quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um ser perturbado e suas Excelências, os vermes.


Era um ser amargo e razões não faltavam.

Por força da profissão convivia com a miséria humana, onde as vidas se restringiam apenas a sofrimentos cruéis e desgraçadamente solitários, onde as solidariedades dos deuses e dos demônios não se faziam presente.

Limitado por imposições legais e pelo código de ética da profissão não podia ir além dessas balizas e adstrito a essas circunstâncias, sofria.

Aos deserdados da sorte e desencaminhados da vida havia apenas o rigor da sociedade e o desprezo, o abandono da mesma.

Cumpria suas escalas, seus plantões e nas folgas não exercia atividade nenhuma, apesar das dívidas exigirem dele, no final do mês, atitudes.

Caminhava a passos trôpegos para o abismo, para as profundezas sombrias do martírio humano a que eram submetidos aqueles com quem era obrigado a conviver.

A melancolia, a depressão severa, a ausência de perspectiva o levou ao divã de um psiquiatra e aos olhares solidários de um psicólogo.

O tratamento seria longo.

Licenciou-se do seu emprego de guarda presidiário.

Assistiu atônito a prevalência dos embargos infringentes, relativos ao processo do mensalão.

Não suportando tamanha afronta, procurou o seu medicamento de tarja preta e ingeriu uma dose superior à prescrita, pois, do contrário não dormiria, pois os pilares da justiça sofreram um novo abalo e ruíram.

Sem data vênia concluiu após um sonoro palavrão: “aos ricos são facultados as filigranas dos embargos infringentes, mas aos pobres não são permitidos quaisquer peças processuais céleres para contenção às agressões aos seus direitos mais comezinhos, ao contrário, são infligidos pelas cóleras das leis, a semelhança às da Idade Média, que esquartejam suas dignidades humanas. E são condenados à putrefação de seus corpos e almas pelos vermes que na sua quase totalidade envergam as togas pretas que ao prolatarem suas sentenças fundamentadas no Direito Penal não levam a colação (ação de confrontar) a Constituição Federal.”

Triste país em que não existe pronome de tratamento para o povo, somente, adjetivos (miseráveis, ignorantes, imbecis, etc.), mas aos vermes não. Esses são tratados de Vossas Excelências. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pense aí.

Foi gerado numa noite onde os ânimos estavam arrefecidos pelos altos teores alcoólicos ingeridos pelos pais, depois de um dia de ofensas mútuas, onde os ressentimentos afloraram e cresceram de forma quase insustentável.

Aquela criança, ao completar cinco anos, foi abandonada pelo pai. Cinco anos depois, foi a vez de a mãe abandoná-lo.

Passou anos associando o número cinco como azar, hoje é seu numeral de sorte.

Aos dez anos, então, começou sua desdita.

Relatar suas privações seria uma homenagem descabida à miséria e ao abandono.

Era um menino esperto e como!

A herança que recebeu dos pais, a seu sentir, era o nome: HERIVELTO. Ao ouvir seu nome seu ser era envolvido por uma felicidade inigualável produto da sonoridade das sílabas HE-RI-VEL-TO.

Conseguiu a proeza de jamais receber um apelido, provavelmente pela sua postura perante aos mais velhos que às vezes o chamavam de menino e ele, de forma peremptória reagia: “meu nome é HE-RI-VEL-TO, senhor”. Com os de sua idade resolvia na base da porrada.

Cresceu matreiro. Contudo, recebeu como massa falida, pois isso não é herança genética, o alcoolismo.

Sobrevivia à base de biscates. Era pau pra toda obra. A qualidade... bem ..., a qualidade era mais que duvidosa, ao revés do profissionalismo do pai na arte de construir barcos, o que proporcionou-lhe a alcunha de Zé Pirata.

No mês aziago de agosto recebeu a incumbência de retirar cocos. No meio da tarefa deparou-se com um pé de coco que só não era maior do que suas necessidades. Vacilou, mas tinha que cumprir a empreitada. Subiu, subiu e quando estava a uns 10 metros de altura a lei da gravidade impôs sua autoridade.

A queda, além de outras escoriações, provocou fraturas expostas no seu braço direito.

Sofreu estendido no solo pátrio aguardando a chegada do SAMU que levou 40 minutos.

Abro um parêntesis para um comentário desairoso, mas saltou-me aos olhos o total da espera daquele infeliz – o mês de agosto é o oitavo mês do ano, que multiplicado pelo fatídico número cinco totaliza quarenta – fecho o aludido sinal gráfico, com as devidas vênias.

Quando o socorro chegou, o médico assistindo aquela cena de fraturas graves, disse:

“Pense (e, Herivelto não o deixando complementar aquela frase que terminaria “na besteira que você arrumou”.)

Retrucou, imediatamente: ”Pense aí na dor que estou sentindo”.

Resultado: passou por três cirurgias; passou sete meses com uma armadura metálica no braço presa por parafusos; meses de fisioterapias e finalmente passou pelo dissabor de constatar que o seu braço ficou inutilizado.

Depois dos meses acima mencionados, retornou ao vilarejo que vivia.

E o seu recomeço foi o fim da sua única herança (Herivelto), da sua única e genuína felicidade da vida. Passou a ser chamado por todos de PENSE AÍ.

Bem, com a falta de bom senso que me caracteriza, adentro nessa história para externar a minha reflexão: “Agora pense ... Pense aí - que vida azarada da porra.”

sábado, 24 de agosto de 2013

Iniquidade

A luz mortiça enfraquecia ainda mais ao ser refletida no espelho, pelo sofá que impedia na sua plenitude a passagem daquele raio solar agonizante.

Aquela cabana de madeira ficava num promontório, onde os ventos com suas forças de intensidades variadas e de sons que pareciam músicas descompassadas eram inclementes, assim como as ondas do mar que fustigavam a parte inferior daquela montanha, de forma contínua e incessante.

Na cozinha aquele senhor arrastava os chinelos com seu andar claudicante, acrescido pela irregularidade do chão, à procura de um copo d’água para saciar sua sede.

Estava em estado febril, com uma coceira espalhada pelo corpo inteiro, decorrente provavelmente de seu estado emocional, pois estava desempregado há duas semanas daquele emprego que sugara anos de sua vida, na única farmácia da aldeia.

Foi para sala, abriu as cortinas das janelas e momentaneamente olhou para o céu com o descaso, pois a falta de esperança massacrava seu ser e o impedia de registrar aquele espetáculo de estrelas brilhantes e da luz da lua que inundava o hemisfério sul.

Abriu o livro que estava abandonado há meses sobre a mesinha e tentou avançar na leitura postergada, mas o seu estado psicológico não suportou passar de cinco páginas, afinal o personagem central lutava entre a vida e a morte, em decorrência de uma doença insidiosa.

Acompanhado da solidão, que é péssima companheira, entrou num processo de cartase, de libertação de suas emoções e sentimentos.

As horas avançaram e acabou dormindo.

No dia seguinte começou a sua peregrinação pela busca de um emprego improvável.

Depois de meses de buscas acabou na sarjeta, transformando-se num mendigo compulsório, oficial, graças à política criminosa implantada no país sobre o direito à aposentadoria.

Nas regras vigentes à época de sua entrada no mercado de trabalho hoje estaria usufruindo da aposentadoria, mas na legislação atual faltam cinco infindáveis anos.

Resultado: perdeu os anos de recolhimento à Previdência Social, perdeu a dignidade humana.

Enquanto isso continuam as apropriações indébitas, os roubos descarados, as locupletações, as impunidades desses lavradazes da coisa pública.

Isso não é um país. É um espaço geográfico que foi apropriado por uma cúpula de crápulas, de cínicos e de calhordas.





sábado, 10 de agosto de 2013

Médico

O vocábulo exato para definir aquela criatura era impulsividade.

Da infância, passando pela adolescência e chegando a idade adulta sempre pagou um tributo muito alto por agir irrefletidamente, precipitadamente.

Conheceu a esposa numa noitada e ao olhá-la o instinto primitivo fez-se presente, e por impulso acabaram num motel.

Tomou as medidas preventivas para evitar uma possível doença sexualmente transmissível ou, remotamente, uma gravidez indesejada, afinal como médico, essas preocupações eram naturais, principalmente nos seus relacionamentos superficiais.

Um mês depois recebe uma ligação daquela mulher comunicando que estava grávida.

Ensandeceu. Sempre fugiu das matérias exatas e agora a maldita Estatística fazia dele uma vítima.

As fábricas de camisinhas propalam à exaustão que o controle de qualidade das mesmas é extremamente rígido e o percentual de defeitos é desprezível, não ultrapassando 0,001% da produção, portanto, seguras.

O maldito percentual (0,001%) transformou-se em 100% de sua infelicidade.

Criado na cultura judaico-cristã casou e oito meses depois nasceram gêmeos.

Trabalhava num hospital público da Baixada Fluminense, onde sobravam doentes e faltava até o básico para atender as necessidades dos pacientes.

Uma indignidade, uma atitude criminosa, mas, desgraçadamente, nenhuma novidade em se tratando de Brasil.

Numa manhã, quando estava de plantão recebeu uma ligação desesperada da esposa, que histérica implorava seu socorro, pois havia atropelado e talvez matado a vítima.

Com dificuldades conseguiu o endereço do fatídico acidente.

Num estado deplorável de nervosismo, sem refletir, chamou o motorista da ambulância, um enfermeiro e partiram com as sirenes ligadas, excedendo e violando o código de conduta daquele funcionário público, o motorista, e infringindo todas as leis de trânsito adstritas à condução daquela unidade de socorro.

Chegaram ao local do sinistro e foram ao encontro da vítima. Quando seus olhares depararam-se com o corpo estendido na via pública, encharcado numa poça enorme de sangue, perplexos indagaram: “E aí doutor, o que vamos fazer?”

Naquele momento o doutor estava possuído pela raiva dos justos e pela ira dos ímpios, afinal a vítima era um cachorro.

Que vergonha – pensou. Não esboçou uma mísera palavra. Dirigiu um olhar frio para esposa e gesticulou para os colegas, gesto esse que significava: vão embora. Atravessou a pista e procurou um boteco de décima-quinta categoria e encheu o pote durante horas.

O pensamente recorrente era de que a praga daquela mulher tinha excedido os limites do bom senso. A desesperança acompanhada de cólera invadiu o seu ser, isso desconsiderando a situação vexatória perante os colegas e a improbidade administrativa cometida.

No dia seguinte, como esperado, foi objeto de chacotas, de gozações infindas.

Dois dias depois começou a responder uma sindicância no hospital que acabou prosperando para mais duas. Absolvido nas três, recebeu uma promoção: remanejamento. Foi trabalhar em outro hospital que ficava na periferia da periferia da Baixada.

O hospital não tinha nem portão de entrada. Seu consultório era literalmente no corredor. Isso mesmo. No final do corredor colocaram um biombo, como porta, uma mesinha, duas cadeiras e um ventilador que merecia uma aposentadoria por idade ou por tempo de serviço.

A precarização daquele estabelecimento público era o revés de um hospital. Faltavam recursos médicos, cirúrgicos e medicamentos básicos, apenas para exemplificar, eram os enfermeiros que faziam às vezes dos dentistas, na extração de dentes.

Os delitos cometidos naquele lugar sejam por ação ou omissão estavam inscritos em diversos artigos, incisos e parágrafos do Código Penal.

É ..., os deserdados da sorte padeciam naquele local. Afinal, o sucateamento daquele hospital implicava na destituição aviltante da dignidade humana.

O médico definia com exatidão aquele lugar: “isso aqui é a chamada maldição eterna”.

O tempo que a tudo destrói começou a intervir naquele médico com mais intensidade no instante que ele parou para questionar a vida.

Casou com uma mulher que não amava; não desejava ter filhos, teve logo dois; tornou-se médico por vocação e sempre foi privado de exercê-la com dignidade no serviço público; a idade avançada e suas mazelas, e por aí ia a sua reflexão.
Resultado: entrou numa depressão profunda que se tornou sua companheira indesejada (mais uma).

Nos poucos momentos de lucidez avalia a sua vida e desgraçadamente conclui: foi uma equação com centenas de incógnitas, portanto, sem solução. A conseqüência é o retorno ao estado depressivo.

Que vida! – penso eu.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Busca pela fé

Aquela criatura recebeu a herança genética da mãe, mas do pai foi uma imensa massa falida geneticamente falando.
Do legado desse passivo menciono apenas alguns, tais como:

- síndrome de Cockayne. Excesso de sensibilidade à luz solar, estatura reduzida e envelhecimento precoce;

- síndrome de Kelley-Seegmiller. Formação de pedras na área urinária;

- síndrome de Waardenburg. Perda de audicão e mudanças na coloração do cabelo, da pele e dos olhos;

Isso sem desprezar o alcoolismo, pois há evidências claras de que alguns fatores genéticos aumentam o risco de contrair a doença.
O pai era extremamente rígido, religioso e alcoólatra. Impunha ao filho a religião que professava.
Cresceu.
A convivência com as mazelas advindas da genética degenerada causava transtornos enormes no seu corpo, porém, nada semelhante à dor do espírito, oriunda da sua busca visceral pela fé.
Foi expulso de duas sinagogas.
Frustrado, resolveu converter-se ao catolicismo. Pelo seu histórico até que resistiu bem
mas, fadado à maldição eterna, acabou excomungado.
Na sua busca incessante pela fé, adentrou nos caminhos do kadercismo. Freqüentava as sessões assiduamente e numa determinada noite percebeu que as pessoas que incorporavam normalmente, deixavam de fazê-lo quando estavam ao seu lado.
Antes de passar pelos dissabores anteriores, o da exclusão, resolveu antecipar o fato e partiu em retirada.
Acabou na macumba.
Como das vezes anteriores, o início parecia promissor.
O seu infortúnio começou com o envolvimento amoroso com uma cambona.
O pai de santo, famoso naquelas bandas da zona sul do Rio, não admitia esse tipo de relacionamento no seu terreiro e aguardava a próxima gira para dar um sapeca-ia-ia naquele individuo.
Ele recebeu a notícia (o aviso), não por uma entidade, mas pela cambona em questão.
Não prestou.
Na noite fatídica passou o dia enchendo o pote. Derrubou uma garrafa de uísque e meia de vodca.
Quando a gira girou ele acabou girando também, não pelo teor alcoólico, mas por algo que jamais sentira, a incorporação de uma entidade.
Quando o pai de santo ficou possuído por uma entidade não evoluída é que a quizila formou-se.
A troca de agressões verbais e promessas de vindita entre as entidades incorporadas nele e no pai de santo foram num crescendo assustador e o ápice ocorreu quando a entidade que possuía o pai de santo cantou para subir abruptamente.
A cena a seguir foi desqualificadora. O pai de santo desmaiado, ele incorporado, distribuindo impropérios sem fim, entre goles sôfregos de marafo.
Ele destruiu a fama e a carreira daquele pai de santo e acrescentou às suas desditas mais um convite compulsório a retirar-se.
A sua busca constante e alucinada pela fé terminou quanto se converteu ao ateísmo. Afinal, o ateu não é um ser gregário.
Realmente, na esfera da fé, aquela criatura não poderia dar certo, como não deu, ou deu?













sábado, 6 de julho de 2013

O destino do povo brasileiro.


Não perderei o seu tempo relembrando os acontecimentos sobre o descobrimento do Brasil, afinal a versão calhorda é de conhecimento geral.

Fixarei o meu relato nos 10 dias anteriores à aludida descoberta.

Um grumete, não tolerando mais os sofrimentos e as carências a que eram submetidos os da sua classe pelo oficialato daquela caravela, repudiou com veemência as privações de água e alimentos que sofriam.

Mesmo sabendo da punição que o esperava, protestou, afinal, a sua dignidade estava muito acima da covardia dos seus colegas de infortúnio.

O castigo foi imediato e cruel.

Foi mandado para o caralho que era uma pequena cesta afixada no mastro mais alto da caravela, local de maior instabilidade da nave, em função dos múltiplos movimentos gerados pelo impacto das águas, enfurecidas ou não, do mar, nas laterais do barco.

Era no caralho que o vigia perscrutava o horizonte em busca de sinais de terra.

Em frangalhos fisicamente, mas inteiro na sua dignidade, partiu de sua voz, a descoberta do Brasil, ao gritar: “terra à vista, ó pá”.

O conjunto da obra sobre o achamento do Brasil não poderia ser diferente, pois, antes mesmo de colocarem os pés em terra firme, o processo de falácias iniciou-se, ao mutilarem a frase dita, com a retirada da expressão, ó pá.

Quinhentos anos depois, o cantor e compositor Eduardo Dussek, de forma mordaz, canta uma música aludindo que o Brasil foi vendido à vista (na época do descobrimento), mas que agora é a prazo.

Os responsáveis por essas ignomínias deveriam estar a grilhões, condenados pelo crime de lesa-pátria.

Insaciáveis em se locupletarem chegaram ao limite da insensatez e, no entanto prosseguiram: hoje, doam o Brasil (entendam o hoje, como um período de 20 anos, afinal, estamos em termos cronológicos, falando de 500 anos).

As privatizações indecorosas, na era FHC, pagas com moedas podres (valendo o valor de face) e o restante com financiamentos proporcionados pelo BNDES.

Não tenho dúvidas que você conhece o processo, mas a náusea que me causa é tamanha, e por isso não tenho dúvida que serei perdoado por insistir em relatar de forma rudimentar o método.

O BNDES recebe aporte de recursos monetários do Tesouro Nacional, mediante a emissão por esse de títulos da dívida pública, captados no mercado a juros estratosféricos e repassados, por aquele, aos “investidores” a juros subsidiados (baixíssimos).

Essa diferença dos juros, além do principal, é coberta pelos impostos que todos nós brasileiros pagamos. (não fique indignado, afinal, as gerações futuras, seus netos, bisnetos, pagarão ainda por essa esbórnia, também).

Na era Lula, por questão de coerência eles não poderiam privatizar, e sordidamente fizeram o elementar, trocaram o nome de privatização para concessão. Utilizando-se dos mesmos métodos sórdidos do seu predecessor.

E o povo? Ah! o povo brasileiro foi mandado para aquela cesta, como o grumete.

O Brasil virou uma caravela gigante, onde o oficialato é composto pelos detentores dos poderes constituídos, crápulas por natureza e corruptos por gosto e pela certeza da impunidade. Lógico, que sempre se aplica a lei da exceção.

Recentemente alguns milhares de grumetes revoltados desceram ao passadiço e protestaram contras as ignomínias sofridas.

Os membros do oficialato, que são ladravazes na sua quase totalidade, mas não burros, cederam com migalhas.

Desgraçadamente o povo não percebeu que deveria sair definitivamente daquela vida no caralho e, mandar em caráter terminante, para o caralho, essa escória que nos representa.

Perdemos os ventos da história mais uma vez.

Com as devidas vênias gostaria de manter-me na definição de caralho (cesta) da Academia Portuguesa de Letras, contudo, exasperado, termino usando o verbete atualizado daquele vocábulo:

É ... a vida é do caralho.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Juiz


Prestava seu serviço jurisdicional em duas comarcas. As mazelas eram, portanto, duplicadas. 

As salas onde prolatava suas sentenças faziam concorrência com a Justiça desse país, eram precárias. 

Para piorar a sua situação não suportava viver em nenhuma daquelas cidades interioranas. 

Caso não fosse suficiente aquele desgosto, o problema recrudescia com as reclamações diárias de sua esposa que o atazanava por viverem perdidos no meio do nada. 

Era uma figura taciturna, prepotente, que insistia em viver e agir como nos tempos pretéritos, em que a Santíssima Trindade, na Terra, era composta por: padre, médico e juiz. 

O convívio com os demais servidores era tenso. 

Protelava ao máximo receber em seus gabinetes os advogados das partes litigantes, os promotores e o defensor público. 

Essa atitude intempestiva provocava no meio jurídico uma aversão total àquela figura, considerada como deplorável e possuidora de um gênio irascível. 

Numa manhã chamou o Oficial de Justiça e perquiriu sobre uma determinada intimação, que é um ato pelo qual se dá ciência a uma das partes do processo de algum acontecimento nele ocorrido, no caso em questão uma audiência designada pelo Juiz. 

“Excelência ”– disse o Oficial de Justiça: “por diversas vezes fui à residência da parte envolvida no processo e não a encontrei.” 

Fugindo da liturgia do cargo, uma vez que deve haver um respeito muito grande entre os Oficiais de Justiça e os Juízes, pois, ambos formam o alicerce de efetivação do direito, fato que contribuirá para que o conflito de interesses deduzido em Juízo possa ser satisfatório, o Juiz grosseiramente o chamou de incompetente e disse que iria ensinar os rudimentos básicos de sua função. 

No dia seguinte, chamou o destacamento da força policial, civil e militar, e em companhia do humilhado e indignado Oficial de Justiça, dirigiram-se para o endereço, onde deveria cumprir a aludida intimação.  

Ordenou a força policial que cercasse toda a casa e tocou a campainha. 

Passaram-se cinco minutos e nada. 

Tornou apertar a campainha e quando iriam transcorrer oito minutos do toque, escutou uma agitação com gritos dos policiais: “Excelência, o meliante está preso.” 

O Juiz estufou o peito e com aquela empáfia característica dirigiu-se ao local da prisão.

Quem assistiu aquela cena patética ficou embasbacado. 

O sujeito chorava como criança e implorava para que não fosse preso, pois ele não era o indivíduo procurado e sim o amante da mulher daquele. 

“Por favor” - dizia ele - “não desgrace as nossas vidas, eu sou um homem casado”. 

O Juiz, que a tudo escutava impassível, dirigiu-se ao Oficial de Justiça e disse:"Isso é um caso típico de obrigação solidária, faça o homem assinar a intimação".

Boquiaberto, a princípio o Oficial de Justiça respondeu sem a cerimônia devida que obrigatoriamente deveria pautar a relação entre ambos, e não externou nem um mísero data vênia, e secamente disse ao Juiz: “Não o faço, pois isso é uma impropriedade, um despropósito, uma insensatez jurídica. Esse instituto jurídico, o da obrigação solidária, tem balizas próprias e versam sobre a questão de devedores de pecúnia”. 

O Juiz não titubeou: deu voz de prisão ao Oficial de Justiça que ousava em desacatá-lo. 

O imbróglio foi grande e o desdobramento daquele despautério jurídico, encontra-se para julgamento na pauta da próxima sessão do Conselho Federal de Justiça.

 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Aquela dor


Os olhos estavam fixados naquele registro fotográfico que pretensamente perpetuava um casal de jovens.

A fotografia estava amparada por uma moldura oval completamente descascada pelas garras do tempo, que insistia em cumprir a sua obrigação, o seu destino, o de manter aquela imagem em exposição.

A foto estava amarelada pelo passar dos anos, mas não o da totalidade dos 60 anos de sua existência.

Ela começou a perceber a transformação na cor original da fotografia com menos de cinco anos de tirada, pois, diariamente a olhava com sentimentos diversos, afinal, o jovem, futuro marido, morreu de forma estúpida dois dias depois da imortalização daquele momento.

Não sabia a razão.(culpa da lignina que junto com a celulose formam os dois componentes básicos da madeira, matéria-prima do papel. A lignina dentre outras características escurece ao contato com a luz e o oxigênio, razão pela qual o papel fica amarelo com o passar do tempo).Seus sentimentos estavam voltados para o terceiro componente da fotografia, invisível a qualquer olhar, mas não ao dela: o tempo, aquele tempo aprisionado quando do flash disparado pela máquina fotográfica.

O tempo, insensível pela sua natureza sórdida que a todos destrói, num segundo de distração foi flagrado impassível, indiferente, assistindo o momento de felicidade total daquele casal.

Aquela fração de tempo ficou eternizada para sempre.

Ah! os momentos do tempo... – pensava ela.

O tempo que presenciou a paixão desmedida dos dois; o tempo que assistiu as poucas dúvidas e incertezas de ambos; o tempo que foi espectador dos seus sonhos e das poucas decepções daquela época.

O novo tempo, posterior à morte de seu noivo, testemunhou a sua decisão que afinal é um direito inalienável de qualquer indivíduo, a de estabelecer seu próprio centro do universo, o dela foi de renunciar totalmente à vida, vivendo numa solidão acompanhada apenas por aquelas lembranças do passado.

A dor diária e solitária que acompanhava ao longo de 60 anos, parecia mais intensa naquela manhã cinzenta e chuvosa.

A fotografia agora estava quase completamente esmaecida, mas não na sua memória.

Dirigiu-se à mesa da cozinha e sentou-se numa cadeira.

Perplexa, olhou mais uma vez para a fotografia e apoiou os cotovelos sobre o tampo da mesa e colando as suas mãos nas frontes, externou em voz alta, de forma precisa e definitiva, o sentimento de toda uma vida:

Ô dor danada de cansada, meu Deus!”.

 

 

sábado, 18 de maio de 2013


Urubu fogoso 

Chamar aquele lugar de vilarejo era uma impropriedade, de aldeota, vá lá, apesar de certo exagero.

Para chegar à única rua da localidade, denominada de Urubu Fogoso, tinha que atravessar um pontilhão sobre o rio Me Ache que dava nome aquele lugar formado por um punhado de construções toscas que resistiam ao tempo. Eram centenárias.

A origem do Me Ache ocorreu com a chegada de Maria Roxa.

Considerando Maria Roxa um ramo específico de sua arvore genealógica, esse galho cresceu muito e, francamente, como deu galho. Maria Roxa era mãe de Maria das Graças, que deu a luz a Maria Rubina, que por sua vez procriou Maria Raimunda, que gerou Maria das Flores e essa, a Maria do Rosário, que concebeu Maria Maria que deu existência a Maria Genulina. (Os meninos não contam).

Todas putas por necessidade e gosto.

Certamente era a maior concentração de Marias por metro quadrado do planeta e olha que não entram na estatística, em seus devidos retábulos, as diversas imagens de Nossas Senhoras de vários nomes que no fundo são Marias.

Todas as Marias vendiam, além do corpo, bebidas e cigarros para engordarem seus parcos ganhos. No ramo das bebidas alcoólicas existiam diversos tipos de cachaças, no mais, apenas rabos de galo. No segmento dos cigarros existia uma variedade maior: os de palha com fumo de rolo, Imperador, Nobre, Mirage, Corcel, Salem, além de cigarros em retalhos para os menos afortunados.

Continental sem filtro e outros tipos de cigarros curiosos como os com anagramas, maçônicos ou religiosos eram exclusividade dos fazendeiros, políticos, padres e juízes que traziam para complementar seus prazeres, garrafas de whiskey, logicamente importados.

Desde a década de 20, do século passado, a esbórnia era organizada.

Os ricos aliviavam seus instintos bestiais com exclusividade nas terças, quartas e quintas-feiras, afinal, como senhores respeitáveis, o final de semana era sagrado. Ficavam com suas famílias.

Que negócio da porra.

A discriminação social até para foder, naqueles tempos, fazia-se presente. Os demais clientes não tinham direito a ter tesão naqueles dias da semana e se tivessem, teriam que partir para a ignorância: sair na mão.

Recentemente, um dos filhos daquelas mulheres foi eleito vereador daquele município perdido no interior do Estado da Bahia e no seu discurso de posse, foi aparteado por um vereador de vários mandatos, filho de um ricaço da região, que agredindo o regimento da Câmara e o colega que usava a palavra, disse: “Terei dificuldades em conviver contigo e, principalmente, chamá-lo de V. Exa., o correto é chamá-lo de filho da puta”.

As galerias estavam cheias de pessoas humildes que vieram acompanhar o discurso de um de seus pares da pobreza e ao ouvirem aquela ofensa, a coisa desandou.

O presidente da mesa esbaforido mandou que retirasse das notas taquigráficas aquela ofensa e, imediatamente, suspendeu a sessão.

Não preciso mencionar que a falta do decoro daquele parlamentar não chegou à Comissão de Ética. Ficou impune.

Extrapolando a ignomínia daquele vereador para a maioria dos políticos brasileiros que conspurcam os seus mandatos, mediante diversas vilanias (atos e atitudes contrárias à ética e a moral), conclui-se que eles não são filhas da puta de direito, mas os são de fato.

Que país!  Que miséria! Que puteiro!

 

 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

E aí matéria?

O calor estava insuportável naquele mês de março de 1967.
As janelas daquela sala de aula estavam fechadas para tentar abrandar a inclemência dos raios solares.
 Existiam duas supostas peças de resistências para tentar amanair aquela temperatura absurda, dois ventiladores dignos representantes da terceira geração dessa invenção.  As pás giravam com uma melemolência assustadora, como tivessem conhecimento de que qualquer esforço adicional seria desperdícios de energia, pois iriam apenas acelerar aquela quentura diabólica em direção àqueles  alunos especiais. 
 Com 30 minutos de aula, o monsenhor que ministrava aula de Teologia ouviu murmúrios vindo do fundo da sala, e com  aquele gênio irascível e com aquela empáfia que o caracterizava, apontando para um noviço indagou: “o que você falou com seu colega do lado? Afinal, todos nós queremos saber, também.”
O aluno não poderia ser outro que não o Matéria, alcunha dada pelos demais noviços e não era por ser o primeiro da turma há anos, mas por outra razão.
O Matéria imediatamente levantou-se, e no alto de sua estatura física e daquele sotaque baiano que jamais perdera, apesar de anos de seminário e noviciado com alunos de outra região do país, respondeu com seu cinismo peculiar: “Monsenhor, comentei, com o colega do lado, que caso houvesse um aparelho que medisse a sensação térmica, provavelmente, hoje, estaria no limite máximo.” 
O Monsenhor, contrariado, pois desejava infligir um castigo exemplar, respondeu: “Ah! Bom. Sente-se.”
Sentando, olhou de esguelha para o colega que procurava conter o riso mordendo os próprios lábios, pois o comentário do Matéria fora:” Preferia estar no Inferno agora, pois o Diabo pode ser tudo, menos burro. Lá tem ar-condicionado. Essa história de fogo e ranger de dentes é balela, meu rei.”
No intervalo, todos procuraram uma sensação de refrigério debaixo das mangueiras que existiam no pátio, afinal, as suas indumentárias eram apropriadas naquele dia apenas para desidratação, pois consistiam de ceroulas, camisetas e batinas pretas.
O Matéria saiu por último, com aquele andar pachorrento, vagaroso que denotava  a mais completa ausência de disposição para qualquer coisa e no meio do caminho encontrou um colega que era de outra classe e fez a sua indefectível saudação: ” E aí matéria?  (essa habitual indagação era a origem de seu apelido: Matéria). Ouviu a resposta e foi ao encontro da sua turma que gargalhava ao tomar conhecimento do seu verdadeiro comentário em sala de aula.
Com a sua chegada, aí mesmo que aquele território virou o da galhofa, pois o Matéria também era espirituoso, característica  de quem usa a sua inteligência e conhecimento para divertir as pessoas e avivar conversas.
Tinha um intelecto privilegiado. Dominava, na sua plenitude, o latim, o grego, além, lógico, das demais matérias.
No final daquele ano sua turma faria os dois primeiros votos para ordenarem-se padres.
Talvez por ter entrado criança no seminário (10 anos), ou por gosto, fazia suas peraltices que ficaram registradas em sua ficha, maculando-a.
Certa feita foi pego pelo padre-reitor tocando uma música profana, e não era uma qualquer, mas daqueles diabólicos garotos de Liverpool, os Beatles, OB-LA-DI OB-LA-DA, na  Capela do Seminário. O instrumento musical era um órgão centenário francês, uma preciosidade, cujos tubos de madeira que produziam o som, tinham 10 metros de comprimento, um som límpido, que ampliava-se pela acústica perfeita do ambiente.
Resultado: um mês de castigo.
Em outra ocasião falecera um padre no Rio de Janeiro, em um final de semana. E no seminário que ficava numa fazenda existia um cemitério exclusivo para o repouso eterno dos padres daquela Ordem.
Como era folga dos trabalhadores rurais, não houve alternativa que não selecionar uns 05 noviços para abrir a cova, e dentre os escolhidos, estava o Matéria.
Pegaram picaretas, enxadões e pás e foram para o local determinado pelo padre. Loucos para terminarem aquele serviço macabro, pois estavam ávidos para desfrutarem de uma pelada, trabalharam com afinco. Um deles foi procurar o padre para dar o aval definitivo sobre a sepultura aberta. O padre chegou, avaliou o trabalho e ficou pensativo por alguns instantes e proferiu sua sentença que desagradou a todos: ”o falecido era de uma altura acima da média, assemelhada à do Marcus (Matéria), portanto, é necessário aumentar o comprimento”, e voltou para os seus afazeres.
Aborrecidos procuraram uma sombra naquele campo santo.
Passados quarenta minutos voltaram para completar o serviço. Feito, um deles virou para o Matéria e disse:
”É  melhor você se deitar na cova para confirmar a medida e assim, ficarmos livres desse negócio.” Era razoável o pedido, mas o Matéria ficou meio cabreiro, mas não deixou transparecer sua apreensão.
Pulou na cova e ao deitar foi espetado por um osso do cadáver anterior, mas o comprimento agora tinha folga. Olhou para cima e viu em perspectiva seus colegas, primeiros as pernas, as pás e os rostos dos colegas com sorrisos traidores, e antes que pudesse esboçar qualquer reação, começou a ser soterrado pelo movimento incessante dos companheiros com suas pás.  Nesse exato momento chegou o padre. 
Levaram um sermão de mais de uma hora e o Matéria, vítima, foi responsabilizado pelo ocorrido. Resultado: castigo.
Os padres faziam avaliações mensais sobre os noviços e o Marcus passou ser objeto de preocupações, apesar de terem a consciência de que ele tinha vocação e seria um bom servo do Senhor, contudo pesava contra ele, na percepção equivocada daquele colegiado, uma certa imaturidade.
O semestre aproximava-se do fim, quando o Matéria aprontou mais uma gaiatice. Entrou no confessionário e começou a ouvir os pecados dos seminaristas, ministrar conselhos e determinar o número de orações para purgarem seus maus feitos.  A maioria dos pecados estava vinculado ao desejo da carne, amavam com as mãos (masturbação) meninas imaginárias, ou fotos de mulheres que mantinham escondidas. Eram repreendidos e recebiam a absolvição com a obrigação de rezarem 05 Aves Maria, 06 Pai Nosso e 07 Credos. Os pecados de menor potencialidade, na sua visão, como desejar a morte do padre-diretor, recebiam como penitência rezar apenas 01 Ave Maria.
Depois de ouvir a confissão de mais de 03 dezenas de seminaristas, o padre-confessor chegou. Pronto. O castigo do Matéria foi um mês de silêncio obsequioso. Poderia responder apenas aos padres, caso fosse perquirido por um deles.
Quando passava pelos colegas, mexia sub-repticiamente as sobrancelhas que todos associavam com aquela indagação: “ E aí, matéria.”
No final do semestre o padre-reitor o chamou e depois de uma hora de monólogo determinou seu destino, a expulsão.
Pegou sua mala de papelão, jogou as poucas peças de roupas e pegou a estrada rumo ao Rio de Janeiro.
Sozinho naquele mundo novo, com parcos recursos recebidos na sua saída, procurou uma pensão de décima quinta categoria e foi à procura de emprego. 
Conseguiu emprego numa funerária. Fazia de tudo, inclusive arrumar os defuntos.
Com sua formação humanista, procurava consolar os parentes dos falecidos e fazia suas obrigações com profundo respeito.
Certa manhã chegou um corpo enrolado num lençol, acompanhado de um senhor em prantos. O Matéria fez aquele gesto de mover a cabeça para baixo, um sinal que traduzia os seus sinceros e profundos pêsames.
O senhor foi preencher as papeladas de praxe e o Matéria empurrou a maca com o corpo recém-chegado para um local previamente determinado.
Perdeu alguns minutos para terminar o que havia começado e depois foi começar os procedimentos com aquele corpo.
Levantou o lençol, viu aquele rosto jovem e, imediatamente, veio a indefectível indagação: “E aí, matéria?”
Pronto. A confusão estava formada, pois o senhor, pai daquele jovem sem vida, havia voltado e escutou o que o Matéria proferiu.
Aquilo, a seu sentir, era um escárnio, um desrespeito, uma afronta, uma indignidade.
Matéria foi despedido sumariamente.
Perplexo sobre que rumo tomar, procurou um banco na praça e sentou para refletir sobre sua vida passada e a conjecturar sobre a futura. As suas conclusões não foram nada alentadoras.
Depois de horas de reflexão não chegou a desfecho nenhum.
Levantou-se e o que veio ao seu pensamento, por força do hábito, foi aquela indagação, mas agora para si próprio:
“E aí, matéria?”.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Aquela criança


Num mísero intervalo de oito meses consecutivos, aquela criança vivenciou tragédias que poderiam ser absorvidas com intenso sofrimento, ao longo de uma existência, mas jamais concentradas naquela tenra idade.

Perdeu a mãe, de forma abrupta, dois meses antes de completar 10 anos de idade;

Menos de uma semana daquela perda trágica, surge uma figura estranha dizendo-se ser seu pai, para levá-lo. Não tinha na lembrança a imagem paterna, afinal a separação dos pais ocorrera quando tinha três anos de idade;

E finalmente, a ida para um seminário, aos dez anos e meio de idade.A convivência com o pai era impossível.  Um ser cruel, frio, que de humano só tinha a forma.
Aquela criança indefesa e deserdada da sorte conseguiu sair do jugo paterno, aceitando um convite de um padre que recrutava crianças para serem seminaristas.
 
O alívio paterno ao assinar o termo de autorização ficara despuradamente evidenciado em seu semblante, afinal naquele momento lavava suas mãos em relação ao filho, ato esse que prostituía o de Pôncio Pilatos (que acabou entrando de gaiato no Credo), pois para esse só existia um deus, César, o imperador romano.

O pai deixou aquele estorvo, a seu sentir, um mês antes do acordado, no seminário. 

Os poucos padres que estavam naquela época do ano no seminário, aceitaram aquela criança com certa relutância. 

O medo, a tristeza, a iniquidade e o abandono passaram a possuir aquela criança. 

À noite um padre o levou para o dormitório.  Era imenso. Tinha mais de 150 camas separadas por criados-mudos.  Sozinho no escuro, em posição fetal, resistiu por alguns minutos à dor contida e às lágrimas represadas ao longo do dia, mas o limite de sua resistência chegou ao máximo e desabou num choro incontido, descontrolado, desgraçadamente sofrido. 

  


Aquela cena jamais deveria ser vivida por qualquer ser humano, quanto mais por uma criança. 

Olhando sob outra perspectiva aquela cena era como aquela criança dissesse: “que pena que tenho de mim, caso pudesse me pegava no colo e me cobria de beijos.” 

A sensação do abandono é sentir-se morto em vida. É o revés do significado da existência humana. 

Com a chegada das outras 120 crianças, procurou por instinto interagir com elas, afinal escolhera entre o abandono individual, o abandono coletivo. 

Dedicou-se com afinco ao aprendizado religioso e ao profano. 

Quando tomou conhecimento de Deus, a sua reação foi de um enorme ressentimento contra ele, pois esse ser superior facultou todas as desgraças sofridas por ele. 

Naquele processo de lavagem cerebral, aquela criança entendeu que jamais iria para o Céu, pois não seria suficientemente bom e, também, não seria um ser tão mau para queimar no fogo eterno do Inferno, restava o Purgatório, onde seria abrigado. Por essa razão apegou-se as almas do purgatório com tamanha devoção que elas passaram a acalentá-lo todas as noites, pois era o horário que aquela criança dialogava mentalmente com elas. 

As missas aconteciam às 6:30h e por tradição eram rezadas por um padre de outra Ordem, os Franciscanos.
 

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Quando foi escalado pela primeira vez para ser coroinha numa missa, sofreu a primeira de uma série de decepções com a Igreja. O fato ocorreu, antes da consagração do Corpo (hóstia) e do Sangue de Cristo (vinho), o ápice da liturgia. 

Instantes antes, o coroinha vai ao encontro do padre com dois recipientes contendo água e vinho, respectivamente. Os fiéis ficam ajoelhados e cabisbaixos imbuídos do maior sentimento de fé. O padre oferece o cálice para que sejam colocados os dois líquidos.


A desilusão daquela criança ocorreu no momento que o padre estendeu o cálice em sua direção e falou baixinho: ”Exagera, exagera no vinho e finge, finge que está colocando água.”
Somou mais uma inquietude à sua alma sofrida. 

Aguardou a passagem de quatro meses para ser novamente escalado como coroinha. 

Quando o padre dirigiu o cálice em sua direção e esboçou em falar, aquela criança imediatamente falou: “Já sei seu padre. E praticou a vingança engendrada há meses: exagerou na água e fingiu que colocou vinho.” 

O padre o fulminou com os olhos e ele voltou ao seu lugar. 




Talvez, tenha sido a primeira vez nas missas realizadas no mundo inteiro, durante séculos, que um padre fez a consagração do sangue de Cristo com o cálice repleto de água, sem uma mísera gota de vinho. 

O castigo veio imediatamente. Ficou ajoelhado sobre caroços de milho por um determinado espaço de tempo durante um mês. Sofreu, mas ficou feliz.


Os anos foram passando e aquela criança virou adolescente sendo sempre portador de reivindicações, questionamentos, o que desagradava o sistema. 


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Naqueles tempos houve, também, muitas coisas boas.  Conviveu com padres íntegros na fé, aprendeu muito sobre a fragilidade humana, obteve uma formação intelectual sólida. E esses e outros vetores moldaram o seu caráter.


Aos dezessete anos e meio foi convidado a se retirar (eufemismo para expulsão). 

Sem alternativas foi para o Rio de Janeiro passar fome. 

A vida seguiu seu curso sinuoso e traiçoeiro. 

Hoje, já velho, continua com a mesma saudade da mãe. 

Quanto a Deus, os ressentimentos aumentaram, apesar de contraditoriamente quase não ter dúvidas sobre sua inexistência. 

A relação com as almas do purgatório aumentou, principalmente quando o papa Bento XVI declarou recentemente que o purgatório não é lugar do espaço, do universo, “mas um fogo interior, que purifica a alma do pecado”. 

Hoje a família insiste para ele ter fé e ele amavelmente não responde, mas pensa: “fé em quê?”. 

Ah!  Quanto àquela criança? 

Aquela criança fui eu. 

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Doutor

Sempre que possível, o Doutor saía à noite da Instituição e ia para aquele arremedo de praça que ficava no centro do complexo e deitava-se sobre um banco de pedras e dirigia seu olhar para o firmamento.

Não era um ato meramente contemplativo, mas de profunda reflexão.
Naquele instante seus pensamentos retroagiam a tempos idos. Olhando aquele céu estrelado revisitou sua meninice. Precisamente quando tinha seus cinco anos de idade, onde sozinho, sentado numa pedra do terreiro que abrigava o seu teto, uma choupana, e dirigia seus olhos inocentes para aquela imensidão do espaço e pedia a papai do céu que tornasse as suas vidas (pai e mãe) iguais às dos pobres, pois viviam numa miséria infinda.
Na marcha inexorável do tempo, suas vidas evoluíram lentamente da indigência à pobreza e desta, para o de remediados.
Fez faculdade numa Universidade Federal, em seguida o Mestrado e há poucos meses defendeu sua tese de Doutorado.
Agora estava naquela Instituição.
Um acadêmico que há dois meses fazia residência médica, ávido pelo saber, percebeu que o Doutor poderia expandir o seu conhecimento em tempo relativamente curto.
O melhor momento para adquirir informações adicionais era à noite, quando a demanda de serviços era menor e quando o Doutor estava bem.
O acadêmico se aproximava do banco onde o Doutor estava refestelado, observando o universo, cumprimentava-o e fazia suas indagações que eram respondidas de forma clara e didática, entretanto, havia noites que o Doutor não estava para conversa e respondia a saudação com um leve movimento de mão e dizia sempre: ”são de três anos atrás.”
O gesto e as breves palavras eram o suficiente para o acadêmico retornar ao plantão.
Mais do que frustrado, o acadêmico ficava incomodado com aquelas palavras “são de três anos atrás.”
Numa determinada noite ao perceber o gesto e ouvir aquelas palavras, resolveu indagar:
“Doutor, o que significa a expressão “são de três anos atrás”?“
Não esperava qualquer comentário e foi surpreendido quando o Doutor respondeu:
“Nem tudo que seus olhos testemunham é real, às vezes é uma ilusão. Olhe esse céu estrelado. Esse céu não é o de hoje, e sim, de três anos atrás. O cálculo é simples, basta utilizar as distâncias dos corpos celestes e a velocidade da luz, logicamente, que os três anos representam uma média.”
O acadêmico ficou boquiaberto, pois, jamais fizera essa associação.
O Doutor vendo a reação aparvalhada do residente, disse: “O problema não é seu, e sim do sistema educacional, onde os professores não estimulam os alunos a pensarem. Muitas estrelas que agora estão brilhando, talvez não existam mais. Quando fico absorto contemplando a abóboda celeste, tento lembrar o que fazia há três anos atrás, mas quase na totalidade das vezes é um exercício em vão.”
O acadêmico perplexo reiterou o boa-noite ao Doutor e retirou-se.
Na semana seguinte, quando entrou no seu plantão, o acadêmico recebeu a notícia de que o Doutor entrara em um surto profundo e estava recolhido naquele cubículo acolchoado para preservar sua integridade física e vestido em uma camisa de força.
Foi vê-lo. O Doutor balbuciava, apenas: ”são de três anos atrás”.
Ficou comovido, apesar dessas cenas serem corriqueiras naquela instituição, afinal, era um manicômio.
O Doutor sofria de esquizofrenia paranóide.
A alcunha de Doutor foi dada pelo próprio corpo médico (clínicos, psiquiatras, psicólogos, etc.), reconhecendo que dentre eles quem poderia ostentar o título de Doutor seria ele, afinal tinha feito o curso de pós-graduação "strictu sensu", no nível de doutorado, defendendo uma tese ao final de um curso de quatro anos.
O interessante era que seus pares, loucos de todos os gêneros, o chamavam, também, de Doutor.
Confesso, sem nenhum pudor que das inúmeras vezes que ele tentou explicar-me a sua tese, a minha limitação intelectual não alcançava a complexidade da coisa, apesar do didatismo dele.
Ele desenvolveu um algoritmo, um modelo matemático, cheio de integrais, derivadas, limites, fronteiras móveis que simulavam o desenvolvimento das células cancerosas no organismo humano.
Resultado: sua tese foi publicada na maior revista científica do mundo, imediatamente. Recebeu diversos convites para dar palestras nos centros de pesquisas mais respeitados do mundo, além dos inúmeros convites para trabalhar nos aludidos centros.
Usufruiu por poucos dias a sua conquista.
A sua realidade agora é conviver com Napoleão, Nero, Jesus, Papa, e outras figurinhas carimbadas pela loucura, além daquele que merece uma ressalva final.
É conhecido por BEM.
 Contudo, os funcionários daquele hospício deveriam deixar a hipocrisia de lado e utilizar in totum a expressão repetida à exaustão por ele que, lamentavelmente é uma triste realidade:
“A vida é BEM filha da puta”.
Talvez vocês não concordem com a assertiva acima, afinal é um direito líquido e certo o dissenso, contudo, desgraçadamente para todos nós não existem fundamentos consistentes para invalidar a definição acima mencionada.