sábado, 24 de agosto de 2013

Iniquidade

A luz mortiça enfraquecia ainda mais ao ser refletida no espelho, pelo sofá que impedia na sua plenitude a passagem daquele raio solar agonizante.

Aquela cabana de madeira ficava num promontório, onde os ventos com suas forças de intensidades variadas e de sons que pareciam músicas descompassadas eram inclementes, assim como as ondas do mar que fustigavam a parte inferior daquela montanha, de forma contínua e incessante.

Na cozinha aquele senhor arrastava os chinelos com seu andar claudicante, acrescido pela irregularidade do chão, à procura de um copo d’água para saciar sua sede.

Estava em estado febril, com uma coceira espalhada pelo corpo inteiro, decorrente provavelmente de seu estado emocional, pois estava desempregado há duas semanas daquele emprego que sugara anos de sua vida, na única farmácia da aldeia.

Foi para sala, abriu as cortinas das janelas e momentaneamente olhou para o céu com o descaso, pois a falta de esperança massacrava seu ser e o impedia de registrar aquele espetáculo de estrelas brilhantes e da luz da lua que inundava o hemisfério sul.

Abriu o livro que estava abandonado há meses sobre a mesinha e tentou avançar na leitura postergada, mas o seu estado psicológico não suportou passar de cinco páginas, afinal o personagem central lutava entre a vida e a morte, em decorrência de uma doença insidiosa.

Acompanhado da solidão, que é péssima companheira, entrou num processo de cartase, de libertação de suas emoções e sentimentos.

As horas avançaram e acabou dormindo.

No dia seguinte começou a sua peregrinação pela busca de um emprego improvável.

Depois de meses de buscas acabou na sarjeta, transformando-se num mendigo compulsório, oficial, graças à política criminosa implantada no país sobre o direito à aposentadoria.

Nas regras vigentes à época de sua entrada no mercado de trabalho hoje estaria usufruindo da aposentadoria, mas na legislação atual faltam cinco infindáveis anos.

Resultado: perdeu os anos de recolhimento à Previdência Social, perdeu a dignidade humana.

Enquanto isso continuam as apropriações indébitas, os roubos descarados, as locupletações, as impunidades desses lavradazes da coisa pública.

Isso não é um país. É um espaço geográfico que foi apropriado por uma cúpula de crápulas, de cínicos e de calhordas.





sábado, 10 de agosto de 2013

Médico

O vocábulo exato para definir aquela criatura era impulsividade.

Da infância, passando pela adolescência e chegando a idade adulta sempre pagou um tributo muito alto por agir irrefletidamente, precipitadamente.

Conheceu a esposa numa noitada e ao olhá-la o instinto primitivo fez-se presente, e por impulso acabaram num motel.

Tomou as medidas preventivas para evitar uma possível doença sexualmente transmissível ou, remotamente, uma gravidez indesejada, afinal como médico, essas preocupações eram naturais, principalmente nos seus relacionamentos superficiais.

Um mês depois recebe uma ligação daquela mulher comunicando que estava grávida.

Ensandeceu. Sempre fugiu das matérias exatas e agora a maldita Estatística fazia dele uma vítima.

As fábricas de camisinhas propalam à exaustão que o controle de qualidade das mesmas é extremamente rígido e o percentual de defeitos é desprezível, não ultrapassando 0,001% da produção, portanto, seguras.

O maldito percentual (0,001%) transformou-se em 100% de sua infelicidade.

Criado na cultura judaico-cristã casou e oito meses depois nasceram gêmeos.

Trabalhava num hospital público da Baixada Fluminense, onde sobravam doentes e faltava até o básico para atender as necessidades dos pacientes.

Uma indignidade, uma atitude criminosa, mas, desgraçadamente, nenhuma novidade em se tratando de Brasil.

Numa manhã, quando estava de plantão recebeu uma ligação desesperada da esposa, que histérica implorava seu socorro, pois havia atropelado e talvez matado a vítima.

Com dificuldades conseguiu o endereço do fatídico acidente.

Num estado deplorável de nervosismo, sem refletir, chamou o motorista da ambulância, um enfermeiro e partiram com as sirenes ligadas, excedendo e violando o código de conduta daquele funcionário público, o motorista, e infringindo todas as leis de trânsito adstritas à condução daquela unidade de socorro.

Chegaram ao local do sinistro e foram ao encontro da vítima. Quando seus olhares depararam-se com o corpo estendido na via pública, encharcado numa poça enorme de sangue, perplexos indagaram: “E aí doutor, o que vamos fazer?”

Naquele momento o doutor estava possuído pela raiva dos justos e pela ira dos ímpios, afinal a vítima era um cachorro.

Que vergonha – pensou. Não esboçou uma mísera palavra. Dirigiu um olhar frio para esposa e gesticulou para os colegas, gesto esse que significava: vão embora. Atravessou a pista e procurou um boteco de décima-quinta categoria e encheu o pote durante horas.

O pensamente recorrente era de que a praga daquela mulher tinha excedido os limites do bom senso. A desesperança acompanhada de cólera invadiu o seu ser, isso desconsiderando a situação vexatória perante os colegas e a improbidade administrativa cometida.

No dia seguinte, como esperado, foi objeto de chacotas, de gozações infindas.

Dois dias depois começou a responder uma sindicância no hospital que acabou prosperando para mais duas. Absolvido nas três, recebeu uma promoção: remanejamento. Foi trabalhar em outro hospital que ficava na periferia da periferia da Baixada.

O hospital não tinha nem portão de entrada. Seu consultório era literalmente no corredor. Isso mesmo. No final do corredor colocaram um biombo, como porta, uma mesinha, duas cadeiras e um ventilador que merecia uma aposentadoria por idade ou por tempo de serviço.

A precarização daquele estabelecimento público era o revés de um hospital. Faltavam recursos médicos, cirúrgicos e medicamentos básicos, apenas para exemplificar, eram os enfermeiros que faziam às vezes dos dentistas, na extração de dentes.

Os delitos cometidos naquele lugar sejam por ação ou omissão estavam inscritos em diversos artigos, incisos e parágrafos do Código Penal.

É ..., os deserdados da sorte padeciam naquele local. Afinal, o sucateamento daquele hospital implicava na destituição aviltante da dignidade humana.

O médico definia com exatidão aquele lugar: “isso aqui é a chamada maldição eterna”.

O tempo que a tudo destrói começou a intervir naquele médico com mais intensidade no instante que ele parou para questionar a vida.

Casou com uma mulher que não amava; não desejava ter filhos, teve logo dois; tornou-se médico por vocação e sempre foi privado de exercê-la com dignidade no serviço público; a idade avançada e suas mazelas, e por aí ia a sua reflexão.
Resultado: entrou numa depressão profunda que se tornou sua companheira indesejada (mais uma).

Nos poucos momentos de lucidez avalia a sua vida e desgraçadamente conclui: foi uma equação com centenas de incógnitas, portanto, sem solução. A conseqüência é o retorno ao estado depressivo.

Que vida! – penso eu.