domingo, 29 de maio de 2011

Uma questão de honra ou de imbecilidade

Submetido às inteiras as pressões da vida, a fadiga do seu corpo fez presente e o que é pior, progrediu, prenunciando um futuro não incerto, como todo futuro, mas desgraçadamente com a convicção, ou seja, sem ausência de dúvidas de ser sombrio, penoso e miserável.

As fissuras começaram a abalar, a corromper, a danificar, não apenas a integralidade corpórea, mas a da alma, a da mente.

Resistiu sem o previsível apoio do Estado, afinal nos doentios hospitais públicos não existem sequer os imprescindíveis profissionais de saúde, de outras áreas, quando mais os de psiquiatria.

A sua revolta não recaia sobre os escombros do casamento desfeito, nem sobre a insensibilidade e o desprezo daqueles com quem convivia até recentemente, a miude, e sim, contra o Estado.

Sim, o Estado.

Afinal, por ignorante, acreditou na propaganda maciça estatal de uma economia exuberante e, principalmente, pelo aval inconseqüente prestado às empresas, que via mídia, infligiram um massacre sobre os sonhos dos pobres, mediante, a conquista da compra dos seus desejos pela concessão quase ilimitada de créditos.

Agora, encalacrado, com descontos de empréstimos diretamente no contracheque, além de carnês vencidos e por vencer, percebeu que seus parcos sonhos transformaram-se num Himalaia de pesadelos e de dívidas.

Por uma questão de caráter procurou diversas alternativas.

A derradeira foi quando saiu daquele estabelecimento bancário completamente arrasado. A negativa peremptória recebida fez com que saísse dali com passos ébrios de frustração e com a mente atordoada, pois, suas conexões neurais insistiam em repetir à exaustão as palavras assépticas e frias do gerente que o taxara de um réles inviável econômico.

Cansado e trêmulo, perguntou, ao colega daquela fila de deserdados da sorte, as horas.

Três horas e vinte da manhã - respondeu o outro, com extrema má vontade.

Pudera! Ao relento, naquela madrugada fria, aguardavam a abertura do fórum para receberem não atendimentos, mas meras senhas para apresentarem a uma secretária que marcaria num futuro, o dia e a hora para serem atendidos por um defensor público.

Decidira pela insolvência civil, apesar das terríveis conseqüências restritivas desse instituto legal, mas aprendera, desde a tenra idade com o pai, um desgraçado que trabalhara na enxada, em terras alheias, que um homem, jamais, podia sujar seu nome e deixar de cumprir com seus compromissos.

Falido, ouve falar dos lucros astronômicos dos bancos, da corrupção nos governos, do estado lastimável da educação e da saúde e não diz, absolutamente nada.

Perdeu tudo, menos a honra.

Uma imbecilidade para muitos a sua atitude, mas o suficiente e o bastante para aquele corpo combalido e de mente perturbada.

Lógico que essa orgia nos prazos de financiamento de bens não duráveis não poderia dar em outra coisa (inadimplências e enriquecimentos desonestos). Afinal, veja que o prazo de financiamento, em 84 meses (são 07 anos) que representa 10% da vida média de um brasileiro (70 anos).

Caso a afirmação acima o tenha espantado, creia: o absurdo, a infâmia é muito maior.
Como?

Simples: basta lembrar que as pessoas quando conseguem ingressar no mercado formal de trabalho é, após, aos vinte cinco anos. Portanto, refaçam as contas, considerando que o cidadão não vai perder o emprego, uma hipótese improvável, mas deixa pra lá.

(70 anos-25anos= 45 anos, logo, 7 anos de dívidas representam quase 16% de sua existência pagando dívidas com juros extorsivos seqüestrados de um salário miserável).

Que país!



sábado, 14 de maio de 2011

Tristeza, uma grande tristeza

O aspecto revelador de mágoa, de aflição, envolvia por completo aquele semblante cansado.

A tristeza é um vocábulo que define plenamente a qualidade ou estado que envolve a alma do indivíduo, mas aquela tristeza merecia uma adjetivação, era profunda.

Os últimos acontecimentos deixaram aquele indivíduo ainda mais fragilizado, afinal a impotência devastava definitivamente o seu espírito há muito alquebrado. O raciocínio linear desejado era claudicante, tortuoso, embotado.

As suas forças mentais e físicas estavam completamente exauridas pelos pensamentos recorrentes que aumentavam o seu desconforto pessoal deixando-o mais aflito e perturbado.

Sua conduta silenciosa e arredia afastava cada vez mais os seus, provocando um clima inamistoso entre as partes que a rigor não o desejavam, mas eram forçados pelas circunstâncias da convivência.

Sozinho buscava caminhos alternativos para sair daquele estado mórbido de tristeza e depressão, entretanto, retornava sempre ao ponto de origem.

O cansaço total da vida, naquele momento, não era uma força que deveria emergir, pois, os danos poderiam levá-lo a uma decisão de extinguir o tempo de sua existência.

O suporte religioso que outrora fazia parte de seu mundo, de forma plena, hoje apresentava indícios de fragmentos da inteireza pretérita.

Na falta de alternativa procurou um fármaco de tarja preta e duplicou a dose, por conta própria, contrariando as ordens médicas, na busca de um sono, mesmo que não fosse totalmente reparador.

No escuro do quarto, aguardou o efeito do remédio que o conduziria ao seu desejo imediato, o de dormir.

Tudo em vão, pois, sobreveio à companhia ingrata de uma péssima conselheira, a insônia.

Em resumo, dividiu sua tristeza intensa com a irritabilidade da incapacidade de conciliar o sono.

Pode não ter sido um progresso, ao menos ocupou parcial e precariamente sua mente, minimizando o fantasma do desalento.