Dois irmãos, mas que
aritmeticamente falando dá um (produto da soma), afinal, são meios-irmãos, por
parte de pai.
Conviveram pouco –
menos de um ano e meio.
O mais velho foi para
um seminário aos 10 anos, não em busca de salvação, mas de sobrevivência. O
outro, com 3 anos, ficou sob a proteção e abrigo da mãe contra as maldades
eternas do pai.
Reencontraram-se 7
anos depois, após a expulsão do primeiro do seminário.
A convivência não
chegou a um mês, pois o pai seguindo os passos tortuosos e equivocados dos
padres, o expulsou também.
Perderam o contato.
Por obra do acaso, após 30 anos reencontraram-se. Condensaram, como se fosse
possível, as suas vidas em exíguas 6 horas e na despedida trocaram os
respectivos números de telefone.
Meses se passaram
quando o irmão mais velho recebeu uma ligação internacional (dos Estados
Unidos) do outro, que agora não vivia, agonizava com os parcos recursos
advindos de trabalhos subalternos. Feliz, afirmara que dera um passo para Jesus
– convertera-se – era crente. Não um crente qualquer, não. Mas num chato, pois
de imediato tentou convertê-lo naquela ligação. Logo ele, um ateu.
As ligações
tornaram-se mensais. O irmão-ateu ouviu do irmão-crente a sua principal
desdita, era um alcoólatra inveterado.
Na noite de 31 de
dezembro, o irmão-ateu ligou para o irmão-crente para desejar os tradicionais
votos de felicidade, prosperidade, etc.
Antes da ligação ser
completada comentou com sua esposa que falaria no máximo por cinco minutos,
afinal os custos eram exorbitantes e sua situação financeira estava combalida.
O irmão-crente
atendeu com uma voz pastosa, entremeada de choros compulsivos e de palavras
desconexas provocadas pelo excesso de álcool. Conseguiu entender que a esposa
pedira divorcio e que estava completamente abandonado.
O irmão-ateu pensou:
”Esse infeliz está encharcando a alma com vinhos baratos, afinal vinho é
sagrado, e não deve ofender os preceitos de sua crença”.
Seu pensamento foi
interrompido pela informação do irmão-crente: ”Meu irmão, estou sentido a
presença de entidades espirituais que desejam chegar.
O irmão-crente,
abdicando da ironia, respondeu: “Deixa, deixa chegar”. E como chegaram. Não desceram no varejo, mas
no atacado.
Quando uma cantava
para subir, a outra assumia o posto imediatamente.
A esposa do ateu não
parava de rir, pois o marido sempre respondia as saudações das “entidades” com
um: ”Deus seja louvado”.
Resultado: ficou mais
de uma hora falando com esses seres de outro mundo.
No primeiro descuido
de uma entidade que subia com certa malemolência, imaginou: “deve ser baiana”,
e desligou o telefone imediatamente.
Estava indignado. Não
pela ruptura da fé do irmão-até-então-crente, nem pela impostura que foi
submetido pelas entidades supostamente incorpóreas. A sua ira estava
concentrada no Governo.
Afinal, pagaria uma
fortuna pela abusiva carga tributária desse país naquela ligação telefônica.
Acreditava que tudo
tinha limites, mas o Governo desse país desgraçado mostrou o contrário. Chegou
ao limite da extorsão e não obstante prosseguiu. Onde já se viu tributar falas,
conversas de entidades espirituais? Isso era um descalabro inominado, uma
excrescência. Afinal, não eram seres humanos.
O ateu, com suas
vistas cansadas provenientes do avanço inexorável do tempo e de assistirem,
desgraçadamente, uma infinidade de indignidades dos
homens públicos perpetradas contra essa massa de deserdados da sorte, a quase
totalidade do povo brasileiro, praguejou:
“Esses ladravazes
devem lembrar que Deus, Deus vê tudo, e o pior, castiga.
