
O ambiente era tenso. O sentimento de indignação misturava-se com a quase desesperança, na estrutura funcional do Instituto Benjamin Constant.
E acolhendo a tese sobre a existência de espíritos, Dom Pedro II, criador do Instituto, em 1854, estaria indubitavelmente redigindo um abaixo assinado e seria o primeiro signatário do manifesto, contra a decisão leviana, tresloucada, daquele presidente da República do Brasil, empossado em 1990, figura de triste lembrança, que em dias, assinaria um ato extinguindo o aludido Instituto.
Sabedores da vinda do presidente, ao Rio de Janeiro, os profissionais do Instituto, com a colaboração dos pais e dos próprios alunos resolveram, mediante, a elaboração de diversas palavras de ordem, chamar a atenção do dignitário maior do país, com intuito de reverterem à decisão iminente.
A inexistência de acuidade visual do presidente e de seus assessores era uma afronta àqueles portadores de necessidades especiais, pois, esses tiveram a subtração da visão em decorrência de problemas genéticos, ou de acidentes, provocadas pelo destino, aqueles, pela insensibilidade humana.
Inconseqüência como essa, denota de forma plena e definitiva, a índole degenerada da maioria dos homens públicos, que vão ao limite do ultraje, e impossibilitados de ultrapassá-lo, param. Do contrário, prosseguiriam na sua marcha inexorável da insensatez.
Em situação análoga, vivia o INES (Instituto Nacional de Educação dos Surdos), criado em 26 de setembro de 1857, durante o Império do mesmo D. Pedro II, quando o professor francês Hernest Huet fundou, com o apoio do imperador, o Imperial Instituto de Surdos-Mudos.
Aceitando a tese aludida anteriormente, o espírito de D.Pedro II, diante desse novo desmando, sofreria de uma apoplexia específica, em razão de sua condição de massa incorpórea.
A revolta pela afronta, pela vileza do ato presidencial, levou o corpo funcional, os alunos, os seus parentes, a se mobilizarem, mediante confecção de uma série de cartazes de protestos para tentarem sensibilizar o Presidente da República, quando da referida vinda ao Rio.
As decisões e ações de ambos os Institutos eram totalmente independentes e, portanto, desconheciam completamente as deliberações de cada um sobre os protestos programados.
Coincidentemente, a direção de ambos os Institutos marcou o encontro dos respectivos participantes dos protestos, na Cinelândia, com duas horas de antecedência à passagem da comitiva presidencial.
Da surpresa do encontro a uma ação unificada, mesmo com o tempo exíguo, conseguiram juntar-se e de forma coesa, consolidava, assim, o objetivo de serem ouvidos e vistos, por mais irônico que isso possa parecer, em razão das deficiências de cada grupo.
O ambiente extremamente tensionado; a organização de última hora, somada a uma enorme concentração de pessoas, de outras categorias, que se faziam presentes, também, para protestar, indubitavelmente, prenunciava um final aziago.
As professoras dos deficientes da surdo-mudez reiteravam (na língua de sinais) a necessidade de levantarem seus cartazes quando da presença do presidente, e orientando, também, que deveriam se preocupar, agora, com os outros colegas, os cegos, ajudando-os.
Já as professoras dos deficientes visuais, alertavam, com megafones, sobre as palavras de ordem a serem proferidas e ressaltavam que os outros colegas, surdos-mudos estariam unidos a eles.
Os surdos-mudos condoídos pela situação dos cegos, afinal, coitados, não enxergavam, aproximaram e cada um escolheu um cego para conduzi-lo, formando assim, um par que se complementavam (ironias á parte).
Os cegos mesmo diante da solidariedade sentiam-se inseguros, pois, a ajuda causava mais transtornos do que auxílio verdadeiro, mas compreendiam a boa intenção deles, os surdos-mudos.
Os professores souberam da alteração do itinerário da comitiva presidencial e com os megafones, informavam aos cegos sobre o fato e da necessidade de se deslocarem para o novo local. Concomitantemente, as professoras dos surdos-mudos, através da linguagem dos sinais, comunicavam a eles, sobre a alteração do local dos protestos.
Cada um dos surdos-mudos apressaram em segurar os seus cegos, com um desvelo extremado, imbuídos pelo senso de responsabilidade; por sua vez, os cegos, sendo conduzidos de uma forma inapropriada, utilizaram dos seus recursos, as bengalas, usando-as, de uma forma atípica, pois as batiam com força demasiada no chão, para terem mais confiança no caminhar.
Conseguiram aproximar-se do novo local.
Uma tropa de choque, com seus escudos, cassetetes e bombas de efeito moral, estavam preparados para agir, casos os manifestantes transpusessem um perímetro amplamente delimitado que permitia ao presidente e seus acólitos, discursarem sobre o palanque armado sem terem o desprazer, para eles, de assistirem os protestos.
As batidas das bengalas no chão causavam um barulho ensurdecedor, mas para os surdos-mudos, eles não estavam nem aí - não ouviam - contrapondo ao nervosismo da tropa de choque, que imaginavam que os manifestantes estavam armados de paus, ferros, etc.
Quando as professoras observaram que os policiais iam de encontro aos manifestantes para os dispersarem, com os cassetes em punho e que a ordem de lançarem as bombas de gás lacrimogêneas já fora determinada, elas pegaram os megafones e gritaram: “Cuidado! Cuidado! Os policiais vão atacar.”
Os cegos ao ouvirem o comunicado do ataque imediato dos policiais ficaram em estado de alerta máximo, enquanto, os surdos-mudos recebiam as orientações, através da linguagem dos sinais, para retirarem os cegos.
Ao ouvirem o barulho das primeiras bombas de efeito moral, o caos se instalou.
Começou um corre-corre danado entre a multidão; os cegos ao ouvirem o estouro das bombas prepararam-se para o terrível confronto e os surdos-mudos, ao verem os policiais correndo em suas direções, para protegerem os cegos, começaram a puxá-los para saírem daquele tumulto.
Os cegos ao sentirem arrastados de forma brusca, tropeçando e recebendo o impacto em seus corpos dos corpos da turba que corriam desordenadamente em busca de abrigo, acharam que eram os policiais.
Numa reação instintiva e imediata de autopreservação começaram a desferir golpes, em todos os sentidos e direções, com suas bengalas.
Resultado: vários surdos-mudos foram hospitalizados com diversos ferimentos que variavam no grau e na extensão da gravidade dos mesmos, produto da ação e da força dos golpes das bengaladas dos cegos.
Alguns tiveram traumatismos cranianos, outros braços e costelas quebradas, sem contar, também, com um significativo número de baixa entre os cegos, com escoriações múltiplas, fraturas diversas, provocadas pelas quedas, etc.
Tomei conhecimento dos fatos acima relatados, ao visitar uma pessoa amiga, uma das professoras que estavam no protesto.
Deitada num leito na enfermaria da rede pública, com a cabeça toda enfaixada, com dificuldade no falar, em razão da agressão sofrida pela covardia da força policial, mesmo com uma dor intensa, externava com indignidade os acontecimentos daquele dia,
Enfim, o somatório das mazelas resultou num todo deplorável.
O projeto de sensibilização (protesto) à autoridade foi um fracasso completo, por falhas na Comunicação.
A tragédia poderia ter sido evitada com as técnicas de implantação de projetos, segundo especialistas do ramo.
Não creio, basta analisar as estatísticas de projetos fracassados implantados com a melhor técnica de gerenciamento de projetos propalados por um Instituto alienígena.
Dentre os diversos hábitos condenáveis do aludido presidente, frise-se a sua mania de ser um outdoor ambulante, estampando em suas camisetas frases medíocres, puro reflexo do portador das mesmas. A única exceção, sempre as há, fora a frase: “O tempo é senhor da razão.”
Afinal, felizmente os Institutos continuam prestando seus serviços relevantes aos portadores de necessidades especiais e aquele presidente prepotente, viu extinta sua vida pública com a cassação de seus direitos políticos, em razão do processo de impeachment, lamentavelmente, apenas por oito míseros anos.
Hoje é senador. Que país!