sexta-feira, 22 de julho de 2011

O anão


Eram indubitavelmente hipócritas.

Caso essa manifestação de fingimento não fosse adotada teriam que desfilar o amargor, o ressentimento, a baixa-estima, face às crueldades vivenciadas diuturnamente por eles, pelo simples fato de serem um casal de anões.

Ele trabalhava no centro do Rio de Janeiro, num escritório de contabilidade onde a discriminação dos colegas e do salário recebido era patente, mas a necessidade de sobrevivência obrigava a suportar essas ignomínias e defendia-se com a eficiência profissional e com uma postura recatada.

Morava com a esposa num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, em uma casa antiga, construída na época em que o pé direito era desproporcionalmente alto para os de estatura dentro da normalidade, imaginem para eles.

Aquela opressiva perspectiva descomunal da altura das paredes e dos tetos, segundo as suas posições de observadores, os oprimiam, os diminuíam, ainda mais, pelo fato de não terem condições financeiras para minimizarem as suas desditas, através de míseros rebaixamentos dos tetos.

Viviam bem dentro de suas curtas possibilidades financeiras, em contraposição às enormes dificuldades de toda ordem.

A longa distância entre a casa e o trabalho obrigava-o a reduzir suas horas de sono.

Não reclamava dos trabalhos extras que, ultimamente, tornaram-se uma rotina, afinal o sacrifício significava um aumento nos proventos, apesar do cansaço maior e da redução da convivência com a esposa.

Certa feita, chegando depois da meia-noite, observara um vulto enorme que saia pelo portão de sua casa.

Exausto pelo dia de trabalho e tenso pela visão noturna, após subir os dez lances de degraus para chegar à porta, a sua esposa não permitiu nem que ele respirasse e de forma cruel, disse: estou o abandonando, pois, encontrei o amor de minha vida que é um estivador do cais do porto e amanhã não estarei mais aqui.

Perplexo não emitiu nenhuma palavra.

Absorveu naquela hora, contrariando toda a lógica do mundo, o imenso sofrimento.

Abandou o emprego e ingressou na vida nômade dos artistas circenses.

Agora, alegra, principalmente, as crianças com suas peraltices para ludibriar a dor profunda da desilusão que em termos temporais, pertenceu a um passado, mas que insiste em se fazer presente no hoje e não tenham dúvidas, estará, miseravelmente, também, no seu futuro.

sábado, 9 de julho de 2011

Uma perseguição injusta


A incompatibilidade do significado da palavra falência era mais profundo no seu sentido figurado, qual seja, a de ser um inimigo figadal, visceral dele, do que a conseqüência etimológica da palavra que importa no ato ou efeito de falir.

A sua inquietude fazia sentido.

Como o passar do tempo e o passamento do pai, assumiu os negócios de família.

Desaprendeu ao longo de sua existência empresarial os ensinamentos pretéritos do pai, um mascate de quatro costados.

A cobiça desmesurada o levou a aplicações de alto risco e o retorno foi a falência.

As parcelas do patrimônio não pulverizadas nas mãos invisíveis do mercado financeiro acabaram nas mãos delicadas, mas ardilosas e concretas, das amantes permanentes e as de ocasião.

Falido e com os conseqüentes litígios judiciais infindos, recorre à defensoria pública, afinal, tornou-se inadimplente e insolvente, que no fundo é a falência da pessoa física, mas o direito brasileiro não admite a figura dessa falência.
Mas, trocando em miúdos, é a mesma coisa, o mesmo infortúnio, é mera sutileza jurídica.

Abandonado por todos, à exceção das companhias indesejáveis de doenças insidiosas e oportunistas, vaga nos atendimentos dos hospitais públicos, tentando o agendamento de uma infinidade de exames que serão marcados e, provavelmente remarcados, ao longo de um tempo que talvez não abrigue mais a sua existência.

A insônia aumenta o exercício estafante de seus neurônios e das lembranças que já começam a desbotar sobre o auge da sua riqueza e dos seus excessos.

Suporta as suas vicissitudes com a mesma altivez demonstrada pelo catre que abriga seu corpo alquebrado, num abrigo governamental.

Escuta o ressonar daquela multidão de desvalidos com inveja, afinal, uma nesga de sono seria sua redenção naquele momento.

Morfeu, o deus grego do sono, ao ouvir os seus pedidos foi avaro em seu gesto, facultando-lhe uma migalha de sono, mas não de um sono qualquer, e sim, de um sono acompanhado de um sonho perturbador.

Acordou aflito. O fantasma da falência se fez presente, na forma de pesadelo ou de premonição. Teve a visão ou antevisão de sua morte por falência múltipla dos órgãos.

O destino que é essa fatalidade que sujeita todas as pessoas e todas as coisas do mundo à sua vontade, no caso específico dele, estava há muito traçado, indelevelmente, por quatro vogais e quatro consoantes: f-a-l-ê-n-c-i-a.