terça-feira, 30 de julho de 2013

Busca pela fé

Aquela criatura recebeu a herança genética da mãe, mas do pai foi uma imensa massa falida geneticamente falando.
Do legado desse passivo menciono apenas alguns, tais como:

- síndrome de Cockayne. Excesso de sensibilidade à luz solar, estatura reduzida e envelhecimento precoce;

- síndrome de Kelley-Seegmiller. Formação de pedras na área urinária;

- síndrome de Waardenburg. Perda de audicão e mudanças na coloração do cabelo, da pele e dos olhos;

Isso sem desprezar o alcoolismo, pois há evidências claras de que alguns fatores genéticos aumentam o risco de contrair a doença.
O pai era extremamente rígido, religioso e alcoólatra. Impunha ao filho a religião que professava.
Cresceu.
A convivência com as mazelas advindas da genética degenerada causava transtornos enormes no seu corpo, porém, nada semelhante à dor do espírito, oriunda da sua busca visceral pela fé.
Foi expulso de duas sinagogas.
Frustrado, resolveu converter-se ao catolicismo. Pelo seu histórico até que resistiu bem
mas, fadado à maldição eterna, acabou excomungado.
Na sua busca incessante pela fé, adentrou nos caminhos do kadercismo. Freqüentava as sessões assiduamente e numa determinada noite percebeu que as pessoas que incorporavam normalmente, deixavam de fazê-lo quando estavam ao seu lado.
Antes de passar pelos dissabores anteriores, o da exclusão, resolveu antecipar o fato e partiu em retirada.
Acabou na macumba.
Como das vezes anteriores, o início parecia promissor.
O seu infortúnio começou com o envolvimento amoroso com uma cambona.
O pai de santo, famoso naquelas bandas da zona sul do Rio, não admitia esse tipo de relacionamento no seu terreiro e aguardava a próxima gira para dar um sapeca-ia-ia naquele individuo.
Ele recebeu a notícia (o aviso), não por uma entidade, mas pela cambona em questão.
Não prestou.
Na noite fatídica passou o dia enchendo o pote. Derrubou uma garrafa de uísque e meia de vodca.
Quando a gira girou ele acabou girando também, não pelo teor alcoólico, mas por algo que jamais sentira, a incorporação de uma entidade.
Quando o pai de santo ficou possuído por uma entidade não evoluída é que a quizila formou-se.
A troca de agressões verbais e promessas de vindita entre as entidades incorporadas nele e no pai de santo foram num crescendo assustador e o ápice ocorreu quando a entidade que possuía o pai de santo cantou para subir abruptamente.
A cena a seguir foi desqualificadora. O pai de santo desmaiado, ele incorporado, distribuindo impropérios sem fim, entre goles sôfregos de marafo.
Ele destruiu a fama e a carreira daquele pai de santo e acrescentou às suas desditas mais um convite compulsório a retirar-se.
A sua busca constante e alucinada pela fé terminou quanto se converteu ao ateísmo. Afinal, o ateu não é um ser gregário.
Realmente, na esfera da fé, aquela criatura não poderia dar certo, como não deu, ou deu?













sábado, 6 de julho de 2013

O destino do povo brasileiro.


Não perderei o seu tempo relembrando os acontecimentos sobre o descobrimento do Brasil, afinal a versão calhorda é de conhecimento geral.

Fixarei o meu relato nos 10 dias anteriores à aludida descoberta.

Um grumete, não tolerando mais os sofrimentos e as carências a que eram submetidos os da sua classe pelo oficialato daquela caravela, repudiou com veemência as privações de água e alimentos que sofriam.

Mesmo sabendo da punição que o esperava, protestou, afinal, a sua dignidade estava muito acima da covardia dos seus colegas de infortúnio.

O castigo foi imediato e cruel.

Foi mandado para o caralho que era uma pequena cesta afixada no mastro mais alto da caravela, local de maior instabilidade da nave, em função dos múltiplos movimentos gerados pelo impacto das águas, enfurecidas ou não, do mar, nas laterais do barco.

Era no caralho que o vigia perscrutava o horizonte em busca de sinais de terra.

Em frangalhos fisicamente, mas inteiro na sua dignidade, partiu de sua voz, a descoberta do Brasil, ao gritar: “terra à vista, ó pá”.

O conjunto da obra sobre o achamento do Brasil não poderia ser diferente, pois, antes mesmo de colocarem os pés em terra firme, o processo de falácias iniciou-se, ao mutilarem a frase dita, com a retirada da expressão, ó pá.

Quinhentos anos depois, o cantor e compositor Eduardo Dussek, de forma mordaz, canta uma música aludindo que o Brasil foi vendido à vista (na época do descobrimento), mas que agora é a prazo.

Os responsáveis por essas ignomínias deveriam estar a grilhões, condenados pelo crime de lesa-pátria.

Insaciáveis em se locupletarem chegaram ao limite da insensatez e, no entanto prosseguiram: hoje, doam o Brasil (entendam o hoje, como um período de 20 anos, afinal, estamos em termos cronológicos, falando de 500 anos).

As privatizações indecorosas, na era FHC, pagas com moedas podres (valendo o valor de face) e o restante com financiamentos proporcionados pelo BNDES.

Não tenho dúvidas que você conhece o processo, mas a náusea que me causa é tamanha, e por isso não tenho dúvida que serei perdoado por insistir em relatar de forma rudimentar o método.

O BNDES recebe aporte de recursos monetários do Tesouro Nacional, mediante a emissão por esse de títulos da dívida pública, captados no mercado a juros estratosféricos e repassados, por aquele, aos “investidores” a juros subsidiados (baixíssimos).

Essa diferença dos juros, além do principal, é coberta pelos impostos que todos nós brasileiros pagamos. (não fique indignado, afinal, as gerações futuras, seus netos, bisnetos, pagarão ainda por essa esbórnia, também).

Na era Lula, por questão de coerência eles não poderiam privatizar, e sordidamente fizeram o elementar, trocaram o nome de privatização para concessão. Utilizando-se dos mesmos métodos sórdidos do seu predecessor.

E o povo? Ah! o povo brasileiro foi mandado para aquela cesta, como o grumete.

O Brasil virou uma caravela gigante, onde o oficialato é composto pelos detentores dos poderes constituídos, crápulas por natureza e corruptos por gosto e pela certeza da impunidade. Lógico, que sempre se aplica a lei da exceção.

Recentemente alguns milhares de grumetes revoltados desceram ao passadiço e protestaram contras as ignomínias sofridas.

Os membros do oficialato, que são ladravazes na sua quase totalidade, mas não burros, cederam com migalhas.

Desgraçadamente o povo não percebeu que deveria sair definitivamente daquela vida no caralho e, mandar em caráter terminante, para o caralho, essa escória que nos representa.

Perdemos os ventos da história mais uma vez.

Com as devidas vênias gostaria de manter-me na definição de caralho (cesta) da Academia Portuguesa de Letras, contudo, exasperado, termino usando o verbete atualizado daquele vocábulo:

É ... a vida é do caralho.