quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cínico


As suas relações interpessoais sempre foram frágeis pelas circunstancias e propósitos que o moviam.

Suas convicções sobre a vida e sobre os indivíduos eram definitivas: não passavam de causas perdidas.

Às vezes chegavam ao seu conhecimento censuras daqueles que conviviam com ele por razões de parentesco e de trabalho.

Mantinha-se impassível e sempre com aquele sorriso permanentemente cínico.

Afinal, seus paredros eram os filósofos socráticos Antístenes de Atenas e Diógenes de Sínope, fundadores, na antiga Grécia, da Escola Cínica que ostensivamente opunham-se aos valores, aos usos e às regras sociais.

Apesar da pouca idade vivera o suficiente para analisar e avaliar as condutas humanas e os seus procedimentos indefensáveis.

Ressaltando, que as exceções não contam em todos os lugares e ocasiões analisadas, as atitudes dos homens foram e são pautadas pela inexistência de escrúpulos.

Sempre estão respaldadas num oportunismo sórdido e em posturas hipócritas dirigidas aos demais semelhantes, com um único intuito de espoliá-los em qualquer sentido.

Apesar do imenso lapso temporal transcorridos entre os 2400 anos da fundação daquela Escola, as suas premissas continuam rigorosamente atuais.

No ambiente de trabalho, em casa, ou até diante da própria imagem refletida no espelho pode-se constatar a presença de um cínico, não o do texto, mas o vulgarmente denominado assim,
por impropriedade semântica.

O sentido em que se toma a palavra cínico, por interpretação equivocada é aquele que tenta justificar o injustificável; o que desconhece crise de consciência ética; não reconhece problemas nos outros e é incapaz de pedir desculpas. Francamente, essas características podem ter qualquer adjetivação, menos a de cínico, na acepção da palavra.

O cínico no sentido estrito, o do texto, tinha a completa compreensão da falta de condições objetivas para mudar o mundo e na impossibilidade de influenciar as mudanças necessárias, manteve-se íntegro aos ditames de sua consciência.

Depreciado e silenciado pelos poderes constituídos e pelos seus semelhantes, aquele indivíduo sensato continuava indiferente aos processos excludentes a que era submetido, afinal, seus detratores não possuíam argumentos consistentes que pudessem estabelecer o contraditório.

Era um cínico porque desprezava as conveniências e fórmulas sociais.

Poderiam denominá-lo de parvo, jamais de incoerente, isso não o perturbava, as suas convicções eram suficientes e o bastante para ele.

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