
Em seus momentos fugazes de reflexão, o resultado era sempre um jorro de iras justas de quem sempre fora injustamente compelido a dobrar as esquinas erradas da vida.
Essa sensação e sentimento continuavam, apesar de estar em outra dimensão, mas não conseguia se afastar da fase corpórea.
O diabo é que o seu destino era um desatino.
Dentre bilhões de pessoas aquele espírito resolveu ficar ao lado, às costas, logo de um ateu.
Realmente, a escolha denotava a sua falta de discernimento que era um problema menor diante da desqualificação do Instituto do Encosto, pois não tinha intenção de ajudar ou prejudicar aquele incréu e, sim, compartilhar daquele corpo para suprir a sua solidão.
Sem nenhum demérito ao espírito, mas, após uma semana de encosto percebeu que sua opção não fora das melhores. Não pelo fato daquele indivíduo não crer em forças superiores e sim, pela fé inabalável demonstrada por remédios, algo que repudiava em sua fase terrena.
Aquele ateu tinha uma obsessão doentia por saúde e exagerava nos fármacos. Na realidade, era um hipocondríaco e aquele espírito não passava de um estabanado.
Havia uma semana que aquele ateu começou a sentir um peso, uma sensação de cansaço, de desconforto, inexplicáveis.
Como esperado dirigiu-se ao seu oráculo, a farmácia, retornando com uma quantidade boçal de pílulas e de frascos com líquidos de cores variadas, um verdadeiro refrigério para sua alma, mas não para aquele espírito encostado.
Estranhamente, aquele ateu hipocondríaco percebeu a ausência dos efeitos colaterais, advindos dos remédios ingeridos, algo jamais ocorrido, pois vivia num moto-contínuo, tomava doses cavalares de remédios que resolviam por um lado, mas os efeitos paralelos faziam-se sempre presentes provocando a busca por outros fármacos, e assim seguia a vida.
Por esses mistérios da vida e da morte aqueles efeitos nefastos passaram a migrar para aquela alma desafortunada como não fossem suficientes as suas agruras, acrescentou agora esses novos males à sua situação incorpórea.
Aquele indivíduo descrente nunca se sentira tão bem em toda a sua vida.
Inacreditavelmente, aceitara o convite de sua namorada para acompanhá-la numa sessão espírita algo impensável até alguns dias atrás.
Com o trânsito caótico, o atraso foi inevitável e chegaram com os trabalhos iniciados.
Os médiuns cumpriam suas obrigações, mas uma onda “tsunâmica” de negatividade ocupou aquele ambiente com a chegada do casal.
Os intermediários entre esse mundo e o outro foram compelidos a interromper os seus contatos, não como fazem as operadoras de telefonia no Brasil, e depararam-se com um ectoplasma equivocado, circundando o corpo daquele ateu, afinal, essa substância emana, exclusivamente, dos corpos dos médiuns.
A sessão mudou seu curso natural e acabou convergindo para aquele indivíduo descrente.
Respeitosamente, escutou as observações dos médiuns sobre a existência de espíritos, sobre as condutas de alguns deles que não aceitavam a desencarnação e procuravam perturbar, ou não, os seres humanos, etc.
Finalizaram, afirmando que um desses espíritos o escolhera para um propósito que desconheciam, a priori, e que era necessário cumprir um ritual para afastá-lo e orientá-lo para o caminho que devia seguir.
O ateu escutou tudo silenciosamente e, após breve meditação, respondeu aos médiuns com um não rotundo. E retirou-se, sem abalar a sua convicção.
Poderia ter diversos problemas e deficiências, mas não era burro.
O seu pragmatismo ficou materializado naquele sorriso nos lábios, independente de sua descrença no sobrenatural, afinal, o seu corpo era outro.
As mazelas provenientes dos efeitos marginais dos remédios desapareceram e depreendeu que o seu suposto encosto, seguindo a lógica dos médiuns, absorvia e sofria com os efeitos negativos dos fármacos, isso era um fato concreto.
Concluiu, cartesianamente, que não abriria mão daquele hipotético encosto e mais, passaria ele, também, a ser um encosto (um corpo estranho) para aquele espírito.
Era uma decisão, meramente profilática, afinal, era um hipocondríaco.

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