
A complexidade do universo, as conturbações terrenas e os conflitos interpessoais eram elementos que não o abalavam, afinal vivia de bem com a vida, apesar da recíproca raramente ser verdadeira.
Tinha a capacidade de transferir o seu sorriso incontido para as faces das pessoas de sua convivência, mediante estórias impagáveis, onde era sempre o personagem principal, jamais coadjuvante. Era antes de tudo um crédulo.
Recentemente acordara de um devaneio que consumira 03 (três) meses de sua família e agregados por acreditar num vendedor que empurrara dezenas de carnês ao aguçar a sua cobiça que, mediante arranjo nada ortodoxo no sorteio dos prêmios, seria contemplado com uma mansão e mais um milhão de reais, depois de pagar as terceiras prestações daquele caminhão de carnês.
Privou os amigos de sua presença, pois passava os domingos enfurnado em casa, na frente daquele televisor preto e branco, comprado de terceira mão, com esponja de aço em uma das antenas internas do aparelho para permitir maior nitidez e, portanto garantir a segurança, a certeza dos números sorteados que ocorria em certo programa, cujo apresentador estampava um sorriso genuinamente paraguaio e utilizava um bordão mais que suspeito (para os incautos): "Ai, ai, ai... ai, ai, ai!"
Quando percebeu que caíra no conto-do-vigário, as suas finanças, as da sogra e do padrasto estavam dilapidadas, mas não as dos agiotas a que recorreram.
Enfim, aquela seqüência de planos e sonhos foi enterrada no baú da infelicidade, que já se encontrava abarrotado por outros percalços e por outras lambanças.
Estava agora em vias de cair no conto de um pastor de uma igreja recém fundada que precisava de obreiros e fora alçado à condição de presbítero, mas essa é outra estória.
Encontrei-o radiante. Estava voltando da faina diária com pães, um naco substancial de mortadela e dois pacotinhos de K-Suco para o regalo da família.
Mal respondeu aos meus cumprimentos e foi logo contando o motivo da compra das iguarias:
Veja bem! Tive um pesadelo na noite passada, terrível. Sonhei que tinha saído com mais dois amigos e com as nossas famílias para acampar numa ilhota oceânica e contratamos uma pequena traineira.
Abro um parêntesis para uma explicação (a expressão: Veja bem! Utilizada por ele para iniciar qualquer conversa era mais que um vício de linguagem, era uma purgação. Em tempos pretéritos cometera, inequivocamente, um grande equívoco ao apresentar um trabalho encomendado pelos donos da empresa e para tentar contornar a situação insustentável, cunhou a aludida expressão para ganhar tempo. Ganhou, mas foi o olho da rua. Feito o esclarecimento, fecho o aludido parêntesis).
Quando estava a 40 metros daquela nesga de praia, senti algo estranho a percorrer o meu corpo e num impulso incontido me lancei ao mar. O choque com aquela água gélida não fora páreo quando lembrei que minha intimidade na arte de sobrevivência no mar estava circunscrita ao “nado cachorrinho”.
Veja bem! – continuou ele - não era um nado canino qualquer, pois, o meu era de um cachorrinho asmático, coxo e com artroses nas quatros patas.
Quando o piloto da traineira cortou aquele motor decrépito que bufava além de suas capacidades, embora estivesse, a bem da verdade, em melhor estado comparando com as condições que me encontrava naquele momento, e lançou âncora, eu havia submergido pela primeira vez e voltava desesperadamente à superfície.
Para não expor os meus familiares a mais um desgosto, ao invés de gritar: Socorro! Socorro!
Não tive dúvidas. Na medida das possibilidades dos meus pulmões que já estavam comprometidos por uma quantidade significativa de água, apenas, sussurrei: Ajuda! Ajuda!
Repeti o sussurro por mais duas vezes e afundei definitivamente.
Acordei apavorado, sufocado na minha própria saliva.
Esperei, com certo desconforto, as horas passarem e depois fui direto a banca do bicho, mas com um drama lancinante, não por ter quebrado os cofrinhos das crianças para roubar as parcas moedas, e sim, em que bicho arriscar a sorte.
Veja bem! Recordei o nome da traineira (Touro indomável, dezenas: 81-82-83-84); recontei o número de pessoas do maldito passeio (era 17 – macaco, no jogo, as dezenas são: 65-66-67-68); o apelido de um dos amigos (mão-de-vaca – dezenas: 97-98-99-00); relembrei do estilo de meu nado (cachorro – dezenas: 17-18-19-20) e finalmente das talagadas de uma cachaça ordinária que havíamos consumido em excesso (a associação é lógica, o bicho é peru, as dezenas são: 77-78-79-80).
Apesar da má vontade do apontador em receber minhas moedas e na impossibilidade de arranjos maiores pela escassez dos numerários, joguei nos grupos: 09-10-11-12, e porra! Ganhei!
Desconhecendo os meandros do jogo, indaguei: que diabo de bicho é esse?
Ele respondeu: Burro, gente fina, burro.
E quanto lançou no ar aquela indefectível expressão para explicar a sua linha de raciocínio (para apostar no burro): Veja bem!
Interrompi, alegando pressa e sai pensativo:
“Coitado, perdeu a identidade e irá naufragar, agora sim, na depressão. Aquele ser de idéias vãs e incoerentes, cujo espírito era envolvido por fantasias, ilusões e utopias, agora pensou pela primeira vez na vida e isso se tornando um hábito, desgraçará a sua vida definitivamente.”
Restou-me como ateu convicto, em nome da amizade pedir “ajuda” a todos os santos para que ele continuasse o mesmo nefelibata de sempre e o impedisse de exercer o mau hábito de pensar.
Imediatamente comecei ouvir vozes que de forma uníssona responderam: Veja bem!
Fiquei pasmo, perplexo e de repente um grito sem prurido saiu de minha garganta: Socorro!

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