
Eram indubitavelmente hipócritas.
Caso essa manifestação de fingimento não fosse adotada teriam que desfilar o amargor, o ressentimento, a baixa-estima, face às crueldades vivenciadas diuturnamente por eles, pelo simples fato de serem um casal de anões.
Ele trabalhava no centro do Rio de Janeiro, num escritório de contabilidade onde a discriminação dos colegas e do salário recebido era patente, mas a necessidade de sobrevivência obrigava a suportar essas ignomínias e defendia-se com a eficiência profissional e com uma postura recatada.
Morava com a esposa num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, em uma casa antiga, construída na época em que o pé direito era desproporcionalmente alto para os de estatura dentro da normalidade, imaginem para eles.
Aquela opressiva perspectiva descomunal da altura das paredes e dos tetos, segundo as suas posições de observadores, os oprimiam, os diminuíam, ainda mais, pelo fato de não terem condições financeiras para minimizarem as suas desditas, através de míseros rebaixamentos dos tetos.
Viviam bem dentro de suas curtas possibilidades financeiras, em contraposição às enormes dificuldades de toda ordem.
A longa distância entre a casa e o trabalho obrigava-o a reduzir suas horas de sono.
Não reclamava dos trabalhos extras que, ultimamente, tornaram-se uma rotina, afinal o sacrifício significava um aumento nos proventos, apesar do cansaço maior e da redução da convivência com a esposa.
Certa feita, chegando depois da meia-noite, observara um vulto enorme que saia pelo portão de sua casa.
Exausto pelo dia de trabalho e tenso pela visão noturna, após subir os dez lances de degraus para chegar à porta, a sua esposa não permitiu nem que ele respirasse e de forma cruel, disse: estou o abandonando, pois, encontrei o amor de minha vida que é um estivador do cais do porto e amanhã não estarei mais aqui.
Perplexo não emitiu nenhuma palavra.
Absorveu naquela hora, contrariando toda a lógica do mundo, o imenso sofrimento.
Abandou o emprego e ingressou na vida nômade dos artistas circenses.
Agora, alegra, principalmente, as crianças com suas peraltices para ludibriar a dor profunda da desilusão que em termos temporais, pertenceu a um passado, mas que insiste em se fazer presente no hoje e não tenham dúvidas, estará, miseravelmente, também, no seu futuro.

