quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Aquela criança


Num mísero intervalo de oito meses consecutivos, aquela criança vivenciou tragédias que poderiam ser absorvidas com intenso sofrimento, ao longo de uma existência, mas jamais concentradas naquela tenra idade.

Perdeu a mãe, de forma abrupta, dois meses antes de completar 10 anos de idade;

Menos de uma semana daquela perda trágica, surge uma figura estranha dizendo-se ser seu pai, para levá-lo. Não tinha na lembrança a imagem paterna, afinal a separação dos pais ocorrera quando tinha três anos de idade;

E finalmente, a ida para um seminário, aos dez anos e meio de idade.A convivência com o pai era impossível.  Um ser cruel, frio, que de humano só tinha a forma.
Aquela criança indefesa e deserdada da sorte conseguiu sair do jugo paterno, aceitando um convite de um padre que recrutava crianças para serem seminaristas.
 
O alívio paterno ao assinar o termo de autorização ficara despuradamente evidenciado em seu semblante, afinal naquele momento lavava suas mãos em relação ao filho, ato esse que prostituía o de Pôncio Pilatos (que acabou entrando de gaiato no Credo), pois para esse só existia um deus, César, o imperador romano.

O pai deixou aquele estorvo, a seu sentir, um mês antes do acordado, no seminário. 

Os poucos padres que estavam naquela época do ano no seminário, aceitaram aquela criança com certa relutância. 

O medo, a tristeza, a iniquidade e o abandono passaram a possuir aquela criança. 

À noite um padre o levou para o dormitório.  Era imenso. Tinha mais de 150 camas separadas por criados-mudos.  Sozinho no escuro, em posição fetal, resistiu por alguns minutos à dor contida e às lágrimas represadas ao longo do dia, mas o limite de sua resistência chegou ao máximo e desabou num choro incontido, descontrolado, desgraçadamente sofrido. 

  


Aquela cena jamais deveria ser vivida por qualquer ser humano, quanto mais por uma criança. 

Olhando sob outra perspectiva aquela cena era como aquela criança dissesse: “que pena que tenho de mim, caso pudesse me pegava no colo e me cobria de beijos.” 

A sensação do abandono é sentir-se morto em vida. É o revés do significado da existência humana. 

Com a chegada das outras 120 crianças, procurou por instinto interagir com elas, afinal escolhera entre o abandono individual, o abandono coletivo. 

Dedicou-se com afinco ao aprendizado religioso e ao profano. 

Quando tomou conhecimento de Deus, a sua reação foi de um enorme ressentimento contra ele, pois esse ser superior facultou todas as desgraças sofridas por ele. 

Naquele processo de lavagem cerebral, aquela criança entendeu que jamais iria para o Céu, pois não seria suficientemente bom e, também, não seria um ser tão mau para queimar no fogo eterno do Inferno, restava o Purgatório, onde seria abrigado. Por essa razão apegou-se as almas do purgatório com tamanha devoção que elas passaram a acalentá-lo todas as noites, pois era o horário que aquela criança dialogava mentalmente com elas. 

As missas aconteciam às 6:30h e por tradição eram rezadas por um padre de outra Ordem, os Franciscanos.
 

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Quando foi escalado pela primeira vez para ser coroinha numa missa, sofreu a primeira de uma série de decepções com a Igreja. O fato ocorreu, antes da consagração do Corpo (hóstia) e do Sangue de Cristo (vinho), o ápice da liturgia. 

Instantes antes, o coroinha vai ao encontro do padre com dois recipientes contendo água e vinho, respectivamente. Os fiéis ficam ajoelhados e cabisbaixos imbuídos do maior sentimento de fé. O padre oferece o cálice para que sejam colocados os dois líquidos.


A desilusão daquela criança ocorreu no momento que o padre estendeu o cálice em sua direção e falou baixinho: ”Exagera, exagera no vinho e finge, finge que está colocando água.”
Somou mais uma inquietude à sua alma sofrida. 

Aguardou a passagem de quatro meses para ser novamente escalado como coroinha. 

Quando o padre dirigiu o cálice em sua direção e esboçou em falar, aquela criança imediatamente falou: “Já sei seu padre. E praticou a vingança engendrada há meses: exagerou na água e fingiu que colocou vinho.” 

O padre o fulminou com os olhos e ele voltou ao seu lugar. 




Talvez, tenha sido a primeira vez nas missas realizadas no mundo inteiro, durante séculos, que um padre fez a consagração do sangue de Cristo com o cálice repleto de água, sem uma mísera gota de vinho. 

O castigo veio imediatamente. Ficou ajoelhado sobre caroços de milho por um determinado espaço de tempo durante um mês. Sofreu, mas ficou feliz.


Os anos foram passando e aquela criança virou adolescente sendo sempre portador de reivindicações, questionamentos, o que desagradava o sistema. 


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Naqueles tempos houve, também, muitas coisas boas.  Conviveu com padres íntegros na fé, aprendeu muito sobre a fragilidade humana, obteve uma formação intelectual sólida. E esses e outros vetores moldaram o seu caráter.


Aos dezessete anos e meio foi convidado a se retirar (eufemismo para expulsão). 

Sem alternativas foi para o Rio de Janeiro passar fome. 

A vida seguiu seu curso sinuoso e traiçoeiro. 

Hoje, já velho, continua com a mesma saudade da mãe. 

Quanto a Deus, os ressentimentos aumentaram, apesar de contraditoriamente quase não ter dúvidas sobre sua inexistência. 

A relação com as almas do purgatório aumentou, principalmente quando o papa Bento XVI declarou recentemente que o purgatório não é lugar do espaço, do universo, “mas um fogo interior, que purifica a alma do pecado”. 

Hoje a família insiste para ele ter fé e ele amavelmente não responde, mas pensa: “fé em quê?”. 

Ah!  Quanto àquela criança? 

Aquela criança fui eu. 

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Doutor

Sempre que possível, o Doutor saía à noite da Instituição e ia para aquele arremedo de praça que ficava no centro do complexo e deitava-se sobre um banco de pedras e dirigia seu olhar para o firmamento.

Não era um ato meramente contemplativo, mas de profunda reflexão.
Naquele instante seus pensamentos retroagiam a tempos idos. Olhando aquele céu estrelado revisitou sua meninice. Precisamente quando tinha seus cinco anos de idade, onde sozinho, sentado numa pedra do terreiro que abrigava o seu teto, uma choupana, e dirigia seus olhos inocentes para aquela imensidão do espaço e pedia a papai do céu que tornasse as suas vidas (pai e mãe) iguais às dos pobres, pois viviam numa miséria infinda.
Na marcha inexorável do tempo, suas vidas evoluíram lentamente da indigência à pobreza e desta, para o de remediados.
Fez faculdade numa Universidade Federal, em seguida o Mestrado e há poucos meses defendeu sua tese de Doutorado.
Agora estava naquela Instituição.
Um acadêmico que há dois meses fazia residência médica, ávido pelo saber, percebeu que o Doutor poderia expandir o seu conhecimento em tempo relativamente curto.
O melhor momento para adquirir informações adicionais era à noite, quando a demanda de serviços era menor e quando o Doutor estava bem.
O acadêmico se aproximava do banco onde o Doutor estava refestelado, observando o universo, cumprimentava-o e fazia suas indagações que eram respondidas de forma clara e didática, entretanto, havia noites que o Doutor não estava para conversa e respondia a saudação com um leve movimento de mão e dizia sempre: ”são de três anos atrás.”
O gesto e as breves palavras eram o suficiente para o acadêmico retornar ao plantão.
Mais do que frustrado, o acadêmico ficava incomodado com aquelas palavras “são de três anos atrás.”
Numa determinada noite ao perceber o gesto e ouvir aquelas palavras, resolveu indagar:
“Doutor, o que significa a expressão “são de três anos atrás”?“
Não esperava qualquer comentário e foi surpreendido quando o Doutor respondeu:
“Nem tudo que seus olhos testemunham é real, às vezes é uma ilusão. Olhe esse céu estrelado. Esse céu não é o de hoje, e sim, de três anos atrás. O cálculo é simples, basta utilizar as distâncias dos corpos celestes e a velocidade da luz, logicamente, que os três anos representam uma média.”
O acadêmico ficou boquiaberto, pois, jamais fizera essa associação.
O Doutor vendo a reação aparvalhada do residente, disse: “O problema não é seu, e sim do sistema educacional, onde os professores não estimulam os alunos a pensarem. Muitas estrelas que agora estão brilhando, talvez não existam mais. Quando fico absorto contemplando a abóboda celeste, tento lembrar o que fazia há três anos atrás, mas quase na totalidade das vezes é um exercício em vão.”
O acadêmico perplexo reiterou o boa-noite ao Doutor e retirou-se.
Na semana seguinte, quando entrou no seu plantão, o acadêmico recebeu a notícia de que o Doutor entrara em um surto profundo e estava recolhido naquele cubículo acolchoado para preservar sua integridade física e vestido em uma camisa de força.
Foi vê-lo. O Doutor balbuciava, apenas: ”são de três anos atrás”.
Ficou comovido, apesar dessas cenas serem corriqueiras naquela instituição, afinal, era um manicômio.
O Doutor sofria de esquizofrenia paranóide.
A alcunha de Doutor foi dada pelo próprio corpo médico (clínicos, psiquiatras, psicólogos, etc.), reconhecendo que dentre eles quem poderia ostentar o título de Doutor seria ele, afinal tinha feito o curso de pós-graduação "strictu sensu", no nível de doutorado, defendendo uma tese ao final de um curso de quatro anos.
O interessante era que seus pares, loucos de todos os gêneros, o chamavam, também, de Doutor.
Confesso, sem nenhum pudor que das inúmeras vezes que ele tentou explicar-me a sua tese, a minha limitação intelectual não alcançava a complexidade da coisa, apesar do didatismo dele.
Ele desenvolveu um algoritmo, um modelo matemático, cheio de integrais, derivadas, limites, fronteiras móveis que simulavam o desenvolvimento das células cancerosas no organismo humano.
Resultado: sua tese foi publicada na maior revista científica do mundo, imediatamente. Recebeu diversos convites para dar palestras nos centros de pesquisas mais respeitados do mundo, além dos inúmeros convites para trabalhar nos aludidos centros.
Usufruiu por poucos dias a sua conquista.
A sua realidade agora é conviver com Napoleão, Nero, Jesus, Papa, e outras figurinhas carimbadas pela loucura, além daquele que merece uma ressalva final.
É conhecido por BEM.
 Contudo, os funcionários daquele hospício deveriam deixar a hipocrisia de lado e utilizar in totum a expressão repetida à exaustão por ele que, lamentavelmente é uma triste realidade:
“A vida é BEM filha da puta”.
Talvez vocês não concordem com a assertiva acima, afinal é um direito líquido e certo o dissenso, contudo, desgraçadamente para todos nós não existem fundamentos consistentes para invalidar a definição acima mencionada.