segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sinais gráficos numa sessão de Análise.


Aquela terapia em grupo, efetivamente não poderia trazer bons resultados, na melhor das hipóteses, nenhum.

A linha de ação do Psicólogo era terapia cognitivo-comportamental que, entre diversos aspectos, é balizada, por definição, tanto pelo diagnóstico específico do transtorno mental, como por uma análise do problema pessoal (ou seja, uma descrição das particularidades do paciente).

A exceção de uma cadeira vaga, os pacientes encontravam-se impacientes, tanto pelo atraso do profissional, quanto pela certeza do resultado daquela exposição em público de suas idiossincrasias.

O Psicólogo entra naquela sala espaçosa, com cadeiras em formato de um semicírculo, dirige-se ao seu local e, concomitantemente, saúda coletivamente os presentes, sentindo a falta delas, As Reticências. Quanto ao atraso, nenhuma observação.

O desconforto dos pacientes: Trema, Apóstrofo, Hífen, Cedilha, Aspas, Travessão, Acentos, Ponto e Vírgula, Dois Pontos, Ponto de Interrogação, Asterisco e Ponto de Exclamação, aumenta com a presença do profissional. Encontravam-se tensos e com sudoreses senegalescas, apesar do ar-condicionado marcar uma temperatura significativamente baixa.

Utilizando-se da técnica, o Psicólogo Ponto (.) ameniza aquele estado de tensão no ar, mas não o peso do mesmo, em função do resfriamento, afinal, isso não era de sua alçada de competência.

A palavra é colocada à disposição dos pacientes e após, um breve silêncio, o Apóstrofo (') começa a sua digressão: por definição já sou um sinal gráfico bastante incompleto, indico a supressão de uma vogal e vejo-me como uma vírgula de cabeça para baixo, às vezes. Outras tantas, um acento agudo sem letra embaixo. Isso me causa uma depressão profunda, uma tristeza infinda pela falta completa de identidade.

De forma espontânea, o Hífen (-), até para sua surpresa, com um poder de síntese abre a sua alma: sou de um refinamento extremamente complexo e com regras extensas e confusas, onde a quase totalidade dos autores e ressalto, não são os semi-analfabetos, são extremamente contraditórios ao disporem de minha função em seus textos. Tenho um complexo proporcional à complexidade de meu uso.
   
Numa gagueira, produto dos seus problemas psicológicos, a Cedilha (ç) expõe seus conflitos de maneira objetiva e, logicamente, desesperadamente lenta: sofro de baixa-estima, afinal ao pronunciar o meu nome (ç), ao invés, do som de “c” o fazem com o de “ss”; padeço (escutem o som), também, de um desvio de afeto das vogais “e” e “i”, pois, sentem-se preteridas por mim, pois na visão delas, permito uma convivência harmoniosa apenas com as outras vogais.

Com certa timidez As Aspas (“ ”) ponderam que se sentem como vírgulas dobradas, invertidas e isso causa uma discriminação hedionda entre os seus semelhantes, os sinais gráficos, por colocarem em dúvida as suas opções sexuais. Além disso, enfatizam que o seu uso pelas pessoas têm duas finalidades: destacar um conteúdo reproduzido literalmente da boca de outro indivíduo que não o autor do texto ou denotar que a palavra que está se usando, no contexto, não apresenta significado literal.

Lágrimas duplas escorriam de cada um dos olhos das Aspas que encharcavam as suas tristezas profundas, pelas marginalizações impostas.

O silêncio imperou por uns trinta segundos e o Travessão (-) foi claro e conciso em seu desabafo: sou um fragmento ínfimo de linha que separa as falas dos interlocutores e, algumas vezes, sou utilizado para suprimir o parêntese. Sou um medíocre e um assassino eventual.

Nessa hora, o ambiente que estava tenso e com os pacientes fragilizados foi conturbado de vez com as intervenções dos Acentos (´ ^ `) que elevavam suas vozes, procurando dar ênfase às suas individualidades.
O Psicólogo teve que intervir diversas vezes, organizando as falas de cada um dos trigêmeos não univitelinos. Os problemas são tantos entre eles que os caracteres hereditários parecem não vir da mesma gêneses.

Não se entendem, primam por serem problemáticos e sofrem de um complexo de superioridade triplo, isto é, cada um se acha mais importante do que os outros. O diagnóstico é elementar: ególatras.

Com os Acentos trêmulos de raiva, apesar do temor, o Trema (¨) foi enfático e definitivo: sou um mero coadjuvante, a minha existência é relativizada, pois sirvo para que o “u” dos grupos gue, gui, que, qui  seja proferido com som átono.

Houve uma pausa proposta pelo Psicólogo. No retorno, o Ponto-e-Vírgula (;) fez uso da palavra: sofro de transtorno bipolar, pois vario entre a Vírgula e o Ponto, e não sou nenhum dos dois. Sou de uma imprecisão ímpar, represento uma separação mais ampla que a vírgula, e, também, tenho característica do ponto, mas não a ponto de encerrar um período.

Aproveitando a deixa, o Parêntese () não titubeou em afirmar que era um sinal gráfico sem paz interior. Os escribas utilizam-me de forma promíscua. Afinal, sirvo para intercalar, num texto, qualquer indicação ou informação acessória. Prestem atenção: A-C-E-S-S-Ó-R-I-A, isto é, de caráter secundário.  Prezados, não nego: sofro de um complexo de perseguição e de nulidade, enquanto partícipe da linguagem.

Os Dois Pontos (:) dirigem as palavras de forma uníssona para o Parêntese e, em claro e bom som, com dicções perfeitas, dizem: não se abata, existem coisas piores, veja a nossa situação. Servimos para marcar um suspensão (sensível), isso é coisa de ..... (bem, deixa pra lá), da voz na melodia de uma frase não concluída. 

Usam-nos antes de uma citação, de uma enumeração e de uma explicação. Temos vários problemas psicológicos e não negamos, mas, somos machos.

Aquelas ponderações dos Dois Pontos não soaram bem para o Ponto de Interrogação (?) que com uma voz de falsete, foi logo dizendo: indico uma pausa com entoação ascendente. Usam-me nas interrogações diretas; combinam-me com o Ponto de Exclamação quando a pergunta também expressa surpresa e quando existe muita dúvida na pergunta. Agora quero deixar bem claro: sou um homossexual muito bem resolvido.

O Ponto de Exclamação (!) ao ouvir o comentário do paciente que o antecedeu, com os lábios trêmulos de indignação, afirmou: não tenho preconceito nenhum com as escolhas particulares. Agora, não me coloquem numa situação que repudio, enfaticamente.  As forças dos escritores são poderosas e não tenho condições objetivas para vencê-los, contudo, sempre protesto à exaustão, quando me utilizam, promiscuamente, com o Ponto de Interrogação.  Quanto ao resto, são várias as possibilidades de minha utilização nas frases que exprimem espanto, surpresa, alegria, entusiasmo, cólera, dor, súplica, etc.

A animosidade estava tomando um vulto não desejado e o Psicólogo resolveu suspender a sessão, na mesma hora em que o Asterisco recebeu uma ligação das Reticências.

Não dando tempo para os pacientes se levantarem, o Asterisco (*) comunicou que As Reticências estavam aguardando  todos os colegas de infortúnio no bar, embaixo do Consultório.

O Asterisco acabou de forma transversa e subliminar, denotando a sua razão de existir, que é chamar a atenção do leitor para alguma nota ao final da página ou do capítulo.

Quando desceram já existia uma mesa separada pelas Reticências e com os devidos pedidos de tira-gostos e chopes, em curso.

Acomodados e sorvendo goles daquela bebida estupidamente gelada, As Reticências fugindo de suas naturezas reticentes foram diretas ao assunto: procuramos o Orientador do Ponto (.) que nos clinica e obtivemos informações preocupantes.

O Orientador, como sabem, tem a função de fazer análise nos profissionais de Psicologia. Ele nos afirmou que havia solicitado ao Órgão de Classe a suspensão provisória do registro e, conseqüentemente, das atividades do Psicólogo Ponto (.), em razão da crise que ele vem passando. Sem ferir a ética profissional, aludiu sobre o agravamento dos sucessivos distúrbios psicológicos do Psicólogo.

O Psicólogo Ponto (.) está sofrendo de uma neurose grave. Neurose, essa, decorrente das suas tentativas ineficazes de lidar com o seu ego, pois, não consegue separar quando é “ponto simples”, “ponto parágrafo” ou “ponto final”- e esses conflitos e traumas do seu inconsciente exigem um tratamento longo, inclusive, psicanalítico, com prescrições de remédios com tarjas pretas, de modo a restaurar sua sanidade plena, deixando-o, portanto, incapacitado para o exercício da profissão.
O silêncio que sucedeu aquelas palavras poderia ser denominado de fúnebre.

De repente, escutam aquela expressão gaguejante da Cedilha: “Como isso é possível?!

O Ponto de Exclamação ao ouvir aquela indagação que o atrelava ao Ponto de Interrogação partiu de porradas para cima da gaga.

Termino por aqui, pois, a confusão não acabou bem.

Padeço de muitos males, inclusive, das incorreções nas colocações das vírgulas, mas, sei quando devo colocar um “ponto final” nas coisas.

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Urubu fogoso


Chamar aquele lugar de vilarejo era uma impropriedade, de aldeota, vá lá, apesar de certo exagero.

Para chegar à única rua da localidade, denominada de Urubu Fogoso, tinha que atravessar um pontilhão sobre o rio do  Meio que dava nome aquele lugar formado por um punhado de construções toscas que resistiam ao tempo. Pareciam centenárias.

formação daquele exíguo espaço geográfico ocorreu com a chegada de Maria Roxa.

Considerando Maria Roxa um ramo específico de sua árvore genealógica, esse galho cresceu muito e, francamente, como deu galho.

Maria Roxa era mãe de Maria das Graças, que deu a luz a Maria Rubina, que por sua vez procriou Maria Ramona, que gerou Maria das Flores e essa, a Maria do Rosário, que concebeu Maria Maria que deu existência a Maria Genuína. (Os meninos não contam).

Isso sem contar as outras Marias que vieram de origens, de arbustos diferentes. 

Todas putas por necessidade e gosto.

Certamente era a maior concentração de Marias por metro quadrado do planeta e olha que não entram na estatística, em seus devidos retábulos, as diversas imagens de Nossas Senhoras de vários nomes que no fundo são Marias.

Todas as Marias vendiam, além do corpo, bebidas e cigarros para engordarem seus parcos ganhos. No ramo das bebidas alcoólicas existiam diversos tipos de cachaças, no mais, apenas rabos de galo. No segmento dos cigarros existia uma variedade maior: os de palha com fumo de rolo, Imperador, Nobre, Mirage, Corcel, Salem, além de cigarros em retalhos para os menos afortunados.

Continental sem filtro e outros tipos de cigarros curiosos como os com anagramas, maçônicos ou religiosos eram exclusividade dos fazendeiros, políticos, padres e juízes que traziam para complementar seus prazeres, garrafas de uísque, logicamente, importados.

Desde a década de 20, do século passado, a esbórnia era organizada.

Os ricos aliviavam seus instintos bestiais com exclusividade nas terças, quartas e quintas-feiras, afinal, como senhores respeitáveis, o final de semana era sagrado. Ficavam com suas famílias.

A discriminação social até para foder, nesses tempos, fazia-se presente. Os demais clientes, os pobres, não tinham direito a ter tesão naqueles dias da semana e se tivessem, teriam que partir para a ignorância: "sair na mão".

Que negócio complicado da porra!
  

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Crime doloso, apesar de nossa indiferença.


Era anão. O vocábulo “herança” causava um sentimento contraditório que variava da tolerância à revolta. A herança genética advinda de sua árvore genealógica gerou aquele fruto de tamanho diminuto, ele. E olha que seu pai era um alemão de 2,03 m de comprimento e sua mãe, uma baiana arretada com seu 1,83 de estatura, e ele, filho único, amargava 1,01 m de altura.

Quanto à herança que provoca desunião e até mortes entre os herdeiros, nada a reclamar, era imensa.

De uma cultura erudita espantosa, avançava na cultura popular com o mesmo desvelo do que na outra.

Era um boêmio inveterado que não fazia distinção de classes e a sua atitude fez renascer um dito dos pobres baianos, de mais de 180 anos, que quase havia se perdido no tempo: “rico sem aviamento” (era o rico que tinha empáfia, ar de superioridade e verdadeira repugnância aos pobres).

Ele, não. Era o “rico com aviamento”. Não admitia o tratamento de doutor em função de sua profissão. Exigia o mesmo tratamento usual entre aqueles iguais na desigualdade.
Médico de renome nacional e internacional participava de todos os Congressos internacionais de sua especialidade, enfim, exercia a profissão sempre no estado da arte.

Por generosidade e sem remuneração dava plantões nos hospitais públicos que padecem no Brasil de uma doença terminal: a inexistência de recursos para tudo (manutenção, compra de equipamentos, de miseras gazes a algodão, etc.) pelo descaso e, principalmente, pela roubalheira dos homens públicos desse país.

Das experiências amargas vivenciadas na rede pública, e que foram imensas, a de maior amargor foi quanto teve que escolher quem deveria sobreviver e quem morreria entre dois seres humanos, em função de falta de sala de operação/equipes e leito no CTI.

Situação vista como normal pela mídia que enfatiza que os médicos são obrigados a brincarem de Deus e, por nós, que não nos indignamos e não cobramos, pelo desprezo que  temos por nossos semelhantes, dos mandatários desse país o término dessa prática hedionda. 

Que país desgraçado é esse onde os deserdados da sorte tem seu destino colocado nas mãos de quem jurou  salvar vidas – vide juramento de Hipócrates; são na realidade hipócritas criminosos, coniventes com o descaso dos homens públicos e assassinos em estado latente.

Aquela decisão (vida/morte), desgraçadamente corriqueira para os colegas de trabalho, foi única e marcou o início de seu fim.

Nas noites insones, pensando na sua decisão, a depressão crônica não alcançou as quatro fases da lua.

Sentia-se um criminoso hediondo, afinal seu crime (assassinato) era doloso, definido nas cóleras das leis penais, quando o agente tem a intenção de matar.

Nos últimos momentos em que suas faculdades mentais estavam em frangalhos, avaliando a vida como todo, concluiu: “a lucidez é o lado obscuro da insanidade”.

Hoje, no manicômio, diz-se Polifemo, o gigante de um único olho no centro da testa, mas vigilante, da mitologia grega, descrito pelo velho bardo grego, Homero, no nono livro de sua Odisseia.


Leia a Odisseia de Ulisses e descubra que você não passa de NINGUÉM.