Anoitecia. Sem abrigo procurou um canto, pois o início da noite começava a surgir.
Encostou-se num muro que à sua semelhança demonstrava o passar do tempo com toda a sua crueldade.
Despertou de um breve cochilo com uma cantoria que vinha de um grupo que dançava ao sabor dos ritmos dos sons emitidos pelos cantos.
Irritadiço pela interrupção de seu breve afastamento da realidade, pelo despertar abrupto, levantou-se e foi para o local onde aquelas pessoas que trajavam roupas estranhas e dançavam haviam se dispersado há pouco tempo.
Os seus olhos ficaram esbugalhados ao mesmo tempo em que uma salivação de outro mundo inundou a sua boca que por pouco não o levou a uma asfixia.
No chão estavam diversas comidas sobre pratos enormes de barros (alguidares) e cachaças (marrafos) de todo tipo e qualidade, além de uma infinidade de cigarrilhas e charutos para os gostos mais variados.
As velas acesas tremulantes davam um ar de imponência para aquele lauto jantar, no seu sentir.
Como não-iniciado desconhecia que estava diante de um boró, pagamento que se faz em troca de um trabalho espiritual ou de oferendas a entidades, empreendida por um canjerê (reunião de pessoas para a prática de cerimônias religiosas africanas).
Não vacilou. Avançou sobre uma galinha e a cada naco mordido, um gole substancioso de cachaça acompanhava aquela fome ancestral.
Fartou-se. Acendeu uma cigarrilha e não saciado apelou para um charuto calibre 45.
Lembra que escutou o badalar dos sinos da igreja vizinha que proclamava meia-noite, a hora grande.
No último badalo é que o bicho pegou.
Começou com um arrepio que percorreu todo o seu corpo e em seguida de um tremor lento no início e totalmente descontrolado no final.
O seu anjo da guarda que já tinha diversas anotações desabonadoras no seu registro no cartório do Céu, vendo que não tinha condições objetivas para opor-se aquela legião de desafetos não titubeou, bateu asas e partiu para um local incerto (dizem que conseguiu um indulto, mediante um habeas corpus impetrado pelo único advogado existente no céu).
Começou a sentir safanões, rasteiras, rabo-de-arraia, meia-lua e outros golpes traumatizantes de capoeira que vinham do nada. Mesmo zonzo começou a escutar uma língua estranha jamais ouvida.
Para seu conforto o que se passou depois a sua consciência não registrou absolutamente nada.
Tomou um verdadeiro sacode iaiá.
A quizumba formada por aquelas entidades que queriam descer ao mesmo tempo, através de seu corpo (para os iniciados: cavalo) decorria exclusivamente do local, afinal ele, minutos antes, estava encostado no murro de uma calunga pequena (cemitério).
Naquele momento o seu udu (destino) estava complicado e piorava porque alguns espíritos no primeiro estágio de evolução confundiam sua careca de longa data, como tivesse catulado, isto é, cortado o cabelo, como médium fosse, como preparação para sua iniciação. E essa confusão fez o cavalo (corpo do pobre coitado) apanhar muito, pois, a quizila (antipatia, inimizade) desses espíritos bem inferiores entendia que ele havia descumprido a ordem de não ingerir os alimentos e acender os pitos (cigarrilha e charuto). O pau comeu.
Aquele perna de calça (homem) acordou dentro de uma ambulância às 10 horas da manhã, mais esfarrapado do que de costume e gemendo. O corpo em frangalhos.
Adentrou a casa grande (hospital) e ficou horas aguardando o atendimento, não por interferência daquelas entidades, mas de outra, a entidade estatal que prima pela desídia.
Depois de horas, seu corpo foi fechado pelo trançar de várias linhas cirúrgicas.
E depois dizem que a ignorância protege. Ele precisava conhecer pelo menos a palavra agô que significa pedir licença, permissão ou perdão.
Sendo ateu, mas não burro, procuro saber o mínimo sobre todos os credos, afinal posso estar enganado e acabar caindo numa esparrela dessa ou em outra.


