quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A morte, o tempo e deus.

O quadro era completamente desolador. Esquálida pelo avanço, inexorável, daquela doença insidiosa que concorria, somente, com marcha do tempo e acompanhada de uma dor lancinante, exclusiva dela, não do tempo, esse é insensível por natureza, e muito menos de deus, afinal, esse é pérfido, desleal e traiçoeiro.

À medida que as dores aumentavam, as suas súplicas pela presença da morte eram ouvidas na mesma intensidade.

A morte por se sentir desejada fazia-se de difícil, de rogada, afinal, jamais aceitara qualquer pedido em sua suposta eterna existência, não era vulgar.

E deus assistia tudo com um sorriso de escárnio.

Sim. Com sua atitude típica, inata, qual seja, ostensivamente de desdém, de menosprezo para com tudo e para com outros.

A duração de nossos destinos depende, exclusivamente, dela, a morte, mas com a anuência irrestrita dele, deus. O tempo nessa quadra é solenemente desprezado, ignorado.

Portanto, a variação de seus humores (morte e deus) que determinarão como será a intensidade do flagelo, ou não, na passagem.

Nos seus estados de alegria levam suas vítimas, sorrateiramente, sem sofrimento e instantaneamente, entretanto, quando da fase de péssimo humor, produto de suas iniquidades, martirizam lentamente os corpos escolhidos, dando vazão integral as suas índoles sádicas.

Confesso que pode não ser uma grande coisa, mas já é um alento, saber que a desgraçada (a morte) e o indigente miserável (deus) sofrem de transtornos bipolares, tendo mudanças cíclicas de humor e que esses episódios serão imutáveis, ad eternum.

O diabo é que as consequências de suas doenças, rigorosamente iguais recaem sobre nós provocando um prejuízo irrecuperável, a perda de nossas vidas, invariavelmente, pelas vias de sofrimentos inomináveis.

Entretanto, os desequilíbrios nos seus humores aniquilam eternamente os seus estados de ânimos e seus bem-estares.

Ah! Isso me causa um prazer indescritível, pois, as sua ações malévolas não serão nunca mais completas, serão sempre privadas do orgasmo pleno quando dos seus atos e desejos de necrofilias.

Essa maldita transferência das consequências de suas doenças resvalam nos limites da desconsideração e da inexistência de comportamento ético para conosco.

O meu prazer, relatado em linhas acima, pode ser interpretado como insignificante frente à magnitude das forças da morte e de deus, mas insisto, pode até ser irrelevante, mas, data vênia, a satisfação é minha e, portanto me basta.

No final, o tempo que passou quase despercebido no texto (não motivado pelo autor, e sim, por deus) será assassinado com requintes de crueldades por deus, afinal, para ser eterno, o tempo tem que inexistir.

A morte tornando-se inútil pela inexistência de seres viventes no final dos tempos será descartada, também, por deus.

Sozinho, a princípio, deus vagará pelo universo de forma anônima e sendo desprezado pelos corpos celestiais.

Em tese, deus continuaria todo poderoso, onipotente, onisciente e onipresente, mas pela sua soberba por frações de segundos do tempo cronológico da Terra, caiu na tentação de sentir-se humano, produto defeituoso, nefasto de sua criação, e aí assumiu um corpo acometido do mal de Alzheimer em grau avançado.

Resultado, não sabia mais quem era e não havia ninguém para responder a sua  indagação: “Você sabe com quem está falando”.

Perdido, a demência instalou na sua mente e impossibilitado de retornar a sua identidade de Criador deixou, portanto, de usufruir as ditas prerrogativas da divindade, tornando-se mortal e terminou seus dias sofrendo dores excruciantes.  

O seu fim provocou-me um imenso regalo (vivo prazer), afinal, o TUDO, segundo seus seguidores, transformou-se em NADA.