domingo, 31 de outubro de 2010

Crise

Em seus momentos de crise existencial onde a angústia, a tristeza e o desespero roubam parte substantiva de sua vida, apega-se como um naufrago na fração restante de sua existência que flutua perigosamente nas vagas do oceano encapelado da indiferença dos outros semelhantes.

Essa última condição é um mero ato instintivo de sobrevivência e não o perturba por entendê-lo assim, afinal não deseja e não espera nada dos demais.

E essa atitude não significa amargor nem frustração e sim uma percepção adequada da natureza humana, e dessa forma procura viver mais e melhor dentro de suas possibilidades.

A busca desesperada pelo seu equilíbrio emocional é um processo contínuo.

A retórica de sua mente o perturba não apenas pelas argumentações que fragilizam suas convicções, mas pela intensidade dos arroubos de suas colocações onde variam estilos e inflexões.

Em resumo, a oratória de sua mente desqualifica quaisquer tribunos de longas experiências na arte do convencimento.

Os que sobem aos púlpitos para demagogicamente induzir o povo ao erro, ou aqueles que fazem defesas calorosas de seus clientes onde inexistem mínimas presunções de inocências, mas sim vultosas quantias que promovem as argumentações falaciosas dos causídicos não fazem, reitero, concorrência com aquele rábula melífluo, a sua consciência (mente).

Em função da última crise psicológica encontra-se em ruínas.

As suas estruturas de bom-senso vieram abaixo e aquele tribuno finório (o poder intelectual de seu espírito, em outras palavras, a sua mente), exerce mesmo assim a sua retórica, equilibrando-se nos escombros dos hemisférios cerebrais e nos neurônios atrofiados.

A juíza daquele tribunal da consciência interrompe a promotoria (a mente) e passa a palavra para os dois advogados de defesa que são dois neurônios combalidos que fazem suas sustentações apoiados em fármacos de tarja preta que fornecem algum equilíbrio emocional para as devidas réplicas.

Mesmo com a ajuda adicional dos ansiolíticos aos assistentes de defesa, providenciada pelo médico, aquele indivíduo sucumbiu.

Em termos de perspectiva de vida, a sua agora é um mergulho no fundo das garrafas de diversos conteúdos alcoólicos.

Como seus mergulhos ainda não são de longo curso, acorda ruim, e procura remédios para ficar bom.

Os deuses malditos entorpecem sua mente, promotora cruel, deixando-a debilitada e incapacitada para externar quaisquer novos argumentos, pois as antigas divindades, a dos tranqüilizantes, não tiveram forças para impedir suas crises que o levaram a essa destruição física e psicológica.

A questão é quanto tempo ele irá resistir à desesperança.




sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Gêmeos não univitelinos, um preto e outro branco.


Eram filhos de um casal interracial, a mãe negra e o pai branco, com a fecundação de dois óvulos fertilizados separadamente, gerara crianças de cores diferentes.

O fenômeno é incomum e por essa razão não existem estatísticas oficiais que elucidem suas probabilidades.

A convivência de ambos os meninos já era conflituosa desde aquele espaço restrito, limitado, o útero materno.

Pais de classe média propiciaram aos filhos aquilo que julgavam ser o melhor, uma educação esmerada e um convívio harmonioso.

Contudo, as relações entre os irmãos eram conflituosas, eivadas de discussões e com ameaças nem sempre veladas.

Paulo, o de tez escura era um conciliador por natureza, mas, Marcos de pele clara, olhos azuis, cabelos claros e lisos era um provocador movido pelo ânimo da discórdia.

Paulo sofria do malfadado preconceito de cor, principalmente, na escola, porém, administrava aquela situação de desconforto graças à formação familiar.

Apesar de serem da mesma turma, Marcos, evitava o contato com o irmão.

O tempo com seu desassossego doentio avançava sobre as coisas e os fatos, desalentando uns, iludindo outros e extinguindo a existência de muitos.

Os irmãos chegaram à faculdade pública, em cursos diferentes.

Naquele novo universo de ensino um deles fez uma escolha equivocada, enveredando pelo caminho do vício.

O vício foi um mero rito de passagem para o tráfico de drogas.

No horário previamente acordado dirigiram-se ao estacionamento e antes de chegarem ao carro foram subitamente cercados pela polícia.

O serviço reservado da polícia tinha recebido denúncias anônimas sobre o comércio de drogas na universidade e numa dessas delações foi mencionado o sobrenome de quem praticava o ilícito.

A abordagem não foi civilizada entre as miras das armas. Paulo foi brutalmente espancado e Marcos recebeu uns safanões nada digno de registro.

Levados a delegacia, algemados, os homens da lei não tinham nenhum resquício de dúvidas, Paulo, o negão, era o traficante e Marcos, o branco, o usuário.

Levaram Paulo para uma sala especial e entre perguntas, intermediadas de porradas exigiram dele a confissão, imediata, sobre o tráfico.

O delegado ligara para a casa de Marcos e comunicara que o mesmo estava prestando depoimento como usuário de drogas.

O desespero da mãe ao comunicar ao marido o fato deixou-o mais do que sobressaltado e imediatamente, entrou em contato com um advogado criminal, amigo de longa data.

Encontraram-se na Delegacia.

Foram informados pelo delegado sobre a prisão de Marcos, usuário, e de um crioulo, um desgraçado de um traficante.

Diante dos pais, Marcos em estado de choque não conseguia articular uma mísera palavra.

O carcereiro conduziu o elemento, Paulo, em estado lastimável para o depoimento.

Ao adentrar a sala para depor, seus pais não acreditaram em que suas retinas registraram e essas imagens os perseguiram até os respectivos túmulos.

Aquele trapo humano completamente deformado era seu outro filho.

A privação súbita de sentidos da mãe, a indignação do pai e a intervenção do causídico levaram autoridade policial à compreensão de que uma representação seria interposta junto à Corregedoria de Polícia.

Os processos seguem seus cursos, naturalmente lentos, morosos.

Paulo traumatizado, com a vida destroçada, assistido por profissionais das áreas de psiquiatria e psicologia faz um tratamento longo e penoso, sem a mínima garantia do retorno ao equilíbrio psíquico perdido.

Nos raros momentos que emite parcas palavras, sempre recorrentes, diz:

“Pai, mãe, como é triste sofrer qualquer tipo de preconceito, mas o racial é cruel, pois, os negros são sempre vistos e acusados de serem os únicos protagonistas da delinqüência que permeia a sociedade”.

Em profunda depressão, olha a quantidade de fármacos controlados e complementa:

“Vejam! Aqueles remédios têm tarjas pretas, simplesmente, porque são de alto risco, não convencionais e tem que ser submetidos a um controle extremo. A mensagem é explicita, não é subliminar”.

Definitivamente a humanidade jamais vencerá o preconceito de cor, pois, a lógica das analogias com os fármacos restritos materializa de forma cabal como a sociedade hipócrita e sórdida, vê e rotula os negros.





quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ideologia

Deparei-me com aquele mendigo uma figura repulsiva à vista desarmada, mas superando a rejeição natural, acabei ouvindo suas observações e lamúrias.

Definia-se como um indivíduo pleno, em razão de sua ideologia.

A questão de sua plenitude não merece nenhuma consideração restritiva, afinal cada qual se sente completo, pleno a seu modo, a seu juízo de valor.

Comparando suas idéias com seus andrajos concluí que a precariedade de suas vestimentas comparadas com seus pensamentos ideológicos, indubitavelmente, as suas vestes estavam em melhores condições de uso e aproveitamento.

O desconforto causado foi pela volúpia que externava aquelas palavras em contraposição com as poucas idéias que as sustentavam.

A questão não era o viés ideológico, mas a superficialidade dos conceitos emitidos que não eram de lavra própria e sim dos seus paredros que por mentores são de uma eloqüência dramática, mas no íntimo, desprezam esses seres granjeados pelas suas verves.

As proposições apresentadas por aquele infeliz não mereciam o instituto do contraditório, afinal contestar o nada é prerrogativa dos alienados e aquele indivíduo era um digno representante dessa classe, a dos insanos.

Era um néscio por impingir e sustentar teses sem quaisquer nexos que pudessem unir ou entrelaçar indivíduos ou grupos às causas propostas, qual seja, a de conflitar as doutrinas existentes.

Para não me expor ao ridículo e nem ferir as normas de civilidade mantive-me calado, aguardando uma pausa naquela verborragia para afastar-me.

Aproveitando o ressecamento de sua garganta e o esgotamento das palavras, despedi-me.

Permiti uma divagação sobre as ideologias que ocuparam espaços distintos no caminhar trôpego da humanidade e constatei que todas foram esmagadas pelo tempo, no devido tempo, e também por mais contraditório que o seja, pelos ideólogos das mesmas.

Os que conquistaram os seus objetivos, o poder, locupletaram-se e quando tiveram condições objetivas esmagaram os que divergiam dos seus ideais, dos seus princípios subalternos à mentira. Que o diga Lúcifer, o primeiro defenestrado por um tratado de idéias contrárias às vigentes da época.

Quando as legiões de seguidores dessas ideologias perceberem os seus enganos face à realidade factual e perderem o chão, não devem ser execrados, diminuídos, afinal eles próprios se amaldiçoarão por terem passados por nefelibatas, de terem sido manipulados por inescrupulosos que os transformaram em medíocres inocentes úteis, enfim, constatarão que desgraçadamente nunca tiveram opinião.

sábado, 2 de outubro de 2010

Homossexualismo

Lembrem que na Grécia Antiga a sodomia era a forma de transferência de conhecimentos e de doenças sexualmente transmissíveis, mais recentemente, quando do descobrimento do Brasil, a conjunção anal era a transferência da crença religiosa para os infiéis, e hoje, o ato é de puro prazer para aqueles que delas fazem uso e gosto, por mero exercício do livre arbítrio.

No passado era imposição, atualmente é preferência.

O preconceito vigente contra os que têm opção sexual diversa é um ato de estupidez e invasão de privacidade (perdoe-me pelo trocadilho infame).

Ninguém é obrigado a conviver com pessoas que divirjam de suas normas de procedimentos e de condutas.

Caso um indivíduo seja extremamente pessimista e suas colocações girem em torno da inviabilidade da vida, o afastamento do convívio dessa pessoa é um ato discricionário, normal, enfim, todos têm direito a preservação do equilíbrio psíquico, apesar das vicissitudes da vida que pesam no outro prato da balança da arte de viver.

Tal postura não é preconceituosa, é um exercício de salvaguarda de seu bem-estar, completamente oposta à reação para com aqueles que sexualmente são diferentes de nós.

Não os agridam verbal e fisicamente, afastem-se. Esse é seu único direito e um procedimento moralmente correto.

O grande engodo é acharmos que somos os únicos certos, corretos, frente às incertezas da vida.

A heterossexualidade não denota vida ilibada, não é indicação de conduta ética irrepreensível, em síntese, a afinidade, a atração, ou comportamento sexual entre indivíduos de sexos diferentes não é abrigo incondicional das virtudes, óbvio.

A aversão à corrupção, a postura ativa de indignidade contra as atitudes nefastas da grande parcela dos homens públicos, a indignação pela inexistência de uma rede de saúde pública, de escolas modelos, de salários dignos, essas sim, deveriam ser nossos julgamentos ou opiniões formadas, associadas às ações de protestos veementes em nosso cotidiano.

As atitudes acima exigem posicionamentos que demandam esforços e dedicação, enfim, é mais cômodo execrar o diferente, seja o homossexual, o negro, os desvalidos da sorte.

Na realidade não passamos de prepotentes em exigir uma conduta sexual assemelhada à nossa, independente de nosso conjunto de qualidades, ou falta de, de nossas condutas boas ou más e de nossas concepções sobre moral.

Assistimos passivamente e permitimos todas as violências perpetradas contra os nossos (des)semelhantes estratificados socialmente, em condições inferiores à nossa.

Verdadeiramente, impomos aos que julgamos diferentes a indiferença, o desprezo e essas atitudes representam o rompimento da distinção com os demais animais, o da racionalidade.