Num mísero intervalo de oito meses consecutivos, aquela
criança vivenciou tragédias que poderiam ser absorvidas com intenso sofrimento,
ao longo de uma existência, mas jamais concentradas naquela tenra idade.
Perdeu a mãe, de forma abrupta, dois meses antes de completar 10 anos de idade;
Menos de uma semana daquela perda trágica, surge uma figura estranha dizendo-se ser seu pai, para levá-lo. Não tinha na lembrança a imagem paterna, afinal a separação dos pais ocorrera quando tinha três anos de idade;
E finalmente, a ida para um seminário, aos dez anos e meio de idade.A convivência com o pai era impossível. Um ser cruel, frio, que de humano só tinha a forma.
Aquela criança indefesa e deserdada da sorte conseguiu sair
do jugo paterno, aceitando um convite de um padre que recrutava crianças para
serem seminaristas. Perdeu a mãe, de forma abrupta, dois meses antes de completar 10 anos de idade;
Menos de uma semana daquela perda trágica, surge uma figura estranha dizendo-se ser seu pai, para levá-lo. Não tinha na lembrança a imagem paterna, afinal a separação dos pais ocorrera quando tinha três anos de idade;
E finalmente, a ida para um seminário, aos dez anos e meio de idade.A convivência com o pai era impossível. Um ser cruel, frio, que de humano só tinha a forma.
O alívio paterno ao assinar o termo de autorização ficara despuradamente evidenciado em seu semblante, afinal naquele momento lavava suas mãos em relação ao filho, ato esse que prostituía o de Pôncio Pilatos (que acabou entrando de gaiato no Credo), pois para esse só existia um deus, César, o imperador romano.
O pai deixou aquele estorvo, a seu sentir, um mês antes do acordado, no seminário.
Os poucos padres que estavam naquela época do ano no seminário, aceitaram aquela criança com certa relutância.
O medo, a tristeza, a iniquidade e o abandono passaram a possuir aquela criança.
À noite um padre o levou para o dormitório. Era imenso. Tinha mais de 150 camas separadas por criados-mudos. Sozinho no escuro, em posição fetal, resistiu por alguns minutos à dor contida e às lágrimas represadas ao longo do dia, mas o limite de sua resistência chegou ao máximo e desabou num choro incontido, descontrolado, desgraçadamente sofrido.
Aquela cena jamais deveria ser vivida por qualquer ser humano, quanto mais por uma criança.
Olhando sob outra perspectiva aquela cena era como aquela criança dissesse: “que pena que tenho de mim, caso pudesse me pegava no colo e me cobria de beijos.”
A sensação do abandono é sentir-se morto em vida. É o revés do significado da existência humana.
Com a chegada das outras 120 crianças, procurou por instinto interagir com elas, afinal escolhera entre o abandono individual, o abandono coletivo.
Dedicou-se com afinco ao aprendizado religioso e ao profano.
Quando tomou conhecimento de Deus, a sua reação foi de um enorme ressentimento contra ele, pois esse ser superior facultou todas as desgraças sofridas por ele.
Naquele processo de lavagem cerebral, aquela criança entendeu que jamais iria para o Céu, pois não seria suficientemente bom e, também, não seria um ser tão mau para queimar no fogo eterno do Inferno, restava o Purgatório, onde seria abrigado. Por essa razão apegou-se as almas do purgatório com tamanha devoção que elas passaram a acalentá-lo todas as noites, pois era o horário que aquela criança dialogava mentalmente com elas.
As missas aconteciam às 6:30h e por tradição eram rezadas por um padre de outra Ordem, os Franciscanos.
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Quando foi escalado pela primeira vez para ser coroinha numa missa, sofreu a primeira de uma série de decepções com a Igreja. O fato ocorreu, antes da consagração do Corpo (hóstia) e do Sangue de Cristo (vinho), o ápice da liturgia.
Instantes antes, o coroinha vai ao encontro do padre com dois recipientes contendo água e vinho, respectivamente. Os fiéis ficam ajoelhados e cabisbaixos imbuídos do maior sentimento de fé. O padre oferece o cálice para que sejam colocados os dois líquidos.
A desilusão daquela criança ocorreu no momento que o padre estendeu o cálice em sua direção e falou baixinho: ”Exagera, exagera no vinho e finge, finge que está colocando água.”
Somou mais uma inquietude à sua alma sofrida.
Aguardou a passagem de quatro meses para ser novamente escalado como coroinha.
Quando o padre dirigiu o cálice em sua direção e esboçou em falar, aquela criança imediatamente falou: “Já sei seu padre. E praticou a vingança engendrada há meses: exagerou na água e fingiu que colocou vinho.”
O padre o fulminou com os olhos e ele voltou ao seu lugar.
Talvez, tenha sido a primeira vez nas missas realizadas no mundo inteiro, durante séculos, que um padre fez a consagração do sangue de Cristo com o cálice repleto de água, sem uma mísera gota de vinho.
O castigo veio imediatamente. Ficou ajoelhado sobre caroços de milho por um determinado espaço de tempo durante um mês. Sofreu, mas ficou feliz.
Os anos foram passando e aquela criança virou adolescente sendo sempre portador de reivindicações, questionamentos, o que desagradava o sistema.
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Naqueles tempos houve, também, muitas coisas boas. Conviveu com padres íntegros na fé, aprendeu muito sobre a fragilidade humana, obteve uma formação intelectual sólida. E esses e outros vetores moldaram o seu caráter.
Aos dezessete anos e meio foi convidado a se retirar (eufemismo para expulsão).
Sem alternativas foi para o Rio de Janeiro passar fome.
A vida seguiu seu curso sinuoso e traiçoeiro.
Hoje, já velho, continua com a mesma saudade da mãe.
Quanto a Deus, os ressentimentos aumentaram, apesar de contraditoriamente quase não ter dúvidas sobre sua inexistência.
A relação com as almas do purgatório aumentou, principalmente quando o papa Bento XVI declarou recentemente que o purgatório não é lugar do espaço, do universo, “mas um fogo interior, que purifica a alma do pecado”.
Hoje a família insiste para ele ter fé e ele amavelmente não responde, mas pensa: “fé em quê?”.
Ah! Quanto àquela criança?
Aquela criança fui eu.
