segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma questão de princípios


O princípio de sua vida ocorreu apenas no último impulso, o do derradeiro esforço da mãe para expeli-lo do ventre, através daquela passagem que teimava em não ser suficiente para transpô-lo para o mundo dos mortais. Era uma questão de sobrevivência não apenas da mãe, mas, principalmente dele, no sentir dela, apesar das dores excruciantes.

Portanto, a sua incompatibilidade com o vernáculo “princípio” começou daí, afinal uma das definições dessa palavra diz: “o primeiro impulso dado a uma coisa”. (no caso dele foi o último).

Cresceu em condições precárias num ambiente imprestável à moradia, às relações pessoais, à educação, à saúde, enfim, à vida. Esses foram os elementos que moldaram as suas atitudes, delimitando e compondo o seu ser.

Desafortunadamente, mais uma vez, o termo “princípio” o afrontava, não mais ferindo uma de suas definições: “o que entra na composição de algo”, mas deixando-o numa composição em que a única nota musical presente era o “dó”. (de uma vida sempre sofrida)

Em síntese, o princípio que regula as regras ou os conhecimentos fundamentais o deixou a largo, à margem, convivendo e vivendo sob o império de leis paralelas e marginais, segundo a ótica dos princípios normativos do Estado.

Sobrevivia, inicialmente com pequenos furtos que cresceram à medida da evolução de sua constituição física, para grandes.

Certa noite, com uma fome secular, furtou uma quantidade significativa de gêneros alimentícios em um hipermercado. Na saída foi surpreendido pelos seguranças. Sem condições objetivas para empreender uma fuga, aguardou a chegada dos policiais.

Repleto de hematomas adentrou a sala do Dr. Delegado.

Era uma figura esguia e suas intervenções denotavam uma característica humanista, pelo menos no falar.

Diga cidadão – indagou a autoridade com uma voz tonitruante – qual foi o seu delito?

Furto, doutor – respondeu cabisbaixo.

O Dr. Delegado analisando as cóleras das leis, o enquadrou nos artigos e incisos adequados, desconsiderando a hipótese do furto famélico, onde a condenação é afastada, em função do volume furtado, afinal a quantidade subtraída, indubitavelmente, tinha fins de obtenção de vantagens econômicas.

Assinados por ambos o termo, o Dr. Delegado chama o carcereiro e profere a fatídica expressão: “aos costumes”.

Sem convicção, o preso resolve dirigir a palavra ao Dr. Delegado, ou melhor, repetir uma frase lida, em tempos idos, numa coletânea de expressões utilizadas, em petições e em declarações inscritas e subscritas em autos de processos judiciais pelos operadores do Direito:

“Doutor! A necessidade não conhece princípios.”

Não ouviu a possível resposta.

Fora arrastado brutalmente pelo carcereiro que tinha numa das mãos, a sua gola e na outra, um porrete que tinha a seguinte inscrição talhada na madeira: “Tudo é uma questão de princípios”.

A frase naquele instrumento de punição era base de uma teoria que desgraçadamente contemplava, também, uma das extensões do significado do termo “principio”.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ele era assim


Era um indivíduo estranho na forma de conduzir a vida.

Sua visão sobre os fatos da vida não era absolutamente convencional e sempre afirmava que a disparidade entre os projetos de vida e sua concretização era a mesma que sucedia entre o sonho e a realidade.

Não era um pessimista, sua disposição de espírito não o levava a encarar tudo pelo lado negativo, a esperar de tudo o pior, ao contrário, era um pragmático e como tal, a sua tese estava adstrita à utilidade e à satisfação. E ponto final.

Para muitos não passava de um cínico despudorado e para parcela faltante, um nefelibata inconseqüente, ele não achava absolutamente nada.

Não tinha o menor compromisso com seus erros e acertos, e esses últimos é que não mereciam, por parte dele, nenhuma relevância, nenhum apreço.

As quase improváveis censuras diretas as escutava atentamente, mas declinava do inalienável direito ao contraditório.

Em síntese, não se abalava com as críticas e nem recuava um mísero milímetro de suas convicções.

Detestava conhecer pessoas, as evitava, pois seguia a risca seu postulado sobre as atitudes humanas que tinha a seguinte dicção: “Não compareça a enterro de banqueiro, pois este retornará a vida, por um minuto, para exigir de você a reciprocidade, isso por mera força do hábito”. A assertiva era estendia, por analogia, a todos os viventes.

No fundo era incompreendido, tanto nas suas ações, quanto nas omissões.

Mantinha-se incólume diante das artimanhas da vida, pois, guiava sua caminhada apoiada na sua persuasão íntima: “Já que os meus parcos sonhos não podem ser realizados, evito a materialização dos meus fartos pesadelos”.

Desta forma seguia a vida.

Quanto aos outros que fizessem suas escolhas, certas ou erradas, afinal, não dizia respeito a ele.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A incerteza e a inocência naquela viagem de trem (década de 1950).


Condicionado, acordara no mesmo horário que compulsoriamente era impelido a abandonar a cama, independente dos humores do tempo, em seus últimos 37 anos de vida.

O seu relógio biológico e o outro, o da criação humana, não tinham mais nenhuma serventia, afinal, era o seu primeiro dia de aposentado.

E o tempo? Ah! O seu poder de mando fora condenado ao ostracismo por essas ironias da vida, enquanto subjugava muitos, destruindo outros, não percebera o decurso dele mesmo, o tempo, sobre aquele individuo.

Restava agora, apenas, assistir a vilania de sua irmã siamesa, a morte, sobre aquela pessoa. Nada mais poderia fazer apesar dos incautos acharem que ele, o tempo, era o agente da cessação definitiva das vidas. Ledo engano.

Irrequieto e irritadiço, circulava nos espaços internos de sua casa carregando um sentimento de ausência e essa sensação da presença do haver de menos era real, pois, aquela expectativa que o perseguia nos últimos meses, o de virar a página daquele enorme livro que abrigava os anos trabalhados de forma ininterrupta havia se materializado na véspera, quando assinara a rescisão trabalhista.

Acabou desabando o peso do corpo sobre aquela rede da varanda que o amparava, somente nos finais de semana ou feriados, e automaticamente acendeu um cigarro e tragou com avidez. Aquela sensação de prazer, própria dos tabagistas, acalmou seu espírito.

De repente, a sua faculdade para reter idéias, sensações, impressões, adquiridas outrora, começou a fluir.

Agora, retroagia ao passado e sentia aquelas lágrimas que teimavam em lavar as suas faces pré-adolescente, de forma despudorada e impulsiva provocando uma visão turva que atrapalhava as suas vistas deixando distorcidas, desfocadas, as últimas imagens da sua cidade natal, Muqui.

Encolhido naquele banco tosco de madeira daquele vagão da segunda classe que era o primeiro que estava engatado ao último da primeira classe, tremia.

Apertava contra o peito aquela mala de papelão que já tivera seus dias de glória e sedução, mas agora era um símbolo de derrota, de decadência pela precariedade, pelo excesso de uso, e que tinha duas serventias: abrigar as suas duas mudas de roupas e tentar abafar as batidas descompassadas e fortes do coração que insistia em, no seu sentir, sair pela boca.

Com o espírito confuso pelo medo provocado pela busca incerta de um futuro que pela sua natureza é sempre incerto, ouviu o apito derradeiro que indicava a partida daquele trem, um primor de alta tecnologia nessas plagas brasileiras, denominado de Maria Fumaça.

Aquele som nos seus ouvidos era como um lamento, um abandono, pela separação definitiva dos pais, dos irmãos e de sua vida de camponês.

Decisão que teve a anuência do pai, a discordância total da mãe e a emoção parcial dos oito irmãos que variavam em função de suas consciências sobre o significado daquela separação, em razão da variação das idades.

No seu destino, Volta Redonda, chegou depois de dez horas de viagem, entremeadas por paradas em estações de tamanhos e de formas variadas, mas nem naqueles intervalos de desembarques e embarques existiam tréguas na constância daquelas fagulhas que se transformavam em partículas frágeis, mas sólidas, que pulverizadas iam ao encontro de qualquer obstáculo, deixando suas marcas de negritude nos corpos e nas roupas dos passageiros.

Simplesmente, a sujeira era produto do carvão queimado nas caldeiras insaciáveis que impulsionavam aquele monstro de ferro, a locomotiva.

Perdido no sentimento e pelo senso de localização, não encontrava o endereço do parente que o abrigaria por poucos meses. Indagava às pessoas qual o caminho a seguir.

Passou por todas as necessidades que a vida impõe aos deserdados da sorte.

Depois de três meses, prazo máximo de validade determinado pelo tio para abrigá-lo foi morar num pardieiro e ser explorado por um dono de armazém desprovido de qualquer sentimento de humanidade.

Quando o desespero assumia proporções desumanas pensava em retornar à casa paterna, mas a insanidade dos perseverantes impedia o seu retorno.

Comeu o pão que o diabo amassou.

Aqui abro um parêntesis: o Tinhoso, ao receber a incumbência aludida, como castigo antes de ser defenestrado do céu, usou dos seus expedientes malévolos. O trigo transformava-se em massa, pelo movimento de suas manoplas dentro daquele caldeirão, quando os líquidos dos seus suores escorriam em bicas pela sua barba imemorial e caíam naquele recipiente. Para dar a liga necessária adicionava, também, a sua baba que escorria incontrolavelmente àquela mistura farinácea, formando, assim a pasta definitiva.

Caso houvesse uma mísera testemunha dessa cena dantesca, o nojo, a aversão, impediria a ingestão desse alimento e, também daqueles que tivessem na sua composição quaisquer vestígios de trigo.

Segundo a lenda, essa era a intenção do Cramulhão para afastar as pessoas de um segmento futuro, a do cristianismo, afinal, a hóstia é composta essencialmente de trigo. Fecho o aludido sinal gráfico que por sinal foi um dos maiores da língua portuguesa, uma excrescência.

Passou fome, vergonha e amargura. Mesmo naquele pesadelo, sonhava por dias melhores e dignos.

Estudou à luz de vela.

Como era um determinado, mesmo ferindo os requisitos basilares da sobrevivência, aboliu o jantar e acrescentou outras privações ao seu cotidiano já sofrido para pagar as mensalidades da faculdade, mas resistiu e formou-se.

Prestou um concurso público, passou e progrediu.

Agora, as lágrimas que desciam representavam a felicidade de sua conquista, a certeza de que compôs a sua história, mesmo com aquele conjunto disforme que a vida sempre o proporcionou.

Sorriu como há muito não fazia, apesar de rememorar os diversos sonhos que pereceram e do surgimento nefasto de vários pesadelos que se concretizaram.

Tudo passou e hoje prejulgava ser o senhor exclusivo de seus atos, como os escravos libertos do passado. Coitado, ficou livre apenas da peia, em razão da aposentadoria, esquecendo dos demais instrumentos utilizados por quem tem poder absoluto sobre o outro, como a gonilha, a gargalheira, o tronco, as algemas e o viramundo.
Afinal, como todos os seres humanos, estava sob o julgo dos desmandos da sociedade que tudo impõe e pouco oferece à semelhança dos donos dos escravos em tempos pretéritos

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Deus é simplesmente a mitocôndria


À beira de um colapso nervoso aguardou naquela imensidão de fila para utilizar o único orelhão disponível, e quando o fez a ligação não foi para seus familiares e sim para seu advogado.

Condenado por crimes hediondos e utilizando-se dos serviços de um famoso criminalístico, esse conseguiu por artifícios ardilosos o cumprimento da pena de seu constituinte num Manicômio Judiciário e não no sistema prisional comum. Uma aberração.

A sua felicidade durou pouco.

Conheceu um condenado que cursara até o quarto ano de medicina no exíguo período do banho de sol imposto pelo diretor do presídio que infringindo a Lei de Execuções Penais reduziu o espaço de exposição à luz solar dos apenados por questões meramente pessoais.

Denunciado por essa arbitrariedade, responde a processo interposto por um defensor público, mas isso é outra estória.

Aquele indivíduo, ex-estudante de medicina possuía um timbre de voz metálico que causava um incômodo natural a qualquer ouvinte, independente do assunto tratado.

Dirigindo-se aquele preso beneficiado pelos artifícios nebulosos de seu advogado foi logo afirmando: “caso Deus exista, ele é a mitocôndria”.

Ignorante que era, presumiu que mitocôndria era um palavrão e apesar de não ter uma convicção religiosa extremada, apesar de ter freqüentado parcimoniosamente um templo, não gostou da colocação. Era um sanguinário, mas tinha a convicção amparada no medo de que com Deus não se brinca.

O outro, apesar dos danos provocados por vários curtos circuitos nas suas redes neurais, numa concorrência desleal ao sistema elétrico brasileiro, percebeu a indignação do outro e para amenizar a situação ou expor a sua tese, sendo essa segunda hipótese a mais plausível disse:

“Companheiro, a mitocôndria encontra-se no interior da maioria das células do corpo humano. Veja bem, estão presentes em grandes quantidades nas células dos sistemas nervoso, muscular e no coração.

As células hospedam glicose, açúcar para os imbecis, aí que entra a mitocôndria que pega a glicose (“combustível”) e transforma em energia que é indispensável ao trabalho celular.

Entendeu?

Não? A mitocôndria é a usina de força da célula, ela libera a energia para o nosso corpo trabalhar.

Não dizem que Deus é energia? Logo, Deus é a mitocôndria.”

Com os olhos esbugalhados de pavor, agora menos pela ofensa a Deus e mais por estar ao lado de um louco varrido, não emitiu nenhuma palavra.

O teórico, vendo que seu interlocutor era uma besta quadrada, encerrou o assunto sem mencionar a questão do ectoplasma.

E saiu gesticulando sem a mínima coordenação e gritando: “É a mitocôndria, é a mitocôndria”.

Apavorado aguardou a ordem do guarda para entrar no parlatório e quase caiu na hora de sentar naquela cadeira tosca, cujo prazo de vencimento havia esgotado há muito tempo.

Sem responder o cumprimento do causídico foi logo dizendo: “Doutor, o senhor tem que me transferir daqui, tenho que ir para o sistema prisional comum. E tem que ser logo, o mais cedo possível”.

Aquele defensor de uma má causa, a daquele indivíduo que pedia aquele absurdo, depois de verdadeiros malabarismos jurídicos para colocá-lo num sistema mais brando, irritou-se.

O apenado contou aquela conversa que abalou definitivamente o seu sistema nervoso e complementou: “Doutor, caso eu fique aqui, aí sim que vou ficar maluco mesmo”.

Não me peça que explique, pois, o mundo jurídico assemelha-se a um hospício, e nesses descaminhos jurídicos o advogado conseguiu, logicamente com ação de um promotor, atender ao pedido de seu constituinte.

Mesmo naquele lugar que todos os prisioneiros dizem que o tempo não passa, transcorridos três anos da sua transferência, aquele criminoso enfrenta uma junta psiquiátrica e uma solitária, pois os presos o juraram de morte por não agüentarem aquela cantilena diária, há mais de um ano, de que a mitocôndria sim, é o verdadeiro Deus.

Por via transversa a verdadeira justiça foi feita, hoje demente, arrasta-se pelos corredores do Manicômio Judiciário, aplacando assim a dor dos familiares que perderam seus entes queridos pela ação cruel daquele assassino sem alma e permitindo aqueles espíritos que pertenciam àqueles corpos seguirem seus caminhos em direção ao infinito.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tempos e valores


Criado com princípios opostos aos vigentes era um ser sem estima e que o esforço de ânimo desaparecera há muito tempo.

E por decisão própria, frente à impropriedade dos valores atuais, vivia à margem, ou melhor, lançado à margem do convívio social pela força de suas convicções.

Chegara estender ao limite da sua compreensão o conceito da moral vigente, mas o esforço foi em vão, pois fugia de seu apreço pessoal essa nova regra de conduta nas relações humanas e com um travo de amargor constatara que seus valores seguiram o mesmo destino daquela época que fora criado, o do esquecimento e da desvalia.

A sua perplexidade provinha da moeda corrente e de livre aceitação na sociedade atual, cunhada, com a face do individualismo, e o reverso, com a da insensibilidade humana.

Por alguma razão veio a sua mente às moedas de curso legal de sua época de adolescência, as de mil-réis, que claudicavam por não terem os respectivos lastros em ouro, tornando seus valores de face desfigurados por não refletirem os mesmos valores de compra quando do lançamento à circulação.

Essa lembrança era uma analogia perfeita com os valores vigentes. Essa semelhança de propriedades podia ser considerado um paralelo, entretanto, não era uma explicação.

O curso do tempo tornara obsoleto o seu conhecimento, precária a sua saúde, entretanto, a vileza do tempo, ao contrário que muitos pensam que tudo pode, não tinha poderes para sujeitá-lo às mudanças do seu caráter, dos seus valores, de suas regras de conduta.

Consciente das circunstâncias e da impossibilidade de reverter à tendência do mundo mudou radicalmente ele.

Procurou um abrigo que acolhe e destrata, em sua grande maioria, os velhinhos desamparados.

E na convivência com os contemporâneos que ainda possuíam a capacidade de articular palavras pela integridade parcial dos neurônios que resistiam à velhice, retornavam ao passado, não para resgatarem a juventude, pela impossibilidade, mas a de recuperarem os valores daquela época.

Merece ressaltar, por estima à verdade, que os aludidos valores daquele período poderiam ser vistos pelas pessoas que viviam naquela época como rígidos e desproporcionais, contudo, nada como a passagem do tempo para depurar tudo e todos.

Agora, aquele indivíduo refratário caminhava sobre uma trilha empoeirada, com um olhar distante, sem viço, produto dos pensamentos e perspectivas de uma a vida vivida sob uma égide que, desgraçadamente, não encontrava ressonância nos dias atuais.

Os seus passos claudicantes levantaram um punhado de pó que embaçou a sua visão e maculou a imagem do passado e, imediatamente, o vazio que preenchia a sua alma ocupou definitivamente o seu espírito irrequieto e errante.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Uma condenação injusta de um desregrado (e a futura convivência com a maioria das autoridades públicas brasileiras) aos quintos do inferno.


Desde criança o seu desajuste era um prenúncio da vida mais que atrapalhada que levaria na fase adulta. Tudo era uma mera questão de tempo.

E o tempo chegou acrescentando àquele indivíduo cotas adicionais de maldades.

Percorreu todas as uniões e separações possíveis.

Do casamento ao descasamento; da mancebia ao caso mais fugaz; seguia sempre gerando em profusão filhos e os abandonando.

Utilizava-se da mesma frase desumana, a cada nascimento: “eu ponho filhos no mundo e Deus que os crie”. E ia em frente.

Ao ouvir o nome de seu desafeto, o Pai das Trevas, por ser um anjo decaído, ainda possuía o dom da onipresença e gritava mal humorado:

“Tá bom, tá bom, mas não fale o nome (Deus) dele não”. (Logicamente que aquele estorvo não ouvia a repreensão, afinal o Cramulhão estava em outro estágio espiritual).

Depois da reprimenda, o Diabo, com aquela expressão malévola partiu em busca de novas conquistas sabendo que aquele indivíduo já o pertencia.

Aquela figura que de humana só tinha a forma procurou todas as religiões, seitas e associações afins, sempre com intuito de levar alguma vantagem, afinal achava o dízimo ou outro numerário qualquer exigido dos fiés uma heresia a ser gasta apenas entre as autoridades eclesiásticas (homem dedicado ao serviço da Igreja), reconhecidas ou não.

Preteridos por todas, acabou transformando-se em um ateu, por mera retaliação às rejeições sofridas na sua busca por ganhos fáceis.

Com sua falta de sensibilidade também não percebia e não dava a devida atenção aos sinais, e por sinal esse foi o seu erro naquela manhã.

Depois de roubado na pesagem e no preço das latinhas levadas para reciclagem, o que atualmente era seu sustento, dirigiu-se a um boteco de décima-quinta categoria, que ostentava um letreiro meio apagado, mas com letras garrafais (sem trocadilho): “Local de Passagem”.

Fisicamente o bar ficava, numa esquina privilegiada, bem numa encruzilhada de simetria perfeita, onde os despachos de todas as naturezas e propósitos eram ofertados.

O ambiente do bar ressentia, logicamente, a teores alcoólicos desqualificadores, acrescidos de um cheiro quase insuportável de velas usadas.

No meio daquela desordem de bebidas, ovos coloridos, moelas murchas e outros petiscos não declináveis existiam uma infinidade de imagens de tamanhos, funções e cores variadas, onde o reconhecimento das mesmas exigia o aval de um expert no assunto.

Ofegante e sedento adentrou aquele ambiente mortiço, mesmo com a incidência dos raios matinais.

Mal educado, não cumprimentou nenhum dos freqüentadores, que, aliás, já era em número expressivo naquela hora da manhã, e pediu um rabo de galo.

Sem cumprir a ritualística de jogar o primeiro gole para o santo, virou o copo e imediatamente um engasgar inabitual ocorreu e ao aspergir o líquido na sua totalidade, esbarrou numa estátua esquisita que balançou, balançou, mas não caiu.

Pares de olhos incrédulos e arregalados foram dirigidos a ele, recriminando a sua conduta sacrílega e quase simultaneamente, uma avalanche de arrepios foi de encontro a todos aqueles corpos entorpecidos pelo álcool.

O dono do bar, que era vidente, sentiu uma imensa comichão em sua careca.

Trêmulo assistiu um grupo razoável de entidades irem às vias de fatos para saciarem seus desejos, mesmo que fosse por uma mísera gotícula daquela bebida pulverizada por aquele incauto. A maioria ficou a seco e a revolta foi geradora daquele calafrio.

Sabedor que desde o surgimento da beberagem no mundo, aqueles seres incorpóreos saciavam seus desejos apenas e tão somente pela oferta dos ébrios de uma porção de seus vícios, exceção feita apenas em despachos.

Ele, o dono, nada podia fazer para abrandar aquela revolta, aquela cizânia que se iniciava.

Invocado pelo desperdício daquela bebida de qualidade para seu bico, em razão da obstrução estúpida de sua garganta, exclamou: “Que sacanagem, Deus!”

Logo, ao proferir tamanha heresia, o dono do bar foi o único a ouvir aquela gargalhada gostosamente diabólica, intercalada entre baforadas exageradas daquele charuto calibre .51 feito sobre coxas gostosamente femininas.

Trêmulo, diante do Coisa-Ruim, acovardou-se e não fez o sinal da cruz.

Aquela figura inconseqüente continuou a reclamar e agora com parcos recursos que dispunha só poderia apelar para uma cachaça de paladar mais que duvidoso.

Sem alternativa pediu um copo cheio mas enfatizou, cheio até o talo.

Usufruindo com antecedência do prazer daquela queimação que percorreria suas entranhas vazias de coisas sólidas, fez aquele movimento brusco para usufruir até da última gota.

No meio do gesto, um estalo sem qualquer motivo surgiu e em suas mãos ficaram somente fragmentos daquele copo e o líquido anteriormente presente desapareceu diante de seus olhos incrédulos.

O dono foi tomado de pruridos que avançavam agora sobre seu corpo, mas os olhos estavam petrificados vendo o engalfinhamento daqueles seres imateriais, incorpóreos, numa luta fratricida para ingerirem aquela cachaça que não permitiram chegar a escorrer pelo balcão.

O desregrado saltou do banco para protestar, e em frações de segundos beijava aquele chão imundo do boteco, sem identificar o protagonista daquela rasteira.

Uma sobriedade incomum envolveu aqueles corpos entorpecidos e encharcados pelo álcool até a alma naquele momento.

Do medo à chegada do pavor durou frações de segundos para eles.

O desregrado foi envolvido pela aquela corja, agora de sóbrios e recebeu no meio de broncas impronunciáveis, as informações que explicavam aqueles acontecimentos.

Entre a razão que é a faculdade para se chegar a uma decisão ou conclusão pelo raciocínio, ou acreditar nas coisas que não via, mas que há pouco presenciou e sentiu, optou pela terceira via, a de matar seu desejo agora com uma garrafa de marafo que pertencia a um despacho.

Pisou nas oferendas e abriu aquela cachaça de rolha com os dentes e ao cuspir aquele pedaço roliço de cortiça começou a sentir uma tremedeira sem fim e ouvir palavras desconhecidas proferidas em mandinga e sem forças apagou desse mundo.

Hoje, no mundo das trevas, não passa de um terceiro cabo trombeteiro da falange mais desqualificada daquela hoste de Lúcifer, sendo obrigado adicionalmente a carregar nas costas uma listagem enorme com os nomes dos futuros companheiros que hoje ocupam cargos expressivos nos poderes constituídos do Brasil e é esse castigo que ainda não é, mas vai ser, que é a causa de sua revolta.

Afinal, arrependimento sobre sua conduta indigna na vida terrena não existe, mas a sua indignação é ser coagido pelo Tinhoso a conviver eternamente com essas pústulas, esses ladravazes que hoje se locupletam com a desgraça dos deserdados da sorte que habitam em agonia aquele país.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De vencedor a derrotado



Naquela região castigada pela natureza e pela desídia dos homens, as crianças quando sobreviviam eram marcadas por deficiências físicas e às vezes mentais, os poucos que fugiam a regra eram marcados por uma fome ancestral.

Considerando a hipotética lavratura da vida de cada pessoa no Livro do Destino, uma daquelas crianças, um garoto, conseguiu com sua determinação alterar seu destino promovendo uma Errata nas anotações previamente registradas sobre o seu futuro.

Em condições extremamente adversas conseguiu, à custa de extirpar a infância e juventude de sua existência, prover seu sustento e mesmo combalido pelo cansaço da faina diária encontrar resistências para estudar à noite.

Privado de alimentar-se condignamente, a fome sempre escarnecera dele, mas não desistia, sobrevivia, ou melhor, agonizava cotidianamente com uma alimentação infinitamente inferior à franciscana.

Invariavelmente, a composição de sua ração diária era constituída por frações de raspas de rapadura diluídas em água de bica e acompanhada da solidariedade da farinha de mandioca de terceira linha, aquela destinada aos porcos, que aliviava suas entranhas.

Esse manjar dos deuses decaídos era sofregamente ingerido no período definido como jantar pelas classes privilegiadas, as que se regalavam com três refeições diárias.

Sua capacidade e a sua obstinação o tornaram um autoditada em línguas estrangeiras, aprendera inglês, francês, alemão, italiano e espanhol.

Migrara para o Rio de Janeiro, capital da República, prestara um concurso e entrara numa empresa estatal.

Agora com o salário digno procurara os cursos de línguas, especificamente as que dominava e, num período inferior a um ano, recebia os diplomas respectivos.

Em um novo concurso, agora interno, passara para o cargo de tradutor.

A timidez sempre fora sua companheira inseparável e para completar o seu convívio aziago interior, trazia a companhia mal ajambrada de um complexo que concorria somente com o seu corpo que, aliás, era a razão de sua falta de estima.

Baixo, com uma obesidade próxima da morbidez que representava um ajuste de contas com o passado famélico, com uma calvície devastadoramente precoce e com aqueles traços teimosamente repetidos por uma natureza incompetente que identificam todos os rostos dos nordestinos seguia a vida com suas pernas curtas e claudicantes.

A bem da verdade, não era efetivamente uma figura agradável aos olhos, em termos estéticos, entretanto não chegava ao extremo, o da feiúra completa, mas quase.

Em sua solidão provocada pelos males da alma resolvera trocar correspondências, algo comum na década de 50 do século passado, com mulheres que, também por razões diversas procuravam sua outra metade, através desse método não muito ortodoxo.

Em meses, acabara apaixonando-se por uma portuguesa. As trocas de cartas eram intensas e sempre a integridade das folhas redigidas era maculada, às vezes por lágrimas solitárias, mas, invariavelmente, por gotículas de perfumes que acabavam entranhando nas fotografias enviadas por ambas as partes.

Aquela relação intensa entre pessoas ausentes fisicamente chegou ao limite e numa noite insone decidiu-se.

As papeladas necessárias foram reunidas e encaminhadas ao Consulado Português e num intervalo inferior a 20 dias foi comunicado sobre o seu novo estado civil, estava casado, pela procuração interposta.

A ansiedade do contato físico, do primeiro beijo, das primeiras conversas audíveis aumentava com a proximidade do encontro definitivo com sua amada.

No dia da chegada do navio encontrava-se no píer com horas de antecedência. O coração descompassado, a sudorese excessiva, o tremor incontrolável nas mãos eram tributos exigidos pela paixão, segundo sua percepção.

Entendia que o amor, em algum momento, tem o seu calvário próprio e inocentemente achava que suas reações nervosas faziam parte dele e que seria o único. Ledo e ivo engano.

O choque foi imenso. A pessoa com quem casara nada tinha a ver com as das fotografias recebidas e aquele momento foi o marco de seu processo de catatonia e a sua via-crúcis, agora sim, iniciava.

O complexo de inferioridade assumira uma proporção oceânica.

Passara a beber de forma contumaz.

Quando o fazia com os companheiros de repartição, após o terceiro chope sua mente ficava entorpecida, mas sua língua parecia ter vida própria e desatava a falar sobre o trauma do seu casamento e de outros.

Expunha as vísceras de sua alma aos ouvintes que com valores diversos estimulavam que detalhasse suas mazelas, as suas vicissitudes e ele, recatado no cotidiano, as fazia em profusão sob o efeito do álcool.

No dia seguinte, suas amarguras, suas dores eram espalhadas pela empresa sempre de forma desrespeitosa e humilhante, às suas costas.

Em determinado dia, ao adentrar uma sala a sua presença não fora percebida e entre galhofas, um grupo deleitava-se com os comentários desairosos sobre sua pessoa, feitos por um dos colegas de copo da noite passada que expunha a sua vida, as suas agruras, os seus complexos, sempre de forma cruel e desumana.

Destruído moral e psicologicamente, retirou-se como entrara, sem ser visto.

Sua mente, sempre resistindo às águas turbulentas dos traumas, encontrava-se agora exaurida pela tormenta provocada pelos comentários e pelas observações de seus pares.

No dia seguinte, próximo ao horário do almoço pegou sua pasta e dirigiu-se à sala daquela pessoa que o tripudiara.

Para infelicidade do mesmo encontrava-se sozinho, datilografando um parecer, de costas para quem entrava na sala.

De forma silente, abriu a maleta e retirou uma corda. Aproximou-se de sua vítima potencial e em frações de segundos começara a estrangulá-lo.

O ato não se consumara, pois entraram na sala três colegas de trabalho e diante daquela cena dantesca do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri, evitaram o pior.

O Serviço Médico da empresa fora acionado e ele saíra numa camisa-de-força.

Em um espaço curto de tempo, entrara e saíra diversas vezes daquela instituição que cuidava dos desequilibrados mentais, até que um dia entrara para não retornar nunca mais.

O destino, com sua índole perversa, não admitiu a reescrita, à sua revelia, da ordem dos acontecimentos que deveriam se suceder fatalmente, que acabou por macular o seu Livro com aquela Errata redigida pela determinação daquele menino de outrora.

O destino, esse farsante insensível, não tivera pressa, deu tempo ao tempo, e lavrou, mediante adendo no seu Livro, a sua desforra, tornando aquele detentor de um intelecto privilegiado em portador de uma insanidade mental incurável.

Em outras palavras, o destino na sua soberba impingiu àquele que tentou desqualificá-lo, o outro significado de destino: a “falta de tino”.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vossa Excelência


Bastava adentrar aquele local e era atendido pelo mesmo profissional que há mais de uma década dedicava-se quase com exclusividade em acatar o seu pedido. Esse jamais fora alterado ao longo dos anos e sempre repetido num tom sóbrio, acompanhado de uma excelente dicção e uma impostação de voz inigualável.

- Bom dia, Excelência – saudou o funcionário.

Jamais houve uma vibração proveniente de suas cordas vocais como resposta aquela saudação diária ao longo dos anos.

Ao cumprimento educado do servidor sempre repetia um mesmo gesto, quase imperceptível, um movimento de cabeça, que sempre era interpretado pelo outro como uma reciprocidade sincera ao seu desejo formulado anteriormente.

Com um andar solene, cabeça erguida e com as costas eretas, dirigia-se ao mesmo local, desde épocas pretéritas que guardava uma distância considerável em relação aos demais clientes.

Servido, mastigava inúmeras vezes o naco da torrada e sorvia com goles mais que avaros o conteúdo de sua xícara que devia ser mergulhada em água fervente ás suas vistas, antes de ser preenchida pelo líquido a ser servido.

Fazia seu desjejum em completo silêncio.

Contudo, naquele dia, após beber o primeiro gole fez um gesto que escapava aos olhos dos mais atentos, mas não do seu atendente a quem cabia o privilégio de atendê-lo.

Prezado - disse Vossa Excelência - essa substância, produto do arbusto da família botânica Rubiácea, encontra-se fora dos padrões, significando que foi delituosamente alterado no seu sabor, posto que não foram atendidos os pré-requisitos básicos, a saber:

- a temperatura ideal para sua preparação não foi observada, sendo superior aos 95ºC;

- com a fervura acima da aludida gradação de temperatura houve a alteração no ph e na acidez da água que ocasiona uma modificação substantiva no sabor do café;

- para agravar essa desídia, ainda fui servido com a infusão fora da temperatura ideal para consumo, a mesma tem que estar em torno de 65ºC, pois acima, além de provocar queimaduras nas membranas mucosas da língua, incita um transtorno adicional no paladar.

Excelência, perdoe-me. Será providenciada, imediatamente, a feitura de um novo café dentro dos padrões estabelecidos – disse o empregado.

Apesar das observações e repreensões terem sido proferidas num tom normal de civilidade, os demais presentes acabaram ouvindo e ficaram perplexos com aquele indivíduo ímpar na forma de agir, no modo de vestir-se e, principalmente, pelo conhecimento externado.

Perplexos, dirigiram-se os olhares entre si, sem jamais ousarem pousar suas vistas na Vossa Excelência, pois, havia ordens expressas para não incomodá-lo sob qualquer pretexto.

Indignado, Vossa Excelência respondeu ao atendente de forma taxativa, definitiva: “Jamais retornarei a esse recinto que fui assíduo por mais de uma década. Isso é uma ignomínia com qualquer cliente”.

As reações dentre os demais clientes foram ambíguas ao verem a postura de Vossa Excelência que demonstrou uma faceta desconhecida, a de possuir um gênio irascível quando contrariado.

Pisando firme, afastou-se do local, envolvido em seus andrajos, mas limpos.
Afinal, Vossa Excelência era um mendigo que vivia naquelas cercanias havia anos e, portanto, incorporado ao local.

Era considerado como um patrimônio do bairro.
Histórico?

Sim – respondo eu – pelo descaso e pela desumanidade de todos ao longo do tempo, pois, era tratado e visto, apenas, como uma personagem, perversamente, adjetivada de folclórica e não como um ser humano necessitado de ajuda, de solidariedade.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Era um otimista - nada de baixo astral


As restrições impostas pela vida o levaram àquela situação letárgica, não a que induz a sonolência, mas aquela que provoca a indiferença, a apatia pela vida.

As suas energias foram-se esvaindo e estavam num nível crítico, grave, mas grave mesmo; os pensamentos tortuosamente confusos provocavam uma destemperança em suas idéias que a induziam a seguirem céleres em direção ao território árido e sem vida, o da desesperança.

Em resumo, caso ele fosse um astro do sistema solar estaria naquela zona denominada de penumbra, onde apenas uma parte do disco solar é visível.

O seu estado de espírito avançou ao limite da sombra quase total, e não obstante, prosseguiu, e agora se encontrava na mais completa escuridão, que no fundo, no fundo, era aquela zona denominada de baixo astral.

Essa situação, indubitavelmente, não se adequava à sua personalidade, pois, era um otimista por excelência.

Com o dinheiro da indenização pela dispensa injusta do trabalho, que, diga-se de passagem, fora desgraçadamente roubado nos cálculos rescisórios, resolveu comprar alguns livros de auto-ajuda, ao invés de quitar algumas pendências financeiras.

Entregou-se à leitura, com avidez. Com aquela sofreguidão típica dos necessitados que no seu caso era, primeiramente, à busca pelo equilíbrio emocional que teimava em insistir naquele movimento pendular incessante, e secundariamente, o resgate de sua auto-estima que estava num estado de desvalia total.

Como um otimista incorrigível, avaliou que, além da leitura dos textos, conseguira um ganho suplementar significativo, o abrandamento daquela fome avassaladora, utilizando-se da força do pensamento que apesar de tudo encharcava as suas entranhas de sucos gástricos, que provocavam um efeito colateral nefasto - a de uma dor fina e constante - oriunda de uma úlcera acalentada de longa data.

Quando fechou a última página do último livro, com o espírito completamente revigorado pelos textos, mas combalido por uma fome secular, não hesitou, foi em busca de um novo emprego.

O mercado estava refratário às novas vagas.

Para complicar a sua vida atrapalhada, deparou-se com a insensibilidade do senhorio em querer receber, num futuro incerto, os aluguéis em atraso.

O resultado foi procurar abrigo no único local possível e disponível, a rua.

Mesmo naquela situação adversa as frases que sublinhara em alguns livros vinham à mente de forma recorrente: “No fim tudo dá certo, se não deu certo é por que não chegou o fim!”, ou, “Para todo fim há um recomeço”, ou, a mais calhorda de todas – “Saiba que todo poço tem saída, para isso acontecer basta você querer!”
E olha que ele tentou.

Mesmo com as forças combalidas, ele lutou titanicamente contra todas as adversidades e como viram, não eram poucas.

Hoje, tuberculoso, procura na farmácia do hospital o segundo frasco do remédio, obedecendo as ordens estritas do doutor para não interromper o seu tratamento, pois a reincidência poderia levar a óbito. Entretanto, a atendente sem comoção nenhuma diz que não tem e ressalva de forma fria e distante que provavelmente não chegará nas próximas duas semanas.

Quanto à fartura na alimentação, outra prescrição médica, essa variava em função dos achados nos latões de lixos dos restaurantes, durante as madrugadas frias.

Esquálido, imundo, com uma tosse incessante, fraco, repete a exaustão: “Por mais que sejam escuras as nuvens e causem medo, elas são passageiras, então sempre acredite no amanhã.”

Com o avanço da doença pela irresponsabilidade do Estado, associado à alimentação deficiente e contaminada, definha e caminha em direção ao fim, contudo, sempre mantendo aquela fé inabalável de que tudo vai mudar.

Com esse pensamento fixo, distraído, atravessa uma rua e zás! É atropelado por um ônibus. O socorro chega com certo atraso.

Imediatamente, os profissionais avaliam a sua situação e um paramédico pergunta o seu nome. Ele responde. A médica indaga se ele tem alergia a algum remédio, ele nos estertores, responde: tenho alergia a atropelamento, principalmente, de coletivo.

É levado com a pressa possível naquele trânsito caótico, mas falece no percurso.
Não sei, honestamente, se ele foi otimista até fim, mas tenha a plena convicção de seu insuperável senso de humor, negro – penso eu.

sábado, 10 de setembro de 2011

O cinismo sobre a Terceira Idade



A insanidade humana chegou a uma situação limite.

Ao adentrar os limites físicos daquela instituição o ar tornara-se mais denso, seu corpo cansado e maltratado parecia desintegrar-se, os fragmentos de humanidade que até então teimavam existir em sua mente, desapareceram por completo.

O processo de desumanização começara com o número de identificação que recebera e seria um adorno perene em suas vestes.

Abandonada pelos seus naquele espaço lúgubre denominado: Lar da Terceira Idade.

A banalização da família mudara o conceito de lar de outrora, onde as pessoas viviam unidas por laços sangüíneos. Sofrera uma transformação total que levaram até os dicionaristas, a incluir uma nova conceituação de lar, denominando assim, aquelas pessoas unidas por alianças, ou seja, relação estabelecida entre indivíduos ou grupos sociais díspares.

O eufemismo terceira idade, ou melhor idade, retrata a necessidade de criação de rótulos por uma sociedade hipócrita para simplesmente estigmatizar na essência, mas superficialmente dar uma conotação civilizatória.

Idade, por definição, é o número de anos de alguém, e ponto final. (desculpe a redundância).

O que significa melhor idade? Provavelmente será para os médicos, para enfermeiros, para a indústria farmacêutica, mas honestamente, não para aqueles que sobrevivem mais. Não venham com argumentos falaciosos.

E os ditos bailes da terceira idade? É de uma conveniência social sem precedentes, assim cinicamente afirmam. A imagem transmitida é da importância da interação com seus semelhantes, nada mais falso.

Assistam a um desses bailes.

O número de senhoras idosas é infinitamente maior do que o dos homens. Como são de outra época, onde o cavalheirismo fazia parte da conduta social, as senhoras ficam sentadas por horas, aguardando a sua vez para dançarem com eles. Quando não resolvem formar par entre elas.

É um processo contínuo de rejeição, entretanto, isso é um problema menor. O maior dos problemas é quando chegam à semana seguinte e sentem a falta de um. A ausência pode ser em decorrência do agravamento da doença, de um insulto cerebral, ou da morte.

Os idosos deveriam conviver com os seus. Participar, mesmo que passivamente, dos problemas de toda sorte vivenciados pelos filhos; ter o direito de ser atormentados pelos netos e seus coleguinhas, isso sim é vida. E lógico, irem aos bailes tendo como companhia um dos seus familiares.

Entretanto são abandonados (as) e recolhidos (as) nessas casas de assistência social, pagas ou públicas.

O pagamento não é um atenuante para seus gestos indignos, nem mesmo como abrandamento de suas consciências pesadas.

O passado? Ah... dane-se o passado. Os sofrimentos, as renúncias, o amor pleno dispensado aos filhos, nesses momentos de chegada da idade provecta são esquecidos e a contrapartida é recolhê-los a um asilo.

Asilo é uma palavra de vários significados, tem-se o asilo político que é o lugar onde ficam isentos da execução das leis do seu país, os que a ele recolhem livremente, no sentido da escolha do país a se refugiar.

O asilo para onde são encaminhados os da terceira idade (faça-me o favor!) é lugar onde compulsoriamente ficam os rebotalhos, os refugos humanos, premidos pelos filhos que os desterram em vida, pela falta de amor e paciência.

domingo, 4 de setembro de 2011

De humano, apenas a forma.


A insensibilidade dele percorria, sem exceção, todos os seus bilhões de neurônios reprimidos naquela caixa craniana que, por questão de inteireza intelectual não ficava nada a dever, pela malignidade, ao conteúdo da mitológica caixinha de Pandora.

Relembrando aos esquecidos e informando aos que a desconhecem, quando Pandora abriu a mencionada caixinha e percebeu que com seu gesto libertou quase todos os males que estavam ali guardados, imediatamente fechou-a, amedrontada por testemunhar as coisas extremamente ruins que de lá saíram, mas, infelizmente, para a humanidade, tardiamente.

Entretanto, o último e mais importante dos infortúnios permanecera dentro da caixa, o destruidor da esperança, o ser que traria a desgraça total ao mundo.

Depois de milhares e milhares de anos, de sucessivas e incontroláveis mutações genéticas autônomas e, também, aleatórias, o indivíduo a que me refiro, faz parte dessa linhagem que depois dessas várias metamorfoses, materializou-se nessa estrutura molecular que macula a natureza humana e leva a sua alma, que é a parte imortal do ser humano, desejar o inimaginável, a morte.

As pessoas que aparentemente deveriam ser as mais importantes e que foram retiradas dele pela cessação da vida, de forma abrupta, foram contempladas com olhares e sentimentos de distanciamento, de uma frieza que concorria apenas com aqueles corpos já gélidos, desprotegidos pela presença do fim.

Aquela atitude sórdida perdura nos dias atuais, pois, quando um dos circuitos cerebrais materializa, por acidente de percurso, no surgimento de lembranças daqueles entes próximos, imediatamente, apesar da complexidade dos dispositivos da memória, a sua natureza é facilmente enganada, e assim, ele as distorce, forjando as verdades mais contundentes, ficando registradas apenas as de suas conveniências.

Esse exercício fraudulento para o completo esquecimento originou-se numa noite fria e chuvosa, onde acordou perturbado, com arritmias cardíacas e com as roupas encharcadas de uma sudorese senegalesca, em razão de um sonho.

As imagens eram de seus mortos e os diálogos travados foram uma verdadeira catarse, mas não aquela catarse estimulada pelo profissional de psicologia que consiste em estimular o paciente a contar sobre determinado assunto, a fim de obter uma “purgação” da mente.

Não.

Os diálogos com seus mortos fluíram espontaneamente de forma serena e emitidos por aqueles lábios que outrora os cobriu de conselhos, de carinhos e de amores, quando em vidas. Entretanto, foram claros, objetivos, sem as máculas das agressões ou de cobranças, mas foram cirúrgicos, com a mesma precisão dos restauradores de artes, foram exatos em relembrar e restaurar as verdades.

Diante de suas palavras e da mudez total dele durante aquele período, despediram-se deixando o calor daqueles lábios em suas faces e esse contato de compaixão o fez acordar naquele estado lastimável, pela severidade das verdades proferidas e, pela conseqüência imediata, do drama de consciência.

A vida é cruel e afinal essas pessoas tiveram a má sorte, pelas artes confusas do destino, de terem seus corpos acorrentados aos daquele indivíduo pelo atavismo dos elos sanguíneos.

Ele continua a caminhar de forma solitária, espalhando discórdias, desdém e maldades.

Quando a sua hora derradeira chegar, vagará, entre os lixos cósmicos que o descriminarão, pois, afinal são resíduos de outra qualidade.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ele e ele mesmo.


Conversa a sós e mesmo assim as discussões eram sempre acaloradas e a sensação de quem assistia e percebia as suas expressões faciais não tinha nenhum resquício de dúvida: ele saíra perdedor daquela contenda, contra ele mesmo.

Cabisbaixo, quase sem fôlego, retirava-se do local da controvérsia, fosse no trabalho, na rua ou em casa, em busca de paz e de argumentos para uma próxima discussão que à medida que o tempo passava, era sempre mais próxima.

Não... não era louco, um demente. A sua atitude ressentia os seus primeiros 15 anos de vida, onde não conseguia exprimir um mísero som.

Sempre fora objeto de rejeição, de gozações impiedosas nas ruas e, desgraçadamente, também no convívio familiar.

A família, sem posses, bem que tentou nesses serviços públicos que aviltam a dignidade humana, sempre com vagas para atendimento marcadas para meses depois, um tratamento com profissionais de psicologia e fonoaudiologia. Tudo em vão. Quando cumpriam as datas marcadas, o tempo de atendimento era exíguo e assim, depois de muitas idas e vindas, abandonou as idas (não somente as da busca de resolução ou minização do problema que em nome da verdade nunca foi seriamente avaliado, mas pelo esgotamento da paciência pelo excesso do descaso).

Numa dessas trapalhadas do destino, abandonado na solidão do seu quarto, deparou-se com uma revista de seu irmão mais velho, cujo conteúdo era a inexistência do mesmo, em se tratando de roupas e textos.

Era um exemplar de mulheres nuas para todos os gostos e desejos.

Junto com a arritmia, com a sudorese, pela visão de uma calipígia que merecera a sensibilidade do editor, em colocá-la na página central da publicação, um comichão estranho percorreu a parte inferior do seu corpo, afinal era a primeira vez que via uma mulher desnuda, apesar de não ser ao vivo, era pelo menos a cores.

Aquela reação do organismo ao estímulo externo foi um êxtase menor, subalterno, diante de um arrebatamento muito maior e divinamente prazeroso ao fluir de forma súbita, a tartamudez.

Naqueles tropeços com as palavras jamais pronunciadas na vida, saiu um sonoro:
“Ca-ca-caraaa-lhooooooooo”.

Da situação de tartamudo a posição de prolixo se passaram ainda alguns anos.

Hoje, comete o excesso de falar, de discutir consigo próprio num tom adequado e com uma dicção perfeita, mas ao ver uma calipígia a gagueira retorna, acompanhada sempre e unicamente do primeiro som emitido na vida.

Que coisa! A vida é do ...... (bem, deixa prá lá), mas que é, é.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os diversos distúrbios do sono em um único cidadão – que pesadelo.


Nasceu de parto natural, sem qualquer incidente, com peso e tamanho dentro dos parâmetros da normalidade.

Na sua primeira noite em casa, esparramado no berço, os pais olhando aquela criaturinha angelical tiveram uma premonição ao anunciarem que o futuro dela seria sui generis, e foi.

Afinal recorrendo ao significado de premonição que é um pensamento ou sonho que parece anunciar-nos o futuro, indubitavelmente o infortúnio dele começara naquela noite.

Cresceu e agora na puberdade os seus dias da semana são completamente distintos dos outros, sem o mínimo vestígio da força do hábito, mas ao projetar para as semanas subseqüentes a sua rotina é excruciante, pois as noites de domingos são sempre iguais; as de segundas, idênticas e assim, sucessivamente para os demais dias que encerram a semana.

Confuso? Não. Embaraçado e desgraçadamente sofrido é para ele. O destino limitado na sua sordidez deu-lhe uma série de distúrbios do sono que avança no terreno da dissonia e chega ao pântano da parassonia.

Caso não entendam o percurso dele (da dissonia a parassonia) pelo desconhecimento do significado das palavras, rogo que não ignorem a situação dele.

É muito pior que a de vocês, afinal com o recurso do dicionário os seus problemas estarão resolvidos imediatamente, mas o caso dele, não. É extremamente complexo, e apesar de idas sucessivas e reiteradas a diversos especialistas não consegue um diagnóstico cabal e definitivo para o seu problema e por via de conseqüência, um tratamento.

Às segundas-feiras, às quartas-feiras, às sextas-feiras e domingos sofre com algumas vertentes da dissonia, nos demais dias, padece com alguns dos desdobramentos da parassonia.

A insônia, essa dama de péssima reputação é sua companheira nas caladas da noite de segunda-feira. Procura ocupar o seu tempo ao desabrigo do sono analisando o motivo desse tipo de dissonia, denominada de insônia psicofisiológica e por estudioso no assunto analisa os motivos dessa manifestação, se originárias de alterações psicológicas ou decorrentes de doenças neurológicas ou psiquiátricas? Não chega a uma conclusão, por óbvio, do contrário desqualificaria os profissionais da área.

Agora tem certezas definitivas que suas insônias não decorrem do uso de drogas, de álcool, de cafeína, pois, não faz uso das mesmas, mas já conjetura em utilizá-las.

Na noite de terça-feira o sonambulismo faz-se presente. Quanto a esse distúrbio sabe que é provocado por uma arritmia cerebral decorrente de uma herança genética – que herança! O seu conforto é que se trata de um distúrbio benigno, onde as funções motoras despertam, enquanto a consciência continua dormindo.

Aqui abro um parêntesis (O problema não é o sonambulismo, mas uma reação associada que denota um sério desvio do seu caráter, pois, transforma-se em um cleptomaníaco nas suas andanças dormindo, roubando sempre peças pequenas, mas de valores substanciais da casa e, inclusive dele próprio. Enfim, é um distúrbio de outra ordem e natureza. Para recrudescer essa atitude prevista nas iras do Código Penal, acresce outra infâmia, a do preconceito. Explico: abrira um buraco no colchão com maestria e aquele local, enquanto sonha, transforma-se num escritório de um judeu em que empenha as jóias furtadas, após negociações exaustivas sobre os preços - bem, fecho o aludido sinal gráfico).

Na quarta-feira tem alucinações hipnagógicas, isto é, sonha acordado, o que é uma das variantes da narcolepsia que encontra abrigo na insônia idiopática. Que negócio complicado da porra.

A presença da parassonia, na figura do sonilóquio transforma a noite de quinta-feira em caso de polícia. O problema é que sua voz tem a mesma intensidade dos discursos dos políticos em palanques improvisados, em épocas eleitorais, isto é, berra a pleno pulmões. Por honestidade intelectual a semelhança com os indignos representantes do povo acaba por aí, pois aqueles utilizam dos valhacoutos para urdirem planos para se locupletarem. Ele fica adstrito aos limites da cama.

Na sexta-feira padece da Percepção Inadequada do Estado do Sono que denota a dificuldade de iniciar ou manter o sono.

Quanto ao fato do seu sono não ser reparador, isso é de uma obviedade gritante, o problema é o prejuízo significativo nas suas atividades sexuais, pois as perdas sociais e as ocupacionais são definitivas.

O sábado é o dia da semana que dorme o sono dos justos, apesar de sofrer de dois distúrbios lavrados na parassonia, a do bruxismo e da enurese. Em resumo, acorda com fortes dores de cabeça, na articulação mandibular provocadas pelo hábito de apertar e ranger os dentes quando está dormindo.

Agora, quanto à enurese é constrangedor, pois acorda todo molhado e não é de suor, é de urina mesmo, pois, a micção é involuntária.

O domingo que deveria ser o dia de descanso, de relaxamento para a maioria dos mortais, para ele é devastador, em razão das dores musculares que o deixam em petição de miséria pela promiscuidade das insônias psicofisiológicas e idiopáticas.
Pela primeira sofre de mioclonia que provoca uma contração e distensão involuntária, violenta e súbita, de um músculo ou grupo de músculos, no caso dele, na forma de pontapés quase incessantes durante o sono; pela segunda, sofre de cataplexia que é o amolecimento do corpo pelas fortes emoções vivenciadas em decorrência da narcolepsia.

Exaurido não procura mais a responsável pelo seu estado, se a mioclonia, se a cataplexia ou ambas.

Fui prestar uma consultoria ao pai do jovem e na saída, por questão de civilidade, desejei boa-noite a todos.

Ouvi em alto e bom som, por parte dele, a seguinte expressão: “Seu filho da p...”.
Perplexo e antes de esboçar qualquer reação fui retirado apressadamente pelo pai com insistentes pedidos de desculpas que no espaço exíguo de sua porta à portaria do prédio fez uma breve explanação sobre os problemas do rapaz.
Aceitei as escusas e segui o meu caminho com o seguinte pensamento recorrente:
“Efetivamente, o rapaz não quis ofender a minha genitora, foi apenas, um ato falho, ou melhor, uma mensagem subliminar, afinal as putas são boas de cama”.
Agora durmam com uma justificativa dessa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Censura, censores e jornalista na ditadura militar.


As coisas estavam complicadas no país e, por extensão óbvia, para o povo de maneira geral e principalmente para ele que sobrevivia do árduo exercício de escrever.

A censura corria à solta nas redações dos jornais, mas empacava principalmente no que ele escrevia, onde sua coluna fora banida e seu nome defenestrado pelos censores.

Utilizando da solidariedade de poucos colegas, redigia seus textos, violentando o estilo e as idéias, em nome da sobrevivência da família, assinando com um pseudônimo.

Não comparecia à redação e a tarefa de enviar suas matérias diárias era de um malabarismo extraordinário.

Os censores excediam os seus limites ao exigir de tempos em tempos, entrevistas com os jornalistas para uma avaliação, isto é, questionarem sobre suas tendências ideológicas, na base do olho no olho.

O desconforto dessa exigência descabida era uma afronta aos profissionais, mas o poder da censura tinha ultrapassado o ultraje há muito tempo e se submetiam àquelas conversas patibulares, principalmente pela pressão dos donos dos jornais que lutavam diuturnamente para manterem as rotativas a exercerem seu papel, isto é, gravarem nos papéis as notícias possíveis.

Depois de duas desculpas pelo não comparecimento dele, a coisa ficou feia.

Um censor, oriundo de outro Estado, exigiu a presença dele às 09.00 h no dia seguinte, do contrário o jornal não sairia mais nos dias subseqüentes.

O caos foi instalado.

Como nem tudo pode ser contra, o aludido censor não o conhecia e era uma apedeuta (ignorante).

Dois minutos antes da entrevista, entra aquela figura obesa, com um terno cujo prazo de decência havia vencido a pelo menos três anos, aloirado (o cabelo fora tingido) e com uma bengala já desgastada pelo tempo (comprada num brechó) para sustentar a perna esquerda que por conveniência enfraquecera naquela manhã.

Bate à porta do escritório do censor, a melhor sala da redação, e escuta aquele berro: “Entra.”

O censor mede aquela figura dos pés a cabeça, através das lentes garrafais de seus óculos escuros.

E ordena: “Senta aí”.

Ordem dada, ordem obedecida.

Nas mãos encarquilhadas do censor existe um calhamaço de matérias escritas por ele.

Sem nenhuma preliminar que passasse tangenciando as normas da civilidade, questiona: “E aí?”

Foi o suficiente para ele iniciar um discurso escalafobético:

“Senhor, a situação está “gálica”.
Estava descendo a serra (Teresópolis) para chegar aqui no horário pré-determinado e quase não consegui. A “nébula” estava terrível. Não enxergava a um palmo à frente do nariz, e olha que o meu é proeminente - o que já é uma vantagem. Dirigia com atenção “desdobrada”, pois nessa situação tem que ficar com uma “pulga atrás do olho”, não é?
Fui parado pela patrulha rodoviária, apresentei todos os documentos que, aliás, estão em dia por sorte do destino e um safado de um guarda que “denedigre” a imagem da instituição quis dar “uma de perninha de anão”. Eu, que sou um cara “equivocado”, engrossei.
Trabalho duro no jornal e recebo um salário miserável, afinal não pertenço à ”laia” do dono do hebdomadário; moro de aluguel numa casa “germinada”, e na outra, mora minha sogra – olha que desgraça? E eu vou lá dar propina prá guarda? Não. Temos que manter os pilares carcomidos da moralidade, ou não?

O censor, diante daquela exposição destrambelhada, concluiu que aquele jornalista só poderia ser um médium e que suas matérias eram psicografadas, escritas pelos espíritos. Ele que tinha um pavor descomunal sobre as coisas vinculadas ao além não titubeou: suspendeu aquela entrevista imediatamente. No mesmo instante prometeu à sua consciência já bastante comprometida que jamais vetaria qualquer texto produzido pelas mãos manipuladas daquele indivíduo.

Os colegas de redação conhecendo a falta de limites daquele companheiro, um ateu empedernido, o aguardavam ansiosos para saber os detalhes da entrevista-inquisitorial.

Esperaram em vão.

Naquele momento, com seu andar de carcamano e com o indefectível sorriso que mostrava o desalinhamento intermitente de seus dentes, relembrava de sua incontinência verbal durante a entrevista e pensou:

“Com esses censores que transbordam o limite da ignorância... essa ditadura vai longe...”.

Sentou-se diante da primeira olivetti disponível e começou a datilografar o título da matéria que sairia no dia seguinte: “É... a situação está gálica.”

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O anão


Eram indubitavelmente hipócritas.

Caso essa manifestação de fingimento não fosse adotada teriam que desfilar o amargor, o ressentimento, a baixa-estima, face às crueldades vivenciadas diuturnamente por eles, pelo simples fato de serem um casal de anões.

Ele trabalhava no centro do Rio de Janeiro, num escritório de contabilidade onde a discriminação dos colegas e do salário recebido era patente, mas a necessidade de sobrevivência obrigava a suportar essas ignomínias e defendia-se com a eficiência profissional e com uma postura recatada.

Morava com a esposa num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, em uma casa antiga, construída na época em que o pé direito era desproporcionalmente alto para os de estatura dentro da normalidade, imaginem para eles.

Aquela opressiva perspectiva descomunal da altura das paredes e dos tetos, segundo as suas posições de observadores, os oprimiam, os diminuíam, ainda mais, pelo fato de não terem condições financeiras para minimizarem as suas desditas, através de míseros rebaixamentos dos tetos.

Viviam bem dentro de suas curtas possibilidades financeiras, em contraposição às enormes dificuldades de toda ordem.

A longa distância entre a casa e o trabalho obrigava-o a reduzir suas horas de sono.

Não reclamava dos trabalhos extras que, ultimamente, tornaram-se uma rotina, afinal o sacrifício significava um aumento nos proventos, apesar do cansaço maior e da redução da convivência com a esposa.

Certa feita, chegando depois da meia-noite, observara um vulto enorme que saia pelo portão de sua casa.

Exausto pelo dia de trabalho e tenso pela visão noturna, após subir os dez lances de degraus para chegar à porta, a sua esposa não permitiu nem que ele respirasse e de forma cruel, disse: estou o abandonando, pois, encontrei o amor de minha vida que é um estivador do cais do porto e amanhã não estarei mais aqui.

Perplexo não emitiu nenhuma palavra.

Absorveu naquela hora, contrariando toda a lógica do mundo, o imenso sofrimento.

Abandou o emprego e ingressou na vida nômade dos artistas circenses.

Agora, alegra, principalmente, as crianças com suas peraltices para ludibriar a dor profunda da desilusão que em termos temporais, pertenceu a um passado, mas que insiste em se fazer presente no hoje e não tenham dúvidas, estará, miseravelmente, também, no seu futuro.

sábado, 9 de julho de 2011

Uma perseguição injusta


A incompatibilidade do significado da palavra falência era mais profundo no seu sentido figurado, qual seja, a de ser um inimigo figadal, visceral dele, do que a conseqüência etimológica da palavra que importa no ato ou efeito de falir.

A sua inquietude fazia sentido.

Como o passar do tempo e o passamento do pai, assumiu os negócios de família.

Desaprendeu ao longo de sua existência empresarial os ensinamentos pretéritos do pai, um mascate de quatro costados.

A cobiça desmesurada o levou a aplicações de alto risco e o retorno foi a falência.

As parcelas do patrimônio não pulverizadas nas mãos invisíveis do mercado financeiro acabaram nas mãos delicadas, mas ardilosas e concretas, das amantes permanentes e as de ocasião.

Falido e com os conseqüentes litígios judiciais infindos, recorre à defensoria pública, afinal, tornou-se inadimplente e insolvente, que no fundo é a falência da pessoa física, mas o direito brasileiro não admite a figura dessa falência.
Mas, trocando em miúdos, é a mesma coisa, o mesmo infortúnio, é mera sutileza jurídica.

Abandonado por todos, à exceção das companhias indesejáveis de doenças insidiosas e oportunistas, vaga nos atendimentos dos hospitais públicos, tentando o agendamento de uma infinidade de exames que serão marcados e, provavelmente remarcados, ao longo de um tempo que talvez não abrigue mais a sua existência.

A insônia aumenta o exercício estafante de seus neurônios e das lembranças que já começam a desbotar sobre o auge da sua riqueza e dos seus excessos.

Suporta as suas vicissitudes com a mesma altivez demonstrada pelo catre que abriga seu corpo alquebrado, num abrigo governamental.

Escuta o ressonar daquela multidão de desvalidos com inveja, afinal, uma nesga de sono seria sua redenção naquele momento.

Morfeu, o deus grego do sono, ao ouvir os seus pedidos foi avaro em seu gesto, facultando-lhe uma migalha de sono, mas não de um sono qualquer, e sim, de um sono acompanhado de um sonho perturbador.

Acordou aflito. O fantasma da falência se fez presente, na forma de pesadelo ou de premonição. Teve a visão ou antevisão de sua morte por falência múltipla dos órgãos.

O destino que é essa fatalidade que sujeita todas as pessoas e todas as coisas do mundo à sua vontade, no caso específico dele, estava há muito traçado, indelevelmente, por quatro vogais e quatro consoantes: f-a-l-ê-n-c-i-a.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma questão de dose.


A dosimetria fora equivocada para aquele corpo frágil e já extremamente combalido.

O processo foi devastador. A pressão arterial subiu a patamares dantescos, a arritmia cardíaca parecia atingir o limite extremo do órgão e frações de segundos depois, os neurônios foram impactados e uma parcela significativa foi destruída por um insulto cerebral (derrame).

A perplexidade ocupou a mente de muitos que assistiram aquela cena de destruição de uma vida, por um mísero ato inconseqüente.

Tudo, mas tudo decorreu de uma dose mal dosada.

As medidas cabíveis foram tomadas imediatamente, mas a morosidade descabida da Unidade Móvel de Atendimento para chegar ao local, afrontou até mesmo aquelas outras testemunhas oculares que assistiram aquele drama humano, sem esboçar quaisquer resquícios de humanidade, até então.

A desídia do Estado era materializada pela expressão, em letras garrafais, PRONTO ATENDIMENTO, na lataria fria da ambulância que, também, tivera dias melhores.

Chegou ao hospital público e abandonado em uma maca foi a óbito.

Passaram-se dez anos dos fatos acima.

As entranhas do poder judiciário evitaram, por esses anos, expelir o monturo acumulado do inquérito à sentença.

O Boletim de Ocorrência fora forjado; o inquérito policial prosseguiu na ofensa à verdade dos fatos; a promotoria por desídia ou conivência ofereceu uma denúncia canhestra que culminou com aquela ignominiosa sentença prolatada pelo juiz criminal que agravou aquele todo deplorável ao desconsiderar as falhas no auto, ao desqualificar as testemunhas de defesa e desprestigiar as atenuantes, por sentir-se premido pela comoção pública.

A dosimetria da pena foi exageradamente injusta.

O magistrado agrediu a lei, o réu e a justiça, mas em compensação prestou as devidas vênias ao vernáculo, pois, ao extrapolar em sua decisão, atingiu na sua plenitude os dois sentidos etimológicos da palavra (extrapolar), qual seja:

- Tirar a conclusão com base em dados reduzidos ou limitados;
- Exceder os limites do bom senso.

Acusados de denunciação caluniosa, coação no curso do processo e abuso, as autoridades receberam como penas, meras anotações de censura às suas folhas funcionais.

Que país!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Dentro da desgraça, um exemplo a ser seguido ou perseguido.


Aquele dia chuvoso não tinha sido nada promissor.

Problemas no trabalho; aborrecimentos pela parte da manhã com a esposa, que reclamava incessantemente sobre o conserto de um maldito cortador de grama; a ligação do filho, sempre pedindo dinheiro; dívidas e outros problemas de menor monta, atormentavam sua mente enquanto caminhava rumo ao estacionamento.

Para encerrar aquele dia aziago, deparou-se com um dos pneus furado e ao recorrer ao estepe esse estava como deveria estar o seu intelecto, vazio.

A paciência não era atributo que poderia ser pedido ou cobrado dele, principalmente, naquela hora.

Com alguma dificuldade superou a questão pneumática e com o intuito de resolver definitivamente o problema da mulher (o cortador de grama), seguiu para o endereço, onde dias atrás havia deixado o aparelho para fazer o orçamento inicial.

Como o técnico que orçava e efetuava o conserto não estava presente naquele ocasião, voltava para autorizar o trabalho, evidentemente pensando em fazer uma negociação dura para diminuir o preço, pois a prestação de serviços na sua cidade goza da má fama de ser despudoradamente cara e desprovida do instituto da qualidade. Isso sem contar os descumprimentos indecentes nos prazos de entrega.

Com algum contratempo no trânsito chegou àquela lojinha que se encontrava em estado precário de conservação.

Adentrando a loja foi logo perguntando, grosseiramente, ao atendente: qual é o valor do orçamento para o conserto daquele cortador de grama deixado dias atrás?

Um rapazinho extremamente humilde consultou a pouca papelada de serviços a serem executados e respondeu: R$ 70,00.

Estupidamente, retrucou: “Tá caro! Um cortador novo custa R$ 120,00. Quero falar com técnico que fez esse orçamento. Que absurdo! Tem que reduzir esse valor insensato que é repugnante à razão e desconfortável a qualquer bolso”.

O ambiente da loja era sombrio e só depois da agressiva forma de se expressar percebeu por trás de uma bancada, um homem enrolando um alternador com fios de cobre, com ajuda de um outro garoto que lhe passava as pontas do fio de cobre.

Percebeu também que ele era cego, mas que tinha o domínio completo da posição de cada ferramenta ou material que existiam naquelas prateleiras e gavetas que pareciam ter como função precípua, a sustentação das paredes daquela loja.

Falava para o garoto: “Pega o alicate na segunda gaveta. Ao receber, retrucava - Não, não é esse, você pegou o da primeira gaveta que não tem borracha no cabo; e seguia - me passa o parafuso tal, pega a arruela x, etc.”

Ao ouvir “quero falar com o técnico que fez o orçamento”, o cego respondeu: eu sou o técnico.
E complementou: não está caro senhor; só de material para enrolar o motor queimado custa R$ 50,00, os outros R$ 20,00 representam o valor da minha mão de obra e dos demais custos.

No meio da resposta veio um arroto seguido de vômitos que foram aparados parcialmente por uma flanela imunda.

Desculpe senhor, mas no dia que faço hemodiálise, além de muita dor de cabeça, sinto uma náusea, uma ânsia incontrolável de vômitos, a toda hora. Faz menos de duas horas que terminou a sessão.

Falando isto, ele pediu ao garoto as muletas para levantar.

Neste momento, o dono do cortador percebeu que ele, além de cego, também não tinha uma das pernas.

Ele que estava predisposto para descarregar suas iras acumuladas ao longo daquele dia, utilizando como pretexto o preço apresentado, agora sente o seu ímpeto esmorecer, desaparecer, ao constatar a aparência física daquele senhor e suas mazelas.

Não possuía uma das pernas, cortada na altura do joelho, cego e com problemas renais sérios, tendo que fazer hemodiálise, que situação! – pensou.

Aquele senhor com o sexto sentido apurado captou no ar vibrações que provocaram uma alteração brusca no ambiente de minutos atrás.

Indaga o nome do cliente e com um sorriso nos lábios declina o seu nome e seu drama de forma serena, não permitindo através do seu relato sem emoção, qualquer sentimento de piedade, ao seu interlocutor.

Trabalhava numa empresa de recapeamento asfáltico e inadvertidamente, durante o almoço, que trazia de casa numa marmita, retirara as botas para aliviar os pés, quando um colega sofrera uma queda de uma máquina.

Instintivamente levantara-se para socorrê-lo e pisou com os pés descalços sobre uma parte do asfalto que ainda estava numa temperatura elevada.

Resultado: das bolhas formadas para as feridas foram uma mera questão de tempo.

No atendimento precário do hospital público, mediante diversas idas é que soubera ser diabético. E o quadro complicou, todas as tentativas foram infrutíferas e foi assim que perdera parte da perna.

A empresa não cumprira com suas obrigações trabalhistas, alegando a desídia dele quanto profissional.

A questão rolava há anos na justiça, enquanto sua vida girava em torno daquela atividade de pequenos consertos para sustentar a família, pois o pecúlio da aposentadoria era de uma indignidade semelhante a sua situação física.

O quadro de diabetes avançara e perdera a visão de ambas as vistas e agora, também, fazia sessões de hemodiálise, a cada 3 dias com 5 horas de duração.

Aquele cliente esboçou algumas palavras reconfortantes que eram inúteis, mas o fez. Aceitou sem mais questionar o valor do conserto.

A entrega estava programada para a semana seguinte.

Quando foi pegar o cortador, o técnico não estava. Então, perguntou ao atendente por onde ele andava, e obteve como resposta a informação de que a mulher do cego era problemática e volta meia arrumava uma confusão com a vizinhança, e ele, coitado, fora lá tentar apaziguar os ânimos.

Com o espírito arruinado, prometera a si mesmo que jamais reclamaria da vida, independentemente da situação.

Quando pressentia que as coisas iam mal, parava e respirava fundo, e a lembrança daquele técnico vinha à mente, recordando aquela lição de vida, afinal o que não está bom, pode passar para o estágio de ruim, e esse pode piorar e muito.

Os anos se passaram e a sua promessa continua de pé, apesar das quedas inevitáveis.

domingo, 29 de maio de 2011

Uma questão de honra ou de imbecilidade

Submetido às inteiras as pressões da vida, a fadiga do seu corpo fez presente e o que é pior, progrediu, prenunciando um futuro não incerto, como todo futuro, mas desgraçadamente com a convicção, ou seja, sem ausência de dúvidas de ser sombrio, penoso e miserável.

As fissuras começaram a abalar, a corromper, a danificar, não apenas a integralidade corpórea, mas a da alma, a da mente.

Resistiu sem o previsível apoio do Estado, afinal nos doentios hospitais públicos não existem sequer os imprescindíveis profissionais de saúde, de outras áreas, quando mais os de psiquiatria.

A sua revolta não recaia sobre os escombros do casamento desfeito, nem sobre a insensibilidade e o desprezo daqueles com quem convivia até recentemente, a miude, e sim, contra o Estado.

Sim, o Estado.

Afinal, por ignorante, acreditou na propaganda maciça estatal de uma economia exuberante e, principalmente, pelo aval inconseqüente prestado às empresas, que via mídia, infligiram um massacre sobre os sonhos dos pobres, mediante, a conquista da compra dos seus desejos pela concessão quase ilimitada de créditos.

Agora, encalacrado, com descontos de empréstimos diretamente no contracheque, além de carnês vencidos e por vencer, percebeu que seus parcos sonhos transformaram-se num Himalaia de pesadelos e de dívidas.

Por uma questão de caráter procurou diversas alternativas.

A derradeira foi quando saiu daquele estabelecimento bancário completamente arrasado. A negativa peremptória recebida fez com que saísse dali com passos ébrios de frustração e com a mente atordoada, pois, suas conexões neurais insistiam em repetir à exaustão as palavras assépticas e frias do gerente que o taxara de um réles inviável econômico.

Cansado e trêmulo, perguntou, ao colega daquela fila de deserdados da sorte, as horas.

Três horas e vinte da manhã - respondeu o outro, com extrema má vontade.

Pudera! Ao relento, naquela madrugada fria, aguardavam a abertura do fórum para receberem não atendimentos, mas meras senhas para apresentarem a uma secretária que marcaria num futuro, o dia e a hora para serem atendidos por um defensor público.

Decidira pela insolvência civil, apesar das terríveis conseqüências restritivas desse instituto legal, mas aprendera, desde a tenra idade com o pai, um desgraçado que trabalhara na enxada, em terras alheias, que um homem, jamais, podia sujar seu nome e deixar de cumprir com seus compromissos.

Falido, ouve falar dos lucros astronômicos dos bancos, da corrupção nos governos, do estado lastimável da educação e da saúde e não diz, absolutamente nada.

Perdeu tudo, menos a honra.

Uma imbecilidade para muitos a sua atitude, mas o suficiente e o bastante para aquele corpo combalido e de mente perturbada.

Lógico que essa orgia nos prazos de financiamento de bens não duráveis não poderia dar em outra coisa (inadimplências e enriquecimentos desonestos). Afinal, veja que o prazo de financiamento, em 84 meses (são 07 anos) que representa 10% da vida média de um brasileiro (70 anos).

Caso a afirmação acima o tenha espantado, creia: o absurdo, a infâmia é muito maior.
Como?

Simples: basta lembrar que as pessoas quando conseguem ingressar no mercado formal de trabalho é, após, aos vinte cinco anos. Portanto, refaçam as contas, considerando que o cidadão não vai perder o emprego, uma hipótese improvável, mas deixa pra lá.

(70 anos-25anos= 45 anos, logo, 7 anos de dívidas representam quase 16% de sua existência pagando dívidas com juros extorsivos seqüestrados de um salário miserável).

Que país!



sábado, 14 de maio de 2011

Tristeza, uma grande tristeza

O aspecto revelador de mágoa, de aflição, envolvia por completo aquele semblante cansado.

A tristeza é um vocábulo que define plenamente a qualidade ou estado que envolve a alma do indivíduo, mas aquela tristeza merecia uma adjetivação, era profunda.

Os últimos acontecimentos deixaram aquele indivíduo ainda mais fragilizado, afinal a impotência devastava definitivamente o seu espírito há muito alquebrado. O raciocínio linear desejado era claudicante, tortuoso, embotado.

As suas forças mentais e físicas estavam completamente exauridas pelos pensamentos recorrentes que aumentavam o seu desconforto pessoal deixando-o mais aflito e perturbado.

Sua conduta silenciosa e arredia afastava cada vez mais os seus, provocando um clima inamistoso entre as partes que a rigor não o desejavam, mas eram forçados pelas circunstâncias da convivência.

Sozinho buscava caminhos alternativos para sair daquele estado mórbido de tristeza e depressão, entretanto, retornava sempre ao ponto de origem.

O cansaço total da vida, naquele momento, não era uma força que deveria emergir, pois, os danos poderiam levá-lo a uma decisão de extinguir o tempo de sua existência.

O suporte religioso que outrora fazia parte de seu mundo, de forma plena, hoje apresentava indícios de fragmentos da inteireza pretérita.

Na falta de alternativa procurou um fármaco de tarja preta e duplicou a dose, por conta própria, contrariando as ordens médicas, na busca de um sono, mesmo que não fosse totalmente reparador.

No escuro do quarto, aguardou o efeito do remédio que o conduziria ao seu desejo imediato, o de dormir.

Tudo em vão, pois, sobreveio à companhia ingrata de uma péssima conselheira, a insônia.

Em resumo, dividiu sua tristeza intensa com a irritabilidade da incapacidade de conciliar o sono.

Pode não ter sido um progresso, ao menos ocupou parcial e precariamente sua mente, minimizando o fantasma do desalento.








quarta-feira, 20 de abril de 2011

O destino do Destino

O destino do Destino o aproximava daquela fatalidade que sujeita todas as coisas e todas as pessoas do mundo.

A pressão sofrida de todos os lados, além das de cima e de baixo, o estava levando ao terreno perigoso da depressão. Uma ação imediata era fundamental para interromper aquela caminhada, do contrário o seu final não o levaria a dar com os burros n’água e sim, submergir numa demência total.

Não conseguia compreender a humanidade na sua totalidade, afinal todas as desditas, todos os infortúnios a que estava submetido era colocada de forma miserável na sua cota pessoal.

Era de uma injustiça inominável a expressão definitiva entre as pessoas: “são os azares do destino”. Afinal, não passava de um mero executor de ordens, nada, além disso.

Em função do cargo impingido, seguia estritamente as determinações emanadas que nem sequer eram ditas, verbalizas, mas cretinamente escritas em estilo ímpar: seco e avaro nas palavras.

O comunicado sempre uniforme e sem imaginação, resumia as ordens de seus superiores.

Ordenava sempre que pegasse um determinado vidrinho, num escaninho específico daquela estante cósmica, cujo conteúdo era líquido, com colorações variadas e densidades diversas, mas de substâncias com seus efeitos, muito das vezes colaterais, completamente desconhecidos e finalizava obrigando-o que aspergisse ao primeiro suspiro de vida de um recém-nascido, previamente escolhido, na Terra. Esse processo era repetido para todos os nascituros.

Deprimido, resolveu enviar um memorando cumprindo as relações extremamente hierárquicas daquele sistema, aliás, idênticas às de certo país chamado Brasil. O pedido, apesar dos incontáveis datas vênias contidas no corpo do documento, na essência, solicitava a sua exoneração, em caráter irrevogável.

O documento dormiu na gaveta de um assessor, durante várias unidades de tempo, numa concorrência desleal com o Supremo Tribunal Federal do país acima mencionado.

O despacho com a resposta ao pleito foi monocrático e de um poder de síntese inimaginável: “Negado”.

O Destino, ao receber aquele documento com a negativa sobre o seu pleito, não titubeou: fugiu. E pagou um preço pelo dissenso.

Hoje, adulto, pede esmola numa das esquinas movimentadas de uma grande cidade, portando um cartaz com os seguintes dizeres:

“Senhoras e Senhores,
Sou cego, surdo, mudo, tetraplégico, de nascença.
Não culpo ninguém, principalmente o Destino.
Grato por qualquer colaboração”.

Num certo dia, um alto executivo de uma empresa transnacional ao deparar-se com aquele pedinte e seu cartaz, não titubeia: tira uma foto, sem a devida autorização e sem deixar um mísero centavo.

Chegando ao escritório, ordena à secretária a convocação imediata dos chefes subalternos e projeta aquela imagem.

Passados alguns segundos, com voz empostada faz um discurso, como sempre, desprovido de grandeza e cínico, sobre a auto-estima, a determinação nas ações profissionais e outros blá, blá, blás. Termina com a seguinte assertiva: “lembrem-se, o destino quem faz, somos nós”.

Felizmente, para aquele individuo cujo todo era deplorável em termos humanísticos, não tomou e nem podia tomar conhecimento sobre aquela frase final, caso contrário, teria algum alento para prosseguir com as atividades de seu passado de Destino, caso pudesse reverter o seu destino com a troca das fragrâncias contidas naquele vidrinho a que fora aspergido.

sábado, 16 de abril de 2011

Vidas, meras vidas


A cena poderia parecer ainda mais desconfortante, caso houvesse uma outra testemunha além do tempo, que contrariando a sua natureza irrequieta, havia parado naquele instante para reverenciar um amor que caminhava em direção ao eterno.

Observava, por uma das janelas daquela sala em penumbra, uma senhora que acomodava em seus braços um ser muito mais fragilizado e alquebrado do que seu corpo devastado pelas atrocidades daquela testemunha ocasional, o tempo.

Com suas mãos tremulas acariciava aquela cabeça que se acomodava em seu peito em busca de refúgio, de proteção, e com extrema ternura movimentava lentamente, em círculos imaginários, os dedos que seguiam o compasso dos murmúrios carinhosos proferidos.


Mesmo com suas retinas fatigadas, os olhares entre ambos transmitiam confianças cristalinas que existem, somente, em cumplicidades definitivas, totais.

Uma corrente de vento, extemporânea, adentra o recinto e provoca uma queda de um objeto.

Por instinto de proteção aquele ser abandona o aconchego e com dificuldades múltiplas procura a origem do barulho. E o faz, tentando inibir o intruso, com a única forma disponível, assim mesmo, precária, pois a agilidade há muito foi destruída pelas artroses.

E a única forma de emitir um mísero latido era encostando-se numa parede, numa pilastra ou em qualquer suporte que sustentasse o seu corpo alquebrado, combalido, para desta forma ter as condições objetivas para emitir os sons característicos da espécie e desta forma, por instinto, além de coagir, saber que ainda vivia.

Voltou com um porta-retrato na boca, agora ferida, pelos estilhaços do vidro que até pouco protegia a imagem de duas jovens abraçadas e felizes.

Deixou na mão estendida daquela senhora, que há pouco o acarinhava, aquele objeto danificado.

Ela, com lágrimas nos olhos, voltou a olhar aquela imagem congelada no tempo, onde as suas expressões e as de sua amada eram de uma felicidade infinda.

Em frações de segundos recordou das amarguras, das incompreensões, enfim, dos preconceitos sofridos.


Viveram juntas até que a sordidez da morte levou a sua companheira de toda uma vida.

Controlou-se, colocando na mesinha do abajur aquela foto, agora não mais em preto e branco, pois, havia o vermelho vivo do sangue do seu cão e o recolocando nos seus braços, pensou:

“Querer reconstituir vidas pretéritas, mediante a visualização de imagem registrada (foto) é uma insânia, comparada, apenas à do tempo”.

Dormiram juntos, provavelmente, sonhando o mesmo sonho.

O sonho em que ambos protegiam-se mutuamente, e cada um, na sua forma, expressava o amor verdadeiro um pelo outro que, certamente, transcenderia a existência terrena – pensou eu.