terça-feira, 6 de julho de 2010

Desigualdade


Viviam em mundos diferentes.

Um procurava manter os seus sonhos, o outro não lembrava mais que um dia os tivera.

Os desencontros na existência de ambos assemelhavam-se a dois conjuntos com elementos quase na totalidade distintos, tendo como únicas interseções a idade e a ausência de irmãos.

Um estudava numa das mais respeitáveis escolas particulares do Rio de Janeiro, o Santo Inácio, o outro, estudava numa escola pública ao lado da comunidade em que vivia, onde a falta de professores em determinadas matérias não era um desastre recente.

Os professores que insistiam em ministrar aulas naquela escola sofriam pressões dos traficantes da área e de um número expressivo de alunos já delinqüentes que os ameaçavam cotidianamente.

Concorrendo com a ausência dos educadores o Estado cumpria com esmero a sua desídia.

Os pais de ambos sintetizavam algumas das mazelas da humanidade chanceladas pelos ditames religiosos ou pela ética que significa a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade.

Um respondia diversos processos por crimes denominados de colarinho branco e era vice-presidente de uma instituição bancária.

Os processos seguiam pelos caminhos tortuosos da Justiça, lentamente, contrapondo-se a agilidade do banco na cobrança de taxas e de juros extorsivos.

Era casado, mesmo sendo bissexual, com uma alcoólatra que recentemente descobrira uma atração avassaladora por mulheres. Não chegara às vias de fato ainda, mas era uma questão de tempo.

O pai do outro, encontrava-se recolhido numa dessas casas que abrigam indivíduos com problemas psiquiátricos, no caso dele, crônico.

Encontrava-se esquecido pela família há uma década.

A esposa era uma prostituta em declínio, pois o tempo, esse tirano cruel, lentamente roubava os seus atrativos, os seus atributos, transformando-a numa mercadoria de terceira linha, onde a concorrência recicla seus produtos numa velocidade estonteante.

O filho do banqueiro para suprir a ausência total dos pais enveredou-se pelos caminhos das drogas ilícitas, enquanto o da prostituta para sobreviver transformou-se num entregador das substâncias proibidas no asfalto.

Consciente do ilícito e de suas conseqüências agia com prudência e jamais fizera uso de qualquer tipo de drogas, lícitas ou não.

A necessidade da sobrevivência física e intelectual era o fator determinante para aquela atitude marginal.

A mensalidade do cursinho que freqüentava à noite era apenas para os abastados e como era um deserdado da sorte arriscava naquela ação criminosa para manter o seu sonho de entrar numa faculdade pública e cursar Ciências Jurídicas.

O outro, apesar de não ser um aluno exemplar com os conhecimentos transmitidos e assimilados ao longo da vida escolar não via óbice à entrada na universidade pública, a sua única certeza era a incerteza sobre que curso optar.

As circunstâncias e os propósitos do garoto pobre não permitiram que o destino fosse complacente.

Numa batida policial ao perceber que seu sonho poderia transformar-se em pesadelo, em razão do flagrante, correu.

Foi alcançado não pelos policiais, mas pelas balas de suas armas. A morte foi instantânea.

O tempo, inimigo figadal das marés em razão de não aceitar recuos, apenas avanços, prossegue em sua marcha inexorável rumo ao fim.

O menino abastado passou no vestibular de Medicina e exaurido em suas forças pelo trote tradicional recompõe suas energias cheirando com sofreguidão duas fileiras de cocaína.

E a vida segue o seu curso natural.

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