terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Coisa feita

Era judeu. Antes que venha a sua mente o velho estereótipo “todo judeu é rico e avaro”, esclareço: para desgosto dele, Isaac, pertencia ao grupamento da exceção que valida toda a regra.

Pobre, dividia o espaço exíguo daquela casa suburbana com seus pais, judeus ortodoxos.

A bem da verdade tinha uma dificuldade de abrir a mão para cumprimentar as pessoas, talvez, por timidez ou predisposição genética.

O desgosto dos velhos era o filho professar a religião de forma heterodoxa.

Trabalhava como motorista numa filial de uma multinacional francesa. Era no dizer dos mais antigos, “um verdadeiro burro de carga”, ou, na calhordice atual do discurso gerencial, um empregado afinado com os valores da empresa.

Em suma, Isaac seguia à risca a maior maldição bíblica: “ganharás o pão com o suor do seu rosto” e, olha que era um preceito de outra religião, a católica.

Começou um relacionamento com uma morena que se transformou numa paixão avassaladora, em curtíssimo espaço de tempo.

Como em todo caminho existem os descaminhos, o dele era a religião de sua amada que frequentava um Centro Espírita, na qualidade de iniciada, era cambona (é o médium que participa nas giras de assistências como auxiliar dos Guias em terra).

Contornou o quanto pode os inúmeros convites feitos de acompanhá-la ao Centro, mas pressentiu que caso negasse o daquele momento, o relacionamento de ambos teria fim.

Chegaram momentos antes do início dos trabalhos.

Assistiu o ritual com certo enfado e num certo momento seu nome foi chamado para falar com um preto velho.

Diante da surpresa não opôs resistência.

Quando percebeu estava recebendo os passes costumeiros daquela entidade espiritual.

Refeito do espanto, dirigiu as seguintes palavras ao preto velho:

- “olha, eu não acredito em nada disso.”

O preto velho esboçou um sorriso e disse:

- “ixo num importa, o que importa é suncê tá aqui.”

Isaac ouviu aquelas palavras e ficou quieto.

O preto velho deu duas cachimbadas, cuspiu no chão e colocando sua mão direita sobre o ombro esquerdo de Isaac, disse:

- “mô fio, iziste coisa feita (trabalho feito para levar o mal) contra suncê... como diz na terra de suncês? ...... ah, é... tá prá acuntecê logo. Sumcê precisa de fazê um despacho (anular o trabalho) e listou o que era preciso.”

Aí não prestou. Isaac começou falar uma série de desaforos para o preto velho.

O preto velho ficou impassível e quando deu uma cachimbada, alguma coisa aconteceu, pois sua expressão mudou (havia recebido ordens de entidades superiores para desfazer a sua interferência, para atrasar o trabalho contra o consulente, quando ele havia colocado a sua mão no ombro de Isaac.)

O preto velho alterou sua voz e colocando sua mão sobre o ombro esquerdo de Isaac, disse:

- “tirei dêche” (e colocando a mão no ombro direito de Isaac), “agora: coloco nêche.”

O preto velho pediu ao ogã (que toca atabaques) um canto específico de preto velho e cantou para subir (desincorporou).

Isaac saiu gesticulando, blasfemando e foi embora antes de se Fechar a Gira (encerrar os trabalhos no terreiro).

No dia seguinte foi para o trabalho e depois do expediente, como de costume, levou o carro para casa. Era o único motorista que gozava desse privilégio, por determinação expressa do gerente da área.

Seguindo sua rotina, parou na padaria perto de casa e comprou um saco de pão e quando parou para abrir o portão daquele arremedo de garagem foi surpreendido por um assaltante com arma em punho, gritando: “perdeu malandro”. Entregou as chaves do carro que ainda nem estava emplacado e chegou a pensar em pedir o saco de pães, no que tange aos seus documentos pessoais esses eram irrelevantes, pois, providenciaria as 2ª. vias de graça. Contudo, o instinto de preservação falou mais alto e ficou calado.
Quanto ao carro? Dane-se ... é da empresa – pensou ele.

Foi à delegacia e fez os registros necessários e saiu com o Boletim de Ocorrência (BO).

Acordou mais cedo do que de costume, pois, precisava pegar três ônibus para chegar ao trabalho.

Para sua surpresa, apenas o pessoal administrativo estava na empresa. A alta administração já estava, desde a tarde anterior, num hotel cinco estrelas em Angra, esperando a chegada do presidente internacional da empresa para um seminário sobre o novo plano estratégico.

Atordoado por não ter um funcionário com autoridade para tomar as devidas providências sobre o ocorrido na noite anterior, sua situação piorou quando um empregado veio com uma placa com o nome do presidente internacional da empresa e as chaves daquele carro especial (blindado), acrescido de um papel com o número do voo que trazia o presidente e o endereço onde deveria levá-lo.

Sem alternativas, seguiu para o Aeroporto Internacional Tom Jobim (antigo Galeão).

Houve atraso no vôo. O presidente avistou a placa com seu nome e dirigiu-se a Isaac que o conduziu ao veículo, por meio de mímicas, levando suas malas.

Desconhecia a estrada, mas para recuperar o atraso dirigiu numa velocidade excessiva por dezenas de quilômetros, até que o inesperado fez-se presente: passou a 160 km/h na frente da Patrulha Rodoviária.

Aliviou o pé e olhando pelo retrovisor viu a viatura já com as sirenes ligadas saindo do seu Posto e sem alternativa, deu a seta e parou no acostamento.

Os homens chegaram e utilizando daquele linguajar de praxe, fez as observações pertinentes e pediu os documentos. Isaac, trêmulo, tirou do bolso o BO, imaginando sair daquela situação com uma multa, além do esporro que já havia tomado.

Ledo engano. Mesmo explicando que estava levando o presidente de uma multinacional francesa para um seminário importante, as autoridades policiais ficaram irredutíveis: o carro somente seguiria viagem com a presença de um motorista com a carteira de motorista em dia.

O presidente que assistia a tudo calado, mas como entendia e arranhava um pouco o português, entendeu quando os policiais falaram em carteira de motorista e mostrou a sua, internacional.

Em resumo, seguiram viagem com o presidente dirigindo e Isaac no banco do carona.

Quando chegaram, o alto escalão da filial estava esperando o presidente, todos a caráter, de terno e gravata, na entrada do hotel.

A perplexidade tomou conta de todos ao verem o presidente dirigindo e o motorista de carona. Diversos pensamentos passaram na cabeça de todos, mas os olhares eram únicos todos dirigidos ao gerente de logística (chefe de Isaac).

Quando começaram os cumprimentos, o gerente do Isaac se esquivou daquele ritual e chamando o motorista de lado e de forma seca informou-o que estava demitido de forma sumária e que fosse na semana seguinte ao RH da empresa, para receber seus direitos.

Isaac, perplexo e desorientado procurou o caminho de casa, mas jura que naquele momento ouviu a voz do preto velho dizendo:

hum, hum ... suncê num fez ouvidor do faladô do véio, agora mi fio, guenta”.

Fez uma pesquisa no Google Maps e achou o local ideal, na zona sul, bem longe de onde morava e foi às compras.

Sofreu até chegar sexta-feira e à meia-noite, todo vestido de branco, arriou o despacho (para anular o trabalho feito contra ele), naquela encruzilhada, previamente escolhida. O alguidar continha uma garrafa de anisete, velas, cigarrilhas e charutos para todos os gostos.

Quando fazia as reverências de praxe com os braços estendidos, surge um carro que vai na sua direção e, logicamente, do despacho.

O motorista, um temeroso, reduz a marcha e quando põe os olhos no rapaz vestido de branco e no despacho, começa a tremer de forma incontrolável e a suar frio em bicas, afinal ele reconheceu Isaac, o judeu, pois até poucos dias atrás era seu motorista preferido e que o demitira de forma abrupta.

Místico, ou melhor, um estelionatário da fé, entrou em pânico. O trabalho arriado era contra ele, não tinha dúvida.

Não dormiu. E quando deu 8:00h da manhã, ligou para o chefe do RH e pediu que ele enviasse um subordinado, apesar de não ter expediente na empresa, à casa de Isaac para comunicá-lo que retornasse, imediatamente, ao trabalho, na segunda-feira, pois, a demissão fora um equívoco.

Eu que sou ateu, acho que os fatos acima foram meras coincidências, mas no fundo, no fundo, não sei não...









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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A natureza humana

Percebido por muitos como uma figura estranha, e considerado como um ser sombrio e assustador pelos demais, a adição aritmética dos sentimentos externados dava como resultado um todo deplorável.

Como objeto de repulsa, era evitado quando não, destratado, mas sempre com reservas, afinal o medo de uma hipotética retaliação inscrita nas cóleras dos diversos artigos, parágrafos, incisos e alíneas do Código Penal, advinda daquele indivíduo, cerceavam a essência dos seus instintos primitivos.

Surgira há anos naquela comunidade anômala, esquisita mesmo. Afinal, sua origem era singular em relação aos demais povoados ou cidades interioranas. Todas as terras e benfeitorias pertenciam a um empreendimento fabril.

A sobrevivência daquela população, nos seus diversos estados de necessidades, dependia de uma entidade privada que privava a todos de diversos direitos pretensamente protegidos pela Carta da República, dentre os quais, um, que em tese, deveria ser inalienável e irrevogável, o da liberdade. Uma mísera alteração na cor de um muro dependia da anuência do gestor do empreendimento, apenas para exemplificar.

Com o passar dos anos, a qualidade do olhar daquelas pessoas sobre aquela criatura não sofrera qualquer mudança. Ele, por sua vez, mantinha-se incólume no seu modo de viver, sempre arredio e avaro nas palavras.

Não passava de um ermitão e aquela vida reclusa, mesmo com todas as limitações decorrentes da escolha era o suficiente e o bastante para ele.

Observado com os sentimentos da alma era um homem que merecia uma complementação, um advérbio, mas não os vinculados com a circunstância de tempo, modo, lugar, afirmação, negação, dúvida, mas de intensidade.

Sim. Era um homem tão sozinho.

O seu abandono e a sua renúncia da vida ordinariamente normal foram usurpados numa manhã de domingo com a chegada de uma comitiva de carros, no exato momento em que os crédulos saíam dos seus cultos e os afeitos ao ócio e a desqualificação da vida alheia, perambulavam pela praça principal a passos lentos em contraposição à velocidade incontrolável de suas línguas viperinas.

Excitados e prontos a expressarem seus mais viscerais desprezos por aquele ser invulgar, quedaram-se ao ouvirem de um dos estranhos que a procura de anos a fio terminara e assim poderiam encerrar um testamento bilionário, onde aquele ser solitário era o único herdeiro.

Meses passados, desde a entrada daquele indivíduo em um dos carros sobre os seus mais veementes protestos, o gestor do empreendimento convoca aquela comunidade dissonante para uma reunião, em caráter excepcional e de forma coercitiva.

O murmurinho gerado por observações e preocupações dos presentes sobre seus futuros, cessa com a entrada do preposto do patrão.

De forma direta, comunica que o dono daquelas terras e, consequentemente do empreendimento, determinara que fossem lavrados em cartório os títulos de propriedades das casas para os respectivos moradores, às expensas da empresa.

O espaço percorrido entre os gritos destoantes de felicidade à crítica foi proporcional à inexistência de caráter daquela turba.

Informado da insânia daqueles moradores, mas omitindo as partes mais cruéis que foram vociferadas por aquela gentalha, aquele gestor acrescentou que todos, sem exceção (vejam o absurdo: Desqualificaram até o desvio da regra geral que é a exceção – digo eu) afirmaram que o seu gesto não passava de uma mísera obrigação e ponto final.

Calmo e sereno, aquele ser que compartilhou apenas o ar com aquelas pessoas, durante anos e, sabedor que teria sucumbido de fome e de tédio caso necessitasse de um mísero gesto de solidariedade, sordidamente ditas como humanas, foi sucinto na sua análise:

“Prezado, é melhor escutar isso, do que ser surdo”.

Intolerante e inconveniente que sou, pois, nada tenho a ver com a estória, não resisto e registro a minha indignação com uma verdade pétrea: “o ser humano é uma causa perdida.”









segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ele e ele mesmo.

Conversa a sós e mesmo assim as discussões eram sempre  acaloradas  e a sensação de quem assistia e percebia as suas expressões faciais  não tinha nenhum resquício de dúvida: ele saíra perdedor daquela contenda, contra ele mesmo.

Cabisbaixo, quase sem fôlego, retirava-se do local da controvérsia fosse no trabalho, na rua ou em casa, em busca de paz e de argumentos para uma próxima discussão, que à medida que o tempo passava, era sempre mais próxima.

Não... não era louco, um demente. A sua atitude ressentia os seus primeiros 15 anos de vida, onde não conseguia exprimir um mísero som corrente.

Sempre fora objeto de rejeição, de gozações impiedosas nas ruas e, desgraçadamente, também no convívio familiar.

A família, sem posses, bem que tentou nesses serviços públicos que aviltam a dignidade humana, sempre com vagas para atendimento marcadas para meses depois, um tratamento com profissionais de psicologia e fonoaudiologia.

Tudo em vão. Quando cumpriam as datas marcadas, o tempo de atendimento era exíguo e assim, depois de muitas idas e vindas abandonou as idas (não somente as da busca de resolução ou minização do problema que em nome da verdade nunca foi seriamente avaliado, mas pelo esgotamento, pela falta de paciência, pelo excesso do descaso).

Numa dessas trapalhadas do destino, abandonado na solidão do seu quarto, deparou-se com uma revista de seu irmão mais velho, cujo conteúdo era um exemplar de mulheres nuas para todos os gostos e desejos.

Veio uma arritmia, uma sudorese pela visão de uma calipígia que merecera a sensibilidade do editor, em colocá-la na página central da publicação.

Um comichão estranho percorreu a parte inferior do seu corpo, afinal era a primeira vez que via uma mulher desnuda, e apesar de não ser ao vivo era pelo menos a cores.

Aquela reação do organismo ao estímulo externo foi um êxtase menor, subalterno, diante de um arrebatamento muito maior e divinamente prazeroso ao sentir fluir de suas cordas vocais uma fala súbita sem grandes repetições ou prolongamentos, características da sua tartamudez.

Sem aqueles enormes tropeços que caracterizavam a sua falta de fluência verbal, saiu um sonoro:

“Caralho”.

Da situação de tartamudo a posição de prolixo passou-se ainda algum tempo.

Hoje comete o excesso de falar, de discutir com os outros e consigo próprio num tom adequado e com uma dicção perfeita, mas ao ver uma calipígia a gagueira retorna, acompanhada sempre daquela palavra emitida naquela ocasião.

Que coisa! A vida é do ...... (bem, deixa prá lá), mas que é, é.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ignorância

Não estava nos melhores dos seus piores dias.

Anoitecia. Sem abrigo procurou um canto, pois o início da noite começava a surgir.

Encostou-se num muro que à sua semelhança demonstrava o passar do tempo com toda a sua crueldade.

Despertou de um breve cochilo com uma cantoria que vinha de um grupo que dançava ao sabor dos ritmos dos sons emitidos pelos cantos.

Irritadiço pela interrupção de seu breve afastamento da realidade, pelo despertar abrupto, levantou-se e foi para o local onde aquelas pessoas que trajavam roupas estranhas e dançavam haviam se dispersado há pouco tempo.

Os seus olhos ficaram esbugalhados ao mesmo tempo em que uma salivação de outro mundo inundou a sua boca que por pouco não o levou a uma asfixia.

No chão estavam diversas comidas sobre pratos enormes de barros (alguidares) e cachaças (marrafos) de todo tipo e qualidade, além de uma infinidade de cigarrilhas e charutos para os gostos mais variados.

As velas acesas tremulantes davam um ar de imponência para aquele lauto jantar, no seu sentir.

Como não-iniciado desconhecia que estava diante de um boró, pagamento que se faz em troca de um trabalho espiritual ou de oferendas a entidades, empreendida por um canjerê (reunião de pessoas para a prática de cerimônias religiosas africanas).

Não vacilou. Avançou sobre uma galinha e a cada naco mordido, um gole substancioso de cachaça acompanhava aquela fome ancestral.

Fartou-se. Acendeu uma cigarrilha e não saciado apelou para um charuto calibre 45.

Lembra que escutou o badalar dos sinos da igreja vizinha que proclamava meia-noite, a hora grande.

No último badalo é que o bicho pegou.

Começou com um arrepio que percorreu todo o seu corpo e em seguida de um tremor lento no início e totalmente descontrolado no final.

O seu anjo da guarda que já tinha diversas anotações desabonadoras no seu registro no cartório do Céu, vendo que não tinha condições objetivas para opor-se aquela legião de desafetos não titubeou, bateu asas e partiu para um local incerto (dizem que conseguiu um indulto, mediante um habeas corpus impetrado pelo único advogado existente no céu).

Começou a sentir safanões, rasteiras, rabo-de-arraia, meia-lua e outros golpes traumatizantes de capoeira que vinham do nada. Mesmo zonzo começou a escutar uma língua estranha jamais ouvida.

Para seu conforto o que se passou depois a sua consciência não registrou absolutamente nada.

Tomou um verdadeiro sacode iaiá.

A quizumba formada por aquelas entidades que queriam descer ao mesmo tempo, através de seu corpo (para os iniciados: cavalo) decorria exclusivamente do local, afinal ele, minutos antes, estava encostado no murro de uma calunga pequena (cemitério).

Naquele momento o seu udu (destino) estava complicado e piorava porque alguns espíritos no primeiro estágio de evolução confundiam sua careca de longa data, como tivesse catulado, isto é, cortado o cabelo, como médium fosse, como preparação para sua iniciação. E essa confusão fez o cavalo (corpo do pobre coitado) apanhar muito, pois, a quizila (antipatia, inimizade) desses espíritos bem inferiores entendia que ele havia descumprido a ordem de não ingerir os alimentos e acender os pitos (cigarrilha e charuto). O pau comeu.

Aquele perna de calça (homem) acordou dentro de uma ambulância às 10 horas da manhã, mais esfarrapado do que de costume e gemendo. O corpo em frangalhos.

Adentrou a casa grande (hospital) e ficou horas aguardando o atendimento, não por interferência daquelas entidades, mas de outra, a entidade estatal que prima pela desídia.

Depois de horas, seu corpo foi fechado pelo trançar de várias linhas cirúrgicas.

E depois dizem que a ignorância protege. Ele precisava conhecer pelo menos a palavra agô que significa pedir licença, permissão ou perdão.

Sendo ateu, mas não burro, procuro saber o mínimo sobre todos os credos, afinal posso estar enganado e acabar caindo numa esparrela dessa ou em outra.





sábado, 23 de junho de 2012

Um Casamento


Casaram sob o protesto de ambas as famílias e como não fosse o bastante teriam a rejeição, também, dos títulos protestados, na figura dos seus credores caso soubessem desse matrimonio, pois, se no campo individual as diversas investidas para receber foram em vão, o que esperar então da união daqueles dois devedores contumazes.

Foram viver na periferia de um subúrbio da cidade.

Ele acordava às 04:30 h e caminhava mais de 20 minutos sobre uma estradinha de terra esburacada, no escuro, pela inexistência de iluminação pública, para chegar à estação de trem onde invariavelmente, mediante diversos artifícios, burlava o sistema e não pagava a passagem.

O emprego de escriturário no centro da cidade era de uma remuneração indigna e após o seu almoço costumeiro (pão com banana), dirigia-se à banca de jornais da esquina e filava o caderno de classificados à procura de empregos.

Naqueles anos 70, do século passado, empregos existiam.

Em menos de quatro anos trocara de emprego seis vezes, sempre na busca de melhorias salariais, mas sempre convivendo com ligações diárias da esposa para fiscalizá-lo nesse período. Pedira demissão de cinco empregos e fora demitido de outro por conta da esposa.

A razão da demissão foi em função da presença da esposa no seu trabalho, onde provocou uma baixaria indescritível com a recepcionista, uma moça tímida, recatada que se dirigia a todos no escritório sempre com o pronome de tratamento senhor, de forma a manter o desejado distanciamento das pessoas para evitar possíveis intimidades.

Aquela esposa de comportamento reprovável nas suas atitudes e desclassificada no seu linguajar desqualificou a recepcionista, esgotando todo seu estoque de palavras de baixo calão (o que veio provocar uma depressão profunda numa entidade denominada por Pomba Gira especialista no uso de palavras obscenas), acusando-a de ser amante de seu marido.

Com aquela confusão, todos do escritório, inclusive o chefe, vieram ao socorro da recepcionista e expulsaram à força aquela esposa descontrolada e desclassificada.

Tentaram acalmar a colega de trabalho de todas as formas. Ela chorava de forma incontida e o seu pensamento recorrente era: “acontecer isso, logo comigo que gosto tanto daquilo que os homens gostam: de mulheres...”.

Numa dessas sortes do destino, certo dia ao caminhar pelo Passeio Público deu de encontro com um antigo colega de escola. Da emoção do encontro e dos assuntos triviais, o colega declinou que ocupava um alto cargo numa empresa de grande porte.

Resultado: com o pistolão do colega foi contratado para um cargo que quintuplicava o seu último salário.

A vida melhorou. Mudaram-se para um local decente no subúrbio e tiveram condições de mobiliar a casa e cometer alguns excessos.

As relações interpessoais que estavam abaladas melhoraram e deram vazão aos seus primeiros desejos, a de terem quatro filhas e tiveram quatro filhos.

Com intuito de fazer carreira na empresa fez vestibular para uma faculdade de décima-quinta categoria e passou.

Com essa atitude a sua situação em casa transformou-se num lugar destinado ao castigo eterno, um verdadeiro inferno. A esposa reclamava de tudo: do horário que chegava; da inexistência de tempo para a família; mas o pior mesmo foi o aumento exponencial do ciúme da esposa com suas consequências.

O resultado daquela dupla jornada (trabalho e faculdade) foi um acúmulo de cansaço e com o espírito combalido e a carne fraca, arrumou uma amante.

A sua existência a partir daquele convívio paralelo foram os melhores de sua vida.

A esposa percebendo o espaçamento entre as conjunções carnais e a mudança no comportamento do marido não teve dúvidas: esse filho de uma puta tem uma amante.

Depois de dois meses de incertas na faculdade obteve a certeza absoluta de que fazia parte de um triangulo (isósceles) amoroso.

Pela primeira vez na vida controlou-se e regressou ao lar já com uma idéia fixa.

O marido chegou tarde como de costume; tomou banho e jantou assistindo um telejornal.

Depois foi para o quarto e deitou-se. Ela chegou logo depois.

Quando ele, por força do hábito desejou boa-noite, ela enfiou a mão debaixo do travesseiro e sacou um trinta e oito e colocou o cano na cabeça dele.

E começou a sessão de xingamentos, agressões, intercaladas sempre com a afirmação de que ele tinha uma amante. Tem ou não tem seu filho da puta? Eu vou te matar agora seu puto.

O pavor tomou conta de seu corpo ao sentir o revolver engatilhado nas suas têmporas. Tremia, suava frio, negava com uma gagueira extrema, sabendo da capacidade da esposa em atirar.

Ela insistia na pergunta e nos xingamentos. O desespero, o medo dele chegou ao ponto de ter uma completa distensão dos músculos do seu esfíncter anal, conjugado com uma indesejada incontinência urinária, em outras palavras, se cagou e se mijou todo.

Sentindo a presença da morte iminente, sem mais nenhum poder de convencimento e verificando o aumento na escala de loucura da esposa e aquela arma pronta a disparar, tentou a última argumentação.

Aqui abro um parêntese (provavelmente, as palavras que ia proferir foram sopradas em seu ouvido pela chegada inesperada do seu anjo de guarda que era uma figura sem a mínima responsabilidade pelo fato de não cumprir a sua missão de acompanhar aquele homem durante toda a vida) – fecho, portanto, o aludido sinal gráfico.

E agarrado nos fios tênues da esperança, proferiu gaguejando a seguinte frase: “Por favor, não atire porque o barulho vai acordar as crianças”.

Naquela noite as crianças tiveram o sono dos justos.





domingo, 10 de junho de 2012

Que situação

Não raramente eram objetos de comentários e esses não eram depreciativos, ao contrário, ressaltavam a relação afetuosa de ambos, mesmo após anos de casamento. Em síntese, eram uma referência.
Trabalhavam na mesma empresa, em atividades diversas e em departamentos distintos.
A localização física da empresa era privilegiada, em frente ao mar. A distância era quase irrelevante. Entre a empresa e as ondas da praia havia uns 60 metros a separá-los (uma nesga de areia de uns 20 metros, acrescido de um calçadão e de duas pistas de rolamentos (mão e contramão).
Apesar do estacionamento ser ao lado do seu local de trabalho, caminhava em direção ao prédio da esposa. Às vezes esperava, outras vezes não, e vinham abraçados para pegar o carro e irem almoçar juntos ou retornarem ao lar.
Ele era avaro com as palavras, ela ao contrário, prolixa. Ele sempre com um ar circunspecto, ela irradiando sorrisos. Nas diferenças se completavam.
A saída para o almoço era um congestionamento estúpido de carros.
Ao transpor o último quebra-mola sua atenção foi dirigida para a praia e a visão desfrutada fez seu cérebro entrar em curto-circuito.
O nível de testosterona subiu a um patamar insuportável e os efeitos secundários foram desastrosos, afinal o cérebro ainda não reiniciara as suas funções típicas. Resultado: um dos seus membros inferiores, precisamente, a perna direita que se encontrava flexionada, enrijeceu e o contato abrupto com o pedal do freio foi por muito pouco, um desastre, pois, o carro que vinha atrás quase entrou na traseira do dele.
Com a freada brusca, a esposa deu um berro pelo susto e dirigiu o rosto na direção do marido para questioná-lo e o que viu a deixou estática no primeiro momento.
O marido estava com a cabeça voltada em direção à praia, completamente embasbacado. Contemplava uma visão celestial, para ele, lógico: duas mulheres com seus corpos esculturais esbanjando sensualidade desfilavam nas areias com os seus seios completamente rígidos à mostra (topless).
A esposa, refeita, começou a esmurrar o marido e descarregar uma enxurrada de palavras de baixo calão.
Ele pedia calma, calma e completou com uma frase infeliz para o momento: ”meu bem, afinal o belo é para ser admirado”.
O barulho das buzinas dos carros parados atrás naquele momento eram ensurdecedoras, acrescidos de impropérios que variavam em gênero e grau.
Contrariado, ainda com o olhar voltado para aquelas sereias divinas, passou a primeira marcha e seguiu.
Ouviu mais um protesto choroso da esposa: ”já imaginou se um dos nossos conhecidos viu essa cena? Meu Deus! Que vergonha! Que humilhação!.”
Chegando ao restaurante, de forma preventiva, escolheu um lugar bem afastado e perguntou a esposa o que pretendia comer, antecipando a chegada do garçom.
Nada – respondeu ela. Perdi totalmente a fome.
Quando o garçom chegou e apresentou o cardápio, ele nem abriu e pediu: maminha.
Hein? - indagou o garçom (tinha uma grave deficiência auditiva).
Ele, com um sorriso maroto alterou o volume da voz e disse: MA-MI-NHA.
O garçom pediu suas escusas, responsabilizando o fornecedor e disse que não tinha maminha.
Imediatamente, com o mesmo timbre de voz anterior pediu: CHU-LE-TA.
O garçom assentiu e foi retirar o pedido.
Comeu ouvindo as reclamações da esposa, o choro contido que mesmo assim teimava em molhar seu rosto e encharcar a sua alma.
O retorno ao trabalho ocorreu num silêncio sepulcral.
Ela estava apavorada, com medo de chegar a sua sala e ouvir dos colegas comentários sobre o ocorrido.
Com passos lentos e claudicantes, arrastando a auto-estima ao rés do chão adentrou o recinto, trêmula, deu boa-tarde a todos e foi para sua mesa.
Passados alguns minutos, ouvindo apenas conversas usuais, tranqüilizou-se.
Lembrou de um serviço pendente a ser resolvido no edifício vizinho, pegou a papelada e saiu.
Saltou no 24 andar e dirigiu-se cabisbaixa pensando (”ah! vou ligar para mamãe e dizer que o santinho do genro dela não passa de um santo do pau oco”) e ao término do pensamento deu de encontro com um senhor de cabelos brancos. Pediu desculpas pelo esbarrão.
Por coincidência o choque corporal foi em frente à entrada do setor que viera resolver o problema.
Ele, um cavalheiro, abriu a porta e fez aquele gesto característico para que ela entrasse e depois a seguiu.
Quando ela ia perguntar ao primeiro funcionário sobre quem era o responsável para resolução do problema que trazia, aquele senhor, um gentleman, em alto e bom som convoca todos os colegas a pararem suas atividades para escutarem o que tinha a dizer e começou:
“Prezados, puta que pariu. Na saída do almoço quase que destruo o meu carro na traseira de outro, pois, o tarado do motorista da frente resolveu frear bruscamente seu carro para assistir a exibição de dois travestis na praia. E o pior é que o miserável estava acompanhado de uma mulher, com certeza devia ser a babaca da esposa.”
Ela, ao ouvir aquelas palavras começou com uma tremedeira incontrolável seguida de uma fraqueza anômala e seu último pensamento foi: poxa, se ainda fossem duas mulheres, mas dois travecos... e puf...desmaiou.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Mudança de uma vida


Chegara ao seu destino nas primeiras horas da manhã, iniciando assim, a sua nova trajetória de vida, diametralmente oposta a vivida.

Achou um hotelzinho que assemelhava em tudo ao seu estado de espírito. O imóvel estava em estado precário.

As regras do estabelecimento, escritas num quadro negro, anunciavam, em seu primeiro tópico, que o pagamento deveria ser efetuado, antecipadamente e em espécie.

Deparou-se com aquilo denominado de quarto. Paredes com infiltração, o cheiro de bolor era quase irrespirável, e o que habitualmente chama-se de cama, não passava de um catre, o que é pior, em estado lastimável.

Pagara um preço maior para ter o direito a um banheiro privativo, parte integrante daquele espaço exíguo, pois, a alternativa para redução do valor cobrado era utilização de banheiro coletivo.

Seguindo o ritual de passagem, previamente estabelecido, dirigira-se a uma instituição financeira, onde cumprindo os rituais de praxe, alugara um cofre, pagando o aluguel de dois anos, antecipadamente, e colocou seus cartões de crédito internacionais, os talões de cheques, passaporte, enfim, todos os documentos que o identificavam como cidadão, perante o Estado, além de sua carteira do Conselho de Medicina.

Toda sua história desaparecera com aquele gesto, tornando-se um pária, aos olhos míopes e severos da sociedade pela ausência de documentos e pelos valores monetários insignificantes que passara a portar.

Adequando-se a nova vida, após caminhar alguns quarteirões indagou sobre a existência de um determinado restaurante próximo, cujo preço era único, o de R$ 1,00 (um real), uma excepcional realização de um governo passado, e seguiu a pé para o endereço indicado, na Central do Brasil.

As filas eram extensas, denotando a quantidade de miseráveis e famélicos que não faziam parte da estatística oficial, por mera desídia do IBGE ou por uma oportuna conveniência do governo federal, ante a divulgação de seus índices de inserção social, sempre maquiados pela hipocrisia e manipulados sob os auspícios da postura de indiferença dos mandatários do país e da eterna ignorância dos mais vulneráveis socialmente.

Intensificara a sua qualidade de observação, atributos fundamentais para o exercício de sua recém abandonada profissão que seria postos à prova diante da visão daquele gueto de desesperanças, de penúrias e abandonos.

Escutava disfarçadamente as conversas daquela legião de famintos que versavam sobre as dificuldades vivenciadas; dos dramas inimagináveis em que eram atores compulsórios; sobre suas revoltas contidas, etc.

Utilizando-se de vocabulários extremamente pobres; ofendendo a gramática; a concordância, enfim, um verdadeiro tumulto vocabular que reproduzia suas vidas, produtos exclusivos do descaso eterno do Estado.

As lágrimas contidas, provocadas por testemunhar a nefasta liturgia daqueles seres marginalizados pela sociedade que com mãos sempre trêmulas, cumpriam o ritual da contagem aflita das moedas.

O pavor de não possuírem a totalidade do valor cobrado para mitigar suas fomes ancestrais que permitiriam um breve conforto às suas entranhas, condenados a uma pirofagia (ardência no estomago) crônica, produto do nada existente de formas sólidas, em seus estômagos, conjugado com excessos de líquidos presentes, pela generosidade dos sucos gástricos produzidos.

Os abastados pagavam e tomavam diversos tipos e sabores de sucos para se fartarem, enquanto os miseráveis recebiam de graça, o gástrico, mas para alimentarem, apenas e tão somente, as suas múltiplas úlceras duodenais.

O seu choro compulsivo e silencioso fora provocado ao assistir a solidariedade vigente entre os míseros, pois, os que não conseguiam o valor necessário eram ajudados por outros deserdados da sorte na complementação do numerário exigido, de forma espontânea e anônima.

Nesse momento percebeu que a vida e as pessoas não eram causas perdidas como acreditava, até aquele momento.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A desestruturação de um filho


A ansiedade era descabida naqueles pais que levavam o filhinho pela primeira vez ao pediatra.

Foram nove meses de eterna expectativa e a conseqüente preocupação sobre a hora do parto, mas felizmente tudo correu muito bem.

Na ante-sala do consultório o pai caminhava de um lado para outro, enquanto a mãe embalava seu rebento.

Foram chamados. O médico fez as indagações de praxe e enquanto fazia a avaliação clínica daquela criaturinha, escutava as observações, as convicções dos pais que eram completamente opostas entre si.

Ouviram as orientações do pediatra e antes de chegarem ao carro, uma discussão estava em andamento.

O médico atrasou a consulta da próxima criança por uns 15 minutos, pois entrou num processo reflexivo sobre o casal e o bebê que acabara de sair.

Deparara-se com casais imaturos em razão da precocidade de ambos, no arroubo da juventude não se preveniram, e agora, a mãe era uma criança com outra criança nos braços, entretanto, não era o caso daquele casal.

Ficou imaginando a educação daquela criaturinha pelos seus pais, que com os 50 minutos de consulta, os diagnosticou como portadores “poli-esculhabasiose”, um neologismo criado por ele, para resumir as incompatibilidades de conceitos, valores, limites, da distonia afetiva e emocional entre as pessoas, que no caso específico, era do casal, que inevitavelmente, seriam transmitidos para aquele ser recém-nascido.

Seu último pensamento, antes de adentrar o novo paciente foi: coitada da psique futura daquela criança.

O tempo seguia a ordem natural e a vida seguia muitas vezes a desordem ilógica da mesma.

Já adolescente, aguardava a sua primeira consulta com o psicólogo.

As neuroses transmitidas pelos pais e as adquiridas pela vida levaram-no àquela crise existencial.

Nas suas oscilações de humor, escutava as brigas constantes dos pais que se acusavam, mutuamente, sobre a criação deficiente e sobre as orientações inapropriadas transmitidas ao filho.

Com nove meses de tratamento psicológico, recuperara ou descobrira o equilíbrio emocional.

Era um renascimento.

Chegou a casa e de maneira educada, mas contundente, determinou aos pais:

“Ou procurem tratamentos psicológicos, ou sairei imediatamente desta casa.”

Os pais ficaram perplexos.

Hoje, aguardam na ante-sala do psicólogo a devida consulta, cuja iniciativa estava com prazo de validade vencida há anos.