frase lida, por acaso, numa coletânea de expressões jurídicas:

“Doutor, a necessidade não conhece princípios.”

“Isso é somente para os ricos, seu meliante, somente para os ricos” - respondeu, cinicamente, o Dr. Delegado.








sábado, 3 de maio de 2014

A falta de Justiça desse país.

O local era sombrio, o ar saturado e o cheiro de bolor insuportável. A temperatura ambiente não poderia ser outra, desconfortável. Era um local a vista desarmada sem vida.

Os corredores e as escadarias que levavam aquele recinto eram desgastados pelo tempo e a luminosidade sofria de uma opacidade semelhante à visão dos velhos que sofrem de catarata.

Conviviam pacificamente as traças, as aranhas e os ratos que avançavam sobre aquelas pilhas de papeis infindáveis, datados de épocas diversas, mas, principalmente, de tempos idos.

O silencio ecoava naquele lugar, um silencio de revolta, de indignação, de abandono, de desprezo.

Havia meses que um bípede da espécie humana não adentrava naquele lugar, denotando a desimportancia dos que deveriam preservar, desarquivar e dar vida aquelas vidas que pululavam, provavelmente, de raiva, de revolta, não adstrita aqueles maços de papéis amarelados e empoeirados, mas fora.

Entretanto, milhares não poderiam mais expressar seus sentimentos de indignação, pois, encontravam-se no mesmo estado acabado das suas petições esquecidas, dos inquéritos não prosperados, dos seus processos estagnados, estavam mortos.

Aquela situação representava a vilania, a infâmia, enfim, o revés do dever constitucional que o Poder Judiciário deveria exercê-lo.

Naquela montanha de anseios, de desejos, de esperanças, de justiças, não existia um mísero caso de postulante de posse, apenas, a de legiões infindáveis de deserdados da sorte.

Tétrico é saber que aquele local não é um ponto fora da curva, são tantos que acabam tristemente representando a própria curva, a da falta total de Justiça desse país, denominado de Brasil.

O sarcasmo é tamanho, pois, brasil pode ser sinônimo de “semelhante à cor da brasa”, portanto, vermelha, que dentre outras significações é a cor que representa vergonha.

Quanta ironia!

O negro das togas dos magistrados tem, também, significado iníquo, pois, é um símbolo de alerta aos juízes sobre seu sacerdócio. Mais um descalabro ao sistema judiciário, contudo, nossos olhos fatigados de constatarem as injustiças que não tem fim, mas nesse caso nós, os humilhados e massacrados, percebemos claramente que a cor preta utilizada por eles representa o luto pela morte da Justiça 
.
Os fatos não permitem aos calhordas de todos os tempos encontrarem argumentos contrários.

Em síntese, a injustiça é a única Justiça exercida nesse país desgraçado. 

Sempre seremos apenas um espaço geográfico que delimita fronteiras com outros países, onde a falta de justiça, de direitos estão circunscritos, restritos a essas coordenadas geográficas, jamais uma Nação.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Da Impostura ao IMPOSTO

Dois irmãos, mas que aritmeticamente falando dá um (produto da soma), afinal, são meios-irmãos, por parte de pai.

Conviveram pouco – menos de um ano e meio.

O mais velho foi para um seminário aos 10 anos, não em busca de salvação, mas de sobrevivência. O outro, com 3 anos, ficou sob a proteção e abrigo da mãe contra as maldades eternas do pai.

Reencontraram-se 7 anos depois, após a expulsão do primeiro do seminário.
A convivência não chegou a um mês, pois o pai seguindo os passos tortuosos e equivocados dos padres, o expulsou também.

Perderam o contato. Por obra do acaso, após 30 anos reencontraram-se. Condensaram, como se fosse possível, as suas vidas em exíguas 6 horas e na despedida trocaram os respectivos números de telefone.

Meses se passaram quando o irmão mais velho recebeu uma ligação internacional (dos Estados Unidos) do outro, que agora não vivia, agonizava com os parcos recursos advindos de trabalhos subalternos. Feliz, afirmara que dera um passo para Jesus – convertera-se – era crente. Não um crente qualquer, não. Mas num chato, pois de imediato tentou convertê-lo naquela ligação. Logo ele, um ateu.

As ligações tornaram-se mensais. O irmão-ateu ouviu do irmão-crente a sua principal desdita, era um alcoólatra inveterado.

Na noite de 31 de dezembro, o irmão-ateu ligou para o irmão-crente para desejar os tradicionais votos de felicidade, prosperidade, etc.

Antes da ligação ser completada comentou com sua esposa que falaria no máximo por cinco minutos, afinal os custos eram exorbitantes e sua situação financeira estava combalida.

O irmão-crente atendeu com uma voz pastosa, entremeada de choros compulsivos e de palavras desconexas provocadas pelo excesso de álcool. Conseguiu entender que a esposa pedira divorcio e que estava completamente abandonado.

O irmão-ateu pensou: ”Esse infeliz está encharcando a alma com vinhos baratos, afinal vinho é sagrado, e não deve ofender os preceitos de sua crença”.

Seu pensamento foi interrompido pela informação do irmão-crente: ”Meu irmão, estou sentido a presença de entidades espirituais que desejam chegar.

O irmão-crente, abdicando da ironia, respondeu: “Deixa, deixa chegar”.  E como chegaram. Não desceram no varejo, mas no atacado.

Quando uma cantava para subir, a outra assumia o posto imediatamente.

A esposa do ateu não parava de rir, pois o marido sempre respondia as saudações das “entidades” com um: ”Deus seja louvado”.

Resultado: ficou mais de uma hora falando com esses seres de outro mundo.

No primeiro descuido de uma entidade que subia com certa malemolência, imaginou: “deve ser baiana”, e desligou o telefone imediatamente.

Estava indignado. Não pela ruptura da fé do irmão-até-então-crente, nem pela impostura que foi submetido pelas entidades supostamente incorpóreas. A sua ira estava concentrada no Governo.

Afinal, pagaria uma fortuna pela abusiva carga tributária desse país naquela ligação telefônica.

Acreditava que tudo tinha limites, mas o Governo desse país desgraçado mostrou o contrário. Chegou ao limite da extorsão e não obstante prosseguiu. Onde já se viu tributar falas, conversas de entidades espirituais? Isso era um descalabro inominado, uma excrescência. Afinal, não eram seres humanos.

O ateu, com suas vistas cansadas provenientes do avanço inexorável do tempo e de assistirem, desgraçadamente, uma infinidade de indignidades dos homens públicos perpetradas contra essa massa de deserdados da sorte, a quase totalidade do povo brasileiro, praguejou:

“Esses ladravazes devem lembrar que Deus, Deus vê tudo, e o pior, castiga.



domingo, 20 de abril de 2014

Isso é vida?

A vida sofre de uma patologia crônica, a do sadismo, e a exerce com requintes exacerbados.

Permite aos seres humanos a utopia dos desejos, dos sonhos, da luta insana pela sobrevivência para adquirir contentamentos, entretanto, tudo é em vão, tudo é fugaz, pois a vida mutila, destrói, subtrai, oferecendo apenas um pesadelo quase sempre ininterrupto.

Farsante é a vida. Faculta momentos efêmeros de felicidades que iludem os indivíduos levando-os ao equívoco de que a mesma deve ser vivida.

Mesmo que o único caminho seja a certeza irrestrita da mortalidade, a vida nos conduz a outros atalhos utilizando-se de sua magia e de sua perversidade inimaginável.

Em momentos temporais distintos do ciclo de vida de todos os seres viventes ela se faz presente, com seus instintos primitivos de insensibilidade, de avareza sórdida, mediante o surgimento de doenças de várias espécies e de gradações diversas de malignidade. É uma ignomínia.

A vida é injustificável, ou melhor, contextualizando, uma causa perdida, sobre qualquer perspectiva.

A purgação de possíveis erros cometidos sob a ótica religiosa para o sofrimento não tem fundamentação lógica.

As idiossincrasias que representam a maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada pessoa representam na realidade, um tributo elevadíssimo, pago de forma extorsiva e compulsória, mediante traumas adquiridos pelos fracassos fabricados, pelas frustrações impostas, etc.

Esses sofrimentos vividos servem para redimir quaisquer desacertos cometidos não cabendo nenhuma parcela adicional de aflição, de amargura, provocados por doenças, bastando às mazelas mencionadas para atender qualquer transgressão de preceito religioso para aqueles que acatam essa tese.

Aos agnósticos e aos ateus esse vale de dor é um ônus sem racionalidade, sem propósito, posto que a religiosidade não é contemplada em suas existências, portanto, se sentem duplamente lesados pela perfídia da vida.

É ultraje! 

Mas a sordidez da vida é irrefreável, irrestrita, irreparável.

Honestamente, reitero, não cabe espaço para a vileza da vida em acrescentar aos sofrimentos aludidos, doenças de qualquer natureza.

Aqueles que afirmam que a vida é bela ou são demagogos senis, ou portadores de uma deficiência psíquica em razão da ausência total de bom senso, ou acéfalos.

Saturado de conviver com a perversidade da vida não alimentarei mais seu desvio de caráter que se deleita em fazer sofrer a todos de forma tirânica. Parto, deixando à vida o meu eterno desprezo.

Não sejam descrentes, transcorridos trinta segundos após a conclusão desse ato tenham a convicção que ela, a vida, irá aumentar o seu sadismo na cota de vocês, pois por ser de natureza insaciável não suportará a minha ausência.


Desejo a todas, forças para suportarem seus sofrimentos específicos e a parcela adicional de meu infortúnio. 

domingo, 13 de abril de 2014

SOGRA

Aquele casamento foi um equívoco danado. Sem agressões gratuitas, mas aquela besta quadrada, o marido, só percebeu a desdita alguns dias após a lua de mel.

Levar uma relação a três exigia dele mais do que podia dar. Não estou falando do "ménage-a-trois", a famosa libertinagem sexual, mas da essência da mesma, pois a sogra exauria todas as suas energias e como não fosse suficiente, o desqualificava como homem, por não cumprir com suas obrigações de provedor.

Entupia-se de remédio para levar aquela relação. Numa noite a situação passou dos limites e endureceu como nunca fizera antes: expulsou a sogra de casa.

O ódio entre genro e sogra, a partir dessa decisão, tornou-se extremado.

A contra gosto sabia da saúde da sogra pela voz chorosa da esposa.

Nos últimos cinco antes, a sogra entrara desenganada pelos médicos no CTI e quando os sinais vitais pareciam desaparecer, a velha renascia e não era das cinzas.

Ele tinha verdadeira aversão a ditados populares, principalmente o que dizia “que a esperança era a última que morre”, afinal, a seu sentir, não era mera coincidência o nome da sogra: Esperança.

Como tudo passa, num belo dia para ele, a sogra passou.

Não assistiu a ritualística fúnebre, do velório à cremação.

A bem da verdade pensou na hipótese de ir ao velório com a única finalidade: cuspir no caixão. Desistiu. Detestava enfrentar fila.

Passados os oito dias protocolares para liberação dos últimos vestígios mortais informou aos cunhados e cunhadas que iria buscar as cinzas da sogra.

Todos ficaram perplexos, contudo não emitiram qualquer opinião.

Marcaram um local para o encontro e todos seguiram, nos respectivos carros, para cumprir o derradeiro desejo da falecida, a de ter suas cinzas lançadas no mar de Mangaratiba.

Antes de cumprirem aquela obrigação, sentaram num barzinho e desceram cervejas a rodo, pois, o calor estava infernal. Passaram da tristeza à euforia alcoólica, em minutos.

Ele, abstêmio por natureza, assistia aquele espetáculo dantesco. A orgia do álcool fazia-se presente ao lado daquela caixinha de madeira com as cinzas da mãe daqueles bebuns.

Preocupado com o passar das horas e de seu desejo íntimo de ver aquelas cinzas sumirem nos quintos do inferno, mesmo que fosse água, dirigiu-se ao dono do quiosque e implorou por um vasilhame para transportar aqueles restos mortais para as profundezas do mar, ou mesmo para as espumas que desapareciam nas areias da praia. Afinal, não colocaria jamais seus tornozelos naquela água, quanto mais às pernas, para acatar o pedido daquela megera.

O pedido foi atendido. Recebeu uma lata, do mesmo tipo daquelas que ficaram famosas nas praias do Rio de Janeiro que chegavam repletas de maconha, e das boas, segundo os entendidos.

Fez a transposição do conteúdo daquela caixa de madeira para a lata, sob as vistas dos filhos bêbados que registraram o fato por apenas 10 segundos.

Blasfemando jogou a lata no mar. Para sua infelicidade, as cinzas fizeram lastro naquela embarcação tosca (a lata) que flutuou.

Não acreditou. Juntou uma quantidade substancial de pedras e as lançou em direção daquele objeto flutuante. Nada
.
Para sua felicidade, constatada depois, viu um bando de pivetes vindos à sua direção para assaltá-lo (certamente).

Negociou com os assaltantes mirins e nunca ficou em tamanho êxtase ao perder R$ 1.820,00 para os mesmos. Afinal, eles cumpriram o trato. Alvejaram aquele arremedo de embarcação fúnebre que adernou diversas vezes (que velha persistente!), mas acabou submergindo.

Chegou ao quiosque e pediu uma talagada de cachaça e deu vivas à Esperança.

Boquiabertos os parentes alcoolizados assistiram a queda brusca dele e depois protagonizaram uma correria desenfreada para levá-lo ao hospital mais próximo.

O diagnóstico foi rápido: coma alcoólico.




segunda-feira, 7 de abril de 2014

Lascado

Nasceu na localidade de Bambu Lascado e levava a denominação de lascado pela origem e o que é pior, pela sua situação.


Era um pobre diabo. Dizendo de outra forma para não ofender aos que não querem ler nenhuma citação que mencione aquele anjo decaído, utilizo-me do viés da cultura judaico-cristã, comparando, portanto, a sua situação com a dita pobreza franciscana. A referida pobreza era uma afronta ao seu estado de necessidade.

Apesar de tudo não era um revoltado, lutava com as únicas armas que tinha: suas mãos (revirando o lixão de Ilhéus).

Naquele dia achou um arremedo de ventilador. Era uma peça de resistência. As hélices estavam intactas, emperradas e o suporte que continha as teclas de ligar e de alterar a velocidade estavam num estado mais do que precário. Isso sem falar da parte do motor, cuja proteção estava totalmente envolta em fita crepom.

De dentro do invólucro do motor saíam 3 fios encapados nas cores vermelho, azul e branco, que estavam cortados e que deviam ir para a parte inferior, a dos controles de velocidade e partida. O problema era esse. Os fios dessa parte (inferior) estavam retorcidos, desiguais no tamanho, e apenas um mantinha a cor original (o vermelho), os outros dois não.

Assistia a tudo escondido. O pobre coitado já havia comido uma quantidade substancial de água (cachaça) e falava alto: “Pense: ai, não entendo nada de energia, será que o fio vermelho com o outro vermelho, combina?”.

Não resisti àquela dúvida e caí numa gargalhada incontida. Nem o elementar era do conhecimento daquele cidadão que precisava funcionar aquela engenhoca. No seu imaginário os mosquitos que ele chamava de jatinhos estavam maltratando o seu corpo que na sua concepção não passava de uma pista de pouso e decolagem (uma picada e asas para quem te quero).

Cabisbaixo seguia naquela empreitada. Tudo que ia fazer, falava em voz alta como estivesse procurando apoio imaginário de um companheiro de infortúnio. De tempos em tempos, dizia: “Lombrou”. Percebi o significado desse neologismo acompanhando suas tentativas de conserto. Quando dava errado a sua incursão vinha o indefectível: lombrou (portanto, “deu errado”).

Depois de horas de tentativas e excessos de erros, um grito forte estremeceu a noite: “Ah, ah, agora não lombrou”. As hélices começaram a girar alucinadamente, e o vento forte fez presente. O lascado pulava de alegria.

Refeito daquele impacto inicial, da ressuscitação milagrosa daquele ventilador em cacarecos, foi que percebeu que o vento ia pra trás.

O seu desabafo foi: “Não vou mais cansar a minha mente. Amanhã transmuto o vento. Esse ventilador está com pequenos constrangimentos. Quer saber de uma coisa? Tudo dá errado para mim. É uma sina da minha vida. É ... só Jesus na causa”.

Levantou-se levando aquele objeto de desejo e necessidade.

Não devia me imiscuir na vida alheia, mas a meu sentir, o vento da esperança nunca vai soprar para aquele indivíduo, e caso sopre será para traz (desesperança) como a do maldito ventilador.

sábado, 29 de março de 2014

Ai,Ai, Papai


Aquele ser nasceu predestinado a ter uma vida excessivamente atribulada.
Para que não pairasse quaisquer dúvidas sobre o seu destino, chegou ao mundo arrancado a ferros (fórceps) e sem a presença protocolar de seu anjo da guarda.
Aquele anjo tinha diversos registros desabonadores lavrados no Cartório do Céu.
Quando aquela criança emitiu seus primeiros sons (choros), o anjo bradava a plenos pulmões: “Estão cerceando os meus direitos de defesa. Exijo a presença de um advogado. Lembrem-se que estão violando a Constituição Celestial que no seu único artigo declina sobre a Justiça Divina, portanto, uma cláusula pétrea”.
Os cinco querubins que prolatariam a sentença, perplexos entreolharam-se, pois eram sabedores da inexistência de um mísero advogado no Céu.
Foram compelidos compulsoriamente a cometerem um pecado mais que venial – contrabandearam um advogado do Inferno.
Para a desgraça daquele nascituro e felicidade total do anjo da guarda, o advogado era brasileiro. Acostumado à impetração de ações protelatórias infindas, as famosas chicanas jurídicas.
Por descuido dos legisladores celestiais a eventual substituição de um anjo da guarda só poderia ser efetivada quando a decisão estivesse transitada em julgado.
Resultado: aquele ser foi o único da espécie humana a não ter a proteção de um anjo da guarda ao longo de sua existência.
Não declinarei a dolorosa caminhada daquele individuo marcado pelo infortúnio para evitar um possível quadro depressivo por parte de eventuais leitores.
Mencionarei apenas e tão somente a última desdita dele.
Exausto pelo trabalho contínuo e sem tréguas em seu consultório, resolveu descansar. Foi para a região serrana do Rio de Janeiro.
Era psicólogo. Convivia diariamente com a dor, com as aflições, enfim, com a miséria humana.
No seu primeiro dia de descanso, dos cinco previstos, vestiu uma camisa recém comprada, uma camisa polo branca, bermuda marrom e sandálias franciscanas e resolveu andar a pé pela cidade.
Desafortunadamente esbarrou com um colega que não via desde a época do vestibular.
Não houve tempo para reminiscências, o colega com os olhos avermelhados e segurando uma pequena caixa de madeira, o ultimou: “fulano, que bom reencontrá-lo, principalmente nesse momento de dor. Preciso cumprir o último desejo do meu pai – jogar suas cinzas no Parque Ecológico”.
Negar aquele pedido seria uma ofensa, apesar de não ter ido ao enterro dos próprios pais, face ao pavor que tinha em lidar com a morte.
Chegaram ao local e o colega pediu que ele segurasse a caixa repleta de cinzas do falecido.
Num choro compulsivo, o colega pegava um pouco das cinzas e as jogava em direção das arvores e aquele gesto era acompanhado de um lamento lancinante: “Ai, ai papai”.
Como tudo na vida era contra aquele individuo, o vento fazia sua parte, trazia de volta parte das cinzas que ficavam impregnadas na sua camisa branca.
Aquele ritual repetiu-se por cinco vezes: “Ai, ai papai” e mais cinzas na camisa polo.
Para não alongar, depois daquela ritualista, pegou o carro e retornou para casa.
Chegando, tirou a camisa com partes do papai (do outro) e colocou próxima à máquina de lavar.
No outro dia deixou o consultório mais cedo e ao adentrar em casa foi logo indagando: ”fulana, deixei uma camisa para lavar, lavou?”
Obteve como resposta aquilo que não queria ouvir: “Doutor, aquela camisa estava um nojo e não titubeei, joguei fora”.
Pálido, desabou no sofá e pensou: “Não acredito. Papai foi pro lixo. Ai, ai”.