sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A natureza humana

Percebido por muitos como uma figura estranha, e considerado como um ser sombrio e assustador pelos demais, a adição aritmética dos sentimentos externados dava como resultado um todo deplorável.

Como objeto de repulsa, era evitado quando não, destratado, mas sempre com reservas, afinal o medo de uma hipotética retaliação inscrita nas cóleras dos diversos artigos, parágrafos, incisos e alíneas do Código Penal, advinda daquele indivíduo, cerceavam a essência dos seus instintos primitivos.

Surgira há anos naquela comunidade anômala, esquisita mesmo. Afinal, sua origem era singular em relação aos demais povoados ou cidades interioranas. Todas as terras e benfeitorias pertenciam a um empreendimento fabril.

A sobrevivência daquela população, nos seus diversos estados de necessidades, dependia de uma entidade privada que privava a todos de diversos direitos pretensamente protegidos pela Carta da República, dentre os quais, um, que em tese, deveria ser inalienável e irrevogável, o da liberdade. Uma mísera alteração na cor de um muro dependia da anuência do gestor do empreendimento, apenas para exemplificar.

Com o passar dos anos, a qualidade do olhar daquelas pessoas sobre aquela criatura não sofrera qualquer mudança. Ele, por sua vez, mantinha-se incólume no seu modo de viver, sempre arredio e avaro nas palavras.

Não passava de um ermitão e aquela vida reclusa, mesmo com todas as limitações decorrentes da escolha era o suficiente e o bastante para ele.

Observado com os sentimentos da alma era um homem que merecia uma complementação, um advérbio, mas não os vinculados com a circunstância de tempo, modo, lugar, afirmação, negação, dúvida, mas de intensidade.

Sim. Era um homem tão sozinho.

O seu abandono e a sua renúncia da vida ordinariamente normal foram usurpados numa manhã de domingo com a chegada de uma comitiva de carros, no exato momento em que os crédulos saíam dos seus cultos e os afeitos ao ócio e a desqualificação da vida alheia, perambulavam pela praça principal a passos lentos em contraposição à velocidade incontrolável de suas línguas viperinas.

Excitados e prontos a expressarem seus mais viscerais desprezos por aquele ser invulgar, quedaram-se ao ouvirem de um dos estranhos que a procura de anos a fio terminara e assim poderiam encerrar um testamento bilionário, onde aquele ser solitário era o único herdeiro.

Meses passados, desde a entrada daquele indivíduo em um dos carros sobre os seus mais veementes protestos, o gestor do empreendimento convoca aquela comunidade dissonante para uma reunião, em caráter excepcional e de forma coercitiva.

O murmurinho gerado por observações e preocupações dos presentes sobre seus futuros, cessa com a entrada do preposto do patrão.

De forma direta, comunica que o dono daquelas terras e, consequentemente do empreendimento, determinara que fossem lavrados em cartório os títulos de propriedades das casas para os respectivos moradores, às expensas da empresa.

O espaço percorrido entre os gritos destoantes de felicidade à crítica foi proporcional à inexistência de caráter daquela turba.

Informado da insânia daqueles moradores, mas omitindo as partes mais cruéis que foram vociferadas por aquela gentalha, aquele gestor acrescentou que todos, sem exceção (vejam o absurdo: Desqualificaram até o desvio da regra geral que é a exceção – digo eu) afirmaram que o seu gesto não passava de uma mísera obrigação e ponto final.

Calmo e sereno, aquele ser que compartilhou apenas o ar com aquelas pessoas, durante anos e, sabedor que teria sucumbido de fome e de tédio caso necessitasse de um mísero gesto de solidariedade, sordidamente ditas como humanas, foi sucinto na sua análise:

“Prezado, é melhor escutar isso, do que ser surdo”.

Intolerante e inconveniente que sou, pois, nada tenho a ver com a estória, não resisto e registro a minha indignação com uma verdade pétrea: “o ser humano é uma causa perdida.”









segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ele e ele mesmo.

Conversa a sós e mesmo assim as discussões eram sempre  acaloradas  e a sensação de quem assistia e percebia as suas expressões faciais  não tinha nenhum resquício de dúvida: ele saíra perdedor daquela contenda, contra ele mesmo.

Cabisbaixo, quase sem fôlego, retirava-se do local da controvérsia fosse no trabalho, na rua ou em casa, em busca de paz e de argumentos para uma próxima discussão, que à medida que o tempo passava, era sempre mais próxima.

Não... não era louco, um demente. A sua atitude ressentia os seus primeiros 15 anos de vida, onde não conseguia exprimir um mísero som corrente.

Sempre fora objeto de rejeição, de gozações impiedosas nas ruas e, desgraçadamente, também no convívio familiar.

A família, sem posses, bem que tentou nesses serviços públicos que aviltam a dignidade humana, sempre com vagas para atendimento marcadas para meses depois, um tratamento com profissionais de psicologia e fonoaudiologia.

Tudo em vão. Quando cumpriam as datas marcadas, o tempo de atendimento era exíguo e assim, depois de muitas idas e vindas abandonou as idas (não somente as da busca de resolução ou minização do problema que em nome da verdade nunca foi seriamente avaliado, mas pelo esgotamento, pela falta de paciência, pelo excesso do descaso).

Numa dessas trapalhadas do destino, abandonado na solidão do seu quarto, deparou-se com uma revista de seu irmão mais velho, cujo conteúdo era um exemplar de mulheres nuas para todos os gostos e desejos.

Veio uma arritmia, uma sudorese pela visão de uma calipígia que merecera a sensibilidade do editor, em colocá-la na página central da publicação.

Um comichão estranho percorreu a parte inferior do seu corpo, afinal era a primeira vez que via uma mulher desnuda, e apesar de não ser ao vivo era pelo menos a cores.

Aquela reação do organismo ao estímulo externo foi um êxtase menor, subalterno, diante de um arrebatamento muito maior e divinamente prazeroso ao sentir fluir de suas cordas vocais uma fala súbita sem grandes repetições ou prolongamentos, características da sua tartamudez.

Sem aqueles enormes tropeços que caracterizavam a sua falta de fluência verbal, saiu um sonoro:

“Caralho”.

Da situação de tartamudo a posição de prolixo passou-se ainda algum tempo.

Hoje comete o excesso de falar, de discutir com os outros e consigo próprio num tom adequado e com uma dicção perfeita, mas ao ver uma calipígia a gagueira retorna, acompanhada sempre daquela palavra emitida naquela ocasião.

Que coisa! A vida é do ...... (bem, deixa prá lá), mas que é, é.