sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Fadigado – síndrome de Leyfar


Era uma figura que transcendia os limites possíveis da compreensão humana, vista sob a qualidade do olhar comum, o da superficialidade, que permeia e desqualifica a nossa sociedade.
Os equívocos, atribuídos àquele indivíduo pelos demais, eram equivalentes à sua ambigüidade em relação à vida, aos seus amigos e possíveis desafetos.
Sofria de uma fadiga crônica, ancestral.
Era resultado de uma genética desqualificada, que o compelia a abominar aquela passagem bíblica imperativa de que o homem há de comer o pão com o suor do próprio rosto.
Não! – exclamava ele, e perorava:
- Essa maldição bíblica é a maior das ofensas com que o ser humano pode conviver!
Afinal, quem compartilhava de sua presença sabia que o conteúdo daquela frase era totalmente contrário à sua doutrina de vida, ao seu conjunto de princípios, às suas normas de conduta.
Atribuía o aperfeiçoamento do trabalho, com suas características escravagistas (para o empregado), tido como a maior e mais refinada forma de tortura, ao antigo Tribunal Eclesiástico, e olhe que a Santa Inquisição era pródiga na arte do suplício e dos tormentos atrozes.
Sentia-se duplamente amaldiçoado. Primeiro, pelo ditame daquele livro, sagrado para muitos e, segundo, por ser um ateu convicto.
Quando abordava esse tema da dupla condenação seus lábios, pálidos de ódio, faziam companhia irrestrita aos seus olhos, que se moviam de forma pendular. Quando os globos oculares iam num sentido, ao mencionar a palavra “Bíblia”, dizia: - “isso dá fadiga”; e quando iam à direção oposta, para sustentar seu ateísmo, replicava: - “Ah! tô com fadiga”.
Não suportando a pressão do trabalho e suas demais mazelas, entrou num processo depressivo avassalador.
A sua postura silente, no local de trabalho, preocupava aos demais colegas de infortúnio, acostumados com suas expressões: - “Tomara que chova", logo ao final do expediente de sexta-feira,
ou: - "Desejo todo ódio do mundo para vocês" , quando percebia qualquer gesto de solidariedade.
E assim seguia sua labuta, entre grosserias e blasfêmias.
Fadigado da vida, do trabalho, dos semelhantes, do psiquiatra, dos fármacos de tarjas negras, resolveu procurar um retiro espiritual, exercendo um dos seus predicados, a capacidade de discordar e de contrariar a si próprio.
Após uma semana de reflexão, deparou-se com um maltrapilho enfermiço, com os olhos embaciados e voz débil, que sentenciou:
“Sou, ou melhor, era seu anjo da guarda. A sua fadiga crônica era resultado do esforço empreendido pelas forças que o impeliam para uma evolução capitalista contra as que queriam mantê-lo num estágio inferior, a de empregado. Não tenho autorização superior para acompanhá-lo nessa sua nova caminhada.
Siga, mas leve os meus mais odientos protestos, pois, compartilhar o seu corpo e suas idiossincrasias foi um carma muito pesado para mim. Adeus, e leve consigo o meu eterno desprezo.”
Um sorriso largo tomou aquele rosto, agora, cheio de vida e de esperança, e ouviu-se dele, a seguinte dicção:
“Sabia que no fundo era um rapaz disposto e empreendedor. A minha propensão a letargia não era física, como ficou comprovado pela confissão daquele anjo-da-guarda incompetente. Que fadiga...”.
Sem cerimônia, deitou-se esfalfado, fatigado, e dormiu o sono dos justos.
Enquanto isso, o novo anjo da guarda com ar indolente, lento no movimento de suas asas, espreguiçava-se, aguardando o despertar daquele ser, para assim, poder coabitá-lo.
No dia seguinte, dirigiu-se ao departamento de pessoal e pediu as contas, em caráter irrevogável e irretratável.
Sem condições objetivas para vencer a maldição bíblica, afinal podia ser tudo, menos burro, resolveu transformar-se em empresário.
Hoje, explora todos seus empregados, sem os menores escrúpulos e, quando questionado, toda a sua argumentação sobre o sistema capitalista esta fundamentada naquela, outrora indigna, frase bíblica.
A constatação dos lucros abusivos, conseguidos pelos suores alheios, é acompanhada de uma única expressão:
- “Isso dá uma fadiga ...”


Crédito: por desconhecer o autor da foto não atribuo o devido crédito.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nós e Você. Já seremos dois Crápulas.


A capacidade de discernimento acabou transformando aquele indivíduo até então, tolerante, em um ser de gênio irascível de primeira grandeza, face às iniqüidades perpetradas contra a humanidade em geral e especificamente contra os seus nacionais, os brasileiros.

A qualidade de seu olhar era diferenciada para as coisas do mundo, não que achasse que a sua era melhor, longe disso, mas admitia que era uma percepção peculiar, própria, embasada num senso crítico mais severo.

Num momento reflexivo sobre as relações humanas, chegou a seguinte e torpe conclusão: o mundo é composto de crápulas, cínicos e de crentes.

Os crentes são os miseráveis, os deserdados da sorte, essa legião de desempregados, de famélicos, de incultos, enfim, os que são manipulados integralmente pelos que exercem os poderes estatais constituídos, pelos mentores das forças cruéis dos mercados, que se locupletam, com a espoliação dessa massa ignara.

Os cínicos são aqueles que conhecem o sistema perverso e suas conseqüências, contudo, calam-se. Abandonam o exercício da reivindicação, e pior, a capacidade de indignação, pois, encontram-se numa zona de conforto em relação aos crentes.

O sistema os acolhe, permitindo uma sobrevivência com certa dignidade, com alguma cidadania, usufruem dos humores do mercado, na medida em que os donos dos mesmos permitem. Possuem algum patrimônio, um nível de escolaridade superior, uma remuneração digna.

Os crápulas são os mandatários e detentores dos mercados financeiros, econômicos, logicamente, com a mídia repercutindo seus feitos e omitidos seus defeitos, e dos poderes (executivo, legislativo e judiciário) nas esferas federal, estadual e municipal, que implementam as ações mais sórdidas, outrora na calada da noite, hoje, diante da certeza monolítica da impunidade, o fazem sob a claridade solar, contra os crentes e os cínicos.

Quando não se omitem (esses oportunista, demagogos), postergam aos seus (des)semelhantes quaisquer direitos, mesmo aqueles que não proporcionariam, nenhuma ameaça aos seus vis interesses.

Baseiam-se na teoria de que, qualquer estímulo aos crentes, podem levá-los a revolta dos justos e aos cínicos, o desejo de mudança de status.

Desvio da regra geral, indubitavelmente, existe.

Tomando conhecimento da tese acima, declaro que fui crente, hoje não passo de um cínico frustrado, pois desejava mesmo, é ser um crápula.

Não me critique por expor o meu defeito moral, afinal, o faço de forma indissimulável.

E você?


Imagem: sem o devido crédito por desconhecer o autor.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Das profundidades do pré-sal à grandeza da indignidade da Petrobrás

A vida sofre de uma patologia crônica, a do sadismo, e a exerce com requintes exacerbados de uma crueldade ímpar. Isso para os seres normais, pois os contemplados pelo PAD (Programa de Assistência Domiciliar), que está ao abrigo da AMS (Assistência Multidisciplinar de Saúde) da Petrobrás, as ações sórdidas acima tornam-se desprezíveis, diante das ignomínias, das infâmias do aludido programa.

Darei apenas um exemplo definitivo. Um único mísero exemplo, nesse turbilhão de descaso, de desumanidade, de desprezo aos empregados, acometidos de enfermidades gravíssimas, que fizeram parte dessa empresa (não merece o “e” maiúsculo), que contribuíram com seus conhecimentos, durante a vida produtiva e concorreram, por igual período, e ainda contribuem, com recursos para a mencionada AMS.

Eddy de Faria, aposentada, com 79 anos, matrícula da AMS: 01.08011395.00, portadora de leucemia mielóide aguda (LMA), internada há mais de dois meses, antes da alta hospitalar, ocorrida em 27/11/2009, recebe a visita dos prepostos dessa empresa, para uma avaliação de seu quadro clínico e julgamento da possível elegibilidade da doente para o referido PAD (coloco em maiúsculas apenas por ser sigla, e não pelo reconhecimento de um programa justo).

A título de esclarecimento aos possíveis leitores dessa nota de desagravo, e para uma melhor avaliação da desídia da AMS, a aposentada enferma é solteira e mora com seu irmão de 82 anos, tendo como parente mais próximo, aquele que efetivamente pode prestar auxílio, seu sobrinho que subscreve esse relato, morador em Macaé-RJ.

Resultado: o laudo da médica (perita) declina que a enferma, nas condições analisadas, com quadro estabilizado, tem direito apenas, pelas normas que regem o programa, a um(a) cuidador(a) para auxiliá-la no banho, nas idas para as necessidades fisiológicas e amparo para o ato de ingerir alimentos.

(Aqui cabe um mero adendo: aqueles que desconhecem a doença e seus efeitos cruéis, procurem no Dr. Google e, depois, reflitam sobre as atitudes da empresa, materializadas pelos seus profissionais avaliadores).

Esquecendo a burocracia envolvida, a grandiosa Petrobrás vai despender, para o pagamento do(a) cuidador(a), a vultosa quantia de R$ 465,00 por mês, sendo que a paciente paga antes, e é ressarcida no contracheque do mês subseqüente.

Cabe uma ressalva: a AMS, com seus poderes normativos, revogou a duração de um dia (intervalo de 24 horas, considerado como unidade de medida de tempo), passando o dia a ter, apenas, 8 horas. Afinal, os seus ditames são ineludíveis (inescapáveis), haja vista a oferta.

A não ser que eu esteja estupidamente equivocado, e que a lógica empregada pelo PAD seja de que o período de trabalho do(a) cuidador(a) compreende as 24 h do dia, durante todo o mês, de forma ininterrupta. Assim sendo, a querela torna-se uma questão trabalhalista hedionda (trabalho escravo), recrudescendo a questão, em função da impossibilidade biológica do(a) cuidador(a) e do agravamento da situação de saúde da enferma, pelo caráter impossível dos cuidados que o caso requer.

Ou, por absurdo, a perversidade e a insensibilidade sejam tamanhas que pressuponham que o seu irmão de 82 anos, já alquebrado pelo passar dos anos, fragilizado e em processo acelerado de esclerose, terá condições de cuidar da irmã, enferma, nas 16 horas restantes do dia.

A dadivosa empresa também oferece, segundo as profissionais avaliadoras que foram visitar o apartamento da enferma, um médico, cuja especialidade é clínica geral, para uma visita mensal, onde a paciente tem que arcar com parte do valor cobrado pelo médico, conforme sua margem participativa, no caso 35% do valor (caso do pequeno risco).

Isso é um engodo, uma impostura, pois, independente do PAD, quaisquer empregados, pensionistas, dependentes ou aposentados podem consultar-se com um profissional credenciado, pagando uma parcela da consulta, conforme os pressupostos do pequeno risco.

No livreto de propaganda do mencionado programa consta: “... fornecendo, ao mesmo tempo, o suporte técnico e logístico necessário para o seu restabelecimento”.

Como diz um velho brocardo: “o papel aceita tudo”. E como, repulsivamente, aceita!

O único momento de honestidade intelectual que ouvi, quando da visita na moradia da paciente, de uma das duas representantes dessa empresa - que é o orgulho dos acionistas -, após minhas considerações sobre o absurdo que escutava e das contra-argumentações embasados nos preceitos do PAD, foi a seguinte frase, cabal e definitiva, prenúncio do desmantelamento da AMS:

- “O senhor tem que compreender que a AMS, assim como qualquer plano de saúde, age dessa forma”.

A precarização dos serviços prestados pela AMS encontra-se em curso há algum tempo e, agora, o processo de nivelamento por baixo de assistência à saúde tomou uma dimensão e um rumo que desqualifica a conduta da empresa.

Solicitei o laudo da médica, para avaliar as suas considerações que sustentavam aquela decisão (de apenas um cuidador (a)), para analisá-lo e, caso necessário, propor ou intentar ação judicial contra a decisão.

Obtive como resposta um não rotundo, e a observação que o laudo era interno à empresa.

Diante da resposta, solicitei o término da entrevista, pois a ânsia de vômito foi instantânea, ao cansar de ouvir as mesmices dos representantes da empresa, enfatizando o novo ordenamento normativo desta.

As colocações de que, com o advento do desequilíbrio de seu estado de saúde, certo e inexorável no quadro da paciente (insisto: leucemia mielóide aguda), o PAD alteraria para outra modalidade do referido programa (grande risco, com cobertura mais compreensiva), mediante auditoria da equipe técnica da companhia, não encontra refúgio na tese da razoabilidade, ferindo a ética médica e os princípios humanitários.

Quem precisou, ou está na iminência dessas alterações, sabe da morosidade, das burocracias envolvidas e do lapso temporal para as devidas mudanças.

O discurso, eivado de falácias, denota o descaminho daquilo que propugnava a AMS, num passado pretérito, onde o ser humano era, efetivamente, o patrimônio daquela empresa, e não mera peça retórica, como hoje.

As ponderações por mim formuladas, de que o custo da internação hospitalar, em comparação ao da internação domiciliar, propiciaria uma economia brutal para a empresa, além da humanização para quem está próximo do fim, não fizeram eco.

Frisei que não estavam levando em conta a necessidade imperiosa, para a manutenção instável da portadora de leucemia mielóide aguda, da cobertura de uma dieta alimentar equilibrada, no que tange à ingestão de complementos alimentares, conforme prescrito pela médica oncologista (complemento denominado Prosud, duas unidades por dia, com um custo de R$ 15,96 por unidade – conforme solicitei, através do fornecedor – 0800-7020710 – SAN Serviço ABB OTT de Nutrição). Como esperado, a resposta foi negativa.

Por questão de integridade, parte dessa postura da empresa decorre da falta de envolvimento dos beneficiários da AMS que, por mero comodismo, transferem para outrem (sindicato, etc.) a decisão, que deveria ser indeclinável, da manutenção e ampliação de seus direitos.

Enfim, pela omissão, condenam suas famílias e a si próprios à nefasta política vigente, cujos interesses vão de encontro aos princípios pétreos do passado e que, hoje, não passam de fragmentos, assemelhados à bandeja de inspeção, onde os pedaços de rocha são analisados previamente, quando do processo de perfuração dos poços de petróleo.

A Petrobrás era uma empresa que tinha alma, com a devia vênia à licença poética, ao atribuir uma possibilidade humana a uma pessoa jurídica.

A mesma broca que atinge o pré-sal é a que destrói os últimos vestígios de vida com dignidade desses doentes terminais, tornando-os cadáveres insepultos.

Espero que, além do retorno financeiro da empresa haja, concomitantemente, a lei do retorno da vida, e que essa seja imperiosa.

Confesso: num primeiro impulso, diante da aflição extrema que passo, desejei aos mentores do mau, esses gestores da área de recursos humanos dessa empresa e aos empregados subservientes, que indignamente não contestam essas orientações desumanas, por razões múltiplas, que sofressem, em espaço exíguo de tempo, de doenças incuráveis, e que essas provocassem dores atrozes, alucinantes, transformando-os em trapos humanos, lenta e gradualmente.

Não interpretem, de forma errônea, o parágrafo anterior! Não é de meu feitio ferir as normas de civilidade ou da natureza.

Portanto, não fiquem revoltados, indignados pelo sentimento que perpassou em minha mente indignada.

Reitero, não foi o instinto primitivo de vingança que me impeliu a pensar, momentaneamente, daquela forma. Foi algo muito maior: o desejo de justiça.

Invoco, apenas, pela isonomia de direitos, na dor e no desprezo.

Quando avoquei a excepcionalidade do caso, palavra que significa: “em que há, ou que constitui ou envolve exceção”, os prepostos da empresa negaram, provavelmente, embasados no outro significado de excepcionalidade, em relação ao meu pleito, como:“excêntrico, extravagante”.

Aos que estão na ativa e com saúde, e são omissos com a condução da AMS, lembro que a vida permite aos seres humanos a utopia dos desejos, dos sonhos.

Entretanto, tudo é fugaz, pois é da natureza da vida. Ela mutila, destrói, subtrai, oferecendo apenas um pesadelo quase sempre ininterrupto, outrora solitário, mas agora acompanhado com a solidariedade desse espectro que se tornou a Assistência Multidisciplinar de Saúde.

Acesse:
http://www.artigonal.com/cronicas-artigos/das-profundidades-do-pre-sal-a-grandeza-da-indignidade-da-petrobras-1526941.html

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Amnésia

Trabalhava numa multinacional, como advogado e, diga-se de passagem, era um excelente profissional na área tributária.

Era um retrato típico do bom baiano, fala mansa, com o sotaque indefectível que não traía suas origens, com o característico traço manemolente do andar, calmo, sereno.

Figura impagável, os horários eram sempre para serem descumpridos. Requintado no vestir, exalando um perfume característico, agora o hálito denunciava um misto de uísque com pastilha de hortelã.

O hábito de beber fazia concorrência com as mulheres. Era, enfim, um alcoólatra requintado: - bebida, só importada!

Era raro o dia que, ao final do expediente, aquela dúvida atroz não surgia: - onde deixara o carro?

A perda parcial da memória tinha origem entre a tampa e o fundo da garrafa.

Às vezes, levava até dois dias para encontrá-lo, em um dos diversos estacionamentos que utilizava. Sem apoquentação de sua parte, pegava um táxi e seguia seu rumo.

A procura, que ficasse para o dia seguinte! Assim era o Pimentel.

Naquele ambiente, aparentemente austero, uma trama desenrolava-se, já há alguns meses, nas mentes pervertidas de seus colegas: - a troca de paletós.

Explico:
- Havia outro advogado, de menor estatura e mais franzino que Pimentel, adjunto do Chefe do Serviço Jurídico, que possuía um terno idêntico ao do baiano, de uma estampa incomum.

O dia ansiosamente aguardado chegara, e estavam prontos para a prática da travessura.

O adjunto saíra para uma reunião interna, deixando o paletó no encosto da cadeira. Um dos elementos do grupo chamara o Pimentel para tomar um cafezinho e, em frações de segundo, a troca se efetivara.

Na hora do almoço Pimentel, o baiano, vestira atabalhoadamente o paletó, sentindo certo desconforto. Porém, tivera uma série de questões a resolver, e o incômodo fora o que menos contara.

Dirigira-se à agência bancária, na Rua Senador Dantas, e entrara no banco onde era correntista, instituição financeira esta que não mais existe. Sacara o talão de cheques e preenchera a quantia desejada, assinando, logicamente. O caixa, que era seu antigo conhecido, pois era cliente de tempos remotos da agência, não titubeara, pagando a quantia estipulada.

No corre-corre, para cumprir outras obrigações, sentira a manga mais curta. Entretanto, atribuíra tal fato à pressa, que era incompatível com seus hábitos, mas exceções ocorrem.

O adjunto, retornando da reunião, ao vestir o paletó, de pronto sentira alguma coisa errada: - o mesmo estava mais folgado e comprido.

Colocara a mão na parte interna do mesmo, à procura de sua carteira e do talão de cheques e, para seu espanto e indignidade, os documentos eram do Pimentel, assim como o talão.

O ácido clorídrico esguichara em suas entranhas, tanto pela fome, como pelo estado de ira.

Por volta das 15:00 h chegara o Pimentel, com sua pachorra característica, tendo-se surpreendido com o descontrole do adjunto, indivíduo facilmente irritável, mencionando sobre a troca absurda dos paletós.

Pimentel, sem provocar alterações em seus neurônios, células fundamentais do tecido nervoso, com propriedades de excitabilidade e condutibilidade, mantivera-se impassível diante do fato, pois o álcool em excesso embotara, sensivelmente, sua capacidade de reação.

A indignação do adjunto tornara-se de uma imensidão polar ao escutar, do Pimentel, que ele sentira um imenso desconforto com o paletó, mas não houvera dado conta de uma troca, impensável, do mesmo. O adjunto chegara próximo a um insulto cerebral quando fora comunicado que ele, Pimentel, sacara dinheiro no banco, evidentemente a mesma instituição onde ambos tinham contas.

Afrontado, dirigir-se-ia ao caixa do banco e, rudemente, o questionaria:

- Como acatara um cheque seu, com assinatura de outro? Sua desídia levara seu saldo para o vermelho! Iria ao gerente, solicitar sua demissão imediata!

Pimentel, com muita argumentação demovera-o daquela idéia, pois iriam ao banco e acertariam o equívoco rapidamente. Afinal, o bancário era uma pessoa extremamente afável no relacionamento com ambos.

A vida seguira seu curso natural - Pimentel esquecendo onde estacionara o carro, as doses cavalares de uísque, etc.

De outra feita, na véspera do carnaval, a secretária passara uma ligação e, ao atender, uma voz feminina pronunciara um alô, suficiente para entabularem uma conversa. Pimentel, excitado com aquela voz sensual, em determinado momento fizera o convite, afoito como era em se tratando do sexo feminino, de se encontrarem no dia seguinte, para se conhecerem e brincarem o carnaval. A mulher apresentara alguma relutância, mas acabara concordando, cada um declinando suas características físicas e as fantasias que estariam usando. Encontro marcado para tantas horas, em frente ao bar Amarelinho!

Em êxtase, contara aos colegas sobre o ocorrido.

No dia seguinte, Pimentel inventara uma argumentação qualquer para sair de casa, com a indumentária previamente descrita para aquela mulher, que povoou seus sonhos na noite anterior.

A mulher, furtivamente, olhara a hora e não criara nenhum empecilho.

Pimentel a flutuar, num arroubo quase juvenil, na expectativa daquele encontro!

Corroborando tal estado de espírito, o efeito do álcool complementava aquela felicidade ímpar.

Chegara com antecedência, ampliando sua visão periférica. Não via a hora de aquela mulher chegar!

Olhava o relógio em intervalos sempre menores, contrastando com o aumento de sua pressão sanguínea, pela excitação crescente.

O estado de tensão aumentara quando, no horário aprazado, sua diva loira não chegara.

Após longos e intermináveis 20 minutos, seu coração quase parara! Caminhava em sua direção aquela mulher insinuante, vestindo uma melindrosa preta curtíssima, conforme o combinado para o reconhecimento prévio.

Apressara o passo e, a menos de um metro, um choque percorrera seu corpo, quedando-o estático! Estava diante de sua esposa, com uma peruca loira.

Pimentel tivera o desplante de não reconhecer a voz da própria mulher, no dia anterior, e esta dera corda suficiente para ele se enforcar.

Aquele sábado de carnaval transformara-se, para ele, numa terrível quarta-feira de cinzas!


















terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tormentas


Existia, naquela ilha perdida na vastidão oceânica, uma estação de metereologia que, através de um consórcio promovido por diversos países e por várias companhias de seguros, permitia a investigação dos fenômenos atmosféricos.

Dotada de equipamentos de última geração, com especialistas de rara competência, acompanhava as mudanças de humor da natureza, com intuito de transmitir, aos diversos navios que passavam por uma área extensa, a previsão, a antevisão do tempo.

Nos últimos 10 minutos as atividades, naquela estação, foram intensas. Concluídas as análises, as informações foram transmitidas imediatamente, sobre a chegada de um violento temporal, nas próximas oito horas.

Os navios que podiam alterar seus cursos, para livrarem-se da tormenta, o fizeram. Outros seriam colocados à prova, pela impossibilidade de evitarem o fenômeno.

Os ilhéus receberam as informações com a mesma presteza das repassadas aos navios, para tomarem as devidas providências, produtos de intensivos cursos e treinamentos sobre a questão.

Agora, tudo estava limitado a uma questão de tempo, tanto o cronológico quanto o atmosférico.

As providências começaram a ser executadas prontamente pelos habitantes daquela ilha, exceção feita a um único insulano.

Morava, isoladamente, num promontório, a idade já avançada, com suas mazelas permanentes, produtos da dilação do tempo vivido.

Era só. Sua esposa falecera há mais de duas décadas e seus filhos, pescadores, foram vítimas das águas traiçoeiras do oceano, que não tiveram a grandeza, ao contrário do tamanho das ondas, de devolverem os seus corpos à terra.

Escutara a advertência pelo rádio, e era morador de um local adverso a uma proteção mais adequada, pois os ventos seguiam sempre aquela direção com mais intensidade. Tinha apenas, como uma resistência insana, a sua tosca moradia.

Sua vida era uma tormenta. Não tinha uma mísera razão para viver. Sua felicidade fora abruptamente extirpada, pela perda dos seus.

Os seus parcos sonhos, comparáveis somente às suas aspirações sobre os bens materiais, transformaram-se em pesadelos profundos e violentos, semelhantes à fúria atmosférica que se anunciava.

Cumpria sua rotina diária, sem preocupação.

A crise da natureza estava preste a compartilhar a sua ira, a sua revolta, com os ilhéus.

Reflexivo, o velho acendeu seu cachimbo e sentou-se naquela cadeira de balanço, cujos movimentos peculiares não traziam nenhum conforto ao seu corpo frágil e cansado. Ao contrário, aquele movimento oscilatório, promovido pelo leve movimento do seu corpo, embalava sua mente com os pensamentos, sempre recorrentes, sobre a infelicidade de não conviver mais com os seus.

Concluía que os seres humanos não eram livres, mas pertenciam sempre aos outros. Os desejos, as vontades, os sonhos, nunca poderiam ser unilaterais, individuais, pois pertenciam ao conjunto das relações interpessoais.

A paz interior, as alegrias, os desejos, dependiam da vivência com os seus semelhantes.

Para ele, o ato de existir e a razão de viver não cabiam na existência medíocre de um indivíduo, mas deviam ser partilhados. Do contrário, o homem convertia-se numa ilha, idêntica àquela em que ele vivia, premida pelas ondas, açoitada pelos ventos e encharcada pelas chuvas, resultantes, por analogia, do temperamento egocêntrico das pessoas, que cobram sua maneira de ver, sentir e reagir, diante do mundo e das coisas.

Seu pensamento é interrompido pela mudança brusca da natureza. O céu enegrece, os ventos aumentam de intensidade, as descargas elétricas intensificam-se, nunca sozinhas e sempre acompanhadas da solidariedade dos relâmpagos e trovões.

Em frações de segundos, sua mente registra o caminho tortuoso de um raio, tal qual fora a sua estrada da vida, que acabara de existir pela descarga recebida.

Na condição de espírito, atravessa aquela desordem da natureza de forma incólume e, tal qual em sua vida terrena, dirige-se para um destino impreciso.

Nota: não atribuo o devido crédito ao autor da imagem por desconhecê-lo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O maltrapilho

Dia desses, cansado, após cumprir os compromissos firmados, dirigiu-se à praça principal, em busca de um banco para aliviar o cansaço do corpo e, por que não: mitigar o peso da alma.

Aquela sensação fantástica da infância, onde o ar puro; a impressão da inexistência de limites físicos, principalmente, o da praça; a tranqüilidade; a paz, fica presa nas grades que a circundam e, por infelicidade, as outras praças do país.

Naquele horário, o silêncio denunciava o pouco movimento de pessoas, deixando aquele espaço público praticamente vazio; e, por extensão, os bancos.

Deparou-se, para seu espanto, com um indivíduo ao rés do chão, com traje, a rigor, que era um ultraje. Sujo, mas não imundo, o maltrapilho estava absorto na leitura de uma única e misera página de jornal , de temas econômicos.

Ficou estático, um pouco pelo contraste observado, um pouco pelo encantamento da cena.

Abandonando a leitura, perguntou se queria alguma coisa.

As perguntas surgiram de forma avassaladoras, contrastando com as respostas contidas daquele que dobrara a esquina da vida; porém, como percebeu depois, não foi a errada.

Ao apresentar-se como Mayevsky não estendeu a mão, gesto tão comum e automático nas relações humanas. Acostumara-se com as reações dos semelhantes - os outros -, que o viam como um dessemelhante, um mutilado virtual (maneta), em decorrência do asco ou do desprezo que provocava, se não de ambos.

O grau de perplexidade aumentava, à medida que Mayevsky respondia às perguntas formuladas; com um linguajar escorreito, lógico e contextualizado. Imaginava um indivíduo em pleno processo afásico, não aquela afasia por problemas neurológicos, por lesão cerebral (perda do poder de expressão pela fala, pela escrita ou pela sinalização, ou da capacidade de compreensão da palavra escrita ou falada); e, sim, decorrente da lesão social (rejeição, isolamento, incomunicabilidade, etc.).

De forma abrupta, interrompe as respostas e, apontando para um ponto de ônibus próximo, indaga:
- Qual a razão para aqueles dois ônibus, que tem o mesmo ponto de partida e vão para idêntico destino, terem preços tão diferenciados? Não... , não vai dizer que um tem ar-condicionado, e o outro não!

Não esperando a resposta, continuou:
- O sistema capitalista induz às pessoas a auto-precificação. As empresas poderiam oferecer o melhor a todos - sem acréscimos significativos em suas planilhas de custos - contudo, praticam a teoria do medo, da perda. As empresas enviam a seguinte mensagem subliminar:

“Paguem pelo seu bem-estar, ou estarão sujeitos ao desconforto (do calor, das cadeiras duras, da ausência de banheiro) a que a expressiva maioria é submetida”.

As empresas negam, aos mais pobres, um tratamento justo e digno - para dar apenas aos que podem pagar, os mais ricos, um bem universalmente tutelado, qual seja, o da dignidade humana.

Elas, mediante a oferta entre o pior e o melhor serviço estabelecem , com o mecanismo da diferenciação, os seus preços-alvo, conseguindo maximizar seus lucros.

A explanação é interrompida pelo som do celular.

Mayevsky observa o modelo do telefone - último lançamento; e, movimentando a cabeça com sinais de descontentamento, afasta-se, ouvindo o até então interlocutor variar o tom de voz, até chegar aos berros:
- Alô ! Alô ! Alô...

O maltrapilho, com passos largos, segue o seu caminho, interrompendo os sinais (de insatisfação), fazendo concorrência com o modus faciendi (modo de agir) das operadoras de telefonia móvel.
Mayevsky caminhava pensando na cultura da obsolescência programada dos produtos, viabilizada pelas propagandas massivas e eficientes nas diferentes mídias, quando esbarra num transeunte que fica perplexo, tanto pela figura andrajosa , quanto pela frase ouvida:

- É ... o homem nasce vazio e vai-se preenchendo com as informações distorcidas, ou não, do mundo.

E, para quem pretendia apenas descansar, verificara que o caminho do conhecimento era longo, solitário e sofrido.

Enfim, a tranqüilidade desejada o abandonara.

domingo, 25 de outubro de 2009

Prisioneiro


Era uma figura taciturna, avaro nas palavras e nos gestos.

Fora apenado por crime de latrocínio e cumpria a sua pena, mantendo inalteradas suas convicções.

Adquirira o respeito dos demais condenados, por uma postura espontânea de indignidade. Aguardavam na fila para o almoço quando, numa atitude cruel e sádica, os carcereiros começaram agredir um frágil e velho preso, em início de demência, doença essa que atingira, em seu quadro mais grave, o sistema judiciário brasileiro.

Ao ver a covardia perpetrada contra aquele individuo inofensivo, jogara-se sobre ele, protegendo-o contra os golpes infames.

Seu gesto conduzira-o à solitária, a cela em que se isola o sentenciado turbulento e perigoso.

O retorno ao convívio com os demais ocorrera após trinta dias.

Retornara à sua rotina, onde não havia espaço para conversas que permeavam os subterrâneos do presídio, os quais eram divididos em facções: extorsões, mortes, tráficos, punições, etc.

Havia anos que não tinha contato com seus familiares, por opção e determinação dele, após ser sentenciado.

Era um solitário, destarte o afluxo de condenados à sua cela, para serem atendidos juridicamente, pois formara-se em Direito meses antes de seu delito.

Fazia as petições necessárias, sempre bem fundamentas, não aceitando em troca nenhum pagamento em espécie, em gêneros alimentícios, em produtos de higiene pessoal. Enfim, todos sabiam que não deveriam, sequer, agradecer pelos serviços prestados. Era uma figura insociável, intratável.

Aos desavisados que lhe desejavam um bom-dia, sua resposta era seca e constrangedora:
- “Espero que o seu seja um péssimo dia”.

Nas vezes em que era convocado pelo diretor do presídio, escutava os discursos vazios, moralistas, em pleno silêncio. Era um monólogo torturante para ele, pois as observações eram sem substância, sem qualquer embasamento plausível.

Era sempre avisado para não sair de sua cela quando uma rebelião, ou uma guerra de facções, iria ocorrer.

Aos guardas que vinham dirigir-lhe qualquer palavra, respondia secamente:
- “Senhores, fiquem com meu eterno desprezo”.
Era útil para os inúteis sociais, os apenados como ele. E isso era o bastante.

Fora notificado que, no transcorrer daquela semana, sairia para a liberdade, posto ter cumprido os 18 anos de reclusão. Seu débito com a sociedade fora pago duramente.

Passando pelo portão principal, rumo à nova vida, um sentimento estranho percorrera sua alma.

O transito intenso, os barulhos característicos de uma cidade viva, deixaram-no desorientado.

Ao dobrar uma esquina, fora surpreendido por um pivete que, com as mãos trêmulas, segurava um revólver 38, exigindo que passasse tudo.

Sua reação fora de equilíbrio e passividade. Retirara o relógio e dissera que não tinha dinheiro. Um único estampido soara. Sua morte fora fulminante, atingido no coração.

Francamente, não me diz respeito o destino de sua alma, o céu ou o inferno, como não me interessam os destinos de todos, inclusive o meu. Isso é para ser questionado e tratado em outra esfera.

O fundamental é que da última infâmia da imprensa não pudera tomar conhecimento pois, quando do seu crime, todos os jornais estamparam manchetes sensacionalistas nas suas primeiras páginas e agora, em um único e mísero jornal, de décima - quinta categoria, saíra um fragmento de notícia:
- “Ontem, no lugar x, às tantas horas, fulano de tal, ex-presidiário, foi morto por acerto de contas.”



Crédito: imagem nmarierose.blogspot

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Estupidez


Sua percepção da vida era peculiar.

Ressalvava que não tinha nenhum compromisso com as imposições de qualquer natureza e teor, quanto mais com as verdades dos outros, apenas, tinha com as suas que, aliás, não eram irrestritas.

Não suportava as argumentações que sustentavam que o ser humano não deveria guardar mágoas, raivas, ódios, dos seus (des)semelhantes.

Aquilo soava como heresia, independente, das bocas que as proferiam, sejam as entupidas de religiosidade, ou as eivadas de racionalidade instável dos incréus.

A essência primitiva do ser humano não pode ser tolhida com teses carcomidas pela hipocrisia, pela falsidade dos homens.

A natureza, apesar de cruel é sábia.

Quando o organismo está padecendo de qualquer distúrbio, as células de defesas, de preservação do corpo, atacam para reverter o avanço do “monstro” (ex. problemas na tireóide) e tentam matá-lo.

As células, à semelhança dos combatentes do “Incrível Exército de Brancaleone”, lutam à exaustão e quando morrem, as suas descendentes (células) retêm em “suas memórias” as informações repassadas pelos seus ascendentes mortos.

É inexplicável essa perpetuação de transmissão das informações por hereditariedade, em que a célula bisneta, mantém o mesmo combate que iniciou, em tempo pretérito, o avô de seu pai contra aquele monstrengo.

A questão é da essência, da substância ancestral da natureza, portanto, as reações naturais dos indivíduos que são combatidas e vistas como deformações morais (rancores, ódio, vingança, etc.) não passam de engodos promovidos pelos estelionatários da existência.

Esses bastardos da vida desqualificam a essência da mesma, em nome, de suas instabilidades emocionais, morais ou religiosas.

Não passam de monstros.



Crédito: imagem Marcus Castro




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Meritíssimo


Acabara de chegar a casa. O cansaço, acumulado ao longo da semana, era evidente em seu semblante. Contudo, um desconforto adicional perpassava à sua consciência.

Na semana anterior fizera 33 anos. Usufruía do vigor da maturidade, em sua plenitude, alto, bonito, porte atlético, solteiro, com uma promissora carreira e um salário que fazia jus às suas atribuições profissionais.

Caminhara em direção ao seu bar e, à medida que preparava sua bebida predileta, ia se despindo, jogando o terno, gravata, etc. sobre um sofá.

Colocara uma musica clássica e fechara as cortinas, ficando a sala numa penumbra, assemelhando-se à zona de transição entre a luz e a sombra, que se fazia presente em sua alma conturbada.

Os pensamentos recorrentes derivavam da lembrança da leitura dos autos, onde as partes, o Ministério Público e o advogado de defesa, apresentavam suas convicções.

Sorvia pequenos goles da bebida e, mecanicamente, limpava a mesa de centro, passando álcool e depois colocando, de forma precisa e ordenada, seu objeto de desejo, aliás, relutando em fazê-lo.

Em função das características desejadas em sua profissão, a boa memória era um dos requisitos básicos, além, da capacidade de análise, sensibilidade, equilíbrio emocional, autocontrole, etc.

A denúncia pedia, de forma cabal, a condenação do réu, em face da prática do crime de tráfico de entorpecente, e ressaltava a robustez das provas colhidas e assinaladas nos autos, que afirmava serem por demais convincentes. E, concluía, que não havia como absolvê-lo da prática do delito em apreço.

No contraditório a defesa sustentava, nos autos, que as provas eram baseadas, exclusivamente, no depoimento de policiais militares, a quem considerava testemunhas inadequadas, inidôneas e totalmente sem isenções, parciais para legitimarem a determinação condenatória. Alegava que, durante a instrução criminal, foram geradas apenas presunções, suposições que deixaram resquícios, vestígios de dúvidas. Logo, não deviam ser levadas a termo, haja vista a aplicação do princípio do “in dúbio pro reo”.

Conviver com a contradição era um dos atributos de sua atividade, onde a capacidade de pensar e agir sob pressão, em função das demandas, era parte do seu cotidiano.
Sua consciência cobrava, com autoridade, as outras características de sua profissão, quais sejam, a isenção, o bom senso, o senso de responsabilidade, o senso de ética.

Seu estado precário era decorrente da sentença que prolatara. Douta para o Ministério Público, para a defesa sua decisão fora inepta, não fora suficientemente reflexiva, ponderada e justa, ao decidir pela condenação.

A angústia o mortificava. Afinal, a vida comete injustiças sórdidas, sob os auspícios de um Estado omisso, negligente, principalmente com o conjunto dos mais necessitados.
A sua decisão aumentava a estatística da justiça feita (número de decisões prolatadas) , porém de forma inteiramente injusta e hipócrita.

Em sua vida, tivera a opção de escolher diversas carreiras, em contrapartida à maioria da população, não facultada a uma única e mísera profissão.

Diante da ignomínia de sua decisão, da falsidade por ser um elo que alimentava aquela corrente, pensou na sua carreira, no exercício da magistratura e na liberdade de escolha. Naquele momento, optou pela outra carreira, a de cocaína, que estava ordenadamente disposta sobre sua mesa.

Aspirou o pó com tamanha avidez que entorpeceu sua mente, em frações de segundos. Mas o torpor não atingiu sua consciência que, com a mesma frieza do malho soado nos tribunais, emitiu sua sentença definitiva, sem direito a recursos:

“- Condeno-o pela sordidez de seu ato, por não avocar o seu impedimento quanto ao julgamento em tela, para que o instituto sagrado da imparcialidade prevalecesse.
Agravo a pena por tratar-se de um magistrado que, sob a proteção da toga, decreta o fim do senso de justiça e do dever. Que os seus dias sejam sempre tormentosos, e que o desequilíbrio psíquico seja eterno. Sem direito a sursis e aos benefícios da progressão da pena.”

Sempre brilhante na carreira, hoje se encontra numa clínica de recuperação de viciados, no processo de desintoxicação.

Crédito: imagem Marcus Castro




sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Brasil uma esbórnia


Isso não é um país, é uma esbórnia!

O Brasil – oficialmente República Federativa do Brasil – é um rebotalho de homens públicos, acumpliciados com instituições públicas e privadas, com o objetivo de subjugar os habitantes desse prostíbulo de 8.514.876,599 km².

O artifício utilizado pelos cáftens, em mascarar as luminárias de néon com nomes que desassociam as atividades pérfidas praticadas em seus antros de promiscuidades, o Brasil também o faz, utilizando-se da marca fantasia “República” ( organização política de um Estado, com vistas a servir à coisa pública, ao interesse comum).

É digna de nota a segmentação da exploração dos corpos dos brasileiros, feita num conluio perfeito entre os mandatários do pseudo-país e os detentores do capital, apesar das indignidades de seus procedimentos.

O festim licencioso promovido pelos poderosos não significa, necessariamente, a venda dos corpos para os atos libidinosos. Ao contrário, constiui crime mais sujo, mais hediondo, mais cruel, pois:

- defloram, desfloram as árvores da esperança de uma vida justa e digna, mediante a desídia, a negligência do Estado;

- curram, estupram os sonhos de um futuro melhor, através da inexistência da educação plena, impedindo a acessão social, um direito que deveria ser inalienável, intransferível, a qualquer indivíduo, independente da idade e da etnia;

- sodomizam, através da conjunção (coação) da carga tributária, rigidamente imposta nos costados de todos, deixando-os deploravelmente combalidos para atender às necessidades básicas, suas e dos seus;

- obrigam todos à prática da felação , oferecendo um sistema de saúde completamente desqualificado, doentio, onde as legiões dos miseráveis buscam curas para seus males, enfrentando filas, convivendo com a ausência sistêmica de profissionais de saúde , a falta de equipamentos, a inexistência de remédios, etc. Tornam-se reféns de atendentes desumanos e são obrigados a agradecer por essas ignomínias, mediante a gratidão subserviente, por ignorarem os seus direitos e perceberem, por suas retinas condescendentes, somente e tão somente uma benevolência do poder público.

Esses rufiões, escondidos e protegidos pelas mesas dos poderes por eles exercidos, nos planos executivo, legislativo e judiciário, somados à classe empresarial, formam um todo asqueroso e deplorável, que gerencia e se locupleta nessa casa de tolerância chamada Brasil.

Bebem líquidos importados, graças à sede imposta aos destituídos da sorte. Lambuzam-se em banquetes nababescos, em que entram, apenas, com seus apetites nauseabundos, pois a conta é debitada ao povo ignorante e esbulhado.

Enchem suas burras com moedas vis, subtraídas, roubadas do povo e, como não fosse suficiente, desgraçadamente negam a esses corpos prostituídos o mínimo de dignidade, além de impingirem, de forma torpe e infame, a eternização da ignorância, para perpetuarem o enriquecimento ilícito, compulsivamente.

Emporcalham seus espíritos, com o gozo asqueroso do acúmulo patrimonial. Desprezam a frigidez de suas consciências e preocupam-se com o aumento de sua libido, para continuar a praticar o incesto contra seus irmãos brasileiros.

Tudo acaba! Essa bacanal esgotar-se-á, e essas massas disformes de seres passivos transformar-se-ão em ativas.

Crédito: Imagem de Marcus Castro

sábado, 3 de outubro de 2009

O tempo, essa crueldade da natureza!


A velhice começa a desenhar, sem nenhum escrúpulo, marcas no meu corpo, em cega obediência ao tempo. Independentemente de o lapso temporal ter sido vivido com justeza, ou não.

O tempo é inexorável, é rígido em seu curso, alimentando-se da flacidez e da debilidade dos corpos que insistem na dilação da vida.

Com passos trôpegos e incertos, tento dobrar as esquinas da vida que, aliás, nunca foram amistosas, nem na época da vigência de minha juventude.

As vistas, fatigadas de verem indignidades e injustiças ao longo da vida sofrem, agora, o escárnio do tempo, sob a forma da perda de transparência do cristalino (catarata), como estivessem advertindo-me de que, no passado, não deveria ter utilizado de minha visão como testemunha da iniqüidade da vida e, por punição, oferece-me a cegueira progressiva.

Os órgãos tornam-se débeis, quando não cometem uma deslealdade sem precedentes, como minha vesícula, cuja convivência, por cinco décadas, atraiçoou-me com um acúmulo de pedras, como se não fossem suficientes as que deparei no percurso da vida.

Saiu de minha vida abruptamente, mediante uma videolaparoscopia.

O tempo é sádico, diverte-se com o aumento de minha pressão arterial e com a diminuição sanguínea nos corpos cavernosos.

O avanço do tempo cria, por meio de mutações, conforme o antagonismo da frase acima, a transformação do aparelho reprodutor em outro apêndice, inútil como o original.

O único conforto que acompanha o meu cansaço da vida é de que tudo será uma questão de tempo. Quando não existir mais nenhum vivente, o tempo terá tempo para ver quanto velhaco foi, e não terá mais tempo para se redimir.




segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma mente brilhante


Ambos achavam que tinham direito a ter razão.

As relações, que foram íntimas na origem do pó dos tempos, deixaram de ser cordiais, num passado imemorial. Hoje, ultrapassavam as raias do bom senso, seja lá o que isso venha a significar. (Aqui cabe uma observação: - pode ser ranzinzice, atribua àquilo que melhor lhe convier, mas sempre cismei com a adjetivação desnecessária).

O diálogo mantinha-se áspero, virulento, onde as pretensas ironias não passavam de meros deboches, eivadas de grosserias que desqualificavam a ambos. O exercício da ironia é prerrogativa, atributo, de seres inteligentes o que, evidentemente, não eram.

Efetivamente aqui, prezado leitor, não cabe o benefício da dúvida, pois ambos partejavam, de forma mútua, o produto, o rebento de uma incultura solar.

Jamais teriam a capacidade de estabelecer o contraditório, face à afirmativa acima, pois desconheciam Sócrates e, portanto, não poderiam avocar, em suas defesas, o artifício da ironia socrática, método desenvolvido pelo filósofo e que levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.

O diabo, não fugindo de suas características, amparado em um diagnóstico precoce de bipolaridade, com um mau-humor extremado, diz:
“Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa”.

Colérico, aliás reação inimaginável para aqueles que rezam em sua cartilha, Deus, com os olhos esbugalhados e rútilos, responde:
“Canalha! Engula - e disse de forma peremptória - a sua blasfêmia!”

Para minha surpresa que acompanhava a cena e, prejulgo, também para Deus, o diabo transmuta-se num ser sereno, sóbrio e, numa modulação de voz civilizada, diz:

“- Somos produtos do inconsciente coletivo, derivados de uma mente brilhante que, diante da insensatez da vida, da consciência da mortalidade, criou-nos, com a finalidade de que a insânia não prosperasse e de que a esperança permeasse as vidas”.

Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.

Confesso que, como testemunha, um extremo desconforto apoderou-se de mim.

Reflexivo, Deus dirigiu-se ao seu interlocutor:

“- Confesso que a depressão, que me acompanhava há séculos, decorria de uma crise de identidade atroz. As energias emanadas dos seres humanos, pelo aludido inconsciente coletivo, propiciou a nossa existência incorpórea, com os atributos específicos para cada um de nós.
As virtudes a mim atribuídas levaram-me à soberba, ao orgulho excessivo, à arrogância. Entranharam-se em mim de tal forma, que os via como predicados.
Que disparate, que despautério.”

O diabo, que ouvia atentamente as idiossincrasias de Deus, de forma sóbria e austera, fez a seguinte ponderação:

“- No fundo, somos gêmeos univitelinos, gerados daquela mente talentosa. Na modelagem conceitual preestabelecida, os nossos atributos teriam que ser mutuamente excludentes. A parte que me coube foi a dos baixos costumes. Veja bem, nos dicionários sou definido como ‘príncipe das trevas, espírito maligno, gênio do mal, pai da mentira, serpente maldita’, et cetera.”

Ficaram silentes, reflexivos.

O silêncio foi quebrado por Deus:

“- É verdade que, em nosso nome, diversas e imensas atrocidades foram perpetradas, e ainda o são. Entretanto, numa visão histórica das relações humanas, a nossa criação cerceou atitudes, refreou espíritos e, apesar de nossa existência persistir no inconsciente geral, o mundo perpetua iniqüidades. Sem o nosso simbolismo, seria o caos!”

Num impulso mútuo, abraçaram-se fraternalmente, como nunca fizeram. As lágrimas cobriam suas faces, sabendo que a separação era premente e definitiva.

Compreenderam que seus destinos estavam inapelavelmente traçados por aquele intelecto privilegiado. Agora, sem as perplexidades vividas, até aquele momento, por ambos. A sabedoria fluiu e preencheu as lacunas, até então existentes naqueles apedeutas.

Uma invenção inimaginável, inconsistente, transmitida, a princípio, pela tradição oral, encorpou-se e gerou, do nada, pela força do inconsciente coletivo, a criação desses entes, que tinham que cumprir os desígnios previamente estabelecidos.

E, tacitamente, cumpriram e cumprem. Afinal, obrigação é obrigação!








sábado, 19 de setembro de 2009

Tudo é uma questão de medidas

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é a maior universidade do Brasil.

Tem dois campi, o da Praia Vermelha e o do Fundão. O que excede em tamanho, e leva seu nome, é o situado na Ilha do Fundão, zona norte do Rio de Janeiro, ocupando quase toda a sua extensão. Essa ilha foi criada na década de 50 do século passado, pela união de várias ilhas preexistentes, de dimensões e formas variadas, através de aterros.

Os alunos originários de outros Estados, juntamente com os da terra, mas com diminutas condições financeiras disputam, através de sorteio, vagas nos alojamentos da instituição.

O estado precário dos alojamentos é equivalente aos prédios do conjunto universitário.

A solidariedade entre os alojados é exemplar. Sempre arrumam um jeito de acomodar os outros, que estão na mesma condição e não foram contemplados quando do sorteio. A norma, proibitiva dessa conduta, sofre uma elasticidade, em nome da solidariedade.

Os espaços, diminutos, sofrem alterações internas, com medidas inimagináveis, para manter a privacidade dos novos agregados.

Principalmente aos domingos, aquela área imensa fica reduzida aos residentes, que procuram encontrar algum entretenimento entre eles, pois as módicas quantias que possuem não permitem um lazer desejado, fora do campus.

Não que a tranqüilidade tenha a dimensão desejada, pois os assaltos tornaram-se uma constante, variando apenas os comprimentos das armas apontadas e o tamanho do medo produzido.

Naquele domingo ensolarado, um grupo batia um papo sob uma das frondosas árvores. Eram alunos de diversos cursos, com perspectivas e valores diferenciados, trocando assuntos diversos.

De repente, um aluno de física resolve fazer alguns comentários sobre a área de seus estudos, com a seguinte observação:

- “É... a descoberta do buraco negro abrirá .....”

Nesse momento, é interrompido bruscamente por uma aluna de psicologia, com a seguinte indagação:

- “Quanto tempo fica, daqui, o tal do buraco negro?”

Resposta imediata:

- “Ah! Fica a um porrilhão de anos luz da Terra.“

Uma aluna de belas artes questiona o tamanho do aludido buraco.

Imediatamente, o aluno responde:

- “Para você ter uma idéia, a Terra é um pentelhionésimo de centímetro, em relação ao buraco negro.”

O estudante de farmácia indaga a que distância se encontra o famoso buraco negro.

Sem titubear, responde:

- “Olha, meu jovem, fica além, muito além da puta que o pariu.”

O estudante de matemática, boquiaberto, que a tudo ouvia, pensou:

- “Porra, já não bastam as derivadas, as integrais, as diversas medidas utilizadas e as suas respectivas conversões, e vem um maluco com novas medidas! A minha cota de paciência passou das medidas.”

Ao levantar-se, foi acompanhado por um estudante de direito, avesso aos números por natureza, que pensava:

- “Redigirei um habeas corpus em meu favor pois, depois da explanação do aluno de física, sinto-me coagido, diante da iminência de sofrer uma violência que provocará um abuso à minha auto-estima. Afinal, por incompatibilidade total com os números, divorciei-me dos mesmos e agora, ao ouvir essas novas medidas, perdi as medidas de meu equilíbrio, que poderão ser medidas com o retorno de minha fobia do passado.”

Na falta de uma medida para prosseguir com o texto, declaro que o faço por uma medida de bom-senso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A realidade daquele menino

Gerado por acidente de percurso, num relacionamento curto, pois assim era a regra. A extensão do prazer era proporcional ao pagamento de maior monta e, diante dos recursos parcos, foram escassos minutos para dar vazão à sua libido.

O erro crasso daquela mulher, sua futura mãe, foi negligenciar os cuidados mínimos exigidos por sua profissão, a de prostituta, e o tributo cobrado foi a gravidez, logicamente, indesejada.

Seu estágio de nove meses, no útero, foi acompanhado de impropérios incontáveis, como se ele fosse culpado, e não, vítima.

A intensidade do ódio da mulher aumentou, com o prejuízo financeiro, a partir do início do sexto mês de gravidez. A clientela não mais a desejava, ou pelo corpo disforme ou, quem sabe, pelo respeito que toda gravidez merece.

Aquele menino, antes de nascer, já tinha um passivo de desamor enorme, além de um débito significativo de ordem financeira, imputado a ele pelo abandono compulsório do trabalho da mãe, apesar de provisório.

Nasceu num casebre imundo, auxiliado por uma parteira que cumprira seu dever com competência, recebendo uma quantia irrisória que não fazia justiça ao seu trabalho. A pobreza quase absoluta aceita trocados para sobreviver, pois a rejeição dos mesmos é uma hipótese descartada.

Foi enrolado num pano usado, mas razoavelmente limpo.

Depois de dois meses, foi deixado para ser criado por sua avó, uma velha, alquebrada pelo tempo e pela vida, sobrevivendo numa miséria quase absoluta, cujo único sonho era acabar seus dias, apenas e tão-somente, vivendo soberbamente numa pobreza franciscana.

Crescera, em relação ao tempo transcorrido desde o seu nascimento, pois, na realidade, sua pequena estatura não condizia com seus 12 anos de então.

A natureza lhe fora demasiadamente ingrata. Era extremamente feio, o seu olhar trazia a marca do desequilíbrio ocular (vesgo) e locomovia-se com extrema dificuldade, em decorrência de uma paralisia que o acometera, em tenra idade, em uma das pernas. Era raquítico, asmático, com um raciocínio lento, produto da falta de alimentação e, talvez, dos excessos de pancadas recebidas na cabeça, exclusivamente por sua avó, pois a mãe desaparecera.

Em resumo, o somatório dos seus atributos físicos e mentais formava um todo deplorável.

Para agravar o preconceito, a rejeição da sociedade, era preto.

A ausência do Estado era total em sua vida, agravada pela inexistência de um mísero pedaço de papel, maculado por um conjunto de letras e assinaturas (certidão de nascimento), razão adicional para a desídia estatal.

Afinal, ele não fazia parte de nenhuma estatística, não existia.

Realmente, era ninguém. Era homônimo do personagem principal que o velho bardo grego, Homero, imortalizou nos seus escritos, especificamente, na Rapsódia de Ulisses.

Com a chegada da morte da avó, não teve alternativa, partiu para as ruas.

Continuou no ciclo de sofrimentos, de abandono, de misérias, sem vínculos, sem valores. Entretanto, acabou achando sua redenção, viciando-se em crack.

Numa certa noite fria, excedeu-se no consumo do vício e foi encontrado sem vida, com uma expressão lívida e com um sorriso nos lábios, o único e derradeiro em toda sua existência.

A morte impiedosa, ao avaliar aquela existência sofrida, provavelmente foi acometida de um instinto maternal - afinal, é mulher – e, carinhosamente, o levou em seus braços, acompanhado por uma canção de ninar.


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Incitatus X Senado Federal do Brasil


O imperador romano Calígula, segundo biografia do escritor Suetônio, colocou seu cavalo predileto, Incitatus, no rol dos senadores romanos, e conjecturou fazer dele cônsul (magistrado supremo).

Gozava do privilégio de dormir com mantas púrpuras, cor destinada somente aos trajes reais, e era enfeitado com um colar de pedras preciosas.

Incitatus tinha um numero expressivo de criados pessoais, que somavam 18 (dezoito).

Antes disso, havia nomeado o mesmo cavalo como sacerdote, designando uma guarda pretoriana para tomar conta de seu sono.

A idéia de Calígula era humilhar o Senado romano mostrando que, se podia nomear um cavalo sacerdote e senador, podia fazer qualquer coisa.

Feito o intróito, adentremos no principal, avaliando o Senado da nossa República.

Constatamos que o mundo mudou muito, e para pior.

Nós, os eleitores, não passamos de cavalgaduras, que suportamos o peso, através dos impostos e da falta de representatividade, dos 81 senadores. Não confundam com os 18 criados de Incitatus, por favor!

E, por gentileza, não entrem no terreno perigoso da galhofa, ao usarem o termo “senador” no sentido figurado, conforme dicionário:
-“RS Fig. Cavalo muito idoso”.

A atual crise que os senadores, de forma ardilosa, atribuem ao Senado, sabem que lhe são autores e responsáveis.

Quando fazem, atribuindo à Instituição, as vilezas essencialmente humanas, praticadas por muito deles, rotulam-nos como estúpidos, sem capacidade de discernimento ou, melhor dizendo, como umas bestas quadradas.

Essencialmente, o que fazem “Suas Excelências”?

Simples: - profanam as tribunas, com discursos aparentemente vazios, entretanto eivados de mensagens subliminares, que permeiam a coação, a chantagem, a extorsão aos demais poderes, com o único e sórdido fito de se locupletarem com os recursos advindos da miséria do povo brasileiro.

Lamento, Excelências! O profissionalismo, em qualquer empresa, é fator preponderante para a manutenção do emprego, e a desídia de suas condutas, caso estivessem no setor privado, não tenham o menor resquício de dúvida, estaria aumentando a estatística dos desempregados desse país.

Não sou nefelibata e sei que essas inquietações não fazem parte das preocupações de Vossas Excelências, pois a maioria esmagadora desse país é de deserdados da sorte, sem esclarecimentos. Não leêm por serem analfabetos, e os alfabetizados não o fazem por falta absoluta de recursos, graças às vossas posturas, em grande parte.

As razões para esses descasos não são dificeis de serem deduzidas, pois nós, eleitores, somos cavalos mancos, com a pata quebrada, e todos sabem que animais assim são sacrificados, mortos, por inexistência de cura. E a nossa morte metafórica é o esquecimento das tamanhas indignidades, infâmias, que provocam a reeleição repugnante de Vossas Excelências.

Esse quadrúpede que escreve tem uma certeza pétrea:

- o imperador Calígula não era um louco, como a história o retrata e, sim, um sábio. O Incitatus não custava tanto, aos cofres do Império, quanto a quantia vultosa que é dispendida com cada um dos senadores de nossa República.

Nessa observação acima não vai nenhuma ofensa à Vossas Excelências. Não interpretem, de forma errônea, o parágrafo anterior! Não os comparo ao cavalo Incitatus, nem é de meu feitio ferir as normas de civilidade ou da natureza. Afinal, as animálias somos nós, os eleitores. Não atribuo à Vossas Excelências, tampouco, a condição de cavalariços e, sim, de cavaleiros. Contudo, jamais receberão de mim a qualificação de cavalheiros.



Nota:
– como padeço de masoquismo, assisto à tv Senado. Permitam-me aduzir que, apesar de não ferirem o regulamento nem o decoro parlamentar, os apartes constantes dos celulares, quando V. Excelências ocupam as tribunas, ferem os príncipios da civilidade e da boa educação. Desliguem-nos!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma vida errática


O caminhar era claudicante, apoiado numa bengala para suportar o peso do corpo que, aliás, já prenunciava as marcas inexoráveis do tempo.

Seguia sozinho. A incerteza de que rumo tomar contrastava com a convicção ditada por sua consciência, que se expressava com uma voz clara mas arfante, conseqüência de uma obesidade mórbida. Morbidez alimentada, sofregamente, pelas as ações indignas e aviltantes daquele indivíduo, desgastado fisicamente.

O ser caminhante ignorou-a, como sempre fizera ao longo de sua existência.

Os transeuntes, seguindo seus destinos, não perceberam o indivíduo, que contraia os músculos da face, reflexo da dor que invadia seu corpo e materializando, assim, por ironia do destino, uma desforra da vida, pois aquela pessoa sempre desprezou a humanidade.

Para ser justo, sua atenção com os outros era baseada em suas aparências, que significavam, em sua opinião ou juízo, a possibilidade de usufruir da posição social dessas potenciais vítimas para locupletar-se.

Acumulou patrimônio, utilizando-se da exploração impiedosa de seus (des)semelhantes, negando-lhes os mais comezinhos direitos e atuando à margem da lei.

A bem da verdade, suas atividades não eram acolhidas no Código Penal, eram fundamentadas na legalidade. Entretanto, o modo de gerir é que era eivado de vícios iníquos.

Utilizando-se da ignorância e das necessidades prementes das pessoas, espoliava-as, negociando sempre a preços vis. Qualquer indivíduo, com mínimo de humanidade, se sentiria constrangido, usurpador da dignidade alheia, negociando naquelas bases.

Contudo, ele deleitava-se com o lucro desmedido que a transação proporcionava.

Era só, nunca tivera amigos, somente lapsos exíguos de amizade.

A sua alma, fatigada e impotente, questionava que desvio havia cometido, por ser condenada a partilhar aquele corpo que, de humano, só tinha a forma.

Fracassada na sua missão a alma, embora não tenha realidade física ou material, percebeu uma lágrima solitária percorrer sua parte incorpórea. Surpresa, percebeu que o Ser Supremo, com esse gesto, a redimia, pois aquele ser, que caminhava trôpego e errático, era uma causa perdida.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O bonde 66 – Tijuca/Praça 15


A insônia provocara um estado de letargia profunda em Marcus. Tomou seu banho, vestiu-se, dispensou o café da manhã, caminhou apressadamente, sensação equivocada produzida por uma mente conturbada, pois andava com passos arrastados, contidos, em direção ao ponto do bonde.

Percebera uma aglomeração de pessoas, o que não era comum naquele horário, concluindo que o transporte público passara a, frequentemente, atrasar, em contraposição ao intervalo dos bondes, regularmente cumpridos em um passado recente.

O fato de chegar atrasado ao trabalho não era causa de sua preocupação. Afinal, era funcionário do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT), que não primava por um horário rígido. O que lhe causava espécie era o comportamento do Governo, frente às concessões públicas.

O transporte por bondes e a distribuição de energia elétrica tinham, como concessionários, o mesmo conglomerado (Light), que passava por uma síndrome inexistente dos compêndios psiquiátricos, ou seja, a síndrome consciente do descaso.

Os bondes não cumpriam os horários e o fornecimento de luz elétrica, por sua intermitência, fazia concorrência aos vaga-lumes.

Marcus, sujeito pacato, avesso a qualquer tipo de aventura – por índole e gosto - deixara de subir no primeiro bonde.

Para sua surpresa e satisfação, o próximo bonde que parara era o que habitualmente tomava, tendo como motorneiro seu Joaquim e como condutor o seu Manuel (aqui abro parêntesis para explicar, aos mais jovens, que, motorneiro era quem conduzia, pilotava o bonde, enquanto o condutor era o cobrador das passagens. Isto posto, fecho o aludido parêntesis – seguindo as normas, hoje, um tanto quanto desprezadas).

Seu Joaquim, o motorneiro, era alto, esguio, imberbe, uma figura impoluta. Completamente compenetrado na sua faina, sempre com o uniforme azul marinho, com colete (exigência da companhia), impecável, engomado, com o laço da gravata perfeito e com seu quepe tendo, na parte frontal, uma plaquinha indicativa de sua função (Motorneiro), adequadamente colocada, lembrava a postura dos generais em festividades cívicas e/ou militares. Era extremamente educado, bom ouvinte, mas avaro nas palavras.

Quando os passageiros despejavam suas iras e, muitas vezes, impropérios sobre os atrasos recorrentes, sobre os excessos de passageiros, seu Joaquim ouvia-os, compenetrado, e respondia solenemente: “- É um problema.”

Seu Manuel, o condutor, era o avesso de seu colega de trabalho, tanto no gênio expansivo quanto na estatura. Era baixo, troncudo, com aqueles bigodes fartos, retorcidos nas extremidades, para cima. Com o passar dos anos, o coleguismo entre ambos transformou-se numa sólida amizade.

O exercício de sua atividade exigia dele uma habilidade própria dos contorcionistas, uma agilidade ímpar nos estribos e uma memória fotográfica, pois, a cada parada, desciam e subiam passageiros, e a cobrança da passagem não podia ser negligenciada. Era impensável a descortesia em solicitar o pagamento de quem já o efetuara.

Seu Manuel, além das habilidades mencionadas, possuía o dom de declamar versos de improviso e o fazia durante o transcurso da viagem, sem jamais, em tempo algum, repeti-los, no espaço compreendido entre o início e o ponto final da viagem.

Era uma figura folclórica e, talvez por isso, nenhum passageiro habitual dava o beiço, expressão da época, que significava deixar de pagar a passagem.

Outra característica de seu Manuel o condutor, digamos assim, era como procedia ao registrar o número de passagens cobradas. Ao acionar a cordinha específica o registrador que se assemelhava ao mostrador de um relógio grande, trocava o número totalizado anteriormente, acrescentando mais um, e assim, sucessivamente. Como um mantra com sotaque português, ouvia-se dele: “- Ô raios, dois pra mim e três pra Light”.

No final do dia, a companhia era subtraída em 40% de suas receitas brutas, que eram transformadas em materiais de construção pelo seu Manuel, o condutor.

Essa figura prosaica era incansável, em suas folgas. Pegava literalmente, na massa, ajudando o pedreiro que construía a sua próxima casa e, com desvelo extremado, cuidava do destino de suas finanças.

Seus sonhos de possuir uma vila de casas, de forma metódica, eram realizados, mediante o epíteto: “- Ô raios, dois pra mim e três pra Light”.

A vida seguia seu curso natural, com os atrasos constantes dos bondes, e o 66 não era exceção à regra. Sua peculiaridade era a concisão na resposta de seu Joaquim, o motorneiro, sempre com a indefectível frase: “- É um problema” e seu Manuel, o condutor, com seu humor constante, suas declamações poéticas e a famosa expressão ao registrar as passagens: “- Ô raios, dois pra mim e três pra Light”.

Seu Joaquim era casado e tinha uma prole de cinco filhos. Ao contrário de sua vida profissional, na particular negligenciava a família, era totalmente ausente. Enfim, levava sua vida fora dos trilhos, materializando uma ironia atroz pois, no seu ofício, jamais provocara um descarilhamento sequer.

Quando sua mulher, chegando às raias do desespero na administração da casa e dos filhos reclamava, seu Joaquim, ouvia tudo de forma impassível e, ao final da cantilena sofrida, utilizava-se de sua expressão imperecível: “- É um problema.” A partir daí, podia cair pedaços de céu velho e cacos de estrelas, que nada o alterava. As preocupações nunca o atormentavam. Para os familiares, sua conduta era condenável. Os comentários que chegavam aos seus ouvidos eram solenemente ignorados.

Seu Manuel, o condutor, era um solteirão – por gosto e convicção. Tinha suas amantes, sempre temporárias, pois, não admitia criar vínculos mais profundos. O amor era, para ele, o mesmo que o usuário do bonde: - um passageiro.

Seu projeto de vida estava dentro do prazo estimado e o custo poderia ter algum estouro orçamentário. Afinal, sua sócia, a Light, era a provedora. Bastava trocar a partilha dos números de seu mantra. Viveria de renda, dos aluguéis de sua vila de casas.

A vida seguia seu curso, com a mesma imprecisão do talvegue.

As seqüelas do tempo fizeram estragos na vida de seu Manuel. O viço começara a desaparecer e, na falta de um diagnóstico preciso, sua doença agravava-se. Após poucos meses, encontrava-se entrevado em uma cama. O destino punia-o pelos os excessos de contorcionismos de sua vida funcional, mediante uma contabilidade perversa.

O avanço na doença do Manuel provocou um recuo devastador na auto-estima de Joaquim. A ausência do amigo levou-o a procurar o setor de pessoal da empresa, pedindo transferência de linha.

Em questão de semanas, em razão de sua ficha profissional, fora transferido para o bonde do Departamento dos Correios e Telégrafos, que fazia o transporte da carga postal. Esse bonde tinha as seguintes peculiaridades: não tinha número, apenas a inscrição DCT, trabalhava apenas o motorneiro e sua cor verde contrastava aos demais, que eram cinza.

Joaquim visitava o amigo regularmente, sempre ouvindo as lamúrias do Manuel, constatando um quadro dolorido e deprimente, que avançava a cada semana.

Passado um mês, Manuel caminhava, inexoravelmente, para o fim.

Joaquim testemunhou que Manuel tinha plena consciência de sua morte chegando.

A morte, sempre insensível, por concessão inusual, permitiu a Manuel mais 66 minutos de vida.

Arfante, com os olhos fixos num ponto invisível, Manuel, dirigindo-se a Joaquim, seu único amigo, relatou-lhe todas as suas perplexidades e expressou seu medo, seu pavor da morte, da incerteza de encontrar-se com Deus ou com o diabo.

O tempo concedido esgotava-se.

Seu corpo entrou em estertores, a vida estava por um fio invisível. Aguardava, de seu amigo, suas últimas palavras de conforto de que desesperadamente necessitava, e o contato da mão amiga para segurar a sua dando, assim, segurança na passagem iminente.

Joaquim, com uma tristeza infinda, com as mãos trêmulas e com os dedos entrelaçados às suas próprias costas, reclina-se sobre a cama do moribundo e diz: “- É um problema.”

Nos segundos finais, antes de sua mente desligar-se da vida, por revolta provocada pela insensibilidade do amigo ou por força do costume, profere sua observação final: “- Ô raios”. E parte para um destino incerto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ruínas


Aquele senhor, parado diante de um quadro denominado Ruínas, chamara a atenção dos seguranças do museu.

Apoiado em uma bengala, com o corpo curvado pelo peso da vida quedava-se, havia duas horas, com o olhar petrificado na imagem do quadro, aliado a uma imobilidade corpórea, denotando o sentimento que a realidade da obra e sua beleza despertavam naquele ser.

As dimensões do quadro eram reduzidas, contrapondo-se à grandeza que o pintor conseguira exprimir.

A pintura a óleo, em seu primeiro plano, mostrava as ruínas de uma construção indefinida, na sua forma e datação e, em segundo plano, uma árvore frondosa, com todos os seus galhos recurvados para a direita, transmitindo a ação de um vento impetuoso sobre aquele ambiente, tendo ao fundo um céu em transição, tendendo para uma melhoria nas condições atmosféricas adversas.

Os escombros físicos, dependendo da qualidade do olhar e por mais paradoxal que seja, podem ser belos, apesar de ruínas.

Na mente daquele observador em êxtase, o pensamento dicotômico entre as ruínas físicas e morais, representando a destruição de um período, cuja extensão pode ser aferida em séculos ou em parcas dezenas de anos mas, em ambos os casos, medindo fragmentos de vidas.

O exercício da reconstrução daquela imagem, produzido mediante o devaneio daquele senhor frágil, transformou a impossibilidade física de aglutinar os materiais fragmentados e os inexistentes – perdidos ou destruídos pela exaustão do tempo – em uma reconstituição concreta, efetiva.

Um sorriso largo delineou-se naquele rosto envelhecido. Mesmo que momentaneamente, o rejuvenescimento de um passado remoto fez-se presente, pois a restauração de uma época, pela força criativa de sua mente, permitiu a junção dos escombros, existentes ou não, com as amálgamas do passado, a recuperação de registros de memória tornados inacessíveis.

Curvado, com passos trôpegos e com o rosto encharcado por lágrimas incontidas, dirigiu-se à saída, sufocado pelos pensamentos recorrentes sobre seu passado.

Sob ruínas morais de diversos matizes, não suportara a palidez da morte nas faces de seus três filhos e de sua esposa, levados por um acidente automobilístico. A destruição, precoce e impiedosa, das vidas dos seus, transformou a sua em escombros.

A tragédia vivenciada levou-o a uma condenação eterna, as tormentas tornaram-se perpétuas. O vento das lembranças o conduzia às reminiscências, vergadas pelo amargor do sentimento inequívoco da injustiça perpetrada aos seus, desaparecidos pela ação de uma única pincelada, provocada pela mão insensível do destino, desse artista sem alma.

Ele era uma ruína que persistia ao tempo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Síndrome


Acabara de sair de seu turno de trabalho e, sabedor da impossibilidade de recolher-se a um ambiente de total privacidade, caminhou em direção à sua única e cotidiana opção: - a praça, que era de domínio público.

Sentou-se num banco o mais afastado possível, ligou seu gravador, que para ele representava o único e derradeiro amigo, e começou o seu monólogo:

- Falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada que concorre, apenas e tão somente, com o sólido mau-caratismo dos homens públicos desse país.

Sofro de diabetes, daltonismo e distimia. Que herança! Pensando bem, qualquer herança patrimonial é sinônima de desavenças, discórdias, desunião mas, por ser filho único, não sofreria desse desgosto. Não causava desapontamento o fato da penúria, da pobreza familiar, de não herdar valor pecuniário. Contudo, aquilo que foi transmitido por hereditariedade, do pai diabetes e daltonismo e da mãe a distimia, era uma perversa doação de genes desqualificados.

O trabalho numa firma terceirizada, afinal o custo Brasil era altíssimo (um verdadeiro mantra entoado pela classe empresarial), representava um excesso de serviço, em contraponto a um salário miserável. Não tinha opção e torturava-se no atendimento aos usuários de telefone, que lhe solicitavam informações sobre o número de determinados serviços públicos e o DDD de diversas cidades. Esse último tipo de atendimento, apesar de ser um agnóstico e sem grandes convicções, evocava em sua mente a figura do deus Pã (terror), aquele que suscita um medo por vezes infundado, mas sua mente associava o DDD pedido às suas doenças, que começavam com essa maldita letra “D”.

Olhara a hora e levantou-se, dirigindo-se ao local onde os famélicos saciavam sua fome, a urgência alimentar, a única coisa palpável na qual o Estado fazia-se presente para os deserdados da sorte.

Havia fila no restaurante popular, que continuava a cobrar 1 real, quantia irrisória para muitos. Entretanto, era comum a contagem de moedas para chegar-se ao valor cobrado. Gestos de solidariedade eram corriqueiros entre os necessitados, um miserável ajudava o outro a completar o valor cobrado.

Alimentado, retornava à praça.

Continuava seu monólogo até o fim da tarde, quando entrava na fila de um hotel, precário e decadente, que cobrava um preço módico para a dormida.

As regras eram rígidas. Às 22:00 horas a luz era cortada e às 06:00 horas todos eram compulsoriamente acordados, tendo o prazo de apenas uma hora para a higiene pessoal, que era feita num banheiro coletivo.

As dimensões daquilo que se podia denominar de quarto eram exíguas, em oposição à imensidão de problemas daquele ser vivente. Estirou-se no catre, na expectativa do sono reparador. Não conseguiu conciliar o sono. O pensamento recorrente o torturava.

No horário imposto, fez sua higiene pessoal. Devidamente vestido para nova jornada de trabalho, desceu as escadas de madeira que rangiam, em protesto por não suportarem o passar dos tempos, sustentando o peso de corpos errantes.

Ao adentrar na portaria da empresa foi saudado pelo vigilante: - “Bom dia, seu David”.

Na mesma hora, um curto-circuito nos neurotransmissores provocou um ataque, um surto mental. Começou a berrar alucinadamente, lançar impropérios, emitir palavras desconexas e quebrar tudo que estava estático em sua frente.

Continuava a berrar, mas o som emitido parecia ter menos intensidade, sendo suplantado pelo som da sirene da ambulância que o conduzia. Deitado numa maca, imobilizado por uma camisa de força, tinha por companhia o seu gravador e dois indivíduos vestidos de branco, uns brutamontes.

Fora levado a um hospital, exclusivo para diagnóstico e tratamento de problemas psiquiátricos.

Os médicos, após ouvirem o relato de suas ações e reações, sedaram-no.

O movimento estava atípico naquela unidade de saúde e um dos médicos, olhando o pertence (gravador) do paciente, resolveu escutar o que estava gravado. Poderiam ser músicas, que quebrariam a monotonia do plantão. Para sua surpresa, na fita existia o diário do paciente.

Infelizmente, as informações registradas alcançavam, apenas e tão somente, dois dias. O dia presente, onde estavam gravados a data e o horário do começo do seu dia, e uma breve menção ao café tomado no bar. Entretanto, eram os registros do dia anterior que forneciam ao Doutor Dário uma fonte preciosa para consubstanciar o seu diagnóstico.

Providenciou a degravação da fita, gerando o texto acima, tomando a liberdade de grifar todas as palavras que iniciavam com a letra “d”, que o ajudariam na confecção de seu laudo.

Resultado: - Foi encaminhado a um dos poucos manicômios remanescentes, em razão da nova política de saúde pública prescrever, como local mais adequado para tratamento de pessoas portadoras de problemas mentais, seus próprios lares, junto a seus familiares.

David era um paciente dócil, não criava problemas para tomar as doses cavalares de fármacos e até ajudava, algumas vezes, os companheiros de insânia.

Nos horários dedicados ao lazer, era sempre visto no banco mais distante, ocupado com seus clientes imaginários, fornecendo os DDDs solicitados. Com o passar do tempo, sua expressão facial modificava-se, provavelmente fazendo a eterna associação com as iniciais de suas doenças (diabetes, daltonismo, distimia).

Ignorava, por sua fragilidade mental, mais uma doença incorporada ao seu ser: depressão (sempre com aquela letra “d”, aziaga).

A deterioração mental progredia, assim como o temor da morte, pois não sabia se encontraria Deus ou o diabo.

A síndrome da letra “D” levou-o à demência total.

Numa madrugada, após uma convulsão severa, sofreu dois infartos e desencarnou.

O atestado de óbito devidamente preenchido, era a última ironia perpetrada contra o David, pois a primeira fora sua certidão de nascimento, cujo prenome registrara o agourento “D”, no início e ao final do mesmo. Era a última pois, como dia e hora de seu falecimento, constavam: - dia dois de dezembro, às duas horas da madrugada.


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Protesto para um senador

Enviado em 12/02/2009 - lógico que foi ignorado.

Sr. Senador Mário Couto,

O governo acaba de precificar a vida dos aposentados em 5,92%. Não estabelecerei mais nenhum juízo de valor, pois, o percentual denota de forma cabal e definitiva o limite do ultraje.

Na minha idade provecta, falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada, que concorre, apenas e tão somente, com a sólida perfídia dos homens públicos desse país.

Não tenho direito à voz, e caso me outorgassem, emprestaria de Breno, general gaulês, a expressão: “vae victis” (‘Ai dos vencidos’).

Lamento Exa., principalmente, por essa legião de desassistidos, pois a atitude da quase totalidade dos parlamentares assemelha-se à dos ladravazes, dos mais sanguinários criminosos. Enfim, comparando-os, somos impelidos, amarguradamente, a concluir:
- são todos do mesmo ofício. Utilizam-se da representação popular como valhacouto às suas condutas marginais.

Quando um jornalista inglês perguntou se era difícil governar os italianos, Mussolini respondeu:
- "Não é difícil. É inútil”. Por extensão, esse é o sentimento que perpassa pelos pensamentos dos brasileiros que, por sorte ou destino, não tiveram seus neurônios destruídos pela fome e hoje, afásicos, não tem o direito de discernirem de forma definitiva:
- o parlamento brasileiro, além de inútil, é venal e fratricida.

Idêntico aos mercadores da fé que vendem deus, através das concessões públicas (rádios e televisões) – que país! - e dos templos, espoliando os famintos de esperança – pasme! – as seculares sacolas de coleta de metais perdem espaço para as famigeradas maquininhas de crédito - os parlamentares avocam o vocábulo democracia sempre com energia excessiva, tanto na gesticulação como na fala, com o eixo comum ao dos mercantes acima, para iludirem, subtraírem os míseros direitos (saúde, educação, etc.) dos deserdados da sorte.

Outrora os fariseus, ao ouvirem uma blasfêmia ou uma profanação da Lei, rasgavam suas vestes em sinal de protesto. Hoje, quem está desnudado é o povo, pela ação dos parlamentares, dignos representantes de seus vis interesses.

Perdi a fé em Deus e nos homens.

Certamente, não preciso escusar-me pelo que redijo, agravado por escrever mal, pois V.Exa. desconhecerá esse arrazoado ou, no máximo, sua assessoria fará uma leitura dinâmica e poderá, de forma protocolar, acusar o recebimento. Respeitosamente, peço que não o façam.

Prefiro manter-me rotulado com a alcunha que o velho bardo grego, Homero, na sua Rapsódia de Ulisses tornou definitiva, e que V.Exa. não desconhece:
- ao embebedar o Ciclope, para fugir da morte, Ulisses teve o cuidado de dizer ao monstro que seu nome era NINGUÉM.

Respeitosamente,

Paulo Roberto Faria de Castro ou, com o “patronímico” imposto (sem ironia) pelo governo, pelo CPF – número tal (logicamente, ao enviar para o aludido senador, declinei o número completo do mesmo).

Crédito: Alan Marques (foto)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Desqualificando o Diabo (que país!)


O Coisa Ruim, o Diabo, vagava pelo espaço terrestre para distrair o espírito, quando deparou-se com a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Um calafrio instantâneo percorreu seu corpo, pois o número 3 (três) não era, definitivamente, seu dígito de sorte.

Afinal, como é de conhecimento de todos, foi a Santíssima Trindade (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) que o defenestrou do paraíso, juntamente com seus asseclas (assessores), quando aventuraram-se num golpe para conquistar o poder eterno.

Sua primeira reação foi sumir daquele local imediatamente. Contudo, lembrando-se de sua última sessão de análise, controlou-se.

Apesar de ser um anjo decaído possuía, ainda, os poderes da onipresença e da invisibilidade.

Percorreu o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, a Esplanada dos Ministérios e testemunhou infindáveis transgressões que, variavam, apenas, em gênero, número e grau: - trapaças inomináveis, acordos cavilosos, traições múltiplas ao povo, etc. Em tempo real, graças à faculdade da ubiqüidade, assistia uma legião de deserdados da sorte, massacrados pela fome, pela ignorância, pela ausência de políticas sociais, abandonados na velhice e na tenra idade. O diabo ficou perplexo.

O Coisa Ruim passou da letargia à depressão, em milionésimos de segundo. Afinal ele, com seus atos e feitos praticados desde tempos imemoriais, não passava de um neófito na arte do mal.

Numa explosão diabólica, reuniu forças e, com passos trôpegos, presenciou uma sessão do Pleno do Supremo Tribunal Federal (STF). Em suas retinas seculares ficou registrada, de forma indelével, a maior concentração de vaidades de todos os tempos.

Entretanto, a gota d’água ou, melhor dizendo, a gota de enxofre que faltava, caiu quando ouviu o voto do Ministro Relator, sustentando o princípio da insignificância sobre a questão levada a pregão e acompanhada, aliás, por unanimidade, pelo colendo Tribunal.

O Diabo, cuja aversão à perda era de origem traumática (expulsão peremptória do paraíso), achara que o aludido princípio, por analogia, poderia fundamentar uma ação, a ser ajuizada no Tribunal do Céu, para reabilitá-lo, subscrita por uma legião de advogados que dissentiam de suas ações, a seu ver, diabólicas, mas aos olhos dos causídicos, não. Satanás atribuía essa oposição à recente divulgação de um censo, por categoria profissional no inferno, onde massivamente os operadores da lei suplantavam o somatório das demais.

Em profunda depressão, cabisbaixo, com o rabo entre as pernas, literalmente, o Diabo tomou o caminho do seu Reino de Trevas.

O Pai da Mentira, cujo registro consta no Cartório dos Tempos, viu sua paternidade colocada à prova, diante da naturalidade e intimidade com que os mandatários dos poderes constituídos do Brasil a manipulavam, com desvelo paternal.

Em seu retorno ao lar compreendeu, de forma definitiva, a alegria permanente dos brasileiros, contrapondo-se às demais nacionalidades do mundo, no seu reino de choro e ranger de dentes. Afinal, o seu domínio era um eterno paraíso, comparado com os dias infernais vividos por eles no Brasil.