domingo, 25 de outubro de 2009

Prisioneiro


Era uma figura taciturna, avaro nas palavras e nos gestos.

Fora apenado por crime de latrocínio e cumpria a sua pena, mantendo inalteradas suas convicções.

Adquirira o respeito dos demais condenados, por uma postura espontânea de indignidade. Aguardavam na fila para o almoço quando, numa atitude cruel e sádica, os carcereiros começaram agredir um frágil e velho preso, em início de demência, doença essa que atingira, em seu quadro mais grave, o sistema judiciário brasileiro.

Ao ver a covardia perpetrada contra aquele individuo inofensivo, jogara-se sobre ele, protegendo-o contra os golpes infames.

Seu gesto conduzira-o à solitária, a cela em que se isola o sentenciado turbulento e perigoso.

O retorno ao convívio com os demais ocorrera após trinta dias.

Retornara à sua rotina, onde não havia espaço para conversas que permeavam os subterrâneos do presídio, os quais eram divididos em facções: extorsões, mortes, tráficos, punições, etc.

Havia anos que não tinha contato com seus familiares, por opção e determinação dele, após ser sentenciado.

Era um solitário, destarte o afluxo de condenados à sua cela, para serem atendidos juridicamente, pois formara-se em Direito meses antes de seu delito.

Fazia as petições necessárias, sempre bem fundamentas, não aceitando em troca nenhum pagamento em espécie, em gêneros alimentícios, em produtos de higiene pessoal. Enfim, todos sabiam que não deveriam, sequer, agradecer pelos serviços prestados. Era uma figura insociável, intratável.

Aos desavisados que lhe desejavam um bom-dia, sua resposta era seca e constrangedora:
- “Espero que o seu seja um péssimo dia”.

Nas vezes em que era convocado pelo diretor do presídio, escutava os discursos vazios, moralistas, em pleno silêncio. Era um monólogo torturante para ele, pois as observações eram sem substância, sem qualquer embasamento plausível.

Era sempre avisado para não sair de sua cela quando uma rebelião, ou uma guerra de facções, iria ocorrer.

Aos guardas que vinham dirigir-lhe qualquer palavra, respondia secamente:
- “Senhores, fiquem com meu eterno desprezo”.
Era útil para os inúteis sociais, os apenados como ele. E isso era o bastante.

Fora notificado que, no transcorrer daquela semana, sairia para a liberdade, posto ter cumprido os 18 anos de reclusão. Seu débito com a sociedade fora pago duramente.

Passando pelo portão principal, rumo à nova vida, um sentimento estranho percorrera sua alma.

O transito intenso, os barulhos característicos de uma cidade viva, deixaram-no desorientado.

Ao dobrar uma esquina, fora surpreendido por um pivete que, com as mãos trêmulas, segurava um revólver 38, exigindo que passasse tudo.

Sua reação fora de equilíbrio e passividade. Retirara o relógio e dissera que não tinha dinheiro. Um único estampido soara. Sua morte fora fulminante, atingido no coração.

Francamente, não me diz respeito o destino de sua alma, o céu ou o inferno, como não me interessam os destinos de todos, inclusive o meu. Isso é para ser questionado e tratado em outra esfera.

O fundamental é que da última infâmia da imprensa não pudera tomar conhecimento pois, quando do seu crime, todos os jornais estamparam manchetes sensacionalistas nas suas primeiras páginas e agora, em um único e mísero jornal, de décima - quinta categoria, saíra um fragmento de notícia:
- “Ontem, no lugar x, às tantas horas, fulano de tal, ex-presidiário, foi morto por acerto de contas.”



Crédito: imagem nmarierose.blogspot

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Estupidez


Sua percepção da vida era peculiar.

Ressalvava que não tinha nenhum compromisso com as imposições de qualquer natureza e teor, quanto mais com as verdades dos outros, apenas, tinha com as suas que, aliás, não eram irrestritas.

Não suportava as argumentações que sustentavam que o ser humano não deveria guardar mágoas, raivas, ódios, dos seus (des)semelhantes.

Aquilo soava como heresia, independente, das bocas que as proferiam, sejam as entupidas de religiosidade, ou as eivadas de racionalidade instável dos incréus.

A essência primitiva do ser humano não pode ser tolhida com teses carcomidas pela hipocrisia, pela falsidade dos homens.

A natureza, apesar de cruel é sábia.

Quando o organismo está padecendo de qualquer distúrbio, as células de defesas, de preservação do corpo, atacam para reverter o avanço do “monstro” (ex. problemas na tireóide) e tentam matá-lo.

As células, à semelhança dos combatentes do “Incrível Exército de Brancaleone”, lutam à exaustão e quando morrem, as suas descendentes (células) retêm em “suas memórias” as informações repassadas pelos seus ascendentes mortos.

É inexplicável essa perpetuação de transmissão das informações por hereditariedade, em que a célula bisneta, mantém o mesmo combate que iniciou, em tempo pretérito, o avô de seu pai contra aquele monstrengo.

A questão é da essência, da substância ancestral da natureza, portanto, as reações naturais dos indivíduos que são combatidas e vistas como deformações morais (rancores, ódio, vingança, etc.) não passam de engodos promovidos pelos estelionatários da existência.

Esses bastardos da vida desqualificam a essência da mesma, em nome, de suas instabilidades emocionais, morais ou religiosas.

Não passam de monstros.



Crédito: imagem Marcus Castro




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Meritíssimo


Acabara de chegar a casa. O cansaço, acumulado ao longo da semana, era evidente em seu semblante. Contudo, um desconforto adicional perpassava à sua consciência.

Na semana anterior fizera 33 anos. Usufruía do vigor da maturidade, em sua plenitude, alto, bonito, porte atlético, solteiro, com uma promissora carreira e um salário que fazia jus às suas atribuições profissionais.

Caminhara em direção ao seu bar e, à medida que preparava sua bebida predileta, ia se despindo, jogando o terno, gravata, etc. sobre um sofá.

Colocara uma musica clássica e fechara as cortinas, ficando a sala numa penumbra, assemelhando-se à zona de transição entre a luz e a sombra, que se fazia presente em sua alma conturbada.

Os pensamentos recorrentes derivavam da lembrança da leitura dos autos, onde as partes, o Ministério Público e o advogado de defesa, apresentavam suas convicções.

Sorvia pequenos goles da bebida e, mecanicamente, limpava a mesa de centro, passando álcool e depois colocando, de forma precisa e ordenada, seu objeto de desejo, aliás, relutando em fazê-lo.

Em função das características desejadas em sua profissão, a boa memória era um dos requisitos básicos, além, da capacidade de análise, sensibilidade, equilíbrio emocional, autocontrole, etc.

A denúncia pedia, de forma cabal, a condenação do réu, em face da prática do crime de tráfico de entorpecente, e ressaltava a robustez das provas colhidas e assinaladas nos autos, que afirmava serem por demais convincentes. E, concluía, que não havia como absolvê-lo da prática do delito em apreço.

No contraditório a defesa sustentava, nos autos, que as provas eram baseadas, exclusivamente, no depoimento de policiais militares, a quem considerava testemunhas inadequadas, inidôneas e totalmente sem isenções, parciais para legitimarem a determinação condenatória. Alegava que, durante a instrução criminal, foram geradas apenas presunções, suposições que deixaram resquícios, vestígios de dúvidas. Logo, não deviam ser levadas a termo, haja vista a aplicação do princípio do “in dúbio pro reo”.

Conviver com a contradição era um dos atributos de sua atividade, onde a capacidade de pensar e agir sob pressão, em função das demandas, era parte do seu cotidiano.
Sua consciência cobrava, com autoridade, as outras características de sua profissão, quais sejam, a isenção, o bom senso, o senso de responsabilidade, o senso de ética.

Seu estado precário era decorrente da sentença que prolatara. Douta para o Ministério Público, para a defesa sua decisão fora inepta, não fora suficientemente reflexiva, ponderada e justa, ao decidir pela condenação.

A angústia o mortificava. Afinal, a vida comete injustiças sórdidas, sob os auspícios de um Estado omisso, negligente, principalmente com o conjunto dos mais necessitados.
A sua decisão aumentava a estatística da justiça feita (número de decisões prolatadas) , porém de forma inteiramente injusta e hipócrita.

Em sua vida, tivera a opção de escolher diversas carreiras, em contrapartida à maioria da população, não facultada a uma única e mísera profissão.

Diante da ignomínia de sua decisão, da falsidade por ser um elo que alimentava aquela corrente, pensou na sua carreira, no exercício da magistratura e na liberdade de escolha. Naquele momento, optou pela outra carreira, a de cocaína, que estava ordenadamente disposta sobre sua mesa.

Aspirou o pó com tamanha avidez que entorpeceu sua mente, em frações de segundos. Mas o torpor não atingiu sua consciência que, com a mesma frieza do malho soado nos tribunais, emitiu sua sentença definitiva, sem direito a recursos:

“- Condeno-o pela sordidez de seu ato, por não avocar o seu impedimento quanto ao julgamento em tela, para que o instituto sagrado da imparcialidade prevalecesse.
Agravo a pena por tratar-se de um magistrado que, sob a proteção da toga, decreta o fim do senso de justiça e do dever. Que os seus dias sejam sempre tormentosos, e que o desequilíbrio psíquico seja eterno. Sem direito a sursis e aos benefícios da progressão da pena.”

Sempre brilhante na carreira, hoje se encontra numa clínica de recuperação de viciados, no processo de desintoxicação.

Crédito: imagem Marcus Castro




sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Brasil uma esbórnia


Isso não é um país, é uma esbórnia!

O Brasil – oficialmente República Federativa do Brasil – é um rebotalho de homens públicos, acumpliciados com instituições públicas e privadas, com o objetivo de subjugar os habitantes desse prostíbulo de 8.514.876,599 km².

O artifício utilizado pelos cáftens, em mascarar as luminárias de néon com nomes que desassociam as atividades pérfidas praticadas em seus antros de promiscuidades, o Brasil também o faz, utilizando-se da marca fantasia “República” ( organização política de um Estado, com vistas a servir à coisa pública, ao interesse comum).

É digna de nota a segmentação da exploração dos corpos dos brasileiros, feita num conluio perfeito entre os mandatários do pseudo-país e os detentores do capital, apesar das indignidades de seus procedimentos.

O festim licencioso promovido pelos poderosos não significa, necessariamente, a venda dos corpos para os atos libidinosos. Ao contrário, constiui crime mais sujo, mais hediondo, mais cruel, pois:

- defloram, desfloram as árvores da esperança de uma vida justa e digna, mediante a desídia, a negligência do Estado;

- curram, estupram os sonhos de um futuro melhor, através da inexistência da educação plena, impedindo a acessão social, um direito que deveria ser inalienável, intransferível, a qualquer indivíduo, independente da idade e da etnia;

- sodomizam, através da conjunção (coação) da carga tributária, rigidamente imposta nos costados de todos, deixando-os deploravelmente combalidos para atender às necessidades básicas, suas e dos seus;

- obrigam todos à prática da felação , oferecendo um sistema de saúde completamente desqualificado, doentio, onde as legiões dos miseráveis buscam curas para seus males, enfrentando filas, convivendo com a ausência sistêmica de profissionais de saúde , a falta de equipamentos, a inexistência de remédios, etc. Tornam-se reféns de atendentes desumanos e são obrigados a agradecer por essas ignomínias, mediante a gratidão subserviente, por ignorarem os seus direitos e perceberem, por suas retinas condescendentes, somente e tão somente uma benevolência do poder público.

Esses rufiões, escondidos e protegidos pelas mesas dos poderes por eles exercidos, nos planos executivo, legislativo e judiciário, somados à classe empresarial, formam um todo asqueroso e deplorável, que gerencia e se locupleta nessa casa de tolerância chamada Brasil.

Bebem líquidos importados, graças à sede imposta aos destituídos da sorte. Lambuzam-se em banquetes nababescos, em que entram, apenas, com seus apetites nauseabundos, pois a conta é debitada ao povo ignorante e esbulhado.

Enchem suas burras com moedas vis, subtraídas, roubadas do povo e, como não fosse suficiente, desgraçadamente negam a esses corpos prostituídos o mínimo de dignidade, além de impingirem, de forma torpe e infame, a eternização da ignorância, para perpetuarem o enriquecimento ilícito, compulsivamente.

Emporcalham seus espíritos, com o gozo asqueroso do acúmulo patrimonial. Desprezam a frigidez de suas consciências e preocupam-se com o aumento de sua libido, para continuar a praticar o incesto contra seus irmãos brasileiros.

Tudo acaba! Essa bacanal esgotar-se-á, e essas massas disformes de seres passivos transformar-se-ão em ativas.

Crédito: Imagem de Marcus Castro

sábado, 3 de outubro de 2009

O tempo, essa crueldade da natureza!


A velhice começa a desenhar, sem nenhum escrúpulo, marcas no meu corpo, em cega obediência ao tempo. Independentemente de o lapso temporal ter sido vivido com justeza, ou não.

O tempo é inexorável, é rígido em seu curso, alimentando-se da flacidez e da debilidade dos corpos que insistem na dilação da vida.

Com passos trôpegos e incertos, tento dobrar as esquinas da vida que, aliás, nunca foram amistosas, nem na época da vigência de minha juventude.

As vistas, fatigadas de verem indignidades e injustiças ao longo da vida sofrem, agora, o escárnio do tempo, sob a forma da perda de transparência do cristalino (catarata), como estivessem advertindo-me de que, no passado, não deveria ter utilizado de minha visão como testemunha da iniqüidade da vida e, por punição, oferece-me a cegueira progressiva.

Os órgãos tornam-se débeis, quando não cometem uma deslealdade sem precedentes, como minha vesícula, cuja convivência, por cinco décadas, atraiçoou-me com um acúmulo de pedras, como se não fossem suficientes as que deparei no percurso da vida.

Saiu de minha vida abruptamente, mediante uma videolaparoscopia.

O tempo é sádico, diverte-se com o aumento de minha pressão arterial e com a diminuição sanguínea nos corpos cavernosos.

O avanço do tempo cria, por meio de mutações, conforme o antagonismo da frase acima, a transformação do aparelho reprodutor em outro apêndice, inútil como o original.

O único conforto que acompanha o meu cansaço da vida é de que tudo será uma questão de tempo. Quando não existir mais nenhum vivente, o tempo terá tempo para ver quanto velhaco foi, e não terá mais tempo para se redimir.