terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vida ordinária


Ordinariamente (habitualmente) seguia de forma ordinária (medíocre) a sua vida desgraçadamente vulgar, comum, ordinária.

Impingido pelo destino à condição de ordinário, a sua insignificância em relação aos demais não provocava nenhuma revolta, nenhuma indignação, afinal, desde a tenra idade, pressentira que sua existência estaria vestida pelo avesso da melhor sorte.

Na fase adulta, a sua única certeza era de que dias piores viriam. E como chegaram. Vieram em uma profusão assustadora, na forma e no conteúdo.

Descansava seu corpo alquebrado num barraco, tentando conciliar o sono em vão. Morava na parte mais alta e acidentada do morro, cujo acesso era por uma intrigada rede de vielas bêbadas e disformes.

Nas últimas semanas, a insônia, essa filha bastarda do sono cumpria a determinação paterna à risca, impingindo o seu transtorno. Privando aquele deserdado da sorte do estágio fisiológico reparador que é caracterizado pela insensibilidade dos sentidos e pelo repouso que proporciona.

Ao longo de toda a sua existência sempre fora punido com sonhos em preto e branco, jamais a cores, mas, agora, nem aqueles sonhos de décima-quinta categoria.

Apesar de tudo, resistia e sobrevivia fazendo os biscates possíveis naquela comunidade paupérrima e por serem quase indigentes, pagavam pelos seus serviços valores miseráveis.

Como não fossem suficientes as suas purgações externas, punia o seu corpo com o vício dos cigarros baratos e das cachaças suspeitas, desta forma, pela fumaça incensava e pelo líquido encharcava sua alma, purificando-a.

Era um anticlerical extremado, mas de uma fé inabalável no Criador.

Insone e ofuscado pelos raios solares ao sair de seu barraco, não percebeu os movimentos das forças policiais e as do poder paralelo, o que foi fatal.

Velado por poucas pessoas numa das alamedas do cemitério, pois a despedida numa capela exigia recursos financeiros que não existiam, foram surpreendidos por gritos de uma mulher que em dedo em riste, gritava: Ordinário! Ordinário!

Ficaram perplexos. Afinal o termo ordinário definia o caixão ou o defunto?



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Agenda Mental


Definitivamente, melhor sorte não encontraria abrigo na vida.

Era uma figura de baixa estatura, frágil e de cabelos rarefeitos, apesar da pouca idade. Nada significativo para os seus, afinal a genética condenara e condenava os ramos masculinos daquela árvore genealógica, preservando as ramagens, por femininas.

A natureza também o inoculou com o destempero de uma inquietação quase incontida.

A sensação de ouvir sons quase ininterruptos, vozes incessantes que jamais se quedavam, decorria de sua surdez quase total. Por não ouvir, ouvia em excesso por culpa dos impulsos desordenados do seu cérebro.

O tormento da surdez concorria, apenas com a mudez definitiva.

Essas restrições deveriam ser o suficiente e o bastante para qualquer ser humano, mas não para ele.

Impossibilitado desde sempre a comunicar-se com os demais, os seus gestos eram parcos e decisivos para o pleno desconhecimento dos seus sentimentos, desejos e verdades.

Visto de outra forma, a sua comunicação era de uma indigência que cotejava apenas com a miséria familiar.

Em síntese, a vida, na outra margem da vida daquele indivíduo o impossibilitava do partejamento de suas idéias que ficavam inscritas, somente nas páginas de suas anotações mentais.

O conhecimento de seus registros mentais constataria que a escuridão das letras, por analfabeto, não o impediram de tornar-se um sábio.

As suas assertivas decorriam das observações dos atos, dos fatos vivenciados e percebidos com a dimensão e com a inteireza daqueles que não sofrem influências externas, seja na forma ou no conteúdo. Avaliava tudo e todos com a marca da imparcialidade à dessemelhança da quimera perpetrada aos magistrados quanto à isenção impossível e irrealizável.

Desgraçadamente ficarão perdidos, intactos os seus registros, verdadeiros tratados de sabedoria e de tolerância que foram transcritos lucidamente nas páginas de sua agenda mental. Páginas pretéritas, páginas atuais e com algumas anotações já assinaladas, contemplando as folhas do futuro.

A vida e os indivíduos, caso tivessem acesso a essas informações, indiscutivelmente se transformariam e fariam que as relações de causas e efeitos fossem mais justas e perfeitas.

À vista desarmada, a deficiência daquele individuo fica adstrita apenas a sua pessoa.

Desafortunadamente, não – complemento eu.