quarta-feira, 30 de junho de 2010

Nada a reclamar


Percebera que adentrara na antecâmara do fim e mesmo assim não esboçou nenhuma reação, seja de medo, ou de lamento, as suas únicas palavras naquele momento foram: nada a reclamar.

Fixou o olhar num determinado ponto indefinido e revisitou o seu passado.

Herdara fazendas de cacau e gado que foram o seu sustento e dos seus descendentes por um tempo acima do imaginado.

Administrara mal seu patrimônio, talvez por priorizar o seu vício incontido pelas mulheres.

A dilapidação progressiva dos bens herdados, acompanhava o ritmo de suas aventuras que terminavam sempre com o registro de seus caracteres hereditários nos filhos bastardos que não possuíam o seu sobrenome, num outro tipo de registro, pois, a legislação da época não permitia, afinal era casado.

A mulher oficial tentou de tudo, mas nada o fez mudar, afinal, era uma questão de estilo e de destino, segundo ele.

As mudanças de amores eram sucessivas, como era contínuo o desprezo para com as antigas amantes. Quanto aos filhos? Bem..., melhor não comentar.

Por questão de justiça e essa deve ser feita em vida todas recebiam mesadas para suas subsistências.

A questão sempre foi o caminhar do tempo para a humanidade e não seria diferente para ele, para as ex-amantes e para prole numerosa. Sem falar, na esposa.

À medida que sua ruína financeira avançava o reflexo imediato era a retração dos numerários para os filhos bastardos e suas, respectivas, mães.

Até que chegou a derrocada total, acompanhada de uma doença insidiosa.

A alternativa foi internar-se em um hospital público que com os recursos disponíveis, disponibilizaram o avanço da doença, adicionando ao seu corpo já debilitado, infecções hospitalares.

Esquecido e quase silenciado pela morfina, desvia o seu olhar daquele ponto - que pelo testemunho de uma única pessoa que recolhia o lixo hospitalar daquela unidade intensiva – e lentamente cerra seus olhos, e balbucia suas últimas palavras: “coloquei-os no mundo, agora, que Deus os crie”.

Questionável? Não sei, só sei que fora seu ponto de vista.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cínico


As suas relações interpessoais sempre foram frágeis pelas circunstancias e propósitos que o moviam.

Suas convicções sobre a vida e sobre os indivíduos eram definitivas: não passavam de causas perdidas.

Às vezes chegavam ao seu conhecimento censuras daqueles que conviviam com ele por razões de parentesco e de trabalho.

Mantinha-se impassível e sempre com aquele sorriso permanentemente cínico.

Afinal, seus paredros eram os filósofos socráticos Antístenes de Atenas e Diógenes de Sínope, fundadores, na antiga Grécia, da Escola Cínica que ostensivamente opunham-se aos valores, aos usos e às regras sociais.

Apesar da pouca idade vivera o suficiente para analisar e avaliar as condutas humanas e os seus procedimentos indefensáveis.

Ressaltando, que as exceções não contam em todos os lugares e ocasiões analisadas, as atitudes dos homens foram e são pautadas pela inexistência de escrúpulos.

Sempre estão respaldadas num oportunismo sórdido e em posturas hipócritas dirigidas aos demais semelhantes, com um único intuito de espoliá-los em qualquer sentido.

Apesar do imenso lapso temporal transcorridos entre os 2400 anos da fundação daquela Escola, as suas premissas continuam rigorosamente atuais.

No ambiente de trabalho, em casa, ou até diante da própria imagem refletida no espelho pode-se constatar a presença de um cínico, não o do texto, mas o vulgarmente denominado assim,
por impropriedade semântica.

O sentido em que se toma a palavra cínico, por interpretação equivocada é aquele que tenta justificar o injustificável; o que desconhece crise de consciência ética; não reconhece problemas nos outros e é incapaz de pedir desculpas. Francamente, essas características podem ter qualquer adjetivação, menos a de cínico, na acepção da palavra.

O cínico no sentido estrito, o do texto, tinha a completa compreensão da falta de condições objetivas para mudar o mundo e na impossibilidade de influenciar as mudanças necessárias, manteve-se íntegro aos ditames de sua consciência.

Depreciado e silenciado pelos poderes constituídos e pelos seus semelhantes, aquele indivíduo sensato continuava indiferente aos processos excludentes a que era submetido, afinal, seus detratores não possuíam argumentos consistentes que pudessem estabelecer o contraditório.

Era um cínico porque desprezava as conveniências e fórmulas sociais.

Poderiam denominá-lo de parvo, jamais de incoerente, isso não o perturbava, as suas convicções eram suficientes e o bastante para ele.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Bêbado


Assistir o deslocamento daquele indivíduo causava sobressaltos e dúvidas sobre a lei da gravidade.

Os passos cumpriam um ritual completamente desconexo, avançava e recuava numa passada, impondo uma responsabilidade desproporcional à outra perna que em segundos via-se à frente e ficava a mercê da outra.

Os comandos aparentemente incertos do cérebro, afetados pelo teor alcoólico, certamente administravam dentro de suas possibilidades novos centros gravitacionais para aquele corpo torto que insistia, teimosamente, em prosseguir.

As conexões neurais resistiram acima de suas possibilidades.

O resultado foi aquele corpo adquirir hematomas diversos, em extensões e gravidades diferenciadas, produto da queda sobre aquele solo que girava alucinadamente, conforme os últimos registros de suas retidas embaciadas, antes do apagão total - provocado pelo colapso das redes cerebrais.

Caiu às portas dos Alcoólicos Anônimos e naquela hora, a presença de um dos anônimos seria providencial, mas estavam todos ausentes em seus anonimatos.

O fato materializava, desgraçadamente, a consagração máxima da ironia da vida e ratificava, de forma inquestionável, a inexistência de qualquer possibilidade de alterar o destino daquele ser embriagado.

Os transeuntes desviavam daquele corpo que obstruía parcialmente as suas passagens e quando não furtavam o olhar para aquele quadro que feria a dignidade humana, as palavras duras se faziam presentes, construindo comentários sempre cruéis e desairosos.

Afinal, aqueles críticos não permitiam que os seus espíritos sentissem os efeitos da solidariedade e da compaixão humana.

Eram figuras sóbrias, equilibradas, mas sem quaisquer vestígios de humanidade.

Apesar do esforço de um companheiro de copo a ajuda chegara tarde.

A pouca terra que cobria aquele simulacro de caixão na quadra disponibilizada aos indigentes, encobriu, também, a sua lamentável história de vida.

A irresponsabilidade dos poderes constituídos por ação ou omissão, levou a destruição pelo fogo àquela comunidade abrigada na escuridão da cidadania.

Dentre dezenas de mortos estavam sua mulher e filhos.

Apesar de sua condição de pária procurou avidamente a fonte da Justiça para a condenação dos responsáveis, mas deparou-se com um deserto de probidades humanas.

A desilusão e a dor levaram-no, mesmo relutante, à busca pelo primeiro copo.

O torpor advindo e inesperado, por ser abstêmio, amenizou o seu espírito.

A partir daquele momento a sua alma passou a ficar sempre encharcada pelo álcool que foi o único que hipotecou, mesmo que de forma etérea, alguma solidariedade à sua dor e desesperança.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Poça d’ água.


Aquele acúmulo d’água entre o meio-fio e o asfalto poderia representar mais um desperdício, dentre vários que os nossos olhos habituados a esses excessos não permitem mais os devidos registros de nossas retinas; em razão da pouca importância, agem como fossem juízes em despachos judiciais prolatando sentenças sobre autos de prisão de indivíduos que praticaram pequenos furtos e lavram suas sentenças invocando o princípio da irrelevância ou bagatela.

Era uma rua onde o tráfego era permitido apenas a veículos de pequeno porte, mas o destino sempre irresponsável induziu aquele motorista de ônibus clandestino a cometer uma infração com conseqüências que ultrapassariam as adstritas ao trânsito.

Quando freou foi sobre a fatídica poça d’água que tinha um volume substancial, o resultado foram jatos fortes de água que foram de encontro às revistas e jornais expostos naquela banca de jornal que ficava em frente ao bar que dera origem à formação daquele acúmulo de líquido aquoso.

Aquelas aspersões sobre as publicações causaram efeitos e significados opostos aos da liturgia católica, pois o jornaleiro possesso partiu para cima do dono do bar e desferiu uma quantidade de socos demoníacos e pontapés satânicos que o levaram ao nocaute e, por via de conseqüência ao estado comatoso.

Vizinhos foram chamar os parentes do dono do bar que tinham um salão de beleza próximo, ainda ouvindo os brados ensandecidos do jornaleiro: “Eu avisei! Pedi para desfazer essa maldita poça que se criou quando lavava o bar, seu desgraçado. Olha o meu prejuízo anunciado”.

Chegaram a esposa, a cunhada e o pai do dono do bar, um senhor avançado nos anos, e conseguiram apenas hematomas e escoriações diversas em seus corpos.

A confusão aumentou pela quantidade de outros partícipes (mulheres, adultos, idosos, crianças, amigos e conhecidos das partes em conflito) que deslocaram o eixo da briga para os muros da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) que acabaram desabando, acompanhando assim, os serviços prestados por essa empresa que foram desmoronando ao longo do tempo.

Um grande compositor e cantor brasileiro ao compor a canção “Gota d’água” chama atenção sobre os desdobramentos nefastos de uma mísera gota, imaginem uma poça d’água.

O desfecho foi diluvianamente dantesco: diversos boletins de ocorrências, com respectivos exames de corpo de delito, um cadáver perdulário pelo gasto excessivo de água e um assassino hidrofóbico que engrossa as estatísticas áridas dos procurados da Justiça.

Além do drama mencionado, na próxima pesquisa do IBGE ao tabularem os dados, os analistas verificarão um decréscimo na circulação e no consumo de riqueza na região, além de um declínio no número de empregos, pois, encerraram as portas o salão de beleza, o bar e a banca de jornal.

É ... o tema água tornou-se sinônimo de calamidade.

O mundo globalizado está vivenciando as seqüelas de um recém tsunami econômico; o Brasil superou a crise pois enfrentou uma marolinha, segundo o Presidente, e agora, por uma mísera poça d’água, Duque de Caxias – RJ, tem seu PIB fazendo água.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A tormenta de um Tormenta


A vida dele sempre foi uma tormenta, a começar pelo sobrenome.

Para não fugir a regra da exceção, chegou ao mundo numa noite amena e de uma calmaria surpreendente, pois, o dia anterior trouxe uma antevisão do Apocalipse.

Essa pré-visão estava adstrita, apenas e tão somente, ao dos últimos acontecimentos antes do retorno do Messias, conforme relato de João Evangelista, registradas no último livro canônico do Novo Testamento, sobre as revelações que lhe foram feitas quando estava na ilha de Patmos.

Era um mês aziago, não por ser agosto e sim, pela vigência do horário de verão que altera os relógios biológicos das pessoas e a cronologia dos nascimentos, pois, nas certidões expedidas constam à hora vigente, sem ressalvas, maculando ad eternum a ordem e a sucessão dos acontecimentos.

Essa omissão causou profundos transtornos ao longo de sua vida.

Na fase adulta era um adepto fervoroso dos mapas astrais, da numerologia, dos horóscopos e de outras áreas afins e todas as suas incursões nesses campos esotéricos não produziam os resultados esperados, ou próximos.

O problema que atormentava o Tormenta era seu desejo de interpretar um dado momento de sua vida e recorreu a astrologia.

Essa pretensa ciência, para uns, utiliza-se de uma técnica denominada de trânsito que indica as tendências do momento desejado e que forças disponíveis existiam para atravessá-lo, no caso em questão, era à hora de sua chegada ao mundo.

Desgraçadamente, mais uma vez, o Tormenta, deu com os burros n’àgua, ou melhor, saiu de sua órbita.

Ninguém pensou no maldito horário de verão quando faziam seus estudos e fixavam-se, apenas, na hora e na data de nascimento que constavam da certidão de nascimento:......
às 00 h 30 do dia 22 de novembro de 19.., logo, era do signo de Sagitário, entretanto, nasceu efetivamente às 23 h 30 do dia 21 de novembro, Escorpião, portanto.

Problema resolvido? Não.

Na hora correta de seu nascimento estava nos seus estertores o término da conjunção entre Plutão e Lilith (ou Lua Negra), e essa era a razão das desditas eternas do Tormenta.

Afinal, a Assembléia Geral da União Astronômica Internacional (IAU), reunida em Praga, decidiu por unanimidade dos seus membros, denegarem a condição de planeta principal, a Plutão, em razão da descoberta de vários corpos celestes de tamanho equivalente ou maior, além de alegaram à excentricidade de sua órbita, etc.

A capacidade humana de exercer a mais odienta de todas as intolerâncias, a do preconceito é infinita, pois, atravessou os umbrais do espaço sideral e, em razão de seu nanismo, Plutão, deixou sua condição anterior para se transformar em planeta anão, conforme sentença da IAU.

Essa decisão destruiu a memória afetiva e emocial de milhões de pessoas que nasceram na conjunção desse outrora planeta com qualquer outro astro, no mesmo ponto do zodíaco.

Para os descrentes do esoterismo, a profunda desordem na vida do Tormenta poderia ter origem outras e não numa irrelevância estúpida de corpos celestiais e suas órbitas, mas o fato em questão é a crença dele, não a dos outros, e ponto final.

Cansado dos desencontros da vida, das tragédias vivenciadas, das tormentas perpétuas resolveu eliminar definitivamente a sua condenação eterna, mas com uma condicionante pétrea: a de não completar mais um ano de vida.

No dia do seu aniversário deu cabo à vida quando faltava exatamente quarenta minutos para chegar à hora do seu pseudonascimento, cumprindo assim, o derradeiro item de um ritual que fora meticulosamente estudado.

Mesmo que na nova condição incorpórea esteja atravessando por tempestades diluvianas para chegar a um destino incerto, essas condições nunca serão tão devastadoras, caso soubesse que morreu com mais um ano e 20 minutos de idade. (haja tormenta!)