Aquela criatura recebeu a herança genética da mãe, mas do pai foi uma imensa massa falida geneticamente falando.
Do legado desse passivo menciono apenas alguns, tais como:
- síndrome de Cockayne. Excesso de sensibilidade à luz solar, estatura reduzida e envelhecimento precoce;
- síndrome de Kelley-Seegmiller. Formação de pedras na área urinária;
- síndrome de Waardenburg. Perda de audicão e mudanças na coloração do cabelo, da pele e dos olhos;
Isso sem desprezar o alcoolismo, pois há evidências claras de que alguns fatores genéticos aumentam o risco de contrair a doença.
O pai era extremamente rígido, religioso e alcoólatra. Impunha ao filho a religião que professava.
Cresceu.
A convivência com as mazelas advindas da genética degenerada causava transtornos enormes no seu corpo, porém, nada semelhante à dor do espírito, oriunda da sua busca visceral pela fé.
Foi expulso de duas sinagogas.
Frustrado, resolveu converter-se ao catolicismo. Pelo seu histórico até que resistiu bem
mas, fadado à maldição eterna, acabou excomungado.
Na sua busca incessante pela fé, adentrou nos caminhos do kadercismo. Freqüentava as sessões assiduamente e numa determinada noite percebeu que as pessoas que incorporavam normalmente, deixavam de fazê-lo quando estavam ao seu lado.
Antes de passar pelos dissabores anteriores, o da exclusão, resolveu antecipar o fato e partiu em retirada.
Acabou na macumba.
Como das vezes anteriores, o início parecia promissor.
O seu infortúnio começou com o envolvimento amoroso com uma cambona.
O pai de santo, famoso naquelas bandas da zona sul do Rio, não admitia esse tipo de relacionamento no seu terreiro e aguardava a próxima gira para dar um sapeca-ia-ia naquele individuo.
Ele recebeu a notícia (o aviso), não por uma entidade, mas pela cambona em questão.
Não prestou.
Na noite fatídica passou o dia enchendo o pote. Derrubou uma garrafa de uísque e meia de vodca.
Quando a gira girou ele acabou girando também, não pelo teor alcoólico, mas por algo que jamais sentira, a incorporação de uma entidade.
Quando o pai de santo ficou possuído por uma entidade não evoluída é que a quizila formou-se.
A troca de agressões verbais e promessas de vindita entre as entidades incorporadas nele e no pai de santo foram num crescendo assustador e o ápice ocorreu quando a entidade que possuía o pai de santo cantou para subir abruptamente.
A cena a seguir foi desqualificadora. O pai de santo desmaiado, ele incorporado, distribuindo impropérios sem fim, entre goles sôfregos de marafo.
Ele destruiu a fama e a carreira daquele pai de santo e acrescentou às suas desditas mais um convite compulsório a retirar-se.
A sua busca constante e alucinada pela fé terminou quanto se converteu ao ateísmo. Afinal, o ateu não é um ser gregário.
Realmente, na esfera da fé, aquela criatura não poderia dar certo, como não deu, ou deu?
Que negócio!
Há 15 anos
