quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Haiti, uma extensão desse mundo miserável.


A insensibilidade humana é a prova cabal de que a vida é uma causa perdida, que vem desde o início dos tempos, afinal faz parte da genética dos seres, ditos, humanos.

A confirmação da tese acima, é uma dívida imprescritível dos cientistas do mundo.

Os deserdados da sorte sempre foram proscritos, exterminados pela ação ou pela omissão das nações que exerceram o império econômico e militar, nas diversas épocas da existência da humanidade.

A fome, a miséria, as doenças graçam em parte do continente africano e o que o mundo faz? Nada.

Afinal, esses países não têm recursos econômicos para serem exauridos pela fome insaciável do lucro. Resultado: tornam-se invisíveis.

Os habitantes desses países não passam de rebotalhos humanos e assim são tratados e abandonados pelas nações e pelas mídias mundiais, à morte, não a imediata, mas aquela permeada pelo sofrimento lento e cruel.

Portanto, a falácia da solidariedade humana é conveniente, cômoda e confortadora para as consciências de todos.

Nem a inteireza de um território foi facultada ao Haiti. É uma fração de uma ilha.

Essa quebra de unidade é simbólica. Os habitantes são frações irredutíveis, pois, do contrário seriam destituídos totalmente dos vestígios pálidos de similaridade humana, afinal são negros e pobres.

Não sejamos hipócritas. O mundo é desgraçadamente preconceituoso.

O oceano de desprezo, de esquecimento do mundo, sempre açoitou os costados desse território, perpetuando as crueldades de um tempo pretérito, onde os costados dos negros escravos importados eram vergados pelos açoites do poder econômico, após, o extermínio dos nativos.

A desfaçatez sem limites das nações mais ricas do mundo chegou à sordidez de explorar a miséria humana sob o viés de ações humanitárias, como as verificadas agora, entretanto, o leitmotiv (motivo condutor) é impedir que suas posições no mundo capitalista sejam fragilizadas em relações as demais.

O comportamento econômico é extremamente complexo e a diferenciação entre a verdade e a conveniência, assemelha-se ao movimento das placas tectônicas que variam no deslocamento e na intensidade da energia potencial liberada.

Existe uma música, acho do Caetano Veloso, Haiti. Em certa parte, diz: chore pelo Haiti....

Complemento: chore pelo Haiti, por você, por nós, pois, nossas atitudes não dignificam a humanidade, ou pior, talvez, ratifiquem a natureza humana.

E sendo essa última verdadeira, muitos devem respostas, começando por Deus e, terminando com o Diabo..

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Latinha de cerveja e água mineral


Chegou com a esposa no restaurante e o cardápio foi imediatamente apresentado. Solicitou uma cerveja em lata, de uma marca específica, e uma garrafa de água mineral, sem declinar o fabricante, observando apenas que deveria ser sem gás.

A conversa girava sobre qual tipo de comida iriam escolher, quando o garçom trouxe o pedido.

Um desconforto surgiu nele. Era um sujeito complicado, além de ter um gênio iracundo.

Começou a discorrer, para a esposa, sobre o absurdo dos países subdesenvolvidos (o termo emergente, para ele, era eufemismo) aceitarem a transferência dessas empresas produtoras de alumínio, que migravam de seus países de origem, os de primeiro mundo, para os mais pobres.

A mulher ia esboçar uma pergunta, mas foi abruptamente cortada, com a indignação do marido.

Olha, continuava ele, a produção de alumínio é eletro-intensiva, isto é: - o consumo de energia elétrica é imenso. No custo de produção do alumínio, o gasto com energia representa 50% do total!

O consumo de energia, de somente uma dessas empresas, equivale ao de uma cidade de 90 a 100 mil habitantes.

Isso é um despropósito! Estamos, no fundo, exportando as águas de nossos rios, para a preservação dos cursos d’água dos países de primeiro mundo e permitindo, também, a ausência de danos ambientais naquelas regiões.

Mas como? – indaga a esposa.

Simples, muito simples! – responde ele, e continua: – a matriz energética, no Brasil, é preponderantemente proveniente das hidrelétricas. Ora, para isso precisamos fazer barragens. Com isso, inundamos florestas, vastas extensões de áreas, destruímos as margens dos rios, submergimos cidades ribeirinhas, alteramos o meio-ambiente em todas as suas diversidades, além de expulsarmos os moradores de seus locais de origem, provavelmente para as grandes cidades, onde vão morar em favelas. Nada disso é mensurado!

O pior é que esses custos não são contabilizados e, portanto, não são repassados, através dos preços cobrados a essas empresas. E tem mais:
- evidencia a política governamental perversa, pois essa energia deveria ser levada para moradores de áreas mais isoladas, sem acesso a esse bem importante. Percebeu o custo adicional, o social?

Privilegiamos o primeiro mundo, cometendo mais uma injustiça social com os nossos necessitados.

A esposa, para amenizar a indignação do marido, diz: - pelo menos, não temos o mesmo problema com a água mineral.

Ao ouvir o comentário, ele quase entra num processo apoplético.

Veja a marca dessa água! É de uma famosa multinacional suíça. Pense bem:
- A água mineral sai das entranhas de nossas terras, e o que essa empresa, faz? - simplesmente engarrafa-a, e pagamos royalties por isso. Somente um país subdesenvolvido permite essa ignomínia!

Na década de 70 do século passado, as águas minerais mais consumidas no Brasil eram a Lindóia e a Caxambu. De repente, no famoso e nefasto telejornal noturno, veicula-se a notícia sobre suspeitas de que as mesmas estavam contaminadas.

Resultado: - após o contraditório dos diretores das empresas aludidas, as águas são submetidas a análises, no Instituto Adolfo Lutz. O laudo sai em duas semanas, informando sobre a inexistência de contaminação. Entretanto, nesse intervalo, uma massiva propaganda da água Minalba entra na mídia. E aquela marca conquista parcela significativa do mercado.

Teria sido mera coincidência?

Quando o garçom se aproxima para indagar sobre a escolha do casal, a esposa, tensa, pede a conta.

Não sei se motivada pela indignidade dos homens públicos do país, em permitir esses crimes de lesa-pátria, associado ao hábito do marido em questionar determinadas ações governamentais ou, por outra característica do seu cônjuge, de externar pensamentos inadequados em momentos impróprios, o fato é que seu desejo de usufruir daquele almoço foi banido, assim como sua esperança no Brasil.