
Ambos achavam que tinham direito a ter razão.
As relações, que foram íntimas na origem do pó dos tempos, deixaram de ser cordiais, num passado imemorial. Hoje, ultrapassavam as raias do bom senso, seja lá o que isso venha a significar. (Aqui cabe uma observação: - pode ser ranzinzice, atribua àquilo que melhor lhe convier, mas sempre cismei com a adjetivação desnecessária).
O diálogo mantinha-se áspero, virulento, onde as pretensas ironias não passavam de meros deboches, eivadas de grosserias que desqualificavam a ambos. O exercício da ironia é prerrogativa, atributo, de seres inteligentes o que, evidentemente, não eram.
Efetivamente aqui, prezado leitor, não cabe o benefício da dúvida, pois ambos partejavam, de forma mútua, o produto, o rebento de uma incultura solar.
Jamais teriam a capacidade de estabelecer o contraditório, face à afirmativa acima, pois desconheciam Sócrates e, portanto, não poderiam avocar, em suas defesas, o artifício da ironia socrática, método desenvolvido pelo filósofo e que levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.
O diabo, não fugindo de suas características, amparado em um diagnóstico precoce de bipolaridade, com um mau-humor extremado, diz:
“Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa”.
Colérico, aliás reação inimaginável para aqueles que rezam em sua cartilha, Deus, com os olhos esbugalhados e rútilos, responde:
“Canalha! Engula - e disse de forma peremptória - a sua blasfêmia!”
Para minha surpresa que acompanhava a cena e, prejulgo, também para Deus, o diabo transmuta-se num ser sereno, sóbrio e, numa modulação de voz civilizada, diz:
“- Somos produtos do inconsciente coletivo, derivados de uma mente brilhante que, diante da insensatez da vida, da consciência da mortalidade, criou-nos, com a finalidade de que a insânia não prosperasse e de que a esperança permeasse as vidas”.
Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.
Confesso que, como testemunha, um extremo desconforto apoderou-se de mim.
Reflexivo, Deus dirigiu-se ao seu interlocutor:
“- Confesso que a depressão, que me acompanhava há séculos, decorria de uma crise de identidade atroz. As energias emanadas dos seres humanos, pelo aludido inconsciente coletivo, propiciou a nossa existência incorpórea, com os atributos específicos para cada um de nós.
As virtudes a mim atribuídas levaram-me à soberba, ao orgulho excessivo, à arrogância. Entranharam-se em mim de tal forma, que os via como predicados.
Que disparate, que despautério.”
O diabo, que ouvia atentamente as idiossincrasias de Deus, de forma sóbria e austera, fez a seguinte ponderação:
“- No fundo, somos gêmeos univitelinos, gerados daquela mente talentosa. Na modelagem conceitual preestabelecida, os nossos atributos teriam que ser mutuamente excludentes. A parte que me coube foi a dos baixos costumes. Veja bem, nos dicionários sou definido como ‘príncipe das trevas, espírito maligno, gênio do mal, pai da mentira, serpente maldita’, et cetera.”
Ficaram silentes, reflexivos.
O silêncio foi quebrado por Deus:
“- É verdade que, em nosso nome, diversas e imensas atrocidades foram perpetradas, e ainda o são. Entretanto, numa visão histórica das relações humanas, a nossa criação cerceou atitudes, refreou espíritos e, apesar de nossa existência persistir no inconsciente geral, o mundo perpetua iniqüidades. Sem o nosso simbolismo, seria o caos!”
Num impulso mútuo, abraçaram-se fraternalmente, como nunca fizeram. As lágrimas cobriam suas faces, sabendo que a separação era premente e definitiva.
Compreenderam que seus destinos estavam inapelavelmente traçados por aquele intelecto privilegiado. Agora, sem as perplexidades vividas, até aquele momento, por ambos. A sabedoria fluiu e preencheu as lacunas, até então existentes naqueles apedeutas.
Uma invenção inimaginável, inconsistente, transmitida, a princípio, pela tradição oral, encorpou-se e gerou, do nada, pela força do inconsciente coletivo, a criação desses entes, que tinham que cumprir os desígnios previamente estabelecidos.
E, tacitamente, cumpriram e cumprem. Afinal, obrigação é obrigação!
As relações, que foram íntimas na origem do pó dos tempos, deixaram de ser cordiais, num passado imemorial. Hoje, ultrapassavam as raias do bom senso, seja lá o que isso venha a significar. (Aqui cabe uma observação: - pode ser ranzinzice, atribua àquilo que melhor lhe convier, mas sempre cismei com a adjetivação desnecessária).
O diálogo mantinha-se áspero, virulento, onde as pretensas ironias não passavam de meros deboches, eivadas de grosserias que desqualificavam a ambos. O exercício da ironia é prerrogativa, atributo, de seres inteligentes o que, evidentemente, não eram.
Efetivamente aqui, prezado leitor, não cabe o benefício da dúvida, pois ambos partejavam, de forma mútua, o produto, o rebento de uma incultura solar.
Jamais teriam a capacidade de estabelecer o contraditório, face à afirmativa acima, pois desconheciam Sócrates e, portanto, não poderiam avocar, em suas defesas, o artifício da ironia socrática, método desenvolvido pelo filósofo e que levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.
O diabo, não fugindo de suas características, amparado em um diagnóstico precoce de bipolaridade, com um mau-humor extremado, diz:
“Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa”.
Colérico, aliás reação inimaginável para aqueles que rezam em sua cartilha, Deus, com os olhos esbugalhados e rútilos, responde:
“Canalha! Engula - e disse de forma peremptória - a sua blasfêmia!”
Para minha surpresa que acompanhava a cena e, prejulgo, também para Deus, o diabo transmuta-se num ser sereno, sóbrio e, numa modulação de voz civilizada, diz:
“- Somos produtos do inconsciente coletivo, derivados de uma mente brilhante que, diante da insensatez da vida, da consciência da mortalidade, criou-nos, com a finalidade de que a insânia não prosperasse e de que a esperança permeasse as vidas”.
Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.
Confesso que, como testemunha, um extremo desconforto apoderou-se de mim.
Reflexivo, Deus dirigiu-se ao seu interlocutor:
“- Confesso que a depressão, que me acompanhava há séculos, decorria de uma crise de identidade atroz. As energias emanadas dos seres humanos, pelo aludido inconsciente coletivo, propiciou a nossa existência incorpórea, com os atributos específicos para cada um de nós.
As virtudes a mim atribuídas levaram-me à soberba, ao orgulho excessivo, à arrogância. Entranharam-se em mim de tal forma, que os via como predicados.
Que disparate, que despautério.”
O diabo, que ouvia atentamente as idiossincrasias de Deus, de forma sóbria e austera, fez a seguinte ponderação:
“- No fundo, somos gêmeos univitelinos, gerados daquela mente talentosa. Na modelagem conceitual preestabelecida, os nossos atributos teriam que ser mutuamente excludentes. A parte que me coube foi a dos baixos costumes. Veja bem, nos dicionários sou definido como ‘príncipe das trevas, espírito maligno, gênio do mal, pai da mentira, serpente maldita’, et cetera.”
Ficaram silentes, reflexivos.
O silêncio foi quebrado por Deus:
“- É verdade que, em nosso nome, diversas e imensas atrocidades foram perpetradas, e ainda o são. Entretanto, numa visão histórica das relações humanas, a nossa criação cerceou atitudes, refreou espíritos e, apesar de nossa existência persistir no inconsciente geral, o mundo perpetua iniqüidades. Sem o nosso simbolismo, seria o caos!”
Num impulso mútuo, abraçaram-se fraternalmente, como nunca fizeram. As lágrimas cobriam suas faces, sabendo que a separação era premente e definitiva.
Compreenderam que seus destinos estavam inapelavelmente traçados por aquele intelecto privilegiado. Agora, sem as perplexidades vividas, até aquele momento, por ambos. A sabedoria fluiu e preencheu as lacunas, até então existentes naqueles apedeutas.
Uma invenção inimaginável, inconsistente, transmitida, a princípio, pela tradição oral, encorpou-se e gerou, do nada, pela força do inconsciente coletivo, a criação desses entes, que tinham que cumprir os desígnios previamente estabelecidos.
E, tacitamente, cumpriram e cumprem. Afinal, obrigação é obrigação!




