quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Uma condenação injusta de um desregrado (e a futura convivência com a maioria das autoridades públicas brasileiras) aos quintos do inferno.


Desde criança o seu desajuste era um prenúncio da vida mais que atrapalhada que levaria na fase adulta. Tudo era uma mera questão de tempo.

E o tempo chegou acrescentando àquele indivíduo cotas adicionais de maldades.

Percorreu todas as uniões e separações possíveis.

Do casamento ao descasamento; da mancebia ao caso mais fugaz; seguia sempre gerando em profusão filhos e os abandonando.

Utilizava-se da mesma frase desumana, a cada nascimento: “eu ponho filhos no mundo e Deus que os crie”. E ia em frente.

Ao ouvir o nome de seu desafeto, o Pai das Trevas, por ser um anjo decaído, ainda possuía o dom da onipresença e gritava mal humorado:

“Tá bom, tá bom, mas não fale o nome (Deus) dele não”. (Logicamente que aquele estorvo não ouvia a repreensão, afinal o Cramulhão estava em outro estágio espiritual).

Depois da reprimenda, o Diabo, com aquela expressão malévola partiu em busca de novas conquistas sabendo que aquele indivíduo já o pertencia.

Aquela figura que de humana só tinha a forma procurou todas as religiões, seitas e associações afins, sempre com intuito de levar alguma vantagem, afinal achava o dízimo ou outro numerário qualquer exigido dos fiés uma heresia a ser gasta apenas entre as autoridades eclesiásticas (homem dedicado ao serviço da Igreja), reconhecidas ou não.

Preteridos por todas, acabou transformando-se em um ateu, por mera retaliação às rejeições sofridas na sua busca por ganhos fáceis.

Com sua falta de sensibilidade também não percebia e não dava a devida atenção aos sinais, e por sinal esse foi o seu erro naquela manhã.

Depois de roubado na pesagem e no preço das latinhas levadas para reciclagem, o que atualmente era seu sustento, dirigiu-se a um boteco de décima-quinta categoria, que ostentava um letreiro meio apagado, mas com letras garrafais (sem trocadilho): “Local de Passagem”.

Fisicamente o bar ficava, numa esquina privilegiada, bem numa encruzilhada de simetria perfeita, onde os despachos de todas as naturezas e propósitos eram ofertados.

O ambiente do bar ressentia, logicamente, a teores alcoólicos desqualificadores, acrescidos de um cheiro quase insuportável de velas usadas.

No meio daquela desordem de bebidas, ovos coloridos, moelas murchas e outros petiscos não declináveis existiam uma infinidade de imagens de tamanhos, funções e cores variadas, onde o reconhecimento das mesmas exigia o aval de um expert no assunto.

Ofegante e sedento adentrou aquele ambiente mortiço, mesmo com a incidência dos raios matinais.

Mal educado, não cumprimentou nenhum dos freqüentadores, que, aliás, já era em número expressivo naquela hora da manhã, e pediu um rabo de galo.

Sem cumprir a ritualística de jogar o primeiro gole para o santo, virou o copo e imediatamente um engasgar inabitual ocorreu e ao aspergir o líquido na sua totalidade, esbarrou numa estátua esquisita que balançou, balançou, mas não caiu.

Pares de olhos incrédulos e arregalados foram dirigidos a ele, recriminando a sua conduta sacrílega e quase simultaneamente, uma avalanche de arrepios foi de encontro a todos aqueles corpos entorpecidos pelo álcool.

O dono do bar, que era vidente, sentiu uma imensa comichão em sua careca.

Trêmulo assistiu um grupo razoável de entidades irem às vias de fatos para saciarem seus desejos, mesmo que fosse por uma mísera gotícula daquela bebida pulverizada por aquele incauto. A maioria ficou a seco e a revolta foi geradora daquele calafrio.

Sabedor que desde o surgimento da beberagem no mundo, aqueles seres incorpóreos saciavam seus desejos apenas e tão somente pela oferta dos ébrios de uma porção de seus vícios, exceção feita apenas em despachos.

Ele, o dono, nada podia fazer para abrandar aquela revolta, aquela cizânia que se iniciava.

Invocado pelo desperdício daquela bebida de qualidade para seu bico, em razão da obstrução estúpida de sua garganta, exclamou: “Que sacanagem, Deus!”

Logo, ao proferir tamanha heresia, o dono do bar foi o único a ouvir aquela gargalhada gostosamente diabólica, intercalada entre baforadas exageradas daquele charuto calibre .51 feito sobre coxas gostosamente femininas.

Trêmulo, diante do Coisa-Ruim, acovardou-se e não fez o sinal da cruz.

Aquela figura inconseqüente continuou a reclamar e agora com parcos recursos que dispunha só poderia apelar para uma cachaça de paladar mais que duvidoso.

Sem alternativa pediu um copo cheio mas enfatizou, cheio até o talo.

Usufruindo com antecedência do prazer daquela queimação que percorreria suas entranhas vazias de coisas sólidas, fez aquele movimento brusco para usufruir até da última gota.

No meio do gesto, um estalo sem qualquer motivo surgiu e em suas mãos ficaram somente fragmentos daquele copo e o líquido anteriormente presente desapareceu diante de seus olhos incrédulos.

O dono foi tomado de pruridos que avançavam agora sobre seu corpo, mas os olhos estavam petrificados vendo o engalfinhamento daqueles seres imateriais, incorpóreos, numa luta fratricida para ingerirem aquela cachaça que não permitiram chegar a escorrer pelo balcão.

O desregrado saltou do banco para protestar, e em frações de segundos beijava aquele chão imundo do boteco, sem identificar o protagonista daquela rasteira.

Uma sobriedade incomum envolveu aqueles corpos entorpecidos e encharcados pelo álcool até a alma naquele momento.

Do medo à chegada do pavor durou frações de segundos para eles.

O desregrado foi envolvido pela aquela corja, agora de sóbrios e recebeu no meio de broncas impronunciáveis, as informações que explicavam aqueles acontecimentos.

Entre a razão que é a faculdade para se chegar a uma decisão ou conclusão pelo raciocínio, ou acreditar nas coisas que não via, mas que há pouco presenciou e sentiu, optou pela terceira via, a de matar seu desejo agora com uma garrafa de marafo que pertencia a um despacho.

Pisou nas oferendas e abriu aquela cachaça de rolha com os dentes e ao cuspir aquele pedaço roliço de cortiça começou a sentir uma tremedeira sem fim e ouvir palavras desconhecidas proferidas em mandinga e sem forças apagou desse mundo.

Hoje, no mundo das trevas, não passa de um terceiro cabo trombeteiro da falange mais desqualificada daquela hoste de Lúcifer, sendo obrigado adicionalmente a carregar nas costas uma listagem enorme com os nomes dos futuros companheiros que hoje ocupam cargos expressivos nos poderes constituídos do Brasil e é esse castigo que ainda não é, mas vai ser, que é a causa de sua revolta.

Afinal, arrependimento sobre sua conduta indigna na vida terrena não existe, mas a sua indignação é ser coagido pelo Tinhoso a conviver eternamente com essas pústulas, esses ladravazes que hoje se locupletam com a desgraça dos deserdados da sorte que habitam em agonia aquele país.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De vencedor a derrotado



Naquela região castigada pela natureza e pela desídia dos homens, as crianças quando sobreviviam eram marcadas por deficiências físicas e às vezes mentais, os poucos que fugiam a regra eram marcados por uma fome ancestral.

Considerando a hipotética lavratura da vida de cada pessoa no Livro do Destino, uma daquelas crianças, um garoto, conseguiu com sua determinação alterar seu destino promovendo uma Errata nas anotações previamente registradas sobre o seu futuro.

Em condições extremamente adversas conseguiu, à custa de extirpar a infância e juventude de sua existência, prover seu sustento e mesmo combalido pelo cansaço da faina diária encontrar resistências para estudar à noite.

Privado de alimentar-se condignamente, a fome sempre escarnecera dele, mas não desistia, sobrevivia, ou melhor, agonizava cotidianamente com uma alimentação infinitamente inferior à franciscana.

Invariavelmente, a composição de sua ração diária era constituída por frações de raspas de rapadura diluídas em água de bica e acompanhada da solidariedade da farinha de mandioca de terceira linha, aquela destinada aos porcos, que aliviava suas entranhas.

Esse manjar dos deuses decaídos era sofregamente ingerido no período definido como jantar pelas classes privilegiadas, as que se regalavam com três refeições diárias.

Sua capacidade e a sua obstinação o tornaram um autoditada em línguas estrangeiras, aprendera inglês, francês, alemão, italiano e espanhol.

Migrara para o Rio de Janeiro, capital da República, prestara um concurso e entrara numa empresa estatal.

Agora com o salário digno procurara os cursos de línguas, especificamente as que dominava e, num período inferior a um ano, recebia os diplomas respectivos.

Em um novo concurso, agora interno, passara para o cargo de tradutor.

A timidez sempre fora sua companheira inseparável e para completar o seu convívio aziago interior, trazia a companhia mal ajambrada de um complexo que concorria somente com o seu corpo que, aliás, era a razão de sua falta de estima.

Baixo, com uma obesidade próxima da morbidez que representava um ajuste de contas com o passado famélico, com uma calvície devastadoramente precoce e com aqueles traços teimosamente repetidos por uma natureza incompetente que identificam todos os rostos dos nordestinos seguia a vida com suas pernas curtas e claudicantes.

A bem da verdade, não era efetivamente uma figura agradável aos olhos, em termos estéticos, entretanto não chegava ao extremo, o da feiúra completa, mas quase.

Em sua solidão provocada pelos males da alma resolvera trocar correspondências, algo comum na década de 50 do século passado, com mulheres que, também por razões diversas procuravam sua outra metade, através desse método não muito ortodoxo.

Em meses, acabara apaixonando-se por uma portuguesa. As trocas de cartas eram intensas e sempre a integridade das folhas redigidas era maculada, às vezes por lágrimas solitárias, mas, invariavelmente, por gotículas de perfumes que acabavam entranhando nas fotografias enviadas por ambas as partes.

Aquela relação intensa entre pessoas ausentes fisicamente chegou ao limite e numa noite insone decidiu-se.

As papeladas necessárias foram reunidas e encaminhadas ao Consulado Português e num intervalo inferior a 20 dias foi comunicado sobre o seu novo estado civil, estava casado, pela procuração interposta.

A ansiedade do contato físico, do primeiro beijo, das primeiras conversas audíveis aumentava com a proximidade do encontro definitivo com sua amada.

No dia da chegada do navio encontrava-se no píer com horas de antecedência. O coração descompassado, a sudorese excessiva, o tremor incontrolável nas mãos eram tributos exigidos pela paixão, segundo sua percepção.

Entendia que o amor, em algum momento, tem o seu calvário próprio e inocentemente achava que suas reações nervosas faziam parte dele e que seria o único. Ledo e ivo engano.

O choque foi imenso. A pessoa com quem casara nada tinha a ver com as das fotografias recebidas e aquele momento foi o marco de seu processo de catatonia e a sua via-crúcis, agora sim, iniciava.

O complexo de inferioridade assumira uma proporção oceânica.

Passara a beber de forma contumaz.

Quando o fazia com os companheiros de repartição, após o terceiro chope sua mente ficava entorpecida, mas sua língua parecia ter vida própria e desatava a falar sobre o trauma do seu casamento e de outros.

Expunha as vísceras de sua alma aos ouvintes que com valores diversos estimulavam que detalhasse suas mazelas, as suas vicissitudes e ele, recatado no cotidiano, as fazia em profusão sob o efeito do álcool.

No dia seguinte, suas amarguras, suas dores eram espalhadas pela empresa sempre de forma desrespeitosa e humilhante, às suas costas.

Em determinado dia, ao adentrar uma sala a sua presença não fora percebida e entre galhofas, um grupo deleitava-se com os comentários desairosos sobre sua pessoa, feitos por um dos colegas de copo da noite passada que expunha a sua vida, as suas agruras, os seus complexos, sempre de forma cruel e desumana.

Destruído moral e psicologicamente, retirou-se como entrara, sem ser visto.

Sua mente, sempre resistindo às águas turbulentas dos traumas, encontrava-se agora exaurida pela tormenta provocada pelos comentários e pelas observações de seus pares.

No dia seguinte, próximo ao horário do almoço pegou sua pasta e dirigiu-se à sala daquela pessoa que o tripudiara.

Para infelicidade do mesmo encontrava-se sozinho, datilografando um parecer, de costas para quem entrava na sala.

De forma silente, abriu a maleta e retirou uma corda. Aproximou-se de sua vítima potencial e em frações de segundos começara a estrangulá-lo.

O ato não se consumara, pois entraram na sala três colegas de trabalho e diante daquela cena dantesca do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri, evitaram o pior.

O Serviço Médico da empresa fora acionado e ele saíra numa camisa-de-força.

Em um espaço curto de tempo, entrara e saíra diversas vezes daquela instituição que cuidava dos desequilibrados mentais, até que um dia entrara para não retornar nunca mais.

O destino, com sua índole perversa, não admitiu a reescrita, à sua revelia, da ordem dos acontecimentos que deveriam se suceder fatalmente, que acabou por macular o seu Livro com aquela Errata redigida pela determinação daquele menino de outrora.

O destino, esse farsante insensível, não tivera pressa, deu tempo ao tempo, e lavrou, mediante adendo no seu Livro, a sua desforra, tornando aquele detentor de um intelecto privilegiado em portador de uma insanidade mental incurável.

Em outras palavras, o destino na sua soberba impingiu àquele que tentou desqualificá-lo, o outro significado de destino: a “falta de tino”.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vossa Excelência


Bastava adentrar aquele local e era atendido pelo mesmo profissional que há mais de uma década dedicava-se quase com exclusividade em acatar o seu pedido. Esse jamais fora alterado ao longo dos anos e sempre repetido num tom sóbrio, acompanhado de uma excelente dicção e uma impostação de voz inigualável.

- Bom dia, Excelência – saudou o funcionário.

Jamais houve uma vibração proveniente de suas cordas vocais como resposta aquela saudação diária ao longo dos anos.

Ao cumprimento educado do servidor sempre repetia um mesmo gesto, quase imperceptível, um movimento de cabeça, que sempre era interpretado pelo outro como uma reciprocidade sincera ao seu desejo formulado anteriormente.

Com um andar solene, cabeça erguida e com as costas eretas, dirigia-se ao mesmo local, desde épocas pretéritas que guardava uma distância considerável em relação aos demais clientes.

Servido, mastigava inúmeras vezes o naco da torrada e sorvia com goles mais que avaros o conteúdo de sua xícara que devia ser mergulhada em água fervente ás suas vistas, antes de ser preenchida pelo líquido a ser servido.

Fazia seu desjejum em completo silêncio.

Contudo, naquele dia, após beber o primeiro gole fez um gesto que escapava aos olhos dos mais atentos, mas não do seu atendente a quem cabia o privilégio de atendê-lo.

Prezado - disse Vossa Excelência - essa substância, produto do arbusto da família botânica Rubiácea, encontra-se fora dos padrões, significando que foi delituosamente alterado no seu sabor, posto que não foram atendidos os pré-requisitos básicos, a saber:

- a temperatura ideal para sua preparação não foi observada, sendo superior aos 95ºC;

- com a fervura acima da aludida gradação de temperatura houve a alteração no ph e na acidez da água que ocasiona uma modificação substantiva no sabor do café;

- para agravar essa desídia, ainda fui servido com a infusão fora da temperatura ideal para consumo, a mesma tem que estar em torno de 65ºC, pois acima, além de provocar queimaduras nas membranas mucosas da língua, incita um transtorno adicional no paladar.

Excelência, perdoe-me. Será providenciada, imediatamente, a feitura de um novo café dentro dos padrões estabelecidos – disse o empregado.

Apesar das observações e repreensões terem sido proferidas num tom normal de civilidade, os demais presentes acabaram ouvindo e ficaram perplexos com aquele indivíduo ímpar na forma de agir, no modo de vestir-se e, principalmente, pelo conhecimento externado.

Perplexos, dirigiram-se os olhares entre si, sem jamais ousarem pousar suas vistas na Vossa Excelência, pois, havia ordens expressas para não incomodá-lo sob qualquer pretexto.

Indignado, Vossa Excelência respondeu ao atendente de forma taxativa, definitiva: “Jamais retornarei a esse recinto que fui assíduo por mais de uma década. Isso é uma ignomínia com qualquer cliente”.

As reações dentre os demais clientes foram ambíguas ao verem a postura de Vossa Excelência que demonstrou uma faceta desconhecida, a de possuir um gênio irascível quando contrariado.

Pisando firme, afastou-se do local, envolvido em seus andrajos, mas limpos.
Afinal, Vossa Excelência era um mendigo que vivia naquelas cercanias havia anos e, portanto, incorporado ao local.

Era considerado como um patrimônio do bairro.
Histórico?

Sim – respondo eu – pelo descaso e pela desumanidade de todos ao longo do tempo, pois, era tratado e visto, apenas, como uma personagem, perversamente, adjetivada de folclórica e não como um ser humano necessitado de ajuda, de solidariedade.