
Percebera que adentrara na antecâmara do fim e mesmo assim não esboçou nenhuma reação, seja de medo, ou de lamento, as suas únicas palavras naquele momento foram: nada a reclamar.
Fixou o olhar num determinado ponto indefinido e revisitou o seu passado.
Herdara fazendas de cacau e gado que foram o seu sustento e dos seus descendentes por um tempo acima do imaginado.
Administrara mal seu patrimônio, talvez por priorizar o seu vício incontido pelas mulheres.
A dilapidação progressiva dos bens herdados, acompanhava o ritmo de suas aventuras que terminavam sempre com o registro de seus caracteres hereditários nos filhos bastardos que não possuíam o seu sobrenome, num outro tipo de registro, pois, a legislação da época não permitia, afinal era casado.
A mulher oficial tentou de tudo, mas nada o fez mudar, afinal, era uma questão de estilo e de destino, segundo ele.
As mudanças de amores eram sucessivas, como era contínuo o desprezo para com as antigas amantes. Quanto aos filhos? Bem..., melhor não comentar.
Por questão de justiça e essa deve ser feita em vida todas recebiam mesadas para suas subsistências.
A questão sempre foi o caminhar do tempo para a humanidade e não seria diferente para ele, para as ex-amantes e para prole numerosa. Sem falar, na esposa.
À medida que sua ruína financeira avançava o reflexo imediato era a retração dos numerários para os filhos bastardos e suas, respectivas, mães.
Até que chegou a derrocada total, acompanhada de uma doença insidiosa.
A alternativa foi internar-se em um hospital público que com os recursos disponíveis, disponibilizaram o avanço da doença, adicionando ao seu corpo já debilitado, infecções hospitalares.
Esquecido e quase silenciado pela morfina, desvia o seu olhar daquele ponto - que pelo testemunho de uma única pessoa que recolhia o lixo hospitalar daquela unidade intensiva – e lentamente cerra seus olhos, e balbucia suas últimas palavras: “coloquei-os no mundo, agora, que Deus os crie”.
Questionável? Não sei, só sei que fora seu ponto de vista.

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