terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um filha da puta ou Paulo Roberto F. Castro

Era de um reducionismo atroz nominá-lo de filho da puta. Tal procedimento era uma ofensa particular aos demais componentes desqualificadores daquela personalidade perturbadora.

O Coisa Ruim que tenta cooptar os justos e os desavisados ordenara à sua legião de forma peremptória a ficar a uma distância superior a estatuída pela lei Maria da Penha que atende a outros objetivos, lógico, daquele ser desnaturado. Faço esse registro, apenas para terem a real dimensão da índole daquele indivíduo.

Quando um desses anjos decaídos, por distração não cumpriu a determinação do Senhor das Trevas foi lançado ao pior dos castigos, na visão daqueles evoluídos na arte do mal, a voltar cumprir como neófito o estágio na primeira camada do inferno.

Hoje, caso escutasse o nome do Criador, certamente o impacto no seu espírito seria menor do que ouvir o nome daquele filho da puta que provocou a sua condenação às agruras atuais, apenas por ter dado ouvidos aquele miserável.

O problema que o filho da puta tinha família.

A mãe fora puta por contingências e gostos, mas isso não vem ao caso, afinal, nada, mas nada mesmo, justifica o comportamento do filho. O pai era de uma incerteza absoluta o que não poderia ser diferente. Irmãos não os tinham.

A pesquisa sobre sua arvore genealógica, logicamente, considerando o ramo podado por parte do pai, não apresentou nenhum vestígio que se aproximasse da sua índole pervertida.

Depois de meses de análise e de pesquisas profundas por parte do psicólogo, nada progredia, aliás, progrediam sim, as incertezas daquele profissional e a sua impotência diante daquela figura patibular.

No horário marcado, ele adentra o consultório e deita-se naquele divã que suporta o peso das fraquezas humanas e que há muito deseja uma aposentadoria, por idade, mas isso é outra estória.

O silêncio naquele espaço é sufocante. Olhos nos olhos, apenas.

Inesperadamente, o analisado indaga: “o que sou, honestamente, doutor?”

Inconscientemente, o psicólogo responde: “um bom filho da puta, meu filho”.

Meses depois, submetido ao Conselho de Classe, o psicólogo perdeu seu registro, em decorrência das denúncias apresentadas por aquele indivíduo.

E ele?

Ah!.... Ele? Continua o mesmo filho da puta de sempre.











segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Da linha do tempo à curvatura da vida

O passar do tempo, maculado pela desídia de diversos gestores públicos, transformou aquela praça de um subúrbio do Rio de Janeiro em fantasmagórico arremedo da época de sua construção, em meados de 1925.

Com passos titubeantes aqueles dois velhinhos seguiam em direção ao único banco existente, obviamente, em estado precário, para desconfortavelmente acomodarem seus corpos frágeis e cansados.

Depois de dois ou três minutos para recuperarem o fôlego, iniciavam as digressões sobre o passado vivido ou não, por eles.

Invariavelmente, discordavam sobre os temas abordados, não por convicções, mas por meras rabugices. Entretanto, aquelas discussões, muitas vezes acaloradas, traziam ambos à vida presente que teimava em fugir, pela magia de um passado remoto.

Falavam sobre suas juventudes vividas nos idos de 40, do século passado.

Dos trajetos dos bondes; dos preços dos alimentos; dos fardamentos das alunas do colégio de formação de professoras; da quantidade de padarias, açougues, vendas e armazéns, invariavelmente, nas mãos dos patrícios (portugueses) que chegavam sempre a bordo do famoso navio Serpa Filho; da educação rígida; dos cinemas; dos dancings; das gafieiras; dos cabarés; das casas de tolerâncias da rua Alice, onde as moças aguardavam os clientes, em poltronas respeitáveis que acomodavam seus corpos vestidos com os requintes da elegância; e assim prosseguiam nas suas reminiscências e discordâncias.

Entretanto, naquele dia de um calor senegalesco aconteceu algo inimaginável: a concordância de ambos sobre o tema em pauta.

Talvez por terem sido vítimas do mesmo desassossego mental e corpóreo, em períodos distintos daquela época pretérita.

Foram infelizes, cada um no seu tempo, ao fazerem o famoso “pezinho de alferes” (cantada), em uma moçoila de vida que inapropriadamente era chamada de utilidade pública, o justo seria, a denominação de utilidade privada.

Depois de darem vazão aos respectivos instintos bestiais, voltaram para as respectivas casas paternas, leves, flutuando numa felicidade infinda.

Em menos de 48h após o ato, começaram a sentir ardências e gotejamentos purulentos oriundos de seus instrumentos, digamos assim, sexuais. O desespero de ambos aumentou ao perceberem certa inflexão, uma curvatura anômala, nos seus falos (para os pudicos), ou, nos seus caralhos, para os impudicos.

Aflitos, correram para os médicos indicados pelos amigos mais velhos.

Feitas as avaliações pelos profissionais da área, esses não titubearam e encaminharam ao único especialista existente na capital da República para aqueles casos.

O especialista era um gigante de 2,05 m de altura. Descendente de alemães, de fala mansa e impostada, tendo nas extremidades de seus membros superiores, não mãos, como todos os mortais, e sim manoplas, pelo tamanho descomunal das mesmas.

Era uma figura desconfortável para os pacientes com problemas rotineiros, mas diabolicamente assustadora para aqueles como eles, portadores de mazelas mais profundas.

Diagnosticados, foram aviadas em receitas, os medicamentos para a eliminação dos gotejamentos e ardências, agora, quanto à restauração dos órgãos sexuais com a eliminação das curvaturas extremamente pronunciadas, o estado de arte da ciência estava adstrito a um único instrumento que exigia habilidades especiais, como a precisão cirúrgica.

Nus, obedecendo as ordens secas do especialista, colocaram os “ditos cujos” sobre uma almofada acolchoada e assepticamente protegida por um pano branco.

O médico, com as mãos para trás, entabulava uma conversa ardilosa, indagando sobre os predicados da mulher, sobre o que conversaram e quando avaliava que o momento adequado não chegara, adentrava ainda mais nas intimidades (caso isso fosse possível, diante do exposto), pedindo detalhes da relação propriamente dita, etc.

Sua posição era estratégica. Ficava de costas para a porta de saída e de frente para o paciente.

Numa fração de segundo de descuido do incauto: zás!

Era uma martelada certeira, acompanhada de uma força teoricamente proporcional à curvatura. Infelizmente, da teoria à pratica existia um universo de agonias.

A fuga empreendida pelo médico tinha que ser ainda mais precisa que a intervenção, fechando e trancando a porta.

Essa operação terminava antes do infeliz emitir o primeiro de uma série infindável de urros, para depois quase enlouquecer de dor.

Essa prática era o máximo de desenvolvimento tecnológico para endireitar os membros dos infelizes que pegavam a temida “gonorréia de gancho”, naquela época. Um simples binômio: destreza humana e um miserável martelo de borracha desumano.

Que tempo desgraçado (pelo menos nesse quesito)! – penso eu.






terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Triunvirato

Era um triunvirato onde as linhas de governo e os poderes de mando estavam adstritos, apenas e tão somente, àquelas figuras ímpares que seguiam com as cóleras próprias dos justos, naquela enfiada de pessoas colocadas uma em seguida às outras para tomarem, coercitivamente, suas últimas doses de fármacos, prescritas para cada um dos pacientes daquele manicômio.

Afinal, uma noite tranqüila e reparadora era o desejo dos auxiliares de enfermagem, das enfermeiras, dos brutamontes travestidos de enfermeiros e do pessoal da limpeza, exceção feita ao médico. E não era em função da necessidade de burlar a insônia ou, em decorrência ao estrito cumprimento do dever, ao contrário, era por desídia mesmo.

O psiquiatra aparecia uma vez na semana, em compensação o salário comparecia sempre e de forma íntegra em seu holerite mensal.

Na manhã seguinte, talvez em razão dos possíveis sonhos, os três exigiram de cada qual, uma reunião de emergência.

Logo após o café - disse o primeiro.

Não! - protestou o segundo, será depois do breakfast.

Besteira! - afirmou o terceiro, emendando: a reunião será após o desjejum.

Resultado, começaram a confabulação com fome.

Não sorveram daquela mistura de leite achocolatado com porções desconhecidas, mas generosas, de inibidores sexuais, acompanhado daquele símbolo fálico, duro de encarar, apesar do tamanho insignificante, um pãozinho francês.

Estavam literalmente no clima da discussão, afinal por caminhos transversos, os assuntos ensejados pelos três eram sobre a fome.

Pela primeira vez, ocorria consenso sobre um tema a ser debatido em reunião de Gabinete daquele Triunvirato.

Com a voz impostada e usando um linguajar empolado, o Ministro, que diga de passagem, não era um qualquer e
auto-intitulava-se, Ministro do Supremo Tribunal da Terra, dos Mares e dos Ventos, começou a sua peroração.
Incitou aos dois colegas sobre a necessidade de suprir a fome de justiça dos homens, dos batráquios e dos vermes.

Al-al-to-to-to laaaá! - bradou Deus. A gagueira não era produto do destempero momentâneo e sim, uma deficiência
de nascença.

Fuuui em-em-ga-ga-naaa-dooo. Aaa fofome paaraa mimmmm eeera dodo eeespíírítotoo.

O clima entre eles piorou com a intervenção do terceiro, o Barriga de Miséria: Fome de justiça e de espírito é o cacete.

Fome só existe uma: fome-fome. Advogava em causa própria e dos demais seres viventes.

No meio daquela discussão caótica e aos berros, vários débeis mentais se aproximaram e os cercaram, formando um círculo (aí, estou sendo condescendente) e começaram a bater palmas.

Apitos surgiram de todas as partes e os brutamontes vestidos de branco corriam com camisas-de-força e seringas assustadoras com tranqüilizantes para abaterem, no mínimo, elefantes, chamados, inapropriadamente, de “sossega-leão”.

O chefe do turno chegou berrando: que barulho é esse? Que confusão de palmas é essa?

Um dos participantes respondeu com a ingenuidade dos alienados: “Estamos batendo palmas para maluco (sic) dançar”.

A autoridade daquela associação de três indivíduos foi dissolvida à base de fármacos e de confinamento em solitárias.

Enquanto isso, as fomes espirituais, de justiças e as das urgências alimentares permeiam o mundo dos sãos.

É de enlouquecer, ou não? – indago eu.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A única saída

Era uma crueldade a simples comparação entre as catástrofes vivenciadas no mundo exterior com
aquelas suportadas em seu mundo interior, afinal essas eram mais devastadoras.

O surgimento de novos corpos celestes, através de explosões luminosas a milhões de anos-luz, segundo os estudiosos, provocando a expansão do universo, contrastava com a multiplicação de novos problemas na escuridão das frações das horas do seu dia-a-dia.

Diante da evidência dos fatos concluiu que seu apocalipse pessoal se aproximava, somente faltava cair pedaço de céu velho e cacos de estrelas sobre sua cabeça embranquecida pelo passar dos anos.

As relações familiares deterioravam pelo avanço dos conflitos com os filhos e pelo intenso desamor da esposa; as profissionais refletiam as mudanças na empresa em que trabalhava há anos, que deixara de ser uma empresa de petróleo e transformara-se numa de Energia.

As alterações foram substantivas na área de RH da empresa que abandou sua matriz eficiente de décadas e passou ser gerida por outra fonte, a de conflitos, por suas ações e omissões. O resultado para ele foi ingressar numa fase depressiva que o aniquilava mental e fisicamente.

As relações sociais, evidentemente, passaram a inexistir.

Envolvido num silêncio assustador avaliou com pragmatismo a sua situação e estabeleceu um plano de ação.

A busca essencial da felicidade e da estabilidade financeira dos seus passava por sessões diárias com um psicólogo e com consultas, a princípio quinzenais com um psiquiatra.

À medida que cumpria meticulosamente as orientações e observações registradas naquele Manual que transformara em uma leitura obsessiva e redentora, as consultas com o psiquiatra tornaram-se mais freqüentes, contrapondo-se ao antigo hábito da leitura da bíblia sagrada.

Quando percebeu que tinha as condições objetivas para a implantação de seu plano não titubeou.

Com o Manual da Loucura debaixo do braço e um leve sorriso, agora perene em seu semblante, caminha lentamente para receber uma quantidade estúpida de fármacos controlados naquele corredor decrépito do manicômio, pois com argúcia e determinação vencera os demônios que o esmagavam, enganando-os.

Sempre fora uma pessoa íntegra e com valores inamovíveis e lamentavelmente esses atributos não o ajudaram nos planos pessoais e profissionais.

Na iminência da perda do emprego e do desamparo à família perdida vislumbrou apenas duas únicas opções possíveis: a do o suicídio ou da pseudo-loucura.

Optou por essa última, afinal o louco não sofre críticas e sim respeito.

E o apreço da consideração era o mínimo que desejava.