sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O bonde 66 – Tijuca/Praça 15


A insônia provocara um estado de letargia profunda em Marcus. Tomou seu banho, vestiu-se, dispensou o café da manhã, caminhou apressadamente, sensação equivocada produzida por uma mente conturbada, pois andava com passos arrastados, contidos, em direção ao ponto do bonde.

Percebera uma aglomeração de pessoas, o que não era comum naquele horário, concluindo que o transporte público passara a, frequentemente, atrasar, em contraposição ao intervalo dos bondes, regularmente cumpridos em um passado recente.

O fato de chegar atrasado ao trabalho não era causa de sua preocupação. Afinal, era funcionário do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT), que não primava por um horário rígido. O que lhe causava espécie era o comportamento do Governo, frente às concessões públicas.

O transporte por bondes e a distribuição de energia elétrica tinham, como concessionários, o mesmo conglomerado (Light), que passava por uma síndrome inexistente dos compêndios psiquiátricos, ou seja, a síndrome consciente do descaso.

Os bondes não cumpriam os horários e o fornecimento de luz elétrica, por sua intermitência, fazia concorrência aos vaga-lumes.

Marcus, sujeito pacato, avesso a qualquer tipo de aventura – por índole e gosto - deixara de subir no primeiro bonde.

Para sua surpresa e satisfação, o próximo bonde que parara era o que habitualmente tomava, tendo como motorneiro seu Joaquim e como condutor o seu Manuel (aqui abro parêntesis para explicar, aos mais jovens, que, motorneiro era quem conduzia, pilotava o bonde, enquanto o condutor era o cobrador das passagens. Isto posto, fecho o aludido parêntesis – seguindo as normas, hoje, um tanto quanto desprezadas).

Seu Joaquim, o motorneiro, era alto, esguio, imberbe, uma figura impoluta. Completamente compenetrado na sua faina, sempre com o uniforme azul marinho, com colete (exigência da companhia), impecável, engomado, com o laço da gravata perfeito e com seu quepe tendo, na parte frontal, uma plaquinha indicativa de sua função (Motorneiro), adequadamente colocada, lembrava a postura dos generais em festividades cívicas e/ou militares. Era extremamente educado, bom ouvinte, mas avaro nas palavras.

Quando os passageiros despejavam suas iras e, muitas vezes, impropérios sobre os atrasos recorrentes, sobre os excessos de passageiros, seu Joaquim ouvia-os, compenetrado, e respondia solenemente: “- É um problema.”

Seu Manuel, o condutor, era o avesso de seu colega de trabalho, tanto no gênio expansivo quanto na estatura. Era baixo, troncudo, com aqueles bigodes fartos, retorcidos nas extremidades, para cima. Com o passar dos anos, o coleguismo entre ambos transformou-se numa sólida amizade.

O exercício de sua atividade exigia dele uma habilidade própria dos contorcionistas, uma agilidade ímpar nos estribos e uma memória fotográfica, pois, a cada parada, desciam e subiam passageiros, e a cobrança da passagem não podia ser negligenciada. Era impensável a descortesia em solicitar o pagamento de quem já o efetuara.

Seu Manuel, além das habilidades mencionadas, possuía o dom de declamar versos de improviso e o fazia durante o transcurso da viagem, sem jamais, em tempo algum, repeti-los, no espaço compreendido entre o início e o ponto final da viagem.

Era uma figura folclórica e, talvez por isso, nenhum passageiro habitual dava o beiço, expressão da época, que significava deixar de pagar a passagem.

Outra característica de seu Manuel o condutor, digamos assim, era como procedia ao registrar o número de passagens cobradas. Ao acionar a cordinha específica o registrador que se assemelhava ao mostrador de um relógio grande, trocava o número totalizado anteriormente, acrescentando mais um, e assim, sucessivamente. Como um mantra com sotaque português, ouvia-se dele: “- Ô raios, dois pra mim e três pra Light”.

No final do dia, a companhia era subtraída em 40% de suas receitas brutas, que eram transformadas em materiais de construção pelo seu Manuel, o condutor.

Essa figura prosaica era incansável, em suas folgas. Pegava literalmente, na massa, ajudando o pedreiro que construía a sua próxima casa e, com desvelo extremado, cuidava do destino de suas finanças.

Seus sonhos de possuir uma vila de casas, de forma metódica, eram realizados, mediante o epíteto: “- Ô raios, dois pra mim e três pra Light”.

A vida seguia seu curso natural, com os atrasos constantes dos bondes, e o 66 não era exceção à regra. Sua peculiaridade era a concisão na resposta de seu Joaquim, o motorneiro, sempre com a indefectível frase: “- É um problema” e seu Manuel, o condutor, com seu humor constante, suas declamações poéticas e a famosa expressão ao registrar as passagens: “- Ô raios, dois pra mim e três pra Light”.

Seu Joaquim era casado e tinha uma prole de cinco filhos. Ao contrário de sua vida profissional, na particular negligenciava a família, era totalmente ausente. Enfim, levava sua vida fora dos trilhos, materializando uma ironia atroz pois, no seu ofício, jamais provocara um descarilhamento sequer.

Quando sua mulher, chegando às raias do desespero na administração da casa e dos filhos reclamava, seu Joaquim, ouvia tudo de forma impassível e, ao final da cantilena sofrida, utilizava-se de sua expressão imperecível: “- É um problema.” A partir daí, podia cair pedaços de céu velho e cacos de estrelas, que nada o alterava. As preocupações nunca o atormentavam. Para os familiares, sua conduta era condenável. Os comentários que chegavam aos seus ouvidos eram solenemente ignorados.

Seu Manuel, o condutor, era um solteirão – por gosto e convicção. Tinha suas amantes, sempre temporárias, pois, não admitia criar vínculos mais profundos. O amor era, para ele, o mesmo que o usuário do bonde: - um passageiro.

Seu projeto de vida estava dentro do prazo estimado e o custo poderia ter algum estouro orçamentário. Afinal, sua sócia, a Light, era a provedora. Bastava trocar a partilha dos números de seu mantra. Viveria de renda, dos aluguéis de sua vila de casas.

A vida seguia seu curso, com a mesma imprecisão do talvegue.

As seqüelas do tempo fizeram estragos na vida de seu Manuel. O viço começara a desaparecer e, na falta de um diagnóstico preciso, sua doença agravava-se. Após poucos meses, encontrava-se entrevado em uma cama. O destino punia-o pelos os excessos de contorcionismos de sua vida funcional, mediante uma contabilidade perversa.

O avanço na doença do Manuel provocou um recuo devastador na auto-estima de Joaquim. A ausência do amigo levou-o a procurar o setor de pessoal da empresa, pedindo transferência de linha.

Em questão de semanas, em razão de sua ficha profissional, fora transferido para o bonde do Departamento dos Correios e Telégrafos, que fazia o transporte da carga postal. Esse bonde tinha as seguintes peculiaridades: não tinha número, apenas a inscrição DCT, trabalhava apenas o motorneiro e sua cor verde contrastava aos demais, que eram cinza.

Joaquim visitava o amigo regularmente, sempre ouvindo as lamúrias do Manuel, constatando um quadro dolorido e deprimente, que avançava a cada semana.

Passado um mês, Manuel caminhava, inexoravelmente, para o fim.

Joaquim testemunhou que Manuel tinha plena consciência de sua morte chegando.

A morte, sempre insensível, por concessão inusual, permitiu a Manuel mais 66 minutos de vida.

Arfante, com os olhos fixos num ponto invisível, Manuel, dirigindo-se a Joaquim, seu único amigo, relatou-lhe todas as suas perplexidades e expressou seu medo, seu pavor da morte, da incerteza de encontrar-se com Deus ou com o diabo.

O tempo concedido esgotava-se.

Seu corpo entrou em estertores, a vida estava por um fio invisível. Aguardava, de seu amigo, suas últimas palavras de conforto de que desesperadamente necessitava, e o contato da mão amiga para segurar a sua dando, assim, segurança na passagem iminente.

Joaquim, com uma tristeza infinda, com as mãos trêmulas e com os dedos entrelaçados às suas próprias costas, reclina-se sobre a cama do moribundo e diz: “- É um problema.”

Nos segundos finais, antes de sua mente desligar-se da vida, por revolta provocada pela insensibilidade do amigo ou por força do costume, profere sua observação final: “- Ô raios”. E parte para um destino incerto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ruínas


Aquele senhor, parado diante de um quadro denominado Ruínas, chamara a atenção dos seguranças do museu.

Apoiado em uma bengala, com o corpo curvado pelo peso da vida quedava-se, havia duas horas, com o olhar petrificado na imagem do quadro, aliado a uma imobilidade corpórea, denotando o sentimento que a realidade da obra e sua beleza despertavam naquele ser.

As dimensões do quadro eram reduzidas, contrapondo-se à grandeza que o pintor conseguira exprimir.

A pintura a óleo, em seu primeiro plano, mostrava as ruínas de uma construção indefinida, na sua forma e datação e, em segundo plano, uma árvore frondosa, com todos os seus galhos recurvados para a direita, transmitindo a ação de um vento impetuoso sobre aquele ambiente, tendo ao fundo um céu em transição, tendendo para uma melhoria nas condições atmosféricas adversas.

Os escombros físicos, dependendo da qualidade do olhar e por mais paradoxal que seja, podem ser belos, apesar de ruínas.

Na mente daquele observador em êxtase, o pensamento dicotômico entre as ruínas físicas e morais, representando a destruição de um período, cuja extensão pode ser aferida em séculos ou em parcas dezenas de anos mas, em ambos os casos, medindo fragmentos de vidas.

O exercício da reconstrução daquela imagem, produzido mediante o devaneio daquele senhor frágil, transformou a impossibilidade física de aglutinar os materiais fragmentados e os inexistentes – perdidos ou destruídos pela exaustão do tempo – em uma reconstituição concreta, efetiva.

Um sorriso largo delineou-se naquele rosto envelhecido. Mesmo que momentaneamente, o rejuvenescimento de um passado remoto fez-se presente, pois a restauração de uma época, pela força criativa de sua mente, permitiu a junção dos escombros, existentes ou não, com as amálgamas do passado, a recuperação de registros de memória tornados inacessíveis.

Curvado, com passos trôpegos e com o rosto encharcado por lágrimas incontidas, dirigiu-se à saída, sufocado pelos pensamentos recorrentes sobre seu passado.

Sob ruínas morais de diversos matizes, não suportara a palidez da morte nas faces de seus três filhos e de sua esposa, levados por um acidente automobilístico. A destruição, precoce e impiedosa, das vidas dos seus, transformou a sua em escombros.

A tragédia vivenciada levou-o a uma condenação eterna, as tormentas tornaram-se perpétuas. O vento das lembranças o conduzia às reminiscências, vergadas pelo amargor do sentimento inequívoco da injustiça perpetrada aos seus, desaparecidos pela ação de uma única pincelada, provocada pela mão insensível do destino, desse artista sem alma.

Ele era uma ruína que persistia ao tempo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Síndrome


Acabara de sair de seu turno de trabalho e, sabedor da impossibilidade de recolher-se a um ambiente de total privacidade, caminhou em direção à sua única e cotidiana opção: - a praça, que era de domínio público.

Sentou-se num banco o mais afastado possível, ligou seu gravador, que para ele representava o único e derradeiro amigo, e começou o seu monólogo:

- Falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada que concorre, apenas e tão somente, com o sólido mau-caratismo dos homens públicos desse país.

Sofro de diabetes, daltonismo e distimia. Que herança! Pensando bem, qualquer herança patrimonial é sinônima de desavenças, discórdias, desunião mas, por ser filho único, não sofreria desse desgosto. Não causava desapontamento o fato da penúria, da pobreza familiar, de não herdar valor pecuniário. Contudo, aquilo que foi transmitido por hereditariedade, do pai diabetes e daltonismo e da mãe a distimia, era uma perversa doação de genes desqualificados.

O trabalho numa firma terceirizada, afinal o custo Brasil era altíssimo (um verdadeiro mantra entoado pela classe empresarial), representava um excesso de serviço, em contraponto a um salário miserável. Não tinha opção e torturava-se no atendimento aos usuários de telefone, que lhe solicitavam informações sobre o número de determinados serviços públicos e o DDD de diversas cidades. Esse último tipo de atendimento, apesar de ser um agnóstico e sem grandes convicções, evocava em sua mente a figura do deus Pã (terror), aquele que suscita um medo por vezes infundado, mas sua mente associava o DDD pedido às suas doenças, que começavam com essa maldita letra “D”.

Olhara a hora e levantou-se, dirigindo-se ao local onde os famélicos saciavam sua fome, a urgência alimentar, a única coisa palpável na qual o Estado fazia-se presente para os deserdados da sorte.

Havia fila no restaurante popular, que continuava a cobrar 1 real, quantia irrisória para muitos. Entretanto, era comum a contagem de moedas para chegar-se ao valor cobrado. Gestos de solidariedade eram corriqueiros entre os necessitados, um miserável ajudava o outro a completar o valor cobrado.

Alimentado, retornava à praça.

Continuava seu monólogo até o fim da tarde, quando entrava na fila de um hotel, precário e decadente, que cobrava um preço módico para a dormida.

As regras eram rígidas. Às 22:00 horas a luz era cortada e às 06:00 horas todos eram compulsoriamente acordados, tendo o prazo de apenas uma hora para a higiene pessoal, que era feita num banheiro coletivo.

As dimensões daquilo que se podia denominar de quarto eram exíguas, em oposição à imensidão de problemas daquele ser vivente. Estirou-se no catre, na expectativa do sono reparador. Não conseguiu conciliar o sono. O pensamento recorrente o torturava.

No horário imposto, fez sua higiene pessoal. Devidamente vestido para nova jornada de trabalho, desceu as escadas de madeira que rangiam, em protesto por não suportarem o passar dos tempos, sustentando o peso de corpos errantes.

Ao adentrar na portaria da empresa foi saudado pelo vigilante: - “Bom dia, seu David”.

Na mesma hora, um curto-circuito nos neurotransmissores provocou um ataque, um surto mental. Começou a berrar alucinadamente, lançar impropérios, emitir palavras desconexas e quebrar tudo que estava estático em sua frente.

Continuava a berrar, mas o som emitido parecia ter menos intensidade, sendo suplantado pelo som da sirene da ambulância que o conduzia. Deitado numa maca, imobilizado por uma camisa de força, tinha por companhia o seu gravador e dois indivíduos vestidos de branco, uns brutamontes.

Fora levado a um hospital, exclusivo para diagnóstico e tratamento de problemas psiquiátricos.

Os médicos, após ouvirem o relato de suas ações e reações, sedaram-no.

O movimento estava atípico naquela unidade de saúde e um dos médicos, olhando o pertence (gravador) do paciente, resolveu escutar o que estava gravado. Poderiam ser músicas, que quebrariam a monotonia do plantão. Para sua surpresa, na fita existia o diário do paciente.

Infelizmente, as informações registradas alcançavam, apenas e tão somente, dois dias. O dia presente, onde estavam gravados a data e o horário do começo do seu dia, e uma breve menção ao café tomado no bar. Entretanto, eram os registros do dia anterior que forneciam ao Doutor Dário uma fonte preciosa para consubstanciar o seu diagnóstico.

Providenciou a degravação da fita, gerando o texto acima, tomando a liberdade de grifar todas as palavras que iniciavam com a letra “d”, que o ajudariam na confecção de seu laudo.

Resultado: - Foi encaminhado a um dos poucos manicômios remanescentes, em razão da nova política de saúde pública prescrever, como local mais adequado para tratamento de pessoas portadoras de problemas mentais, seus próprios lares, junto a seus familiares.

David era um paciente dócil, não criava problemas para tomar as doses cavalares de fármacos e até ajudava, algumas vezes, os companheiros de insânia.

Nos horários dedicados ao lazer, era sempre visto no banco mais distante, ocupado com seus clientes imaginários, fornecendo os DDDs solicitados. Com o passar do tempo, sua expressão facial modificava-se, provavelmente fazendo a eterna associação com as iniciais de suas doenças (diabetes, daltonismo, distimia).

Ignorava, por sua fragilidade mental, mais uma doença incorporada ao seu ser: depressão (sempre com aquela letra “d”, aziaga).

A deterioração mental progredia, assim como o temor da morte, pois não sabia se encontraria Deus ou o diabo.

A síndrome da letra “D” levou-o à demência total.

Numa madrugada, após uma convulsão severa, sofreu dois infartos e desencarnou.

O atestado de óbito devidamente preenchido, era a última ironia perpetrada contra o David, pois a primeira fora sua certidão de nascimento, cujo prenome registrara o agourento “D”, no início e ao final do mesmo. Era a última pois, como dia e hora de seu falecimento, constavam: - dia dois de dezembro, às duas horas da madrugada.


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Protesto para um senador

Enviado em 12/02/2009 - lógico que foi ignorado.

Sr. Senador Mário Couto,

O governo acaba de precificar a vida dos aposentados em 5,92%. Não estabelecerei mais nenhum juízo de valor, pois, o percentual denota de forma cabal e definitiva o limite do ultraje.

Na minha idade provecta, falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada, que concorre, apenas e tão somente, com a sólida perfídia dos homens públicos desse país.

Não tenho direito à voz, e caso me outorgassem, emprestaria de Breno, general gaulês, a expressão: “vae victis” (‘Ai dos vencidos’).

Lamento Exa., principalmente, por essa legião de desassistidos, pois a atitude da quase totalidade dos parlamentares assemelha-se à dos ladravazes, dos mais sanguinários criminosos. Enfim, comparando-os, somos impelidos, amarguradamente, a concluir:
- são todos do mesmo ofício. Utilizam-se da representação popular como valhacouto às suas condutas marginais.

Quando um jornalista inglês perguntou se era difícil governar os italianos, Mussolini respondeu:
- "Não é difícil. É inútil”. Por extensão, esse é o sentimento que perpassa pelos pensamentos dos brasileiros que, por sorte ou destino, não tiveram seus neurônios destruídos pela fome e hoje, afásicos, não tem o direito de discernirem de forma definitiva:
- o parlamento brasileiro, além de inútil, é venal e fratricida.

Idêntico aos mercadores da fé que vendem deus, através das concessões públicas (rádios e televisões) – que país! - e dos templos, espoliando os famintos de esperança – pasme! – as seculares sacolas de coleta de metais perdem espaço para as famigeradas maquininhas de crédito - os parlamentares avocam o vocábulo democracia sempre com energia excessiva, tanto na gesticulação como na fala, com o eixo comum ao dos mercantes acima, para iludirem, subtraírem os míseros direitos (saúde, educação, etc.) dos deserdados da sorte.

Outrora os fariseus, ao ouvirem uma blasfêmia ou uma profanação da Lei, rasgavam suas vestes em sinal de protesto. Hoje, quem está desnudado é o povo, pela ação dos parlamentares, dignos representantes de seus vis interesses.

Perdi a fé em Deus e nos homens.

Certamente, não preciso escusar-me pelo que redijo, agravado por escrever mal, pois V.Exa. desconhecerá esse arrazoado ou, no máximo, sua assessoria fará uma leitura dinâmica e poderá, de forma protocolar, acusar o recebimento. Respeitosamente, peço que não o façam.

Prefiro manter-me rotulado com a alcunha que o velho bardo grego, Homero, na sua Rapsódia de Ulisses tornou definitiva, e que V.Exa. não desconhece:
- ao embebedar o Ciclope, para fugir da morte, Ulisses teve o cuidado de dizer ao monstro que seu nome era NINGUÉM.

Respeitosamente,

Paulo Roberto Faria de Castro ou, com o “patronímico” imposto (sem ironia) pelo governo, pelo CPF – número tal (logicamente, ao enviar para o aludido senador, declinei o número completo do mesmo).

Crédito: Alan Marques (foto)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Desqualificando o Diabo (que país!)


O Coisa Ruim, o Diabo, vagava pelo espaço terrestre para distrair o espírito, quando deparou-se com a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Um calafrio instantâneo percorreu seu corpo, pois o número 3 (três) não era, definitivamente, seu dígito de sorte.

Afinal, como é de conhecimento de todos, foi a Santíssima Trindade (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) que o defenestrou do paraíso, juntamente com seus asseclas (assessores), quando aventuraram-se num golpe para conquistar o poder eterno.

Sua primeira reação foi sumir daquele local imediatamente. Contudo, lembrando-se de sua última sessão de análise, controlou-se.

Apesar de ser um anjo decaído possuía, ainda, os poderes da onipresença e da invisibilidade.

Percorreu o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, a Esplanada dos Ministérios e testemunhou infindáveis transgressões que, variavam, apenas, em gênero, número e grau: - trapaças inomináveis, acordos cavilosos, traições múltiplas ao povo, etc. Em tempo real, graças à faculdade da ubiqüidade, assistia uma legião de deserdados da sorte, massacrados pela fome, pela ignorância, pela ausência de políticas sociais, abandonados na velhice e na tenra idade. O diabo ficou perplexo.

O Coisa Ruim passou da letargia à depressão, em milionésimos de segundo. Afinal ele, com seus atos e feitos praticados desde tempos imemoriais, não passava de um neófito na arte do mal.

Numa explosão diabólica, reuniu forças e, com passos trôpegos, presenciou uma sessão do Pleno do Supremo Tribunal Federal (STF). Em suas retinas seculares ficou registrada, de forma indelével, a maior concentração de vaidades de todos os tempos.

Entretanto, a gota d’água ou, melhor dizendo, a gota de enxofre que faltava, caiu quando ouviu o voto do Ministro Relator, sustentando o princípio da insignificância sobre a questão levada a pregão e acompanhada, aliás, por unanimidade, pelo colendo Tribunal.

O Diabo, cuja aversão à perda era de origem traumática (expulsão peremptória do paraíso), achara que o aludido princípio, por analogia, poderia fundamentar uma ação, a ser ajuizada no Tribunal do Céu, para reabilitá-lo, subscrita por uma legião de advogados que dissentiam de suas ações, a seu ver, diabólicas, mas aos olhos dos causídicos, não. Satanás atribuía essa oposição à recente divulgação de um censo, por categoria profissional no inferno, onde massivamente os operadores da lei suplantavam o somatório das demais.

Em profunda depressão, cabisbaixo, com o rabo entre as pernas, literalmente, o Diabo tomou o caminho do seu Reino de Trevas.

O Pai da Mentira, cujo registro consta no Cartório dos Tempos, viu sua paternidade colocada à prova, diante da naturalidade e intimidade com que os mandatários dos poderes constituídos do Brasil a manipulavam, com desvelo paternal.

Em seu retorno ao lar compreendeu, de forma definitiva, a alegria permanente dos brasileiros, contrapondo-se às demais nacionalidades do mundo, no seu reino de choro e ranger de dentes. Afinal, o seu domínio era um eterno paraíso, comparado com os dias infernais vividos por eles no Brasil.