terça-feira, 27 de junho de 2017

A morte, o tempo e deus.


 O quadro era completamente desolador. Esquálida pelo avanço, inexorável, daquela doença insidiosa que concorria, somente, com marcha do tempo e acompanhada de uma dor lancinante, exclusiva dela, não do tempo, esse é insensível por natureza, e muito menos de deus, afinal, esse é pérfido, desleal e traiçoeiro.

À medida que as dores aumentavam, as suas súplicas pela presença da morte eram ouvidas na mesma intensidade.

A morte por se sentir desejada fazia-se de difícil, de rogada, afinal, jamais aceitara qualquer pedido em sua suposta eterna existência, não era vulgar.

E deus assistia tudo com um sorriso de escárnio.

Sim. Com sua atitude típica, inata, qual seja, ostensivamente de desdém, de menosprezo para com tudo e para com outros.

A duração de nossos destinos depende, exclusivamente, dela, a morte, mas com a anuência irrestrita dele, deus. O tempo nessa quadra é solenemente desprezado, ignorado.

Portanto, a variação de seus humores (morte e deus) que determinarão como será a intensidade do flagelo, ou não, na passagem.

Nos seus estados de alegria levam suas vítimas, sorrateiramente, sem sofrimento e instantaneamente, entretanto, quando da fase de péssimo humor, produto de suas iniquidades, martirizam lentamente os corpos escolhidos, dando vazão integral as suas índoles sádicas.

Confesso que pode não ser uma grande coisa, mas já é um alento, saber que a desgraçada (a morte) e o indigente miserável (deus) sofrem de transtornos bipolares, tendo mudanças cíclicas de humor e que esses episódios serão imutáveis, ad eternum.

O diabo é que as consequências de suas doenças, rigorosamente iguais recaem sobre nós provocando um prejuízo irrecuperável, a perda de nossas vidas, invariavelmente, pelas vias de sofrimentos inomináveis.

Entretanto, os desequilíbrios nos seus humores aniquilam eternamente os seus estados de ânimos e seus bem-estares.

Ah! Isso me causa um prazer indescritível, pois, as sua ações malévolas não serão nunca mais completas, serão sempre privadas do orgasmo pleno quando dos seus atos e desejos de necrofilias.

Essa maldita transferência das consequências de suas doenças resvalam nos limites da desconsideração e da inexistência de comportamento ético para conosco.

O meu prazer, relatado em linhas acima, pode ser interpretado como insignificante frente à magnitude das forças da morte e de deus, mas insisto, pode até ser irrelevante, mas, data vênia, a satisfação é minha e, portanto me basta.

No final, o tempo que passou quase despercebido no texto (não motivado pelo autor, e sim, por deus) será assassinado com requintes de crueldades por deus, afinal, para ser eterno, o tempo tem que inexistir.

A morte tornando-se inútil pela inexistência de seres viventes no final dos tempos será descartada, também, por deus.

Sozinho, a princípio, deus vagará pelo universo de forma anônima e sendo desprezado pelos corpos celestiais.

Em tese, deus continuaria todo poderoso, onipotente, onisciente e onipresente, mas pela sua soberba por frações de segundos do tempo cronológico da Terra, caiu na tentação de sentir-se humano, produto defeituoso, nefasto de sua criação, e aí assumiu um corpo acometido do mal de Alzheimer em grau avançado.

Resultado, não sabia mais quem era e não havia ninguém para responder a sua  indagação: “Você sabe com quem está falando”.

Perdido, a demência instalou na sua mente e impossibilitado de retornar a sua identidade de Criador deixou, portanto, de usufruir as ditas prerrogativas da divindade, tornando-se mortal e terminou seus dias sofrendo dores excruciantes.  

O seu fim provocou-me um imenso regalo (vivo prazer), afinal, o TUDO, segundo seus seguidores, transformou-se em NADA. 

domingo, 18 de junho de 2017

Anão.

Era anão. O vocábulo “herança” causava um sentimento contraditório que variava da tolerância à revolta. A herança genética advinda de sua árvore genealógica gerou aquele fruto de tamanho diminuto, ele. E olha que seu pai era um alemão de 2,03 m de comprimento e sua mãe, uma baiana arretada com seu 1,83 metros de estatura, e ele, filho único, amargava 1,01 m de altura.

Quanto à herança que provoca desunião e até mortes entre os herdeiros, nada a reclamar, era imensa.

De uma cultura erudita espantosa, avançava na cultura popular com o mesmo desvelo do que na outra.

Era um boêmio inveterado que não fazia distinção de classes e a sua atitude fez renascer um dito dos pobres baianos, de mais de 180 anos, que quase havia se perdido no tempo: “rico sem aviamento” (era o rico que tinha empáfia, ar de superioridade e verdadeira repugnância aos pobres).

Ele, não. Era o “rico com aviamento”. Não admitia o tratamento de doutor em função de sua profissão. Exigia o mesmo tratamento usual entre aqueles iguais na desigualdade.

Médico de renome nacional e internacional participava de todos os Congressos internacionais de sua especialidade, enfim, exercia a profissão sempre no estado da arte.

Por generosidade e sem remuneração dava plantões nos hospitais públicos que padecem no Brasil de uma doença terminal: a inexistência de recursos para tudo (manutenção, compra de equipamentos, de miseras gazes a algodão, etc.) pelo descaso e, principalmente, pela roubalheira dos homens públicos desse país.

Das experiências amargas vivenciadas na rede pública, e que foram imensas, a de maior amargor foi quanto teve que escolher quem deveria sobreviver e quem morreria entre dois seres humanos, em função de falta de sala de operação/equipes e leito no CTI.

Situação vista como normal pela mídia que enfatiza que os médicos são obrigados a brincarem de Deus.

Que país desgraçado é esse onde os deserdados da sorte tem seu destino colocado nas mãos de quem jurou  salvar vidas – vide juramento de Hipócrates; são na realidade hipócritas criminosos, coniventes com o descaso dos homens públicos e assassinos em estado latente.

Aquela decisão (vida/morte), desgraçadamente corriqueira para os colegas de trabalho, foi única e marcou o início de seu fim.

Nas noites insones, pensando na sua decisão, a depressão crônica não alcançou as quatro fases da lua.

Sentia-se um criminoso hediondo, afinal seu crime (assassinato) era doloso, definido nas cóleras das leis, quando o agente tem a intenção de matar.

Nos últimos momentos em que suas faculdades mentais estavam em frangalhos, avaliando a vida como todo, concluiu: “a lucidez é o lado obscuro da insanidade”.

Hoje, no manicômio, diz-se Polifemo, o gigante de um único olho no centro da testa, mas vigilante, da mitologia grega, descrito pelo velho bardo grego, Homero, no nono livro de sua Odisseia.


Leiam a Odisseia de Ulisses e descubram que não passam de NINGUÉM.