quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ignorância

Não estava nos melhores dos seus piores dias.

Anoitecia. Sem abrigo procurou um canto, pois o início da noite começava a surgir.

Encostou-se num muro que à sua semelhança demonstrava o passar do tempo com toda a sua crueldade.

Despertou de um breve cochilo com uma cantoria que vinha de um grupo que dançava ao sabor dos ritmos dos sons emitidos pelos cantos.

Irritadiço pela interrupção de seu breve afastamento da realidade, pelo despertar abrupto, levantou-se e foi para o local onde aquelas pessoas que trajavam roupas estranhas e dançavam haviam se dispersado há pouco tempo.

Os seus olhos ficaram esbugalhados ao mesmo tempo em que uma salivação de outro mundo inundou a sua boca que por pouco não o levou a uma asfixia.

No chão estavam diversas comidas sobre pratos enormes de barros (alguidares) e cachaças (marrafos) de todo tipo e qualidade, além de uma infinidade de cigarrilhas e charutos para os gostos mais variados.

As velas acesas tremulantes davam um ar de imponência para aquele lauto jantar, no seu sentir.

Como não-iniciado desconhecia que estava diante de um boró, pagamento que se faz em troca de um trabalho espiritual ou de oferendas a entidades, empreendida por um canjerê (reunião de pessoas para a prática de cerimônias religiosas africanas).

Não vacilou. Avançou sobre uma galinha e a cada naco mordido, um gole substancioso de cachaça acompanhava aquela fome ancestral.

Fartou-se. Acendeu uma cigarrilha e não saciado apelou para um charuto calibre 45.

Lembra que escutou o badalar dos sinos da igreja vizinha que proclamava meia-noite, a hora grande.

No último badalo é que o bicho pegou.

Começou com um arrepio que percorreu todo o seu corpo e em seguida de um tremor lento no início e totalmente descontrolado no final.

O seu anjo da guarda que já tinha diversas anotações desabonadoras no seu registro no cartório do Céu, vendo que não tinha condições objetivas para opor-se aquela legião de desafetos não titubeou, bateu asas e partiu para um local incerto (dizem que conseguiu um indulto, mediante um habeas corpus impetrado pelo único advogado existente no céu).

Começou a sentir safanões, rasteiras, rabo-de-arraia, meia-lua e outros golpes traumatizantes de capoeira que vinham do nada. Mesmo zonzo começou a escutar uma língua estranha jamais ouvida.

Para seu conforto o que se passou depois a sua consciência não registrou absolutamente nada.

Tomou um verdadeiro sacode iaiá.

A quizumba formada por aquelas entidades que queriam descer ao mesmo tempo, através de seu corpo (para os iniciados: cavalo) decorria exclusivamente do local, afinal ele, minutos antes, estava encostado no murro de uma calunga pequena (cemitério).

Naquele momento o seu udu (destino) estava complicado e piorava porque alguns espíritos no primeiro estágio de evolução confundiam sua careca de longa data, como tivesse catulado, isto é, cortado o cabelo, como médium fosse, como preparação para sua iniciação. E essa confusão fez o cavalo (corpo do pobre coitado) apanhar muito, pois, a quizila (antipatia, inimizade) desses espíritos bem inferiores entendia que ele havia descumprido a ordem de não ingerir os alimentos e acender os pitos (cigarrilha e charuto). O pau comeu.

Aquele perna de calça (homem) acordou dentro de uma ambulância às 10 horas da manhã, mais esfarrapado do que de costume e gemendo. O corpo em frangalhos.

Adentrou a casa grande (hospital) e ficou horas aguardando o atendimento, não por interferência daquelas entidades, mas de outra, a entidade estatal que prima pela desídia.

Depois de horas, seu corpo foi fechado pelo trançar de várias linhas cirúrgicas.

E depois dizem que a ignorância protege. Ele precisava conhecer pelo menos a palavra agô que significa pedir licença, permissão ou perdão.

Sendo ateu, mas não burro, procuro saber o mínimo sobre todos os credos, afinal posso estar enganado e acabar caindo numa esparrela dessa ou em outra.





sábado, 23 de junho de 2012

Um Casamento


Casaram sob o protesto de ambas as famílias e como não fosse o bastante teriam a rejeição, também, dos títulos protestados, na figura dos seus credores caso soubessem desse matrimonio, pois, se no campo individual as diversas investidas para receber foram em vão, o que esperar então da união daqueles dois devedores contumazes.

Foram viver na periferia de um subúrbio da cidade.

Ele acordava às 04:30 h e caminhava mais de 20 minutos sobre uma estradinha de terra esburacada, no escuro, pela inexistência de iluminação pública, para chegar à estação de trem onde invariavelmente, mediante diversos artifícios, burlava o sistema e não pagava a passagem.

O emprego de escriturário no centro da cidade era de uma remuneração indigna e após o seu almoço costumeiro (pão com banana), dirigia-se à banca de jornais da esquina e filava o caderno de classificados à procura de empregos.

Naqueles anos 70, do século passado, empregos existiam.

Em menos de quatro anos trocara de emprego seis vezes, sempre na busca de melhorias salariais, mas sempre convivendo com ligações diárias da esposa para fiscalizá-lo nesse período. Pedira demissão de cinco empregos e fora demitido de outro por conta da esposa.

A razão da demissão foi em função da presença da esposa no seu trabalho, onde provocou uma baixaria indescritível com a recepcionista, uma moça tímida, recatada que se dirigia a todos no escritório sempre com o pronome de tratamento senhor, de forma a manter o desejado distanciamento das pessoas para evitar possíveis intimidades.

Aquela esposa de comportamento reprovável nas suas atitudes e desclassificada no seu linguajar desqualificou a recepcionista, esgotando todo seu estoque de palavras de baixo calão (o que veio provocar uma depressão profunda numa entidade denominada por Pomba Gira especialista no uso de palavras obscenas), acusando-a de ser amante de seu marido.

Com aquela confusão, todos do escritório, inclusive o chefe, vieram ao socorro da recepcionista e expulsaram à força aquela esposa descontrolada e desclassificada.

Tentaram acalmar a colega de trabalho de todas as formas. Ela chorava de forma incontida e o seu pensamento recorrente era: “acontecer isso, logo comigo que gosto tanto daquilo que os homens gostam: de mulheres...”.

Numa dessas sortes do destino, certo dia ao caminhar pelo Passeio Público deu de encontro com um antigo colega de escola. Da emoção do encontro e dos assuntos triviais, o colega declinou que ocupava um alto cargo numa empresa de grande porte.

Resultado: com o pistolão do colega foi contratado para um cargo que quintuplicava o seu último salário.

A vida melhorou. Mudaram-se para um local decente no subúrbio e tiveram condições de mobiliar a casa e cometer alguns excessos.

As relações interpessoais que estavam abaladas melhoraram e deram vazão aos seus primeiros desejos, a de terem quatro filhas e tiveram quatro filhos.

Com intuito de fazer carreira na empresa fez vestibular para uma faculdade de décima-quinta categoria e passou.

Com essa atitude a sua situação em casa transformou-se num lugar destinado ao castigo eterno, um verdadeiro inferno. A esposa reclamava de tudo: do horário que chegava; da inexistência de tempo para a família; mas o pior mesmo foi o aumento exponencial do ciúme da esposa com suas consequências.

O resultado daquela dupla jornada (trabalho e faculdade) foi um acúmulo de cansaço e com o espírito combalido e a carne fraca, arrumou uma amante.

A sua existência a partir daquele convívio paralelo foram os melhores de sua vida.

A esposa percebendo o espaçamento entre as conjunções carnais e a mudança no comportamento do marido não teve dúvidas: esse filho de uma puta tem uma amante.

Depois de dois meses de incertas na faculdade obteve a certeza absoluta de que fazia parte de um triangulo (isósceles) amoroso.

Pela primeira vez na vida controlou-se e regressou ao lar já com uma idéia fixa.

O marido chegou tarde como de costume; tomou banho e jantou assistindo um telejornal.

Depois foi para o quarto e deitou-se. Ela chegou logo depois.

Quando ele, por força do hábito desejou boa-noite, ela enfiou a mão debaixo do travesseiro e sacou um trinta e oito e colocou o cano na cabeça dele.

E começou a sessão de xingamentos, agressões, intercaladas sempre com a afirmação de que ele tinha uma amante. Tem ou não tem seu filho da puta? Eu vou te matar agora seu puto.

O pavor tomou conta de seu corpo ao sentir o revolver engatilhado nas suas têmporas. Tremia, suava frio, negava com uma gagueira extrema, sabendo da capacidade da esposa em atirar.

Ela insistia na pergunta e nos xingamentos. O desespero, o medo dele chegou ao ponto de ter uma completa distensão dos músculos do seu esfíncter anal, conjugado com uma indesejada incontinência urinária, em outras palavras, se cagou e se mijou todo.

Sentindo a presença da morte iminente, sem mais nenhum poder de convencimento e verificando o aumento na escala de loucura da esposa e aquela arma pronta a disparar, tentou a última argumentação.

Aqui abro um parêntese (provavelmente, as palavras que ia proferir foram sopradas em seu ouvido pela chegada inesperada do seu anjo de guarda que era uma figura sem a mínima responsabilidade pelo fato de não cumprir a sua missão de acompanhar aquele homem durante toda a vida) – fecho, portanto, o aludido sinal gráfico.

E agarrado nos fios tênues da esperança, proferiu gaguejando a seguinte frase: “Por favor, não atire porque o barulho vai acordar as crianças”.

Naquela noite as crianças tiveram o sono dos justos.





domingo, 10 de junho de 2012

Que situação

Não raramente eram objetos de comentários e esses não eram depreciativos, ao contrário, ressaltavam a relação afetuosa de ambos, mesmo após anos de casamento. Em síntese, eram uma referência.
Trabalhavam na mesma empresa, em atividades diversas e em departamentos distintos.
A localização física da empresa era privilegiada, em frente ao mar. A distância era quase irrelevante. Entre a empresa e as ondas da praia havia uns 60 metros a separá-los (uma nesga de areia de uns 20 metros, acrescido de um calçadão e de duas pistas de rolamentos (mão e contramão).
Apesar do estacionamento ser ao lado do seu local de trabalho, caminhava em direção ao prédio da esposa. Às vezes esperava, outras vezes não, e vinham abraçados para pegar o carro e irem almoçar juntos ou retornarem ao lar.
Ele era avaro com as palavras, ela ao contrário, prolixa. Ele sempre com um ar circunspecto, ela irradiando sorrisos. Nas diferenças se completavam.
A saída para o almoço era um congestionamento estúpido de carros.
Ao transpor o último quebra-mola sua atenção foi dirigida para a praia e a visão desfrutada fez seu cérebro entrar em curto-circuito.
O nível de testosterona subiu a um patamar insuportável e os efeitos secundários foram desastrosos, afinal o cérebro ainda não reiniciara as suas funções típicas. Resultado: um dos seus membros inferiores, precisamente, a perna direita que se encontrava flexionada, enrijeceu e o contato abrupto com o pedal do freio foi por muito pouco, um desastre, pois, o carro que vinha atrás quase entrou na traseira do dele.
Com a freada brusca, a esposa deu um berro pelo susto e dirigiu o rosto na direção do marido para questioná-lo e o que viu a deixou estática no primeiro momento.
O marido estava com a cabeça voltada em direção à praia, completamente embasbacado. Contemplava uma visão celestial, para ele, lógico: duas mulheres com seus corpos esculturais esbanjando sensualidade desfilavam nas areias com os seus seios completamente rígidos à mostra (topless).
A esposa, refeita, começou a esmurrar o marido e descarregar uma enxurrada de palavras de baixo calão.
Ele pedia calma, calma e completou com uma frase infeliz para o momento: ”meu bem, afinal o belo é para ser admirado”.
O barulho das buzinas dos carros parados atrás naquele momento eram ensurdecedoras, acrescidos de impropérios que variavam em gênero e grau.
Contrariado, ainda com o olhar voltado para aquelas sereias divinas, passou a primeira marcha e seguiu.
Ouviu mais um protesto choroso da esposa: ”já imaginou se um dos nossos conhecidos viu essa cena? Meu Deus! Que vergonha! Que humilhação!.”
Chegando ao restaurante, de forma preventiva, escolheu um lugar bem afastado e perguntou a esposa o que pretendia comer, antecipando a chegada do garçom.
Nada – respondeu ela. Perdi totalmente a fome.
Quando o garçom chegou e apresentou o cardápio, ele nem abriu e pediu: maminha.
Hein? - indagou o garçom (tinha uma grave deficiência auditiva).
Ele, com um sorriso maroto alterou o volume da voz e disse: MA-MI-NHA.
O garçom pediu suas escusas, responsabilizando o fornecedor e disse que não tinha maminha.
Imediatamente, com o mesmo timbre de voz anterior pediu: CHU-LE-TA.
O garçom assentiu e foi retirar o pedido.
Comeu ouvindo as reclamações da esposa, o choro contido que mesmo assim teimava em molhar seu rosto e encharcar a sua alma.
O retorno ao trabalho ocorreu num silêncio sepulcral.
Ela estava apavorada, com medo de chegar a sua sala e ouvir dos colegas comentários sobre o ocorrido.
Com passos lentos e claudicantes, arrastando a auto-estima ao rés do chão adentrou o recinto, trêmula, deu boa-tarde a todos e foi para sua mesa.
Passados alguns minutos, ouvindo apenas conversas usuais, tranqüilizou-se.
Lembrou de um serviço pendente a ser resolvido no edifício vizinho, pegou a papelada e saiu.
Saltou no 24 andar e dirigiu-se cabisbaixa pensando (”ah! vou ligar para mamãe e dizer que o santinho do genro dela não passa de um santo do pau oco”) e ao término do pensamento deu de encontro com um senhor de cabelos brancos. Pediu desculpas pelo esbarrão.
Por coincidência o choque corporal foi em frente à entrada do setor que viera resolver o problema.
Ele, um cavalheiro, abriu a porta e fez aquele gesto característico para que ela entrasse e depois a seguiu.
Quando ela ia perguntar ao primeiro funcionário sobre quem era o responsável para resolução do problema que trazia, aquele senhor, um gentleman, em alto e bom som convoca todos os colegas a pararem suas atividades para escutarem o que tinha a dizer e começou:
“Prezados, puta que pariu. Na saída do almoço quase que destruo o meu carro na traseira de outro, pois, o tarado do motorista da frente resolveu frear bruscamente seu carro para assistir a exibição de dois travestis na praia. E o pior é que o miserável estava acompanhado de uma mulher, com certeza devia ser a babaca da esposa.”
Ela, ao ouvir aquelas palavras começou com uma tremedeira incontrolável seguida de uma fraqueza anômala e seu último pensamento foi: poxa, se ainda fossem duas mulheres, mas dois travecos... e puf...desmaiou.