quarta-feira, 27 de abril de 2016

Uma mente brilhante


Ambos achavam que tinham direito a ter razão.

As relações, que foram íntimas na origem do pó dos tempos, deixaram de ser cordiais, num passado imemorial. Hoje, ultrapassavam as raias do bom senso, seja lá o que isso venha a significar.

O diálogo mantinha-se áspero, virulento, onde as pretensas ironias não passavam de meros deboches, eivadas de grosserias que desqualificavam a ambos. O exercício da ironia é prerrogativa, atributo de seres inteligentes; o que, evidentemente, não eram.

Efetivamente aqui, prezado leitor, não cabe o benefício da dúvida, pois ambos partejavam, de forma mútua, o produto, o rebento de uma incultura solar.

Jamais teriam a capacidade de estabelecer o contraditório, face à afirmativa acima, pois desconheciam Sócrates e, portanto, não poderiam avocar, em suas defesas, o artifício da ironia socrática, método desenvolvido pelo filósofo e que levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.

O diabo, não fugindo de suas características, amparado em um diagnóstico precoce de bipolaridade e com um mau-humor extremado, diz:

‘Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa’.

Colérico, aliás, reação inimaginável para aqueles que rezam em sua cartilha, Deus, com os olhos esbugalhados e rútilos, responde:

‘Canalha! Engula’ e disse de forma peremptória ‘a sua blasfêmia!’

Para minha surpresa que acompanhava a cena e, prejulgo, também para Deus, o diabo transmuta-se num ser sereno, sóbrio e, numa modulação de voz civilizada, diz:

‘Somos produtos do inconsciente coletivo, derivados de uma mente brilhante que, diante da insensatez da vida, da consciência da mortalidade, criou-nos com a finalidade de que a insânia não prosperasse e de que a esperança permeasse as vidas’.

Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.

Confesso que, como testemunha, um extremo desconforto apoderou-se de mim.

Reflexivo, Deus dirigiu-se ao seu interlocutor:

‘Confesso que a depressão, que me acompanhava há séculos, decorria de uma crise de identidade atroz. As energias emanadas dos seres humanos, pelo aludido inconsciente coletivo, propiciou a nossa existência incorpórea, com os atributos específicos para cada um de nós.

As virtudes a mim atribuídas levaram-me à soberba, ao orgulho excessivo, à arrogância. Entranharam-se em mim de tal forma, que os via como predicados.

Que disparate, que despautério.’

O diabo, que ouvia atentamente as idiossincrasias de Deus, de forma sóbria e austera fez a seguinte ponderação:

‘No fundo, somos gêmeos univitelinos, gerados daquela mente talentosa. Na modelagem conceitual preestabelecida, os nossos atributos teriam que ser mutuamente excludentes. A parte que me coube foi a dos baixos costumes. Veja bem: nos dicionários sou definido como ‘príncipe das trevas, espírito maligno, gênio do mal, pai da mentira, serpente maldita’, et cetera.’

Ficaram silentes, reflexivos.

O silêncio foi quebrado por Deus:

‘É verdade que, em nosso nome, diversas e imensas atrocidades foram perpetradas, e ainda o são. Entretanto, numa visão histórica das relações humanas, a nossa criação cerceou atitudes, refreou espíritos e, apesar de nossa existência persistir no inconsciente geral, o mundo perpetua iniqüidades. Sem o nosso simbolismo, seria o caos!’

Num impulso mútuo, abraçaram-se fraternalmente, como nunca fizeram. As lágrimas cobriam suas faces, sabendo que a separação era premente e definitiva.

Compreenderam que seus destinos estavam inapelavelmente traçados por aquele intelecto privilegiado. Agora, sem as perplexidades vividas até aquele momento por ambos. A sabedoria fluiu e preencheu as lacunas, até então existentes naqueles apedeutas.

Uma invenção inimaginável, inconsistente, transmitida, a princípio, pela tradição oral, encorpou-se e gerou, do nada, pela força do inconsciente coletivo, a criação desses entes, que tinham que cumprir os desígnios previamente estabelecidos.


E, tacitamente, cumpriram e cumprem afinal obrigação é obrigação.