segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Era um otimista - nada de baixo astral


As restrições impostas pela vida o levaram àquela situação letárgica, não a que induz a sonolência, mas aquela que provoca a indiferença, a apatia pela vida.

As suas energias foram-se esvaindo e estavam num nível crítico, grave, mas grave mesmo; os pensamentos tortuosamente confusos provocavam uma destemperança em suas idéias que a induziam a seguirem céleres em direção ao território árido e sem vida, o da desesperança.

Em resumo, caso ele fosse um astro do sistema solar estaria naquela zona denominada de penumbra, onde apenas uma parte do disco solar é visível.

O seu estado de espírito avançou ao limite da sombra quase total, e não obstante, prosseguiu, e agora se encontrava na mais completa escuridão, que no fundo, no fundo, era aquela zona denominada de baixo astral.

Essa situação, indubitavelmente, não se adequava à sua personalidade, pois, era um otimista por excelência.

Com o dinheiro da indenização pela dispensa injusta do trabalho, que, diga-se de passagem, fora desgraçadamente roubado nos cálculos rescisórios, resolveu comprar alguns livros de auto-ajuda, ao invés de quitar algumas pendências financeiras.

Entregou-se à leitura, com avidez. Com aquela sofreguidão típica dos necessitados que no seu caso era, primeiramente, à busca pelo equilíbrio emocional que teimava em insistir naquele movimento pendular incessante, e secundariamente, o resgate de sua auto-estima que estava num estado de desvalia total.

Como um otimista incorrigível, avaliou que, além da leitura dos textos, conseguira um ganho suplementar significativo, o abrandamento daquela fome avassaladora, utilizando-se da força do pensamento que apesar de tudo encharcava as suas entranhas de sucos gástricos, que provocavam um efeito colateral nefasto - a de uma dor fina e constante - oriunda de uma úlcera acalentada de longa data.

Quando fechou a última página do último livro, com o espírito completamente revigorado pelos textos, mas combalido por uma fome secular, não hesitou, foi em busca de um novo emprego.

O mercado estava refratário às novas vagas.

Para complicar a sua vida atrapalhada, deparou-se com a insensibilidade do senhorio em querer receber, num futuro incerto, os aluguéis em atraso.

O resultado foi procurar abrigo no único local possível e disponível, a rua.

Mesmo naquela situação adversa as frases que sublinhara em alguns livros vinham à mente de forma recorrente: “No fim tudo dá certo, se não deu certo é por que não chegou o fim!”, ou, “Para todo fim há um recomeço”, ou, a mais calhorda de todas – “Saiba que todo poço tem saída, para isso acontecer basta você querer!”
E olha que ele tentou.

Mesmo com as forças combalidas, ele lutou titanicamente contra todas as adversidades e como viram, não eram poucas.

Hoje, tuberculoso, procura na farmácia do hospital o segundo frasco do remédio, obedecendo as ordens estritas do doutor para não interromper o seu tratamento, pois a reincidência poderia levar a óbito. Entretanto, a atendente sem comoção nenhuma diz que não tem e ressalva de forma fria e distante que provavelmente não chegará nas próximas duas semanas.

Quanto à fartura na alimentação, outra prescrição médica, essa variava em função dos achados nos latões de lixos dos restaurantes, durante as madrugadas frias.

Esquálido, imundo, com uma tosse incessante, fraco, repete a exaustão: “Por mais que sejam escuras as nuvens e causem medo, elas são passageiras, então sempre acredite no amanhã.”

Com o avanço da doença pela irresponsabilidade do Estado, associado à alimentação deficiente e contaminada, definha e caminha em direção ao fim, contudo, sempre mantendo aquela fé inabalável de que tudo vai mudar.

Com esse pensamento fixo, distraído, atravessa uma rua e zás! É atropelado por um ônibus. O socorro chega com certo atraso.

Imediatamente, os profissionais avaliam a sua situação e um paramédico pergunta o seu nome. Ele responde. A médica indaga se ele tem alergia a algum remédio, ele nos estertores, responde: tenho alergia a atropelamento, principalmente, de coletivo.

É levado com a pressa possível naquele trânsito caótico, mas falece no percurso.
Não sei, honestamente, se ele foi otimista até fim, mas tenha a plena convicção de seu insuperável senso de humor, negro – penso eu.

sábado, 10 de setembro de 2011

O cinismo sobre a Terceira Idade



A insanidade humana chegou a uma situação limite.

Ao adentrar os limites físicos daquela instituição o ar tornara-se mais denso, seu corpo cansado e maltratado parecia desintegrar-se, os fragmentos de humanidade que até então teimavam existir em sua mente, desapareceram por completo.

O processo de desumanização começara com o número de identificação que recebera e seria um adorno perene em suas vestes.

Abandonada pelos seus naquele espaço lúgubre denominado: Lar da Terceira Idade.

A banalização da família mudara o conceito de lar de outrora, onde as pessoas viviam unidas por laços sangüíneos. Sofrera uma transformação total que levaram até os dicionaristas, a incluir uma nova conceituação de lar, denominando assim, aquelas pessoas unidas por alianças, ou seja, relação estabelecida entre indivíduos ou grupos sociais díspares.

O eufemismo terceira idade, ou melhor idade, retrata a necessidade de criação de rótulos por uma sociedade hipócrita para simplesmente estigmatizar na essência, mas superficialmente dar uma conotação civilizatória.

Idade, por definição, é o número de anos de alguém, e ponto final. (desculpe a redundância).

O que significa melhor idade? Provavelmente será para os médicos, para enfermeiros, para a indústria farmacêutica, mas honestamente, não para aqueles que sobrevivem mais. Não venham com argumentos falaciosos.

E os ditos bailes da terceira idade? É de uma conveniência social sem precedentes, assim cinicamente afirmam. A imagem transmitida é da importância da interação com seus semelhantes, nada mais falso.

Assistam a um desses bailes.

O número de senhoras idosas é infinitamente maior do que o dos homens. Como são de outra época, onde o cavalheirismo fazia parte da conduta social, as senhoras ficam sentadas por horas, aguardando a sua vez para dançarem com eles. Quando não resolvem formar par entre elas.

É um processo contínuo de rejeição, entretanto, isso é um problema menor. O maior dos problemas é quando chegam à semana seguinte e sentem a falta de um. A ausência pode ser em decorrência do agravamento da doença, de um insulto cerebral, ou da morte.

Os idosos deveriam conviver com os seus. Participar, mesmo que passivamente, dos problemas de toda sorte vivenciados pelos filhos; ter o direito de ser atormentados pelos netos e seus coleguinhas, isso sim é vida. E lógico, irem aos bailes tendo como companhia um dos seus familiares.

Entretanto são abandonados (as) e recolhidos (as) nessas casas de assistência social, pagas ou públicas.

O pagamento não é um atenuante para seus gestos indignos, nem mesmo como abrandamento de suas consciências pesadas.

O passado? Ah... dane-se o passado. Os sofrimentos, as renúncias, o amor pleno dispensado aos filhos, nesses momentos de chegada da idade provecta são esquecidos e a contrapartida é recolhê-los a um asilo.

Asilo é uma palavra de vários significados, tem-se o asilo político que é o lugar onde ficam isentos da execução das leis do seu país, os que a ele recolhem livremente, no sentido da escolha do país a se refugiar.

O asilo para onde são encaminhados os da terceira idade (faça-me o favor!) é lugar onde compulsoriamente ficam os rebotalhos, os refugos humanos, premidos pelos filhos que os desterram em vida, pela falta de amor e paciência.

domingo, 4 de setembro de 2011

De humano, apenas a forma.


A insensibilidade dele percorria, sem exceção, todos os seus bilhões de neurônios reprimidos naquela caixa craniana que, por questão de inteireza intelectual não ficava nada a dever, pela malignidade, ao conteúdo da mitológica caixinha de Pandora.

Relembrando aos esquecidos e informando aos que a desconhecem, quando Pandora abriu a mencionada caixinha e percebeu que com seu gesto libertou quase todos os males que estavam ali guardados, imediatamente fechou-a, amedrontada por testemunhar as coisas extremamente ruins que de lá saíram, mas, infelizmente, para a humanidade, tardiamente.

Entretanto, o último e mais importante dos infortúnios permanecera dentro da caixa, o destruidor da esperança, o ser que traria a desgraça total ao mundo.

Depois de milhares e milhares de anos, de sucessivas e incontroláveis mutações genéticas autônomas e, também, aleatórias, o indivíduo a que me refiro, faz parte dessa linhagem que depois dessas várias metamorfoses, materializou-se nessa estrutura molecular que macula a natureza humana e leva a sua alma, que é a parte imortal do ser humano, desejar o inimaginável, a morte.

As pessoas que aparentemente deveriam ser as mais importantes e que foram retiradas dele pela cessação da vida, de forma abrupta, foram contempladas com olhares e sentimentos de distanciamento, de uma frieza que concorria apenas com aqueles corpos já gélidos, desprotegidos pela presença do fim.

Aquela atitude sórdida perdura nos dias atuais, pois, quando um dos circuitos cerebrais materializa, por acidente de percurso, no surgimento de lembranças daqueles entes próximos, imediatamente, apesar da complexidade dos dispositivos da memória, a sua natureza é facilmente enganada, e assim, ele as distorce, forjando as verdades mais contundentes, ficando registradas apenas as de suas conveniências.

Esse exercício fraudulento para o completo esquecimento originou-se numa noite fria e chuvosa, onde acordou perturbado, com arritmias cardíacas e com as roupas encharcadas de uma sudorese senegalesca, em razão de um sonho.

As imagens eram de seus mortos e os diálogos travados foram uma verdadeira catarse, mas não aquela catarse estimulada pelo profissional de psicologia que consiste em estimular o paciente a contar sobre determinado assunto, a fim de obter uma “purgação” da mente.

Não.

Os diálogos com seus mortos fluíram espontaneamente de forma serena e emitidos por aqueles lábios que outrora os cobriu de conselhos, de carinhos e de amores, quando em vidas. Entretanto, foram claros, objetivos, sem as máculas das agressões ou de cobranças, mas foram cirúrgicos, com a mesma precisão dos restauradores de artes, foram exatos em relembrar e restaurar as verdades.

Diante de suas palavras e da mudez total dele durante aquele período, despediram-se deixando o calor daqueles lábios em suas faces e esse contato de compaixão o fez acordar naquele estado lastimável, pela severidade das verdades proferidas e, pela conseqüência imediata, do drama de consciência.

A vida é cruel e afinal essas pessoas tiveram a má sorte, pelas artes confusas do destino, de terem seus corpos acorrentados aos daquele indivíduo pelo atavismo dos elos sanguíneos.

Ele continua a caminhar de forma solitária, espalhando discórdias, desdém e maldades.

Quando a sua hora derradeira chegar, vagará, entre os lixos cósmicos que o descriminarão, pois, afinal são resíduos de outra qualidade.