quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A única saída

Era uma crueldade a simples comparação entre as catástrofes vivenciadas no mundo exterior com
aquelas suportadas em seu mundo interior, afinal essas eram mais devastadoras.

O surgimento de novos corpos celestes, através de explosões luminosas a milhões de anos-luz, segundo os estudiosos, provocando a expansão do universo, contrastava com a multiplicação de novos problemas na escuridão das frações das horas do seu dia-a-dia.

Diante da evidência dos fatos concluiu que seu apocalipse pessoal se aproximava, somente faltava cair pedaço de céu velho e cacos de estrelas sobre sua cabeça embranquecida pelo passar dos anos.

As relações familiares deterioravam pelo avanço dos conflitos com os filhos e pelo intenso desamor da esposa; as profissionais refletiam as mudanças na empresa em que trabalhava há anos, que deixara de ser uma empresa de petróleo e transformara-se numa de Energia.

As alterações foram substantivas na área de RH da empresa que abandou sua matriz eficiente de décadas e passou ser gerida por outra fonte, a de conflitos, por suas ações e omissões. O resultado para ele foi ingressar numa fase depressiva que o aniquilava mental e fisicamente.

As relações sociais, evidentemente, passaram a inexistir.

Envolvido num silêncio assustador avaliou com pragmatismo a sua situação e estabeleceu um plano de ação.

A busca essencial da felicidade e da estabilidade financeira dos seus passava por sessões diárias com um psicólogo e com consultas, a princípio quinzenais com um psiquiatra.

À medida que cumpria meticulosamente as orientações e observações registradas naquele Manual que transformara em uma leitura obsessiva e redentora, as consultas com o psiquiatra tornaram-se mais freqüentes, contrapondo-se ao antigo hábito da leitura da bíblia sagrada.

Quando percebeu que tinha as condições objetivas para a implantação de seu plano não titubeou.

Com o Manual da Loucura debaixo do braço e um leve sorriso, agora perene em seu semblante, caminha lentamente para receber uma quantidade estúpida de fármacos controlados naquele corredor decrépito do manicômio, pois com argúcia e determinação vencera os demônios que o esmagavam, enganando-os.

Sempre fora uma pessoa íntegra e com valores inamovíveis e lamentavelmente esses atributos não o ajudaram nos planos pessoais e profissionais.

Na iminência da perda do emprego e do desamparo à família perdida vislumbrou apenas duas únicas opções possíveis: a do o suicídio ou da pseudo-loucura.

Optou por essa última, afinal o louco não sofre críticas e sim respeito.

E o apreço da consideração era o mínimo que desejava.






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