segunda-feira, 26 de abril de 2010

Otimista


Era um otimista.

Caso fosse facultado retornar à vida e pudesse tecer comentários sobre a retirada do caixão que o abrigava do rabecão para o carrinho que o transportaria, em horas, para a sepultura, certamente diria: “a retirada da urna que foi precipitada, ocasionando uma pressão desproporcional sobre o material utilizado, afinal o conglomerado era reciclado e os pregos foram reaproveitados dos caixonetes de uma obra, portanto, o descolamento da parte de baixo era inevitável, assim como a minha queda.”

Foi velado, debaixo de uma árvore paupérrima em sombras, numa das alamedas secundárias do cemitério, sobre o carrinho e sob um toldo de plástico vagabundo de 3 m2, pois inexistiam recursos para o aluguel de uma capela.

Em pé, afinal, aos miseráveis inexiste o conforto de bancos para suportarem os pesos dos seus corpos combalidos pela dor da perda, a companheira solitária em vida e na despedida, lembrava daquele otimista incorrigível.

Sobrevivia fazendo bicos, fazendo planos, felizmente não fazia filhos, por ser estéril, mas planejava adoções.

Enterrado na área destinada aos indigentes, acabou provocando uma onda de protestos entre os vermes.

Como estavam condenados, os vermes, a sobreviverem naquele espaço geográfico onde a escassez alimentar era “senegalesa”, onde o fratricídio era uma prática comum, admitida em seus códigos genéticos, em nome do instinto de sobrevivência, tal procedimento não se aplicava àquele corpo esquelético, desprovido de qualquer valor protéico.

A assembléia daqueles vermes durou mais de 24 horas, esquecendo os vários incidentes e acidentes de percursos (escoriações diversas, em diversos), os líderes conseguiram acalmar os ânimos e o plebiscito colocado em pauta, acabou sendo acatado e o resultado do escrutínio, por uma maioria massiva foi a marcação de SIM, na cédula que indicava:

- “Invasão, imediata, aos territórios geograficamente privilegiados por suas riquezas naturais, os defuntos de classes médias e ricas, com o banimento daqueles vermes locais, portadores de doenças crônicas, pelo consumo exagerado de dietas riquíssimas que os levavam a obesidade mórbida”.

Proclamado o resultado, partiram para a invasão com os instrumentos disponíveis: a cara, a coragem e uma fome devastadora.

Ficaram, somente, aqueles vermes portadores de deficiências múltiplas, os anciãos e os pequeninos que otimistamente partiram para aquele corpo, que fora objeto de discórdias, de uma revolução e principalmente, o da iminente redenção deles.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Case


Pernósticos, aqueles especialistas de renome resolveram transformar o problema apresentado, em um case.

Eram de áreas afins, mas com interesses diversos e convicções inamovíveis.

O objeto da cizânia, antevendo o resultado das sucessivas reuniões agendadas, onde os subprodutos das mesmas, as atas, estariam contaminados pelo único consenso, o dissenso, utilizou-se do único expediente possível, manter-se silente.

Aquela premonição de que a questão não evoluiria, em razão, do desinteresse dos participantes em avançarem nas suas posições era uma situação atípica e sem precedentes nesse mundo conturbado.

Vejam que até no Conclave para escolha do representante do Criador na Terra (e olhem que não é pouca coisa), o Papa, existe, entre os Cardeais, aquela busca incessante de negociarem, de influenciarem aberta ou veladamente na escolha do seu protegido, enfim, conquistam seus objetivos, mediante, o lobby.

Essa sim, ela ponderava, é a denominação correta por falta de vocábulo apropriado na língua portuguesa, e não case que é estudo de caso. Que homens! Que país!

As suas colocações eram objetivas sobre o destino desprezível que a esperava, afinal, sua origem decorria de uma miscigenação exagerada que resultou numa tonalidade e numa aspereza específica em seu corpo, que a diferenciava das demais e, portanto, não seria merecedora de qualquer relevância durante sua existência.

As argumentações sobre a igualdade de oportunidades e da inexistência de restrições aos de sua origem eram, desgraçadamente, meros exercícios retóricos, acobertados pela sordidez dos discursos politicamente corretos, disso ela não tinha a menor dúvida.

Como tudo na vida é questão de tempo, o seu chegou.

Sentiu aqueles dedos pegajosos que exalavam um repugnante cheiro de fumo, pegá-la com indiferença e colocá-la no local apropriado da impressora.

Não teve tempo para protestar. Em segundos, as idiossincrasias de sua existência, concretizaram-se.

O seu corpo foi prostituído por esse texto medíocre e que é o pior, não é o definitivo, pois, a impressão é para facilitar esse pseudo-escriba fazer as correções devidas, as inclusões necessárias, procurando transformar, como fosse possível, um péssimo texto, em mau.

Não refeita de sua indignação, pois, não havia passado mais que três minutos, sentiu-se comprimida, amassada e em pleno vôo livre para chegar à lixeira de recicláveis que avidamente a aguardava, e ainda, pensou:

“As folhas de papéis reciclados são tratadas da mesma forma que os seres humanos deserdados de cidadania, servem para serem manipulados e usados, exclusivamente, em atividades subalternas.”



Nota: todos os documentos oficiais e até os medíocres discursos dos parlamentares brasileiros estão registrados em folhas não recicladas, enquanto isso, o discurso de sustentabilidade do planeta; das derrubadas de árvores;......

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mitos sobre a velhice


A velhice representa o acúmulo do pó do tempo de uma vida.

É a destruição gradativa da existência humana que, teimosamente, resiste às ignomínias do curso do tempo. Não é uma opção, é destino.

A sociedade, cuja organização é de uma sordidez indescritível, procura atribuir ao idoso o privilégio da maturidade das ações, do equilíbrio e da sabedoria.

Isso é um engodo cruel, principalmente, por ser uma ação deliberada dos promotores de idéias e conceitos sociais que agem em nome de interesses escusos, deformando e deturpando a verdade.

O lamentável é que suas falácias encontram ressonância entre os incautos.

Portanto, insistir na tese mentirosa de que o advento da idade provecta resulta em equilíbrio, em bom-senso, pelas experiências vividas é um ultraje à inteligência.

É como querer revogar as leis da decadência intelectual, e do declínio físico/mental, apenas pela palavra, desprezando a realidade factual.

A velhice representa a ruína de uma existência, nada mais.

O avançar na escala do tempo registra o conjunto das idiossincrasias da vida, o processo de desgaste natural do organismo com suas tristes e indeléveis cicatrizes e o limite da exaustão das forças físicas e mentais.

A existência mais prolongada não elimina os conflitos internos, as perplexidades, os medos, no máximo, as escleroses múltiplas permitem o esquecimento das adversidades e das frustrações vividas.

Isso não é sabedoria, é um castigo da natureza.

O mundo é caótico em decorrência de uma gama de fatores, contudo, essas e outras idéias velhacas, tornam-o mais confuso e desumano, lamentavelmente.

Os idosos merecem todo o respeito.

Agora, vê-los como possuidores de uma sabedoria que contemplam os atos e os fatos da vida, é admitir o inadmissível, é afirmar que a vida não leva à morte, é acatar a proposição de que os crápulas não envelhecem.

sábado, 10 de abril de 2010

Aquela Alma


Destituída dos conhecimentos mais rudimentares da tecnologia do mundo moderno, não por opção, mas por imposição da desídia do governo, desde tempos pretéritos, não avaliava os transtornos que adviriam.

Da mesma forma que não fora consultada sobre o seu nascimento, a morte sem criatividade nenhuma a levara sem qualquer diálogo preliminar.

Os problemas começaram a partir daí. As dificuldades terrenas não assemelhavam em nada, tanto, em intensidade, quanto, na forma, com aquelas apresentadas.

As coisas eram fluidas, os sons inabituais, o tempo de ruptura de sua passagem corpórea para incorpórea foi exíguo, acarretando uma inadequação na sua nova forma de percepção, o que provocou um erro crasso de avaliação, tendo como conseqüência o agravamento daquele estado em que se encontrava que já era precário.

O transporte partiu, deixando-a.

Completamente perdida, como sempre fora na sua vida terrena, procurou por alternativas que sempre eram inviáveis.

Passado algum tempo, começou sentir um incomodo naquilo que na Terra chamava-se de costas e quando tentou explorar aquela região, percebeu que possuía um par de asas, que numa primeira avaliação seria condenada, em qualquer controle de qualidade, mas exceções sempre existem, e por algum descuido, sua memória terrena que deveria estar desativada, lembrou dos produtos made in China.

Sem alternativas e diante de um nevoeiro que se aproximava, resolveu bater asas.

As assimetrias das asas provocavam um vôo grotesco e um esforço adicional, mas sem opções, resolveu explorar aquele espaço que se caracterizava pela ausência de finitude.

Quando suas forças chegavam à exaustão e decidida entregar-se ao destino, agora sim, por decisão própria, entrou numa térmica e planou por um tempo indefinido.

Caso houvesse algum registro de seu estado, indubitavelmente, constataria que era lastimável, não passava de uma alma vadia, combalida e em molambos.

Depois de muito vagar, acabou escutando um som irritante de microfonia.

Para ela, aquela perturbação na transmissão de sinais sonoros, soava como um cântico celestial que gerava paz, mas, fundamentalmente, um fio de esperança.

O problema era aquela cerração pesada que a impedia de qualquer visão, mas seguiu em frente, nos descompassos das asas, orientando-se pela maior intensidade daquele som.

De repente, o som foi interrompido, bruscamente, provocando um silencio assustador.

Não havia passado muito tempo, e antes do desespero apoderar-se dela, ouviu uma voz débil, mas indignada, a clamar aos céus: “Isso é uma dessacralização!”

Apesar de sua ira incontida, lembrou do seu último curso, um MBA em Comunicação, recordando com certa dificuldade dos rudimentos da matéria, afinal, passara com a média mínima, suspeitíssima, por sinal, segundo as línguas viperinas.

Veio, também, à lembrança a estatística sobre o nível educacional, onde a maioria daquelas almas era analfabeta ou semi-alfabetizada, em decorrência do aprendizado em suas vidas terrenas.

As alfabetizadas, na realidade, pouquíssimas, tinham um grave vício de origem.

Muitas eram brasileiras, verdadeiras apedeutas, de fato. Entretanto, suas certificações vinham com a chancela de diversos governos brasileiros que falseavam os dados para não macularem os índices internacionais de desenvolvimento humano.

Aí, aquele Senhor usando das técnicas de comunicação, brandiu novamente:
“Isso é uma dessacralização - é tirar o caráter sagrado do Céu”. (ouve-se, mesmos para os ouvidos moucos, um murmurar na platéia).

E continuou: “Quem terceirizou o serviço de som do Céu?!”, isso é inadmissível, inaceitável.

Afinal, continuou ele, a globalização foi a teoria devastadora que o Coisa Ruim implantou na Terra, e deu no que deu. E, trazem para o Céu?

Indignado, suspendeu o pregão para a entrada naquele território dedicado a presença das almas justas.

Os murmúrios das almas que aguardavam a declaração de seus nomes fizeram concorrência a natimorta microfonia quando aquele Senhor não se fazia mais presente.

A confusão foi total. Os comentários ficam sem registros, pois, decliná-los seriam provas irrefutáveis, contundentes e definitivas que as impediriam adentrar no Céu.

Aquela alma toda estropiada, imunda, maltrapilha que na Terra fora flanelinha, vendedora de balas nos sinais de trânsitos, de flores para turistas, e, quando a situação complicava partia para o furto, não titubeou, e resolveu organizar uma fila quilométrica, que fazia frente aos engarrafamentos paulistanos, convencendo com certa facilidade aquelas almas sobre o retorno daquela medida.

No dia seguinte, aquele Senhor já apresentava um mau-humor matinal dantesco, mas iria informar àquelas almas que não haveria pregão, por ser ponto facultativo no Céu.

Ordenou a abertura dos portões e ao deparar-se com aquela cena celestial, do espanto a felicidade foi questão de milionésimos de segundos terrestres.

Dirigiu-se àquela alma caquética, a primeira da fila e indagou: “Quem operou esse milagre?”

Experiente, ela não demonstrou nenhuma vaidade e afirmou: “Senhor, não foi milagre.”

Empreguei, apenas, um choque de ordem, acompanhada de algumas ameaças veladas. As fiz, por necessidade de manter o devido ordenamento jurídico, entretanto, já pedi o devido perdão. Senhor era necessário.

Um sorriso há muito não visto surgiu nos lábios daquele Senhor que avançava sobre o quinto milênio de idade, segundo alguns Cartórios do Tempo, mas, havia controvérsias.

Revogando sua decisão da inexistência de expediente, chamou aquela alma e determinou que ela apregoasse, naquele dia. E retirou-se.

Alçada àquela função, sua primeira medida foi procurar a sua ficha. Era, totalmente, desabonadora e impeditiva de gozar dos privilégios celestiais. Não titubeou e com jeitinho tipicamente brasileiro, adulterou a mesma.

Ajeitou-se naquele trono e começou a invocar os nomes das almas que teriam acesso à paz celestial.

No dia seguinte, sentado com aquele Senhor de barbas brancas e longas, tomando um laudo café da manhã, colocou-se a disposição para dar consultoria sobre os diversos processos do Céu.

O pior. Aquele Velho anuiu.

O Coisa Ruim que assistia a tudo exasperado, ao perder um digno representante de suas hostes, não titubeou, por vingança, escolheu a próxima pessoa a ocupar a Presidência do Brasil, nas próximas eleições. Quem viver, verá.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um roubo que não cabe no Boletim de Ocorrência


Em passos largos, após, um dia estafante de trabalho, caminhava rumo a casa.

Anoitecia.

Na metade do caminho ela é assaltada e sem esboçar a mínima reação, a não ser a expressão de pânico que a deixa paralisada e muda, recebe uma coronhada nas costas.

A sensação de impotência, a humilhação, a dor lancinante, a indiferença dos transeuntes, a confusão mental, são fatores que a impedem de localizar, imediatamente, a Delegacia, que dista 300 metros do local da agressão, para o devido registro.

É atendida por um policial que mecanicamente faz as indagações de praxe e solicita o relato dos fatos, com uma frieza idêntica a ação do assaltante e confecciona o Boletim de Ocorrência (BO).

A sua dor, a sua impotência, o seu trauma, a indignidade sofrida, resume-se, a meros fatos.

A solidariedade vem de outra vitima de infortúnio que teve o carro furtado, através, do oferecimento do celular para que ela possa tomar as ações junto às instituições bancárias, afinal foram-se os documentos, dinheiro, talão de cheques, cartões de créditos, além, do celular com seus registros pessoais e profissionais.

A adrenalina teima em permanecer absurdamente alta em seu corpo alquebrado e a percorrer sadicamente o seu espírito totalmente atormentado.

Passam-se os minutos de forma silente e com os olhos absortos naquele papel, o BO.

De repente, percebe que o principal roubo não cabe naquele BO, o da coragem.

O desgraçado com aquela agressão covarde, hedionda, subtraiu a sua coragem, pois, o medo assaltou a sua mente e subjugou a sua alma e passou a dominá-la, desde então.

Com o passar dos dias, o medo evolui para o pavor. E esse é o medo que atingiu a maioridade.

Constata que o plano de saúde não cobre consulta na área psicológica.

A situação financeira no limite obriga a gastos extras, via empréstimo bancário com intuito de restaurar a tranqüilidade e o equilíbrio emocional perdido.

As sessões não progridem como o desejado.

O Estado que é omisso na contraprestação de serviços nos hospitais, onde a dor é visível, torna-se completamente ausente, no tratamento da dor sem vestígio aparente, a psicológica.

Sem tratamento, torna-se refém do pavor e a impossibilidade de superar o trauma, acaba demitida.

Certa noite, ao assistir a um telejornal, em rede nacional, em um dos blocos, assiste um representante dos direitos humanos fazer uma defesa apaixonada sobre um determinado caso, em que o preso está sofrendo maus-tratos. Efetivamente é uma indignidade.

Entretanto, uma sensação de náusea surgiu, imediatamente. Não pela argumentação e pela postura ativa do representante dos direitos humanos, em sua defesa irrestrita ao preso, mas, pela inexistência dessa mesma representatividade, na sua defesa e de centenas de outras vítimas.

Naquele momento sentiu um amargor na boca provocada pela indignação de sentir-se duplamente violentada.

Desligou a televisão e chorou.

A sensação de abandono total invadiu o seu ser. O maior bem jurídico que é o direito à vida foi tutelado pelo assaltante, e não pelo Estado.

Entretanto, na hierarquização dos direitos fundamentais, no seu juízo de valor, o segundo, que é direito de ir e vir, foi desgraçadamente violado e pela amostragem de seu comportamento psicótico, jamais será restaurado.

No seu último refúgio seguro, o lar, preste a aumentar o seu inventário de perdas, pelo o atraso no aluguel, faz uma auto-análise, um balanço das perdas e dos ganhos, em decorrência do roubo sofrido:

- Ganhou a indiferença do policial; ganhou dívidas, em decorrência do empréstimo bancário para pagar as consultas do psicólogo; ganhou a frustração de pagar e não ser atendida por um plano de saúde, onde as letras microscopias das cláusulas contratuais a induziram ao erro, de forma deliberada e quem ganhou foi o plano; ganhou um trauma psicológico e dentre outros, ganhou a certeza da indiferença total do Estado para os deserdados da cidadania, o povo.

- Perdeu o equilíbrio emocional; perdeu o emprego; perdeu os projetos de vida; perdeu a paz interior; sem contar outras perdas, pois todas são irrelevantes diante da perda de sua vida.

Foi roubada pelo meliante, furtada pela instituição bancária, através, dos juros abusivos do empréstimo e, também, pelas diminutas letras do contrato de saúde, e estuprada pelo Estado sob a forma de cumplicidade abjeta deste, que dissimula a sua conivência com multas simbólicas, risíveis para com aqueles.

Contudo, esse mesmo Estado é extremamente eficaz e eficiente em subtrair, compulsoriamente, recursos das pessoas físicas (não das jurídicas que repassam a rapinagem aos clientes) sob a égide da carga tributária.

Percebeu, tardiamente, que não era uma vítima una, mas múltipla da desídia do Estado em não oferecer a contraprestação dos tributos como: segurança pública; hospitais dignos; educação; fiscalização eficiente dos mercados; etc.

Hoje, prostitui-se e cheira crack.

Na noite passada, um automóvel pára e o passageiro do banco de trás, convida para um programa.

Aquele rosto não é estranho.

Apesar da falência paulatina dos neurônios, em decorrência da droga, a imagem daquele cliente que a acaricia, retorna de forma nítida,: era o representante dos direitos humanos que defendia o preso contra os maus-tratos, naquela noite pretérita, na televisão.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sinais gráficos numa sessão de Análise, ou, Tributo a Cosendey.


Aquela terapia em grupo, efetivamente, não poderia trazer bons resultados, na melhor das hipóteses, nenhum.

A linha de ação do Psicólogo era terapia cognitivo-comportamental que entre diversos aspectos são balizadas, por definição, tanto pelo diagnóstico específico do transtorno mental, como por uma análise do problema pessoal (ou seja, uma descrição das particularidades do paciente).

A exceção de uma cadeira vaga, os pacientes encontravam-se impacientes, tanto pelo atraso do profissional, quanto pela certeza do resultado daquela exposição, em público, de suas idiossincrasias.

O Psicólogo entra naquela sala espaçosa, com cadeiras em formato de um semicírculo, dirige-se ao seu local e, concomitantemente, saúda coletivamente os presentes, sentindo a falta delas, As Reticências. Quanto ao atraso, nenhuma observação.

O desconforto dos pacientes: Trema, Apóstrofo, Hífen, Cedilha, Aspas, Travessão, Acentos, Ponto e Vírgula, Dois Pontos, Ponto de Interrogação, Asterisco e Ponto de Exclamação, aumenta com a presença do profissional. Encontravam-se tensos e com sudoreses senegalescas, apesar do ar-condicionado marcar uma temperatura, significativamente, baixa.

Utilizando-se da técnica, o Psicólogo Ponto (.) ameniza aquele estado de tensão no ar, mas não o peso do mesmo, em função do resfriamento, afinal, isso não era de sua alçada de competência.

A palavra é colocada à disposição dos pacientes e após, um breve silêncio, o Apóstrofo (') começa a sua digressão: por definição já sou um sinal gráfico bastante incompleto, indico a supressão de uma vogal e vejo-me como uma vírgula de cabeça para baixo, às vezes. Outras tantas, um acento agudo sem letra embaixo. Isso me causa uma depressão profunda, uma tristeza infinda pela falta completa de identidade.

De forma espontânea, o Hífen (-), até para sua surpresa, com um poder de síntese abre a sua alma: sou de um refinamento extremamente complexo e com regras extensas e confusas, onde a quase totalidade dos autores e ressalto, não são os semi-analfabetos, são extremamente contraditórios ao disporem de minha função em seus textos. Tenho um complexo, proporcional à complexidade de meu uso.

Numa gagueira, produto dos seus problemas psicológicos, a Cedilha (ç) expõe seus conflitos de maneira objetiva e, logicamente, desesperadamente lenta: sofro de baixa-estima, afinal ao pronunciar o meu nome (ç), ao invés, do som de “c” o fazem com o de “ss”; padeço (escutem o som), também, de um desvio de afeto das vogais “e” e “i”, pois, sentem preteridas por mim, pois, na visão delas, permito uma convivência harmoniosa, apenas, com as outras vogais.

Com certa timidez As Aspas (“ ”) ponderam que se sentem como vírgulas dobradas, invertidas e isso causam uma discriminação hedionda entre os seus semelhantes, os sinais gráficos, por colocarem em dúvida as suas opções sexuais. Além disso, enfatizam que os seus usos pelas pessoas têm duas finalidades: destacar um conteúdo reproduzido literalmente da boca de outro indivíduo que não o autor do texto ou denotar que a palavra que está se usando, no contexto, não apresenta significado literal.
Lágrimas duplas escorriam de cada um dos olhos das Aspas que encharcavam as suas tristezas profundas, pelas marginalizações impostas.

O silêncio imperou por uns trinta segundos e o Travessão (-) foi claro e conciso em seu desabafo: sou um fragmento ínfimo de linha que separo as falas dos interlocutores e que, algumas vezes, sou utilizado para suprimir o parêntese. Sou um medíocre e um assassino eventual.

Nessa hora, o ambiente que era tenso e com os pacientes fragilizados foi conturbado de vez com as intervenções dos Acentos (´ ^ `) que elevavam suas vozes, procurando dar ênfase às suas individualidades.

O Psicólogo teve que intervir diversas vezes, organizando as falas de cada um dos trigêmeos não univitelinos. Os problemas são tantos entre eles que os caracteres hereditários parecem não vir da mesma gênese. Não se entendem, primam por serem problemáticos e sofrem de um complexo de superioridade triplo, isto é, cada um se acha mais importante do que os outros. O diagnóstico é elementar: ególatras.

Com os Acentos trêmulos de raivas, apesar do temor, o Trema (¨) foi enfático e definitivo: sou um mero coadjuvante, a minha existência é relativizada, pois, sirvo para que o “u” dos grupos gue, gui, que, qui seja proferido com som átono.
Houve uma pausa proposta pelo Psicólogo.

No retorno, o Ponto-e-Vírgula (;) fez uso da palavra: sofro de transtorno bipolar, pois, vario entre a Vírgula e o Ponto, e não sou nenhum dos dois. Sou de uma imprecisão ímpar, represento uma separação mais ampla que a vírgula, e, também, tenho característica do ponto, mas não a ponto de encerrar um período.

Aproveitando a deixa, o Parêntese () não titubeou em afirmar que era um sinal gráfico sem paz interior. Os escribas utilizam-me de forma promíscua. Afinal, sirvo para intercalar, num texto, qualquer indicação ou informação acessória. Prestem atenção: A-C-E-S-S-Ó-R-I-A, isto é, de caráter secundário. Prezados, não nego: sofro de um complexo de perseguição e de nulidade, enquanto participe da linguagem.

Os Dois Pontos (:) dirigem as palavras de forma uníssona para o Parêntese e em claro e bom som, com dicções perfeitas, dizem: não se abata, existem coisas piores, veja a nossa situação. Servimos para marcar um suspensão (sensível), isso é coisa de ..... (bem, deixa pra lá), da voz na melodia de uma frase não concluída. Usam-nos antes de uma citação; de uma enumeração e de uma explicação. Temos vários problemas psicológicos e não negamos, mas, somos machos.

Aquelas ponderações dos Dois Pontos não soaram bem para o Ponto de Interrogação (?) que com uma voz de falsete, foi logo dizendo: indico uma pausa com entoação ascendente. Usam-me nas interrogações diretas; combinam-me com o Ponto de Exclamação quando a pergunta também expressa surpresa e quando existe muita dúvida na pergunta. Agora quero deixar bem claro: sou um homossexual muito bem resolvido.

O Ponto de Exclamação (!) ao ouvir o comentário do paciente que o antecedeu, com os lábios trêmulos de indignação, afirmou: não tenho preconceito nenhum com as escolhas particulares.
Agora, não me coloquem numa situação que repudio, enfaticamente.

As forças dos escritores são poderosas e não tenho condições objetivas para vencê-los, contudo, sempre protesto, à exaustão, quando me utilizam, promiscuamente, com o Ponto de Interrogação.
Quanto ao resto são várias as possibilidades de minha utilização nas frases que exprimem espanto, surpresa, alegria, entusiasmo, cólera, dor, súplica, etc.

A animosidade estava tomando um vulto não desejado e o Psicólogo resolveu suspender a sessão, na mesma hora em que o Asterisco recebeu uma ligação das Reticências.
Não dando tempo para os pacientes se levantarem, o Asterisco (*) comunicou que As Reticências estavam aguardando a todos os colegas de infortúnio, no bar, embaixo do Consultório.

O Asterisco acabou de forma transversa e subliminar, denotando a sua razão de existir, que é chamar a atenção do leitor para alguma nota ao final da página ou do capítulo.

Quando desceram já existia uma mesa separada pelas Reticências e com os devidos pedidos de tira-gostos e chopes, em curso.

Acomodados e sorvendo goles daquela bebida estupidamente gelada, As Reticências fugindo de suas naturezas reticentes foram diretas ao assunto: procuramos o Orientador do Ponto (.) que nos clinica e obtivemos informações preocupantes.
O Orientador, como sabem, tem a função de fazer análise nos profissionais de Psicologia.

Ele nos afirmou que havia solicitado ao Órgão de Classe a suspensão provisória do registro e, conseqüentemente, das atividades do Psicólogo Ponto (.), em razão da crise que ele vem passando. Sem ferir a ética profissional, aludiu sobre o agravamento dos sucessivos distúrbios psicológicos do Psicólogo.

O Psicólogo Ponto (.) está sofrendo de uma neurose grave. Neurose, essa, decorrente das suas tentativas ineficazes de lidar com o seu ego, pois, não consegue separar quando é “ponto simples”, “ponto parágrafo” ou “ponto final”- e esses conflitos e traumas do seu inconsciente exigem um tratamento longo, inclusive, psicanalítico, com prescrições de remédios com tarjas pretas, de modo a restaurar sua sanidade plena, deixando-o, portanto, incapacitado para o exercício da profissão.

O silêncio que sucedeu aquelas palavras poderia ser denominado de fúnebre.

De repente, escutam aquela expressão gaguejante da Cedilha: “Como isso é possível?!”
O Ponto de Exclamação ao ouvir aquela indagação que o atrelava ao Ponto de Interrogação partiu de porradas para cima da gaga.

Termino por aqui, pois, a confusão não acabou bem.

Padeço de muitos males, inclusive, das incorreções nas colocações das vírgulas, mas, sei quando devo colocar um “ponto final” nas coisas.