
Supondo sofrer de algum problema de ordem psíquica, procurou por profissionais da área.
Chegou à consulta, previamente marcada, com uma antecedência de meia hora, respondeu a todos dados solicitados e que, simultaneamente, eram transcritos para uma ficha, pela atendente.
Aquele dia parecia ser promissor.
Ivo e ledo engano. Sua consulta estava marcada para às 12:00 h. Fora chamado exatamente, às 15:00 h, dois sentimentos concomitante perpassavam sobre seu ser:
o primeiro, pela ira quase incontida pela espera abusiva; o segundo, pela sua estupidez de não ter perguntado sobre que fuso horário trabalhavam, pois, ficou evidente que aquela clínica trabalhava com o horário zulu, que no Brasil, este é o horário de Brasília acrescido de mais três horas.
Com o humor em estado precário, adentrou ao consultório da psiquiatra e num relance, o que ficou impregnado em suas retinas, efetivamente não agradou. O lugar ocupado pela médica não estava no mesmo patamar dos pacientes, tinha um desnível onde ficavam as cadeiras dos pacientes. Como não fosse o bastante, a cadeira da profissional era imponente, mais alta, de qualidade superior. Enfim, um ambiente previamente estudado, com um simbolismo explícito de estigmatizar o paciente, apequená-lo e torná-lo mais vulnerável.
Para seu infortúnio, a psiquiatra, sem dignar-se a olhá-lo, escutou em escassos cinco minutos as suas idiossincrasias, e imediatamente prescreveu fármacos e de forma fria diagnosticou como portador de um quadro severo de depressão e de transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Imprimiu a receita e finalizou a consulta, orientando a procurar imediatamente um psicólogo, além, de ressaltar que deveria retornar em 15 dias.
Sentiu-se duplamente lesado, pelo valor escorchante da consulta e pelo diagnóstico precoce, sem qualquer substância, em seu juízo de valor.
Amargurado, sentindo a plenitude da impotência, rasgou a receita e colocou no lugar apropriado, num coletor de lixo.
Caminhou em direção a orla marítima para completar o autoflagelo, pois, detestava o barulho característico do murmúrio das ondas ao se desintegrarem nas areias da praia. Aos seus ouvidos eram os últimos lamentos das mesmas, frente à morte iminente.
Não conseguia ver poesia nesse movimento constante das ondas e admirava os poetas não porque gastaram e gastam versos sobre essa ação da natureza, e sim pelos seus cinismos.
Não era o mês de agosto, mas era tão aziago, quanto.
Procurou o barzinho mais afastado, com uma freqüência mínima, sentou-se num lugar bem longe e ao ouvir a voz do garçom, perguntando o que desejava, respondeu: um chope sem colarinho, ao mesmo tempo em que folgava o nó da gravata, e principalmente de sossego.
A tensão foi diminuindo.
Refletiu sobre seu dia, até àquela hora, e percebeu que suas atitudes não se adequavam ao seu comportamento diário.
Pagou a conta, deixando um valor superior ao tradicional 10%, afinal era uma forma de se redimir, pela grosseria gratuita que impingira ao profissional que o atendera.
Chegando a casa, tomou um banho e instintivamente ligou a televisão.
Passava uma propaganda de um absorvente íntimo, onde uma moça, sempre linda, vestida de branco, desmanchava-se numa alegria esfuziante, pela sensação de liberdade e segurança que o produto proporcionava.
Foi o bastante para uma transformação em seu humor, para ele era inconcebível um comercial dessa natureza, deveria ser submetido a ANVISA e ao Conselho de Auto-Regulamentação de Propaganda, pois era altamente ofensivo e discriminatório com Deus e deveria ser suspensa imediatamente a aludida peça publicitária.
Afinal, o Ser Supremo, segundo a propaganda, ao criar o ciclo menstrual de breve duração, errou, condenou às mulheres a infelicidade nos dias restantes do mês. A menstruação deveria ser de pelo menos 28 dias, aí sim, as mulheres teriam felicidades quase plena. Resumo da mensagem subliminar: o criador foi um sádico incompetente.
Entrou o telejornal da noite. Diversas matérias sobre assuntos múltiplos, sempre superficiais e tendenciosos.
Uma abordagem sobre a prostituição, a mais antiga profissão do mundo; choques de cidadania, até chegar aos comentários econômicos: a mesma cantilena sobre a taxa SELIC, a não redução dos juros cobrados pelos bancos, em razão, segundo os banqueiros, da alta taxa de inadimplência, do valor do compulsório e tome blá, blá, blá.
Foi demais para ele, a passagem do mau humor a ira foi numa velocidade, somente comparada ao aumento das taxas de juros bancárias. As justificativas apresentadas eram ofensivas à capacidade de discernimento do cidadão, uma afronta.
Desligou a televisão.
Afogado em indignidade, não precisou de muito tempo para descobrir a segunda profissão do mundo, a dos banqueiros.
Levantou e tomou 10 mg de uma ansiolítico, comprado numa farmácia, sem a devida receita por ser um fármaco do segmento das tarjas pretas.
Irrequieto, o sono não chegava, tornou a ligar a televisão, justamente quando passava o comercial de uma grande rede popular, que anunciava seus produtos (móveis, produtos da linha branca, marrom, etc.), sem entrada, dividido em 17 vezes sem juros, com entrada somente para o mês seguinte.
Curvou-se aos homens de propaganda e marketing, afinal as camadas mais desprovidas de recursos era seu público alvo e o tiro era certeiro, as compras eram massivas.
Como se não bastasse à indigna distribuição de renda, os pobres enriqueciam com os juros pagos, as instituições multimilionárias desse país.
Foi a gota d’água, aquela rede não vendia na realidade, produto nenhum, vendia crédito e o engodo não era percebido por uma parcela significativa da população.
Voltou a sala e na penumbra reavaliou aquele dia, e toda a sua existência, concluindo de forma cabal e definitiva sobre sua doença psíquica, apesar de não constar nos compêndios psiquiátricos, ele não passava de um fronteiriço, aquele indivíduo que esta entre imbecil e idiota, e ainda não se definiu.