Trabalhava numa multinacional, como advogado e, diga-se de passagem, era um excelente profissional na área tributária.Era um retrato típico do bom baiano, fala mansa, com o sotaque indefectível que não traía suas origens, com o característico traço manemolente do andar, calmo, sereno.
Figura impagável, os horários eram sempre para serem descumpridos. Requintado no vestir, exalando um perfume característico, agora o hálito denunciava um misto de uísque com pastilha de hortelã.
O hábito de beber fazia concorrência com as mulheres. Era, enfim, um alcoólatra requintado: - bebida, só importada!
Era raro o dia que, ao final do expediente, aquela dúvida atroz não surgia: - onde deixara o carro?
A perda parcial da memória tinha origem entre a tampa e o fundo da garrafa.
Às vezes, levava até dois dias para encontrá-lo, em um dos diversos estacionamentos que utilizava. Sem apoquentação de sua parte, pegava um táxi e seguia seu rumo.
A procura, que ficasse para o dia seguinte! Assim era o Pimentel.
Naquele ambiente, aparentemente austero, uma trama desenrolava-se, já há alguns meses, nas mentes pervertidas de seus colegas: - a troca de paletós.
Explico:
- Havia outro advogado, de menor estatura e mais franzino que Pimentel, adjunto do Chefe do Serviço Jurídico, que possuía um terno idêntico ao do baiano, de uma estampa incomum.
O dia ansiosamente aguardado chegara, e estavam prontos para a prática da travessura.
O adjunto saíra para uma reunião interna, deixando o paletó no encosto da cadeira. Um dos elementos do grupo chamara o Pimentel para tomar um cafezinho e, em frações de segundo, a troca se efetivara.
Na hora do almoço Pimentel, o baiano, vestira atabalhoadamente o paletó, sentindo certo desconforto. Porém, tivera uma série de questões a resolver, e o incômodo fora o que menos contara.
Dirigira-se à agência bancária, na Rua Senador Dantas, e entrara no banco onde era correntista, instituição financeira esta que não mais existe. Sacara o talão de cheques e preenchera a quantia desejada, assinando, logicamente. O caixa, que era seu antigo conhecido, pois era cliente de tempos remotos da agência, não titubeara, pagando a quantia estipulada.
No corre-corre, para cumprir outras obrigações, sentira a manga mais curta. Entretanto, atribuíra tal fato à pressa, que era incompatível com seus hábitos, mas exceções ocorrem.
O adjunto, retornando da reunião, ao vestir o paletó, de pronto sentira alguma coisa errada: - o mesmo estava mais folgado e comprido.
Colocara a mão na parte interna do mesmo, à procura de sua carteira e do talão de cheques e, para seu espanto e indignidade, os documentos eram do Pimentel, assim como o talão.
O ácido clorídrico esguichara em suas entranhas, tanto pela fome, como pelo estado de ira.
Por volta das 15:00 h chegara o Pimentel, com sua pachorra característica, tendo-se surpreendido com o descontrole do adjunto, indivíduo facilmente irritável, mencionando sobre a troca absurda dos paletós.
Pimentel, sem provocar alterações em seus neurônios, células fundamentais do tecido nervoso, com propriedades de excitabilidade e condutibilidade, mantivera-se impassível diante do fato, pois o álcool em excesso embotara, sensivelmente, sua capacidade de reação.
A indignação do adjunto tornara-se de uma imensidão polar ao escutar, do Pimentel, que ele sentira um imenso desconforto com o paletó, mas não houvera dado conta de uma troca, impensável, do mesmo. O adjunto chegara próximo a um insulto cerebral quando fora comunicado que ele, Pimentel, sacara dinheiro no banco, evidentemente a mesma instituição onde ambos tinham contas.
Afrontado, dirigir-se-ia ao caixa do banco e, rudemente, o questionaria:
- Como acatara um cheque seu, com assinatura de outro? Sua desídia levara seu saldo para o vermelho! Iria ao gerente, solicitar sua demissão imediata!
Pimentel, com muita argumentação demovera-o daquela idéia, pois iriam ao banco e acertariam o equívoco rapidamente. Afinal, o bancário era uma pessoa extremamente afável no relacionamento com ambos.
A vida seguira seu curso natural - Pimentel esquecendo onde estacionara o carro, as doses cavalares de uísque, etc.
De outra feita, na véspera do carnaval, a secretária passara uma ligação e, ao atender, uma voz feminina pronunciara um alô, suficiente para entabularem uma conversa. Pimentel, excitado com aquela voz sensual, em determinado momento fizera o convite, afoito como era em se tratando do sexo feminino, de se encontrarem no dia seguinte, para se conhecerem e brincarem o carnaval. A mulher apresentara alguma relutância, mas acabara concordando, cada um declinando suas características físicas e as fantasias que estariam usando. Encontro marcado para tantas horas, em frente ao bar Amarelinho!
Em êxtase, contara aos colegas sobre o ocorrido.
No dia seguinte, Pimentel inventara uma argumentação qualquer para sair de casa, com a indumentária previamente descrita para aquela mulher, que povoou seus sonhos na noite anterior.
A mulher, furtivamente, olhara a hora e não criara nenhum empecilho.
Pimentel a flutuar, num arroubo quase juvenil, na expectativa daquele encontro!
Corroborando tal estado de espírito, o efeito do álcool complementava aquela felicidade ímpar.
Chegara com antecedência, ampliando sua visão periférica. Não via a hora de aquela mulher chegar!
Olhava o relógio em intervalos sempre menores, contrastando com o aumento de sua pressão sanguínea, pela excitação crescente.
O estado de tensão aumentara quando, no horário aprazado, sua diva loira não chegara.
Após longos e intermináveis 20 minutos, seu coração quase parara! Caminhava em sua direção aquela mulher insinuante, vestindo uma melindrosa preta curtíssima, conforme o combinado para o reconhecimento prévio.
Apressara o passo e, a menos de um metro, um choque percorrera seu corpo, quedando-o estático! Estava diante de sua esposa, com uma peruca loira.
Pimentel tivera o desplante de não reconhecer a voz da própria mulher, no dia anterior, e esta dera corda suficiente para ele se enforcar.
Aquele sábado de carnaval transformara-se, para ele, numa terrível quarta-feira de cinzas!


