sábado, 18 de maio de 2013


Urubu fogoso 

Chamar aquele lugar de vilarejo era uma impropriedade, de aldeota, vá lá, apesar de certo exagero.

Para chegar à única rua da localidade, denominada de Urubu Fogoso, tinha que atravessar um pontilhão sobre o rio Me Ache que dava nome aquele lugar formado por um punhado de construções toscas que resistiam ao tempo. Eram centenárias.

A origem do Me Ache ocorreu com a chegada de Maria Roxa.

Considerando Maria Roxa um ramo específico de sua arvore genealógica, esse galho cresceu muito e, francamente, como deu galho. Maria Roxa era mãe de Maria das Graças, que deu a luz a Maria Rubina, que por sua vez procriou Maria Raimunda, que gerou Maria das Flores e essa, a Maria do Rosário, que concebeu Maria Maria que deu existência a Maria Genulina. (Os meninos não contam).

Todas putas por necessidade e gosto.

Certamente era a maior concentração de Marias por metro quadrado do planeta e olha que não entram na estatística, em seus devidos retábulos, as diversas imagens de Nossas Senhoras de vários nomes que no fundo são Marias.

Todas as Marias vendiam, além do corpo, bebidas e cigarros para engordarem seus parcos ganhos. No ramo das bebidas alcoólicas existiam diversos tipos de cachaças, no mais, apenas rabos de galo. No segmento dos cigarros existia uma variedade maior: os de palha com fumo de rolo, Imperador, Nobre, Mirage, Corcel, Salem, além de cigarros em retalhos para os menos afortunados.

Continental sem filtro e outros tipos de cigarros curiosos como os com anagramas, maçônicos ou religiosos eram exclusividade dos fazendeiros, políticos, padres e juízes que traziam para complementar seus prazeres, garrafas de whiskey, logicamente importados.

Desde a década de 20, do século passado, a esbórnia era organizada.

Os ricos aliviavam seus instintos bestiais com exclusividade nas terças, quartas e quintas-feiras, afinal, como senhores respeitáveis, o final de semana era sagrado. Ficavam com suas famílias.

Que negócio da porra.

A discriminação social até para foder, naqueles tempos, fazia-se presente. Os demais clientes não tinham direito a ter tesão naqueles dias da semana e se tivessem, teriam que partir para a ignorância: sair na mão.

Recentemente, um dos filhos daquelas mulheres foi eleito vereador daquele município perdido no interior do Estado da Bahia e no seu discurso de posse, foi aparteado por um vereador de vários mandatos, filho de um ricaço da região, que agredindo o regimento da Câmara e o colega que usava a palavra, disse: “Terei dificuldades em conviver contigo e, principalmente, chamá-lo de V. Exa., o correto é chamá-lo de filho da puta”.

As galerias estavam cheias de pessoas humildes que vieram acompanhar o discurso de um de seus pares da pobreza e ao ouvirem aquela ofensa, a coisa desandou.

O presidente da mesa esbaforido mandou que retirasse das notas taquigráficas aquela ofensa e, imediatamente, suspendeu a sessão.

Não preciso mencionar que a falta do decoro daquele parlamentar não chegou à Comissão de Ética. Ficou impune.

Extrapolando a ignomínia daquele vereador para a maioria dos políticos brasileiros que conspurcam os seus mandatos, mediante diversas vilanias (atos e atitudes contrárias à ética e a moral), conclui-se que eles não são filhas da puta de direito, mas os são de fato.

Que país!  Que miséria! Que puteiro!